Existe algo muito obscuro e pessoal numa biblioteca. O primeiro aspecto que se nota é a construção do espaço. Tenho sempre a impressão de que as paredes de uma biblioteca são mais grossas que as de outros edifícios e que a pintura, mesmo nova, deve estar na sua quinta reforma. O chão limpo, mas de ladrilhos tão velhos que pouco faz diferença. Um lugar antigo, público. Prateleiras de madeira ou inox fazendo corredores de largura moderada; a ala infantil com livros de cores mais vivas; um espaço com pelo menos três mesas com quatro cadeiras gastas para leitura e estudos; numa das paredes, uma prateleira especial para revistas, jornais e livros de best-seller; um balcão muito firme num ângulo reto onde ficam os bibliotecários com seu precário computador e, sempre atrás deles, um anexo repleto de prateleiras para livros raros ou didáticos que não podem ser emprestados.

Fora a impressão gráfica que temos do local, ainda há as características básicas duma biblioteca: o silêncio, os sussurros, os olhares por detrás das lentes dos óculos, os velhos e seus jornais, o tempo que não passa, mas se arrasta... Porém, tudo isso é apenas o prefácio do que está por vir; quando se entra em uma biblioteca são essas impressões que te transportam da vida rotineira e agitada para uma era congelada no tempo passado. Onde moram as palavras encadernadas.

A verdadeira história começa ao embestarmos pela floresta de prateleiras de onde pendem os livros (frutos maduros prontos para ser devorados?). É aqui que sempre começo a ter arrepios. Todo livro tem sua época e sua história; existem livros de gosto amargos e outros muito doces outros de sabores complicados que você não consegue concluir se são bons ou ruins, mas ficam marcados no paladar literário... Enquanto você anda pelos vários títulos acima e abaixo da sua cabeça é como se lutasse para ignorar as vozes (se você nunca lutou para ignorar um livro velho, você provavelmente não é um bom leitor, converse com seu terapeuta), cada alma de cada livro chamando pelo seu nome, pedindo para ser lido como um vendedor de rua desesperado.

Você não pode levar todos os livros, pois as normas numa biblioteca geralmente te limitam a dois por vez, e também por que não há motivos para querer levar todos eles; além da vida dos personagens você também tem a sua própria para ler e escrever.

Então, eis o que acontece: eu estava sozinha naquela rachadura no tempo onde foi construída uma biblioteca (sinônimo para "exposição de almas") e há o silencio dos outros seres humanos concentrados em suas leituras e em suas olhadas esporádicas por detrás dos óculos de grau para ver se não há ninguém tentando roubar nenhum velho exemplar. Há ainda vários livros tentando chamar minha atenção e eu tentando encontrar alguma leitura familiar ou que me seja interessante quando, aos poucos, percebo um livro silencioso.

Ele não é mudo, nós (eu e minha platéia interior) sabemos que não. Mas está quieto e pulsante e respira. Eu me aproximo como um ser curioso que sou...

Posso ouvir o seu nome infernal. Em meus ouvidos. Em minha mente. Antes mesmo que meus olhos possam registrar as letras e ler a capa do livro. Eu ouço o sussurro na voz grave e sensual de uma rara personalidade feminina (uma em um milhão). Uma mulher traiçoeira, furiosa, apaixonada... Mas a sua paixão não faz o que faz a outras mulheres; seus olhos não se suavizam, sua expressão não abandona o ar cínico nem por um minuto. É uma paixão carnal, faminta, pútrida. E ela me chama. Não pelo meu nome, por que o meu nome não é importante, mas pelo dela, como quem se apresenta. E até mesmo seu nome me seduz, me arrepia. Christine.

A edição do livro é de 1986, a capa alaranjada com a foto de um carro de modelo antigo na cor vermelha, o papel da capa rasgando nas beiradas, cheio de rachaduras como as veias arrebentadas no nariz de um italiano velho, as bordas no calhamaço num amarelo escuro e as páginas de beirada quebradiça. O toque no papel é poeirento e o cheiro... De livro velho. Desde o momento que o retirei da prateleira ele respirava calmamente como um predador a espera de sua presa. Essa era Christine, o carro assassino, de Roland D. Le Bay.

Eu sei que a leitura de um livro não deveria ser tão dramática, mas foi. Por que desde o momento em que eu comecei a ler foi como ter entrado em um carro em alta velocidade dando uma voltinha pelo país da neblina do horror, o tipo de neblina gelada que te toca até os ossos e te faz prender a respiração para evitar sentir o cheiro podre de decomposição que está lá, no ar bem debaixo do seu nariz. E mesmo que o carro corra, ele não parece chegar ao seu destino nunca até o momento em que você começa a chorar querendo descer. E você desce vomitando até as tripas. De dentro do carro, as luzes verdes do painel que parecem olhos estão piscando como que rindo de você, pobre leitor, que se atreveu a entrar no pesadelo de Arnie Cunningham e Dennis Guilder achando que ia agüentar...

Eu tive que levá-lo de volta para a exposição de almas e, enquanto o bibliotecário preenchia a matricula do novo empréstimo que eu fazia, observei a capa desgastada de Christine sob o balcão (graças a deus) a uma distancia segura de mim e fiquei pensando enquanto sentia o sangue fugir do rosto.

Ao próximo que ler esse livro, tem um pedaço de mim apodrecendo aí.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!