Paraíso Proibido
5 Capítulo 5. Noite do Jantar - II
Notas iniciais
[...]
Quando saí do banheiro, Ísis me esperava encostada à parede. Tinha uma bendita "áurea sexual" me cercando toda vez que eu lembrava das unhas dela arranhando sem querer minha nuca, e isso estava me matando, até olhar para ela já estava se tornando um grande esforço. E ela, linda daquele jeito, me olhando com aquele sorriso nos lábios avermelhados, só me deixava mais maluca. Respirar fundo já estava virando quase um mantra para mim, mas ainda assim não conseguia me acalmar tanto quanto eu desejava. Dei meu melhor sorriso e avancei em sua direção. De pronto ela pegou minha mão e começou a falar.
– Meus pais resolveram estender um pouquinho o jantar, como você deve ter reparado – ela falou meio tímida, como se estivesse se sentindo culpada por isso. Aquilo já estava um grande martírio mesmo, que diferença fazia agora? Que seja. – Vamos ficar um pouco lá fora com eles, fazer uma média, e quando você quiser ir embora Fê, é só me dizer, tudo bem?
– Claro, Izie. Sem problemas. Eu estou bem – meia mentira. Eu estava bem, à vontade com a situação e tudo o mais, mas o que me deixava apreensiva e um tanto tensa eram as coisas que ela fazia sem perceber. Claro que para ela aquilo era só uma encenação, tudo fazia parte da farsa, mas para mim significava muito mais e consequentemente me afetava bem mais do que ela podia imaginar. Mas eu não podia dizer isso à ela. – Só não me dê mais vinho, por favor! – brinquei para tentar descontrair.
Nós chegamos à área externa, onde tinha uma grande piscina, um "quiosque" – um mini-bar, para ser mais precisa –, que Rodrigo já havia se apossado e parecia estar preparando algum tipo de bebida, e algumas mesas dispostas frente ao bar. Algumas pessoas já ocupavam as mesas, outras estavam em pé mesmo, com taças de vinho na mão e conversando sobre algum assunto interno.
Izie riu e passou o braço em meu ombro.
– Por que, hein? Não vai me dizer que já ficou bêbada só com algumas tacinhas de vinho, não é? – debochou.
Dei um sorrisinho amarelo. Que engraçadinha!
– "Algumas tacinhas"? Eu perdi a conta de quantas taças você me obrigou a beber! – reclamei.
– Eu te obriguei? Você bebeu porque quis, namorada. Eu não fiz nada! – ela disse divertida, e depositou um beijo em meu rosto, perto do meu ouvido, que me arrepiou inteirinha. Saco, Izie!
Então, eu notei: aquela garota não estava em seu perfeito juízo. Quando nos aproximamos das mesas, ela já estava rindo e correndo na direção de Rodrigo no bar. Seus olhos estavam um pouco desfocados, percebi quando ela me olhou, e o sorriso já não saía de seus lábios. Ótimo, ela quem estava bêbada! Perfeito. Eu fui até o bar e a puxei de canto.
– Você que está bêbada, sua tratante! – acusei, estreitando os olhos.
Ela arqueou uma sobrancelha. É sério, aquilo deixava ela muito sexy, meu Deus... Sai de mim tentação!
– Eeeeu, bêbada?! – perguntou como se eu tivesse falado o maior absurdo do mundo.
– Claro que está! Veja, seus olhos estão desfocados – eu fiz um círculo no ar, indicando a área de seus olhos –, e você está corada, sem contar que fica com essa cara de boba rindo de tudo o que aparece na sua frente!
Eu não tinha nem terminado de falar e ela já estava rindo que nem criança diante de um doce.
– Fêzinha, eu não estou brê... bêbada – ela sacudiu a cabeça, se enrolando toda para falar.
Eu tive que rir, era cômico.
– Viu! Não está brêbada, não é? Não consegue nem falar!
– Eu me enrolei! – tentou se justificar. Sem sucesso. – Agora é sério, eu não estou bêbada. Só estou... leve, entendeu? Eu bebi mais que você lá dentro! Bebi a champanhe, o vinho e aquela dose de uísque horroroso que o Rô me fez beber no "vira-vira". É óbvio que estou um pouco mais "alta" que você, mas bêbada não!
– Ah, é claro – a olhei com escárnio. – E você pretende me levar para casa nesse estado, depois dessa mistura de bebida? – cruzei os braços.
Ela arregalou os olhos e abriu a boca num pequeno "o". Ela tinha realmente esquecido que ia me levar embora de carro? Caramba, só podia ser brincadeira.
– Nossa, Fê... Eu esqueci que ia ter que dirigir – ela disse, o olhar perdido. Então saiu do transe e me olhou, colocando as mãos no rosto, como se estivesse em apuros. E estava mesmo! – E agora?!
– E agora, mocinha, que você vai parar de beber, oras! O que mais? Ou você não vai nem sequer tocar nas chaves do seu carro, está me ouvindo? Chega de álcool por essa noite, o efeito precisa passar ou vou embora de táxi.
– Não, táxi não. Está bem. É, você tem toda a razão, vou parar de beber – ela assentiu.
– Quem vai querer tequila?! – Rodrigo gritou do mini-bar, erguendo a garrafa.
Izie deu um gritinho.
– Tequila, Fê! Ai meu Deus, eu adoro tequila! Eu quero! – ela já saiu saltitante e foi logo virando uma dose que Rodrigo entregou à ela.
Mas o que! Será que eu só imaginei que tinha mandado ela parar de beber? Estava sem moral nenhuma mesmo. Não consegui evitar a primeira dose, mas consegui impedi-la de tomar a segunda.
– Não, Ísis! – falei contrariada, segurando seu pulso. – Sem mais bebidas, você disse que ia parar!
Ela me olhou perdida, e no segundo seguinte Rodrigo e uns garotos que estavam com ele, que eram filhos dos amigos do pai dela (minha nossa, que grande confusão) já estavam gritando e zombando com ela porque eu não queria deixá-la beber mais. Ela pareceu ficar aborrecida com isso, pois cruzou os braços e fez bico.
– Mas, Fê! É tequila! Ah... – disse emburrada.
– Não importa, não vai beber e pronto. Você já está "altinha" o suficiente por hoje – retruquei. Quem assistia à cena jamais desconfiaria que aquele nosso namoro era só uma farsa.
– Se deu mal, Is! – Rodrigo provocava. Logo levou um tapa da irmã, mas isso só fez ele rir mais.
– Que saco... – Ísis resmungou baixinho.
– Eu ouvi isso! – tratei de dizer. Ela deu de ombros, com uma careta, fazendo birra. Não podia negar que aquilo era muito engraçado, nunca tinha visto ela agir daquele jeito. Mas não ia rir, tinha que mostrar seriedade. – Você sabe porque não pode beber, Izie.
– Ah – foi só o que ela resmungou. Estalando a língua, ela segurou minha mão, e no milésimo seguinte já estava sorrindo. Ela era bipolar, eu não tinha mais dúvidas. – Então vem comigo, vou te mostrar o jardim que a minha mãe planta e cuida, fica nos fundos, vem! – e saiu me puxando.
Não protestei. Ótimo, assim ela esquecia de bebida e tudo ficaria bem. Minhas ideias ainda estavam um pouco bagunçadas, também não estava muito sã, mas aquilo passaria rápido. Nós passamos por dentro da casa, saindo pelos fundos da cozinha, que nos levou diretamente até o jardim do qual ela falara. E, nossa, eu fiquei admirada – era realmente muito lindo. A mãe dela havia reservado uma área do gramado, fazendo um canteiro para as flores, e havia muitas cores diferentes: vermelhas, azuis, lilases, brancas e amarelas; enchia os olhos. Ela tivera o cuidado de colocar um cercadinho baixo, pintado de branco, e uma plaquinha de madeira igualmente branca com os dizeres "Happy Garden :)", que seria "Jardim Feliz :)". Achei muito bonitinho isso e foi inevitável não sorrir diante de tantos detalhes fofos e tanto cuidado.
– Legal, não é? – Izie disse, me abraçando por trás. Eu nunca ia esperar aquilo, e meu corpo se retesou no mesmo instante. Ela não pareceu notar, ou não se importou realmente.
– É li-lindo, Is. – Quase não consigo falar! Mas que droga, Ísis! Nós estávamos sozinhas, alguém diga à ela que não era mais preciso encenar. Trinquei os dentes.
– Está vendo aquele Girassol ali, perto da plaquinha? – ela apontou. Sua boca estava praticamente encostada em meu ouvido, e meu corpo estremeceu e arrepiou da primeira célula até o último fio de cabelo. Eu não conseguiria falar, então apenas assenti, esperando que fosse o suficiente, pois não conseguia nem sequer enxergar mais o jardim a minha frente. – Fui eu que comprei as sementes e a ajudei a plantar. Minha mãe adorou – ela disse cheia de felicidade.
Dei um sorriso, tentando não exteriorizar a guerra de calor que acontecia dentro de mim.
– É muito bonito mesmo – concordei. Ela que me perdoasse, mas eu já não sabia nem mais o que a palavra "girassol" significava, minha atenção e sentidos estavam completamente voltados para o corpo dela junto ao meu, suas mãos em minha cintura... O calor era inumano, sério. Eu não ia mais suportar aquilo, já estava no limite do meu limite.
– É sim – ela concordou sorridente. Então, para o meu alívio, ela se afastou, mas meu termômetro interno pareceu cair de cem para zero graus no mesmo instante. Nunca que um jantar me pareceria tão aterrorizante quanto aquele! – Vem, senta aqui comigo – fez um gesto para o banco que tinha logo atrás de nós.
Não achei que fosse ser uma boa ideia, mas como sempre eu ia contra as minhas intuições, me sentei ao lado dela. De repente, aquela cena toda me pareceu um tanto clichê – eu sentada ao lado da garota que amava, com os braços dela sobre meus ombros, enquanto olhávamos o jardim refletido sob as luzes fracas dos pequenos postes que ficavam posicionados em lugares estratégicos para iluminar as flores. Era como em um filme – e nos filmes, em cenas como essas, geralmente os casais se beijavam e tudo parecia lindo e perfeito. Meu estomago se remexeu com a ideia. Sacudi a cabeça de leve para espantar tais pensamentos, não conseguia evitar divagar quando estava ao lado daquela garota. Estava se tornando uma doença que me consumia lentamente e cada dia mais – ela se tornara um vírus letal em meu organismo. Já não sabia mais o que fazer.
Por um momento nós ficamos em silêncio, apenas admirando a paisagem, sentindo o momento. Cheguei a achar que ela estava um pouco tensa ao meu lado, mas eu estava tão avoada para captar as coisas, que logo ela se mexeu e eu já não sabia mais dizer, então ela virou de frente para mim e eu a olhei. Sua mão acariciava a minha, seus olhos eram intensos... Eu ia pirar, adeus.
– Está cansada? – ela perguntou, a voz baixa.
– Um pouco, na verdade – admiti no mesmo tom de voz. Olhei em meu relógio e os ponteiros marcavam cinco para as onze da noite. Informei a hora e ela suspirou.
– Quando quiser, eu posso te levar. É só dizer.
– Está tudo bem, Izie. E outra, nada de volante pra você por enquanto, está bem? Aquela tequila realmente não te ajudou em nada – tive que implicar mais um pouco.
– Mas agora eu parei mesmo, eu juro! – ela cruzou um "x" no peito, em forma de juramento, fazendo uma carinha tão linda que minha vontade era de pular em seu pescoço sem me importar.
– Quero só ver, hein! Namorada bebum – falei num tom resmungão, mas logo ela estava rindo e me fazendo rir com ela.
– Aonde foi que você amarrou seu lindo jegue, não é? Arranjou logo uma namorada bebum – disse divertida.
– Pois é! Acho que não tenho sorte mesmo – disse no mesmo tom divertido.
Ela riu de leve. Mas, no instante seguinte, eu senti a atmosfera mudar drasticamente. O sorriso dela diminuiu um pouco, mas a intensidade em seus olhos aumentou a tal ponto de me fazer sentir aquela queimação incômoda dentro de mim novamente. Era exatamente por esse motivo que, desde o começo, eu jamais soubera lidar com o que eu sentia por ela. Ísis era capaz de fazer meu corpo todo entrar em combustão com um simples olhar, aquilo era insano, me deixava muito confusa e sem reação, eu me sentia tão vulnerável que recuava diante da intensidade que era exercida sobre mim. Como era possível ela causar um efeito não avassalador só em me olhar? Não era normal, e eu não sabia dizer como podia sentir algo tão forte e ainda continuar viva para contar a história.
– Eu tenho sorte, sabia? – ela comentou de repente, me puxando de volta para a realidade.
Uni as sobrancelhas de leve.
– Tem, é? E por que? – quis saber.
{n/a– sugestão de música: Jordin Sparks — Was I The Only One – achei que ficaria bonitinho :}
Ela estreitou um pouco os olhos e esticou a mão livre para tocar o meu rosto, fazendo um carinho suave em minha pele. Em um gesto involuntário, meus olhos se fecharam ao seu toque.
– Porque eu tenho a namorada mais linda de todas.
O jeito como ela falou, a ternura em sua voz, fez meu coração disparar em meu peito. Abri meus olhos – e só então percebi que os tinha fechado. Quando consegui focalizá-la, seu rosto estava mais próximo, os olhos intensos nos meus, os lábios entreabertos e a respiração pesada. Pisquei meus olhos e senti como se eles fossem transbordar, alguma coisa muito séria estava acontecendo ali, meu corpo já não respondia mais aos meus comandos. Meu cérebro dizia: "O que você está fazendo, ficou louca?! Saia já daí!", mas o meu coração retrucava veementemente: "Fique, beije ela, diga a ela que você a ama e seja feliz, arrisque-se, você não pode mais suportar isso, você está perdidamente apaixonada por essa garota!". Com todo esse conflito interno acontecendo em mim, eu não conseguia me mexer, por fora meu corpo era uma perfeita estátua, já por dentro era como se uma terceira guerra mundial se instalasse em minhas entranhas, sentia até que podia desmaiar a qualquer momento.
Para meu completo desespero, que se tornava ainda mais latente com aquela paralisia em meu corpo, ligeiramente notei que Ísis encurtava o espaço entre nós. Nossos rostos estavam cada vez mais perigosamente perto, nossas respirações se mesclando, nossos lábios cada vez mais próximos, nossos corpos irradiando um calor que não vinha só de mim, ela também estava em chamas por dentro e a ideia de que ela estivesse querendo o mesmo que eu naquele momento simplesmente me enlouqueceu. Eu já não sentia nada que não fosse seu toque e nossa aproximação, já não via nada que não fosse seus olhos azuis cravados em meus lábios, não via nada que não fosse seus lábios pedindo para serem beijados. A áurea ao nosso redor era densa, forte, e estava nos influenciando de uma forma que não apenas eu, mas ela também ficara desarmada.
Nossos lábios estavam cada vez mais próximos, e eu sentia que não seria capaz de me afastar, eu queria muito aquilo, não podia mais lutar. Quando senti seu rosto encostar no meu, seus olhos fechados, meus olhos também se fecharam. Eu queria que ela me beijasse, eu queria aquilo com todas as minhas forças! Eu já podia sentir seus lábios quase tocarem de leve os meus, acabando com toda a distância e a ansiedade...
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