Notas iniciais
Muito obrigada. As reações foram o máximo, eehehhehe. Fico sempre muito ansiosa por ler. Dizer que a história terá 23 capítulos a contar com o epílogo. Comecei a escrever no dia 23 de maio e termino amanhã dia 23 de Junho. :) Espero que gostem,

O quarto principal da mansão Beauchamp era quase do tamanho do andar de baixo, com compartimentos separados e uma varanda em comum com o quarto contíguo, onde antes dormia Emma.

Darcelle ajustava a gola da camisa junto do casaco informal que Damien vestia. Estava num traje jovial, diferente dos habituais dias, e embora nunca o tivesse visto assim, o olhar azul parecia distante.

— Alguma coisa se passa, o que aconteceu? — Não era a primeira vez que fazia essa pergunta naquele dia. Desde que Joanne deixara a empresa, o rosto dele se tinha transformado numa pedra forte e impenetrável.

— Ansiedade? — Sugeriu, e inclinou um pouco o corpo para beijar a amada nos lábios, se demorando no procedimento, talvez por alguma insegurança de vir a perde-la. Tomou ela em seus braços, apertando com força num desejo cego de trespassar seus corpos e uni-los num só.

— A minha mãe pode falar de mais, mas não morde. — Tentou passar algum conforto, estranhando o súbito receio, pois conhecia a fera e sabia que muito pouco o intimidava.

— Vai correr tudo bem. Deixa só ver você. — Afastou-a de perto com delicadeza, e assobiou num elogio, ao apreciar o longo vestido azul-escuro. — Que bonito, não me diga que foi seu namorado que comprou?

Darcelle riu alto e com os olhos a brilhar, rodopiou devagar, se exibindo para ele.

— O meu namorado tem bom gosto não é? — respondeu ainda com divertimento. Não sabia quando é que Damien tivera tempo para comprar o vestido, mas se deslumbrara ao ver o tecido fino e a forma como lhe assentava no corpo magro. A verdade é que tinha gostado muito.

— A cor é para condizer com a minha camisa.

— É, eu reparei. Não conhecia esse lado tão atento em detalhes de casal.

— Nem eu, Darci. Nem eu.

Riram, e saíram do quarto de mãos dadas, deixando a mansão até ao estacionamento privado onde Étienne os esperava com um ar entusiasmado. Fazia tempo que não via o patrão assim, aliás, sempre pensava que iria morrer sem nunca mais ver.

O restaurante ficava no centro de todo comércio da classe alta, era todo de vidro com uma vista incrível numa varanda para uma piscina rasa que parecia cair ao mar lá em baixo, dependendo da distância do ângulo de vista, a ilusão de ótica parecia unir as águas. As mesas tinham pequenos candelabros que pareciam flutuar, e um grupo tocava música conhecida ao vivo, criando um ambiente agradável.

Jamie conduzira os tios, os encaminhando até a mesa onde estava o mais novo casal. Parecia nervosa como se estivesse no lugar da prima, e bebeu um aperitivo ainda na entrada, para aliviar o estômago embrulhado.

— Senhores Johnson. — Damien se levantou assim que se aproximaram, apertando a mão ao pai, e recebendo dois beijos de Jamie e um aceno estranho de Amabel. — Prazer, Damien Beauchamp.

— E existe quem não o conheça, rapaz? Pode tratar por Tony. — O senhor era mais descontraído, sempre com um sorriso de ponta a ponta e um punhado de anedotas sem graça para contar.

— Amabel. — A mãe disse, o tom seco e os olhos fugidios para não encarar o rosto do genro. Mordeu o canto da bochecha, forçando o sorriso e a dar uma falsa atenção a Carta de vinhos.

Os homens começaram a conversar sobre corrida de cavalos, entrando na área de jogos e apostas, e sobre a razão das vitórias e perdas da Beauchamp. As mulheres discutiam sobre cabelo, algo que breve se tornou desagradável.

— Eu e Jamie estamos abraçando a carapinha, mãe — repetiu pela terceira vez, um quanto aborrecida por sempre terem de tocar no assunto.

— Da última vez que alisei, metade caiu. Agora estou a recomeçar a criar — afirmou Jamie que tinha o cabelo curto com alguns caracóis. Aquele corte acompanhava muito bem o rosto bonito e delicado da médica.

— O facto de eu alisar, não me faz menos ou mais negra que vocês. Só acho que daria menos trabalho e ficariam ainda mais bonitas! — Insistiu Amabel, os olhos cor de mel apreciavam o penteado natural na cabeça da filha, mas imaginavam também o trabalho que tinha sido.

— Cada um usa o cabelo como gosta, não é pelo cabelo que se diminui as batalhas diárias pelo reconhecimento negro. E ponto final. — Darcelle quis terminar o assunto por ali, não era essa a razão pela qual se tinham unido naquele jantar.

— Eu gosto do cabelo de Darci, assim. — Damien elogiou.

— Mas é claro, ela também gosta do senhor assim. — A senhora Johnson respondeu com frieza, a amargura no tom de voz deixava claro um desgosto na relação. Com tantos negros lindos e bem-sucedidos, pensava por dentro.

Tony contou uma piada para aliviar o clima, e logo a seguir pediram entradas e os pratos principais para comer, todos participando ativamente de uma conversa banal, menos Amabel que não parecia querer cooperar com nada.

Damien parecia a vontade para contar sua trajetória de vida, relatando incidentes na infância, e ouvindo as histórias que o patriarca tinha para contar sobre as duas primas e como eram espertas e traquinas.

— Boa noite a todos. Não fui convidado, mas decidi aparecer. Me desculpem. — Christian empurrou a cadeira de Jamie para o lado, e puxou uma livre de outra mesa para se meter entre ela e a tia. — Senhora belíssima, tenho o prazer de a conhecer. Christian Dash.

Amabel sorriu com gosto, e aceitou o beijo na mão que o atrevido lhe deu. Em seguida o psicólogo cumprimentou todos na mesa, e virou para sorrir com provocação para o alvo favorito.

— Reunião de família, e eu tenho o direito de fazer parte, ou não? — Falou em alto e bom-tom, arrancando um olhar petrificado da médica.

— Claro, você é como um irmão para o Damien — replicou com astúcia, abrindo os lábios num riso nervoso e bebeu todo o conteúdo da sua taça de vinho num único gole.

— Eu vim aqui chantagear você. Me desculpem o momento, mas é o seguinte...

— Christian! — A médica se exaltou, batendo com as mãos na mesa e encarando o olhar ameaçador do homem com quem compartilhava momentos tórridos.

— Existe ou não existe? — perguntou entre dentes, sem se importar com os seis olhos virados para eles. A médica sabia que se aquele metediço ousasse expor as suspeitas ali, então, seria alvo de mais críticas e insistências. O melhor era resolver o problema a dois.

— Sim. Existe. Existe e pronto, acabou! — Levantou-se da mesa as pressas, correndo em direção ao banheiro. O coração batia sem parar e sua boca não parava de soltar impropérios contra Chris.

— O que se passa? — Darcelle veio a correr atrás. Tinha os olhos muito abertos e se apressou em limpar as lágrimas da prima, com as próprias mãos. — Para de ser orgulhosa. O Chris explicou sobre existir a vaga para você na Dash & Dash, não é preciso essa reação.

— Foi isso que ele disse? Desculpe, eu nem sei porque estou chorando. Christian me deixa com muitos nervos. — Esquivou das mãos escuras, e procurou lavar o rosto com água fria. — Está tudo bem agora, vamos voltar.

Quando voltaram, o administrador da Beauchamp já tinha tomado a atenção de todos, arrancava gargalhadas e exclamações dos Johnson. Um talento natural para entreter, enquanto por sua vez, Damien não lhe conseguia acompanhar o ritmo pois o pensamento estava distante, ligado a revelação de Joanne.

No fim da noite todos se encontravam do lado de fora do restaurante, e se despediam a meio de conversas intermináveis. Havia sempre mais alguma coisa para dizer.

— Fico feliz que Darcelle tenha encontrado um rapaz como você. Espero que nunca a faça sofrer — disse Tony, apertando a mão do genro e lhe dando alguns tapas nas costas.

— Não é que eu tenha algo contra, mas eu sou mãe, e espero o melhor para minha filha. — Amabel decidiu se expor, mas sem ser amarga ou fria. — Sou muito exigente.

— Tenho a certeza de estar a altura. Eu vou cuidar bem dela — garantiu sem receio algum.

Depois de muita discussão entre Chris e Jamie sobre quem conduziria o carro, todos se despediram e Étienne levou o casal para a mansão Beauchamp.

— Penso que correu bem — comentou Darcelle após o banho, correndo para estar nos braços quentes e confortáveis do namorado.

— Só preciso subornar sua mãe e fica tudo certo. — Ele brincou, tentava se abstrair de toda a preocupação recente, e a tomou em seus braços, beijando-a em seguida e fazendo amor com urgência. Aos poucos se conheciam mais e a intimidade melhorava a medida. Enquanto se amavam, tudo parecia não existir a não ser os gemidos abafados e o calor do choque dos corpos, num movimento lento e ritmado. O monstro du Camp parecia nunca ter pressa, sempre fazendo perguntas e se guiando nas reações para arrancar o primeiro orgasmo da amada. Conseguiu.

O corpo esguio entrou em espasmos, e fez Darcelle rir sem parar, não acreditando na sensação até então desconhecida. Quis repetir.

Mais tarde, Damien deixou Johnson adormecer em seus braços, a preocupação gritante roubava o seu sono. Tentou por várias vezes fechar os olhos, sem sucesso. Era como se o bicho invisível da curiosidade lhe picasse sem parar.

— Aonde vais? — A voz ensonada se fez presente.

— Descansa. — Deu um beijo na testa dela. — Não demoro.

Sabia não ser certo esconder o que fosse da namorada, mas não queria preocupa-la sem ter a certeza do que Joanne falara era verdade. Vestiu qualquer roupa ao acaso, cobrindo tudo com um casaco comprido, e logo deixou o quarto, descendo as escadas com pressa pelas portas traseiras da mansão. Encontrou o jeep junto dos outros carros, e o conduziu pelos bairros semidesertos da cidade.

— Alô, Damien. Aconteceu alguma coisa? — Ao falar, Christian parecia estar um pouco bêbado, mas nem assim deixou de se mostrar preocupado.

— É preciso que investigue Joanne Charlton para mim. Pague o que for preciso. Máxima discrição e urgência. — pediu, sem se estender mais em pormenores.

— Tudo bem. — Concluiu e desligou.

Nem o ar condicionado salvava o suor presente na testa, estava colado ao cabelo e os olhos azuis se demoraram a encarar a casa onde moravam as irmãs. Demorou um bom tempo antes de descer do carro, e passar pelo jardim. Bateu a porta com força.

— Senhor Beauchamp! — Emma exclamou, assustada por o ver ali. Fechou o roupão com força para esconder a roupa de dormir, quando William surgiu atrás.

— O que se passa? — O jornalista perguntou, engolindo em seco ao ver o monstro du Camp.

— Vou entrar. — Damien não pediu, avisou e empurrou a ex noiva que soltou um grito. — O que quer aqui?

O intruso andou pela casa, espreitando compartimentos em busca de um quarto, mas não foi preciso muito, pois Joanne surgiu preocupada, e assim que o avistou ficou ainda mais fantasmagórica possível.

— Mãe, que barulho é esse? — A criança surgiu com um choramingo.

— Giovani, já para dentro! — A mãe gritou com o filho inocente, revelando o desespero crescente dentro dela. Contudo, não foi o suficiente para parar o possível pai do menino. Este quase se materializou ali, encontrando um rosto que respondia a todas suas perguntas.

Giovani era loiro e possuía cachos no cabelo, com as bochechas rosadas e uns grandes olhos azuis da cor do céu. Sorriu para o estranho, e um arrepio passou por todo corpo másculo ao ver o gesto.

— O senhor já não tem mais nada com essa família, não pode chegar aqui entrando desse jeito! — William decidiu se impor, o tom zangado era visível.

— Estou de saída! — declarou com a voz embargada, dando meia volta e fugindo para longe em passos rápidos. A cabeça girava sem parar e a respiração era ofegante.

A verdade é que não sabia o que fazer caso confirmasse a paternidade, e descobrira que a megera da Joanne sempre tinha razão, pois foi só colocar os olhos no rapaz, que a semente de um sentimento maior que tudo, brotou em seu peito.

O que diria Darcelle? Se por acaso do destino fosse obrigado a escolher entre um e outro, o que Damien faria?

Notas finais
E agora hum? Complicou.