Paraíso Proibido
3 Capítulo 3. Estranhas sensações
Notas iniciais
Ísis PDV {Ísis: Ponto de Vista}
Eu não tinha certeza do que esperar daquela noite. Eu estava mentindo para meus pais e isso era tão errado! Mas não tinha coragem para voltar atrás agora, eu ia decepcioná-los demais e não podia suportar isso. Sabia que tinha sido muito estúpida em enfiar Fernanda no meio daquele reboliço, mas eu não saberia dizer o que me levou à falar o nome dela naquele momento. Bem, talvez eu soubesse sim... Não era como se eu estivesse apaixonada por ela ou sentisse algum tipo de sentimento extraordinário, não, não era isso. Era algo diferente, uma coisa nova, um sentimento novo que eu nunca havia experimentado antes, uma coisa que me vinculava à ela de uma forma que me confundia. Eu gostava muito dela, Fernanda era divertida e eu gostava de vê-la sorrir, a sensação era ainda melhor quando eu a fazia sorrir aquele sorriso lindo e radiante que só ela tinha.
Tinha plena consciência de que a havia colocado na maior saia justa quando disse aos meus pais que ela era minha namorada, mas foi algo espontâneo, simplesmente saiu, quando dei por mim já havia falado sem nem pensar nas consequências que isso traria – mais para ela que para mim. Eu tentava mudar minha visão, tentava imaginar Claire, Alisson ou Amanda ali ao meu lado, ou qualquer outra garota aleatória que fosse, dizendo ser minha namorada, mas não conseguia, só conseguia visualizar Fernanda ali. Isso era muito esquisito. Eu era de fato mais apegada à ela do que às outras garotas, tanto que ela foi a primeira pessoa a saber sobre minha orientação sexual, a primeira com a qual consegui realmente me abrir. Foi um pouco difícil, sempre é no começo, mas Fernanda facilitou bastante, me apoiou, me deu esperanças, sempre esteve ao meu lado.
Mas havia uma coisa que deixava curiosa. A notícia de que eu era gay pareceu tê-la deixado meio abalada – abalada emocionalmente, não um simples choque pela descoberta. Eu nunca entendi muito bem isso. No fundo eu tinha algumas suspeitas, muitas vezes eu a surpreendi me olhando de uma força diferente, quase como se lamentasse algo. Será que no fundo ela não me aprovava? Essa pergunta chegou a me passar pela cabeça na época, eu ainda era praticamente uma criança, estávamos no primeiro ano do colegial, ainda estava tão incerta com tudo aquilo e tinha muitos receios e complexos. Mas essa dúvida rapidamente desapareceu porque Fernanda sempre me apoiou em todos os momentos difíceis, e eu sabia que tinha sido isso que me fizera se aproximar dela a ponto de querer protegê-la como parte de mim.
Sobre aqueles olhares, nunca cheguei a saber o que eles realmente significavam. Fernanda era muito misteriosa, não era fácil decifrar suas expressões e reações, ela sabia bem como camuflar tudo isso, era sempre muito discreta. Ela era uma garota muito sociável, brincalhona e extrovertida, mas quando o assunto dizia respeito à sua vida pessoal, ela se fechava a sete chaves atrás das muralhas de seu íntimo e era extremamente difícil – para não dizer impossível – decifrá-la, aquelas muralhas se tornavam impenetráveis. Era quase como uma proteção natural dela. Logo, cheguei à conclusão de que aquilo não dizia respeito a mim. Apesar de a curiosidade me deixar inquieta, tentei me convencer que não se tratava de nada que eu devesse saber.
Mas agora, o que me estava intrigando era que, desde que dei a notícia do jantar à ela no final da tarde anterior, parecia que ela estava me evitando. Naquele dia – que seria o dia do jantar, era uma sexta-feira – eu não a encontrei em lugar nenhum da faculdade. Para minha má sorte, não teríamos nenhuma palestra juntas ou algo do tipo, e nos intervalos também não a vi. Algum tempo depois, encontrei Claire na lanchonete e pensei que ela pudesse saber de alguma coisa, pois ela passava bastante tempo com Fernanda.
– Claire – eu me aproximei dela com um pequeno sorriso e a cumprimentei com um beijo no rosto.
Ela retribuiu o beijo e me olhou meio surpresa.
– Não tinha te visto, Izie. Achei que não ia sair de intervalo agora. A sua turma não estava em outra aula? – ela disse com os olhos estreitos.
– Era para estarmos, mas a professora Larissa precisou ir embora de última hora e não tinha ninguém para substituí-la – expliquei dando de ombros.
– Sério, a Larissa? Poxa, meu último tempo era com ela. Bem, parece que vamos ter mais tempo livre então, não é? – ela sorriu.
– É, olhando por esse lado é bom mesmo – sorri de volta. – Mas, então. Já que te encontrei aqui, deixe-me perguntar. Você viu a Fê por aí? Estou procurando ela desde que cheguei, mas não a vi em lugar algum. Ela não veio para as aulas hoje? Está sabendo de algo?
– Eu também não a vi ainda, para ser sincera. Mas falei com Ali agora a pouco, perto da escada. Ela disse que a Fê veio sim, mas que não trocou muitas palavras com ela porque elas teriam provas e estavam cada uma atarefada com seus estudos.
– Ah – murmurei. Que estranho. Eu sempre via Fernanda na entrada, era como se ela me esperasse... Por que dessa vez foi diferente, por que ela não apareceu para me cumprimentar, como sempre fazia antes de irmos para nossas salas? Não estava gostando daquilo. Será que ela estava brava comigo? Mas ela já parecia tão tranquila com tudo aquilo... Não sabia o que pensar.
– Mas, ei, Izie, o que houve? Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou ligeiramente preocupada.
– Não, nada... – o meu tom distante de voz não convenceu nem a mim, ela menos ainda.
– Fala comigo vai, Izie. Parece que você está precisando desabafar. Ande, vamos – ela se virou de frente para mim e segurou minhas mãos, me olhando com um sorriso. – O que está acontecendo? Me conte tudo, não omita nada! Quero te ajudar.
– Eu sei, mas... – murmurei, olhando para nossas mãos, apertando os lábios. Eu estava hesitante, não sabia se podia confiar na Claire, nunca me dei ao luxo de ter algo muito próximo com ela. Ela era minha colega de turma, e também era minha amiga, mas não tínhamos "aquela" coisa de amigas, aquela confidencia, sabe? E eu sabia que ela era amiga da Fê há anos, e por esse motivo eu não sabia se devia dizer o que estava prestes a dizer. Mesmo assim, algo me incitava a falar, eu precisava falar. Suspirei. – Bem, é que... Fernanda deve ter dito a você sobre hoje a noite, não disse?
– O jantar? Sim, ela comentou comigo, mas não entrou em detalhes. Só disse que você a convidou para jantar porque seria uma festa formal e um tanto tediosa, que queria a companhia de alguém de fora – ela respondeu. – Por quê?
Ela havia mentido para Claire. Mas o que... Agora eu estava ainda mais confusa! Por que ela teria mentido para sua melhor amiga?
– Bem, na verdade não foi bem isso que aconteceu – esclareci. Então narrei tudo desde o começo, falando a verdade sobre eu ter dito aos meus pais, sem pensar e para não decepcioná-los, que Fernanda era minha namorada, e por isso eu precisava que ela fosse comigo àquele jantar. Claire ouvia tudo de boca aberta. Finalizei, dizendo: – E, então, hoje parece que ela me evitou esse tempo todo, pois nem na entrada eu a vi onde ela sempre costuma estar quando chego. Não sei ao certo, mas sinto que ela está fugindo de mim por algum motivo. E agora você me diz que ela mentiu para você sobre o jantar... Isso tudo está muito estranho para mim, Claire, não sei o que pensar. Será que ela está pensando em não ir mais, e por isso me evitou, por que não sabe como me contar?
– Nossa – Claire murmurou perdida em seus próprios pensamentos. De repente, ela abriu um sorriso enorme, uma felicidade que se contrastava enormemente contra meu rosto abatido e confuso. Não consegui entender o porquê daquela alegria toda, franzi o cenho. – Eu entendo perfeitamente porque ela não quis me dizer a verdade sobre esse jantar, faz todo sentido...
Estreitei os olhos. Ela sabia de alguma coisa que eu não sabia, estava claro.
– Como assim?
Claire pareceu sair de seus pensamentos e fez uma cara estranha, ficou inquieta. Parecia ter deixado escapar algo que não deveria. É. Realmente ela havia falado demais. E agora eu queria saber tudo.
– Er... Não é nada, Izie. Vamos esquecer esse assunto, está bem? Quanto ao que você perguntou, eu não sei se ela vai furar com você, não acho que a Fê seja de fazer isso, mas...
– Claire, pare aí mesmo. Não mude de assunto, está bem? Eu quero saber: por que ela mentiu para você? Que motivo é esse que você já sabe? É sério, me conte tudo – tentei cercá-la.
Ela suspirou resignada.
– Eu não posso dizer, Izie. Foi mal.
– Como assim não pode me dizer? Eu quero saber o que está acontecendo! O que a Fernanda está escondendo de mim? Eu sei que você sabe, e agora eu quero respostas, acho que mereço.
Azarada que sou, o sinal apontando o fim do intervalo curto soou. Claire levantou-se rapidamente e eu a imitei. Ela tentou sair, mas eu segurei seu braço, impedindo-a.
– Não fuja de mim, Claire – falei meio baixo. – Me conte o que está rolando, por favor. Não estou aguentando essa ausência da Fê, isso está me preocupando...
Ela me analisou por um instante. Mas logo sacudiu a cabeça em um sinal negativo.
– Se você fosse um pouco mais atenta, notaria. Desculpa, Izie. Tenho que ir, tenho aula agora. Não conte à Fê que tivemos essa conversa, nem nada do que falei, por favor – ela se livrou da minha mão e andou rapidamente para a escada.
A pulga que já estava atrás da minha orelha só se agitou mais com aquela conversa. Se você fosse um pouco mais atenta, notaria. O que diabos ela queria dizer com isso? Atenta? Atenta ao que exatamente? E por que eu não poderia falar daquela conversa para Fernanda? Mas que grande confusão! Eu realmente odiava ficando boiando no meio da conversa, saco. Resmunguei sozinha e me sentei na lanchonete outra vez – não ia assistir à próxima aula, não estava com cabeça para isso, então preferi ficar por ali mesmo. Pedi um suco para beber e não parei de pensar naquela conversa durante o resto do dia.
[...]
Quando o último sinal tocou, eu estava saindo e vi meio de longe que Fernanda estava no estacionamento. Ao contrário do que eu havia pensado, ela tinha vindo de carro sim. Ela ia apressada ao encontro de seu carro, lutando para segurar o material e achar as chaves ao mesmo tempo que tentava dar o alarme. Aquilo me pareceria bem cômico em outra ocasião e eu realmente a teria zoado por isso porque sabia que a deixaria brava, mas não conseguia pensar nisso naquele momento, só conseguia pensar que precisava conversar com ela. No mesmo instante, corri até ela, não ia deixá-la escapar, não mesmo! Ela abriu a porta do passageiro e jogos seus pertences para dentro. Deu a volta e, quando ia abrir a porta do motorista para entrar, eu segurei seu braço e a puxei, encostando-a contra o carro. Encostei meu corpo ao dela, como se para imobilizá-la, para que ela não tentasse fugir de mim. Notei que ela estremeceu, e arregalou bem os olhos.
Algo muito estranho aconteceu comigo também. Eu nunca tinha estado tão perto assim dela antes, não desse jeito. Quando senti seu corpo vibrar, foi como se a corrente elétrica passasse dela para mim, eletrizando minhas veias e provocando um arrepio que também me fez estremecer. Respirei fundo. Procurei ignorar aquela sensação estranha. Fernanda baixou os olhos e apertou o maxilar com força.
– Preciso conversa com você, Fê – falei o mais firme que consegui. – Ainda se lembra do nosso jantar hoje, não é? – minha voz era quase uma súplica para que ela não me deixasse na mão.
– Claro que sim – ela murmurou em resposta. – Estava indo para casa preparar tudo. Você disse que ia passar lá às oito, e droga, Izie, dá pra você se afastar um pouco? Por favor. – Ela voltou a trincar os dentes.
Parecia nervosa e eu não entendi o motivo. Me afastei um pouco dela e meu corpo esfriou no mesmo instante, como se eu saísse de um sol escaldante e entrasse dentro de um freezer. Não foi legal aquilo, de forma alguma. Eu não devia ter esse tipo de reação, não com Fernanda. Eu estava apavorada naquele momento, como estive no começo quando me descobri gay, e Fernanda sempre fora uma boa influência em tudo o que vinha me acontecendo, sempre fora um ombro amigo, mas naquele momento parecia que eu estava misturando as coisas, minha mente estava me pregando uma peça, e descobrir isso não foi nem um pouco agradável. Trinquei os dentes, me repreendendo mentalmente por ter reagido à ela daquela forma. Não era certo.
– Desculpa – murmurei envergonhada. – Eu só queria saber se está tudo bem, se não pretendia cancelar tudo. Eu não te vi em nenhum lugar hoje, você ficou me evitando o dia todo, então...
– Eu não estava te evitando – ela respondeu meio baixo. Mas eu sabia que era mentira, pois ela mordeu os lábios e fitou os pés, como sempre fazia quando mentia. Quando queria, Fernanda era um livro aberto à observações, e eu já me tornara perita em suas reações. Depois de todos esses anos convivendo com ela, com suas manias, gestos, caras e bocas, não poderia ser diferente.
– Olha Fê, eu sei que está mentindo, você não consegue me enganar – tratei de dizer. Ela corou, ainda sem me olhar. – Te conheço tempo suficiente para saber quando está mentindo e quando está dizendo a verdade, mas não vou perguntar o porquê de tudo isso, não quero te deixar desconfortável, sei que tem seus motivos. Fico feliz que não vá cancelar nosso compromisso. Me desculpe por ter colocado você nessa presepada, eu sinto muito mesmo, fui tão egoísta...
– Está tudo bem, Izie – ela murmurou. Sua voz me soou ligeiramente triste. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa sobre isso, ela ergueu o olhar para mim e sorriu. Mas não era aquele mesmo sorriso radiante, não era o meu sorriso. Meu coração se apertou. – Nos vemos às oito?
Respirei fundo.
– Estarei lá – respondi baixo, desconcertada.
– Até daqui a pouco, então – ela apertou os lábios numa pequena careta que me pareceu uma tentativa mal-sucedida de sorriso, então entrou no carro e ligou o motor.
Eu me apoiei no vidro, antes que ela saísse dali. Me olhou com um brilhinho nos olhos.
– Você não está mesmo aborrecida comigo? Olha, eu sei que foi uma grande idiotice o que eu fiz com você, e se eu pudesse voltar atrás eu não teria feito isso, eu fui muito egoísta mesmo, estava achando que seria bem mais fácil resolver toda essa situação – admiti em voz baixa. Estava realmente sentida com toda aquela situação.
Ela sorriu de canto, um sorriso triste.
– Eu não queria isso, não vou negar, Izie. Mas é você, e... Sabe que faço tudo o que estiver ao meu alcance para te ajudar, não sabe? Porque sei que faria o mesmo por mim. Afinal, é apenas um jantar, acho que estou exagerando – então ela sorriu de verdade.
Aquilo me acalmou um pouco.
– Eu prometo que não vou te deixar entediada, está bem? Prometo que vai ser uma noite inesquecível para você – falei olhando em seus lindos olhos esverdeados. Era bonito o contraste que seus olhos claros davam contra sua pele branquinha e os cabelos loiros. Fernanda era linda, não tinha como negar isso.
Ela estreitou os olhos meio que em duvida, mas logo fungou um sorriso.
– Todo momento com você é inesquecível. – Ok, acho que não esperava ouvir isso. Ela completou, meio corada: – Com todas as meninas. Sabe que amo muito todas vocês.
– É claro – disfarcei, e sorri. Mas aquilo tinha me deixado intrigada, o modo como ela havia falado dos momentos comigo. Uma parte de mim sabia que aquilo era um sinal, mas a outra parte teimosa que não me permitia misturar as coisas com Fernanda, me vencia e me cegava diante do verdadeiro significado daquelas palavras.
– E eu sinto muito não ter falado com você antes, hoje eu tinha duas provas e realmente não tive tempo nem pra respirar direito. Mas não se preocupe, está bem? Eu te perdoo pela furada em que você me meteu essa noite – ela piscou e beliscou meu queixo.
Achei aquilo extremamente fofo da parte dela. Não podia negar que a admirava muito. Sorri meio boba.
– Obrigada. Mas não deveria, sei que fui imprudente – torci a boca num gesto de arrependimento.
– Shh, fica quieta, vai – ela se inclinou e depositou um beijo em meu rosto. Meu corpo inteiro ficou quente no mesmo instante, e aquilo me desnorteou por um momento. Foi um pouco difícil conter o estremecimento em meu corpo, mas acho que consegui, ou quase. – Até já, Izie.
– Tchau, pequena – ela sempre franzia o nariz quando eu a chama de pequena, e daquela vez não foi diferente, mas eu acha isso muito bonitinho. Devolvi o beijo em seu rosto. – A gente se vê daqui a pouco. Eu amo você, hein? Não esquece. – Fiz um carinho em seu cabelo e então me afastei para ela pudesse sair com o carro.
Dei um aceno tímido antes de ela sair, e ela retribuiu, deixando o estacionamento da faculdade. Meu corpo estava em um êxtase que eu não conseguia explicar, os pelos da minha nuca estavam eriçados. Alguma coisa estava acontecendo, e eu não sabia dizer o que era. Sacudi minha cabeça e, como sempre, procurei ignorar tudo o que estava cristalino diante dos meus olhos.
Novamente, eu não tinha certeza do que esperar daquela noite.
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