Para Além da Beleza
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Em nenhum momento Damien vacilou, embora tenha parado de dançar, o seu corpo ainda permanecia colado ao de Darcelle.
— São duas pessoas a dançar, como bem pode ver parece que todo o salão está a fazer o mesmo — respondeu de cenho unido, com uma naturalidade que espantou os demais.
Joanne veio a voar como uma flecha, cruzando o salão até a pista e segurando a irmã mais nova pelo braço, obrigando-a a retirar-se de cena.
— Desculpe senhor Beauchamp. Emma às vezes pensa muito pouco. — Com delicadeza puxou a noiva, tirando-a de cena e a empurrou para fora do salão de festas. Lá fora a noite trazia o frio, mas nem a temperatura serviu para arrefecer os ânimos das Charlton.
— Você viu o que aquele monstro fez? Dançar com a assistente, antes mesmo de me convidar? E na frente de todo mundo! — Colocou a mão na barriga como se toda a irritação estivesse alojada ali. Respirou fundo várias vezes.
— Emma, o que foi que você não viu? Aquela empregada saiu com Damien, e quando voltaram ele estava sem máscara. Não sei que influências essa empregada tem, mas uma dança é o menor de nossos problemas — sussurrou Joanne com os olhos castanhos bem abertos. — Não passa de uma empregada, mas o melhor é mudar de foco. Aproxima-te de Damien, conquiste sua amizade e não apenas um futuro marido por contrato. És mais esperta do que parece. Se Darcelle tem acesso ao monstro, você também tem que ter.
— Hum. Hum — Jamie apareceu do lado de fora, os olhos estreitos atentos nas Charlton. — Acho melhor entrarem, o Christian anunciou o brinde.
— Claro! — Emma se virou num passo rápido, a cobrir o corpo com os próprios braços pálidos, para se proteger do frio.
— Eu a conheço? — A médica analisou a noiva com atenção e pestanejou. — Seu rosto não me é estranho!
— Mas o seu é estranho para nós. Agora com licença! — Joanne interveio como sempre, apoiando a mão no ombro da irmã, a conduzindo para dentro do salão de festas. Johnson fez uma careta e só mordeu a língua por se tratar de pessoas a quem prima não quereria faltar com o respeito. Mas ela queria e muito!
O noivado correu como esperado, a tensão criada pela súbita dança aos poucos foi dissipando, e o brinde aos noivos feito por Christian, serviu para levantar os ânimos e todos aproveitaram ao máximo a festa. Menos o anel. Damien manteve a caixa dentro do casaco, deixando Emma com o antigo no dedo.
Darcelle bebeu coquetéis suficientes para decidir dormir na mansão, no quarto destinado a si quando ali trabalhava. Jamie tinha sumido e ao que parecia, o jovem Dash parecia usufruir da mesma magia do desaparecer.
Ao longe dava para ouvir o barulho dos arrumadores que limpavam e organizavam o que restava da festa na mansão. A Johnson decidiu tomar um banho para aliviar os músculos e tirar o cansaço do dia espalhado pelo corpo, e logo em seguida entrou na confortável cama, adormecendo para sonhos perdidos.
Despertou com um barulho vindo do corredor, e saiu da cama assustada. Lá fora uma chuva fina caía, e assim que abriu a porta para o corredor sentiu o ar frio que invadiu o seu quarto.
— Damien? — Agachou-se com prontidão para ajudar a apanhar os cacos da garrafa e do copo partidos no chão. — O que estás a fazer? E a senhora Charlton?
Beauchamp riu baixo e deu de ombros, mostrando sua falta de interesse na última questão. Apenas levantou os olhos azuis brilhantes e tentou levantar o corpo, se desequilibrando no processo.
— Você está bêbado — constatou Darcelle, abandonando os cacos de vidro e se dispôs a segurar o corpo maior e mais alto. Encaminhou-o para o quarto, agradecendo pelo calor da lareira aconchegar os corpos, e o deitou na cama. — Eu vou buscar uma aspirina e chamar a senhora Charlton.
— Não vá. — A mão agarrou o braço com leveza, e o dedo polegar acariciou a textura da pele negra. — Por favor, fique aqui.
— Não é a melhor das condições para me pedir isso — replicou com retidão, embora o arrepio que sentiu no corpo pelo toque inesperado, a denunciasse.
— A tua imagem não sai de minha cabeça. Estavas nos meus braços e o teu sorriso era tão sincero... — ignorou o que Darcelle disse, e com os olhos fixos no teto, deixou as palavras escorrerem de seus lábios. — Você merece alguém muito melhor, mas muito. Nem imaginas o quanto és maravilhosa, não...
— Por favor para! — A assessora tentou se afastar, mas não conseguiu se soltar da mão masculina. Não queria falar daquele assunto, temia o dia em que pareceria frágil e sensível por sentimentos os quais não sabia classificar. Desejava permanecer num canto recôndito, sem ser notada. — Hoje foi o seu noivado, a senhora Charlton...
— Emma não está aqui, Darci. — Beauchamp levantou o torso, e ficou sentado junto dela. Subiu a mão para acariciar o rosto de traços femininos e bonito se bem apreciado. O hálito a uísque era intenso mas ainda assim, agradável. — Quando acordo e durmo, és a primeira a permear meus pensamentos. Anseio cada segundo por voltar a vê-la.
Darcelle permaneceu de lábios cerrados, se perguntando se ainda estaria a sonhar. Seria provável acordar pela manhã e descobrir que Beauchamp nunca esteve ali. Mas estava.
— Se não partilhares de meus sentimentos, eu compreenderei. Não sou alguém fácil de gostar mas eu precisava dizer tudo o que sinto. É novo, é ousado!
— Isso é errado...
Damien encostou a testa junto da dela, os narizes quase se roçavam e a respiração quente e agitada era sentida por ambos os lados. Lá fora a chuva caía trazendo o inconfundível cheiro de terra molhada, e o crepitar da lareira foi testemunha dos segundos que pareceram eternos antes dos lábios finalmente se juntarem. Foi um beijo rápido, inesperado e cheio de ansiedade. Johnson foi a primeira a se afastar e levantou da cama, assustada e confusa.
— Não posso permitir. Não posso. — A voz estava trémula e o coração palpitante. — O noivado, a senhora Charlton e todo o resto. Não sou traidora, não farei isso!
— Tudo foi um erro! Esse noivado, esse contrato. — Também se levantou atrás dela, mas cambaleou mais uma vez, sendo amparado pela segunda vez.
— Não estás bem, o álcool te deixa assim. Amanhã tudo será diferente. — Obrigou-o a deitar na cama, mas Damien a segurou com força, forçando para que se deitasse do seu lado.
— Fique aqui... pelo menos até eu dormir — pediu e abriu o braço para contornar o pescoço e o ombro de Darcelle, a puxando para o próprio peito. O coração batia, estava agitado.
Ninguém disse mais nada, apenas se ouvia as respirações aceleradas que breve se tornaram serenas. Era suposto ela partir, mas o calor do abraço a conduziu para outras dimensões.
Os dois sentiram a estranha sensação de estarem a ser analisados, um desconforto sem medida que os obrigou a despertar. Primeiro o susto ao descobrir que adormeceram juntos e depois pela figura da senhora parada na porta.
Era alta e elegante, com o cabelo loiro platinado num corte moderno e um vestido caro até aos joelhos. Apesar das rugas na cara, era fácil perceber pelos olhos azuis fulminantes, quem ela era. Trazia um jornal na mão.
— Pensei que tivesses aprendido a identificar golpistas desde que perdeste metade da cara, Damien. — A voz era rude, e o sotaque britânico acentuado.
— Mãe? — Ele pestanejou, tinha a cabeça a latejar e a boca seca. Tentava recordar com eficácia os acontecimentos da madrugada, agradecendo por ambos estarem vestidos como prova de não ter feito nada de errado. — Quem te deu autorização para entrar nesta casa?
— Vim verificar esse maldito noivado de perto, mas cheguei um pouco tarde. Não sem antes receber a nova edição da Tempo. — Atirou o jornal para os dois, e dava para ver as letras garrafais do título: CHARLTON VS JOHNSON uma disputa pelo sobrenome Beauchamp.
Darcelle levou soltou um grunhido, suas feições se contraíram e desceu da cama num desespero. Não era assim como pensava ser vista, ainda mais tinha sido publicada especialmente por Lorenzo Wright.
— Eu vou matar aquele...
— E você menina! — A senhora deu dois passos para frente a fim de averiguar melhor de perto. — Eu sei o que está tentando fazer. Vai ser a diferente, aquela que não tem repulsa pelo rosto assustador, aquela que o encoraja, que não quer o nosso dinheiro e só tem amor para dar. Eu conheço esse truque!
— Eu não vou responder apenas para não ser mal criada — Darcelle redarguiu com firmeza, e sentiu uma raiva interna por não ser como a prima e explodir.
— Esse truque a senhora mesma usou para o meu pai, pois não? — Ele se colocou a frente da assessora, como se a quisesse proteger de algo perigoso. — E o dinheiro é meu.
— Nunca cooperei com essas atitudes, casamentos por contratos, comprar mulheres para o amarem! Por isso fui embora por tanto desprezo por participar dessas situações ridículas. — Como sempre Giovana o acusou, os olhos em descrença espreitavam por trás da jovem.
— Não deverias ter voltado. Essa casa é minha, a vida é minha e eu quero vê-la bem longe de tudo, como sempre esteve. — O monstro du Camp caminhou em direção a porta, e a abriu até ao limite. — Não estavas aqui quando eu precisei, agora é tarde demais para a sua ajuda. Se não sair em cinco minutos, chamarei o segurança. O mesmo que corre o risco de perder emprego por tê-la deixado entrar.
— Damien, ela é sua mãe! — Exclamou Darcelle, boa demais para saber guardar rancores. Já tinha vivido uma situação parecida com àquela, a mãe de Jamie também não era flor que se cheire, e a prima sempre a tratava com rudeza, magoada pelos anos de sua ausência.
— Eu não disse que não era, só que quero que a Giovana se vá embora. Agora. — A resposta demonstrou todo o nervosismo e a urgência de não querer olhar na cara de sua progenitora. Havia ódio nas palavras, e Johnson não gostou de o identificar.
— Meu filho pode ser um idiota, mas eu não sou. Conheço mulheres da sua espécie. — Insistiu em frisar e não escondeu a admiração ao ver a negra revirar os olhos, demonstrando um certo descaso.
— A senhora pode ser tão cética no quesito de não acreditar que alguém possa realmente amar o seu filho por causa do rosto. Se eu o amo? Acho que seria cedo para dizer isso, mas eu gosto de Damien e muito. Inclusive deve estar escrito na minha testa, qualquer um com a sua idade ou experiência, já deveria identificar isso com muita facilidade! — respondeu e desta vez sua voz não falhou nem um segundo, ignorando o peso das próprias palavras e o rosto atónito dos dois recetores.
Giovana ainda demorou a encarar a jovem a sua frente, antes de dar meia volta e sair do quarto deixando os dois a sós. O rosto de Beauchamp estava ruborizado e os olhos azuis fixavam a sua assessora.
— O que foi que você disse?
— Que eu gosto de você. Penso que sabe disso. — Foi sincera.
Damien ficou inerte.
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