Paraíso Proibido
18 Capítulo 18. Litoral - II: Contratempo e Chegada
Notas iniciais
Rafaela PDV {Rafaela: Ponto de Vista}
Ainda não sabia o que esperar daquela semana no litoral.
Depois que falei com Fernanda aquele dia, eu não esperava que fosse ter essa repercussão toda — sinceramente, achei que Claire nem sequer iria aparecer na lanchonete para falar comigo, nem estava me iludindo. Estava trocando mensagem com um colega meu quando notei sua aproximação e fiquei muito, mas muito nervosa mesmo. Ela não me olhava, e eu tentei disfarçar ao máximo e não encará-la para não dar alguma má impressão, mas depois que ela me olhou, eu não pude mais evitar. No momento que fixei meus olhos nos dela, sabia que não tinha mais volta — eu sentia mesmo algo por aquela garota. Desde a primeira vez que a vi eu me senti atraída de algum modo, não sei porque, mas o jeito dela me chamava a atenção, seu sorriso, quando eu a via brincando com as amigas no campus da faculdade, tudo no seu jeitinho meio maluquinho e meigo de ser fazia meu coração bater mais forte.
Havia muito tempo que eu não sentia aquela tremedeira nas mãos, as famosas borboletas no estomago, o descompassar do meu coração ao olhar para uma garota — se bem me lembro, apenas uma garota havia sido capaz de causar isso em mim, em toda a minha vida: Agatha. Ela morava em Kiev, na capital da Ucrânia, e foi lá mesmo que nos conhecemos, quando eu tinha dezesseis anos — e ela dezessete. Ao contrário de Claire, ela era gay desde que se conhecia por gente e nós namoramos por quase dois anos, mas terminamos porque ela iria embora para a Alemanha com o pai depois que sua mãe faleceu em um terrível acidente de carro. Ela estava muito abalada e seu pai então, tinha perdido o chão, não havia motivos para que eles continuassem ali, pois seu pai era alemão e toda a família dele morava em Dusseldorf. Não teve outra alternativa; ela não queria, assim como eu, mas nosso namoro chegou ao fim.
De qualquer forma, isso era passado, e depois que ela deixou a Ucrânia nós infelizmente perdemos contato de vez. Eu segui com a minha vida, e quando soube que meus pais pretendiam voltar ao Brasil, achei que demoraria muito para que eu me restabelecesse por aqui. Mas não era exatamente o que estava acontecendo. Apesar de toda a minha timidez sempre ter sido um problema, eu estava bem empolgada com a faculdade e, agora, com a proximidade de Claire e das amigas dela que me pareciam garotas super legais mesmo, tudo parecia que ia deslanchar de vez.
O único problema, até então, era Claire não ser gay. Ok, eu não vou dizer que sou o tipo de garota que tem como hobbie transformar garotas héteros em gays, mas isso já havia acontecido antes comigo — não serei hipócrita em dizer que não gostei, pois achei realmente muito legal. Mas, de algum modo, eu não tinha essa pretensão com aquela garota em especial. Eu queria me aproximar de Claire, queria conhecê-la de verdade, queria muito que ela pudesse sentir algo por mim, mas não queria ser responsável por forçar nada, queria que tudo fosse o mais natural possível.
Não que eu tivesse esperanças de que ela pudesse sentir por mim o que eu sentia por ela, mas aqueles olhares dela... Eu não sabia decifrá-los. Não eram normais, mas eram misteriosos, e ao mesmo tempo eu não sabia dizer se havia aquele interesse neles. Confesso que, quando ela me ligou no meio da madrugada, eu fiquei realmente surpresa, achei que estava dormindo ainda e sonhando quando peguei meu celular sonolenta e vi o nome dela no visor. Juro que ainda fiquei encarando o celular em minhas mãos como se ele fosse um E.T, até entender que ela estava mesmo me ligando às três e meia da manhã.
Sinceramente, não sei que ideia maluca foi aquela de chamá-la até meu apartamento, mas de repente eu quis que ela estivesse ali, ela estava tão perto e tão longe ao mesmo tempo... E fiquei mais surpresa ainda quando a própria aceitou meu convite, algo que eu realmente não esperava que fosse acontecer. E foi, tipo, demais para a minha pouca sanidade quando abri a porta e me deparei com ela usando aquele shortinho e uma camiseta. Eu tentei transparecer o mais natural possível, mas por dentro eu estava agitada, meus pensamentos me enganavam o tempo todo, queriam me fazer pensar insanidades com ela naquela roupa, queriam forçar meus olhos a se fixarem nela e que danasse o que pensaria de mim... Mas não, eu fui mais firme e me controlei. Não podia ser assim com ela, eu não queria que fosse.
De qualquer forma, agora já não tinha mais como voltar atrás.
Eu estava dentro de seu carro, dirigindo até um lugar que me era desconhecido, com uma semana inteira diante de mim onde milhares de coisas poderiam acontecer e eu não fazia a menor ideia de onde estava me metendo. Ela estava dormindo tranquilamente no banco do passageiro, às vezes quando o trânsito parava eu me permitia olhá-la um pouco, tinha uma vontade quase incontrolável de acariciar seu rosto, sua expressão estava tão serena, tão calma, e ela ressonava baixinho. Estava exausta, coitada... Eu entendia.
Naquele momento, eu estava confiando no GPS do meu celular, que havia me indicado a rota mais fácil até o endereço que Claire havia me passado. Mas estranhei quando, de repente, ele nos tirou do que parecia ser a "rodovia principal", já que todo o fluxo de carros se concentrava ali, e disse para que eu virasse na próxima entrada, do quilômetro quarenta e dois da estrada. Estranhei, mas como ele era meu único guia naquele momento, fiz o que o GPS mandou. Dei uma espiada rápida pelo retrovisor e puder ver as meninas entrarem logo atrás.
Alguns minutos depois, estávamos passando por cima de um viaduto com um pequeno túnel adiante, cercado de árvores altas e um pouco de neblina, onde não havia praticamente carro nenhum, estava tudo deserto e não havia placa alguma com qualquer indicação que fosse. Eu soube que estava tudo errado quando o comando do GPS me mandou virar à esquerda — só que não havia lugar nenhum para a esquerda, apenas o penhasco depois do guard rail do viaduto, na segunda faixa. Liguei o pisca-alerta do carro e joguei para o acostamento, puxando o freio de mão ao parar. Soltei o cinto e desci do carro, olhando em volta. Logo Fernanda e Alisson desceram e vieram até mim.
– O que houve, Rafa? — Fernanda perguntou. Ísis e Amanda saíram do carro, mas não se aproximaram, só observavam.
– Acho que temos um problema — fiz uma cara de culpa. Ela uniu as sobrancelhas. Acenei com o celular em mãos. — Eu disse que GPS são imprevisíveis...
– Espera... Você não está dizendo que estamos perdidas, não é?! — Alisson se alarmou.
– Ai, caramba, não me diga isso — Fernanda murmurou com as mãos no rosto.
– Não sei se estamos perdidas, só acho que o GPS nos jogou em outra rota, deve ser estrada antiga — arrisquei o palpite. — Porque não tem identificação nenhuma aqui, olha — gesticulei ao redor. — É estranho. Acho que vamos ter que voltar para a rodovia principal e seguir o fluxo de carros, ir pelas placas, perguntar nas cabines da polícia rodoviária, não sei, porque aqui parece que não é o caminho certo.
– Tem certeza, Rafa? — Alisson quis se certificar.
– Tenho, o GPS está me mandando virar à esquerda e, bem... Não tem pra onde virar aqui né — falei como se fosse óbvio. Elas respiraram fundo.
– E como vamos dar a volta se nem sabemos onde estamos? — Fernanda questionou. — Esse viaduto é contra-mão, e tem uma câmera de trânsito bem ali atrás, não dá nem pra dar uma de louca e voltar voando pra rodovia em que estávamos.
– Acho que vamos ter que seguir em frente, deve ter alguma entrada, ou algum posto onde podemos nos informar... Será que não?
– Eu acho que é melhor acordar a Claire — Ísis disse ao se aproximar e saber o que estava acontecendo. Amanda estava junto.
– Mas ela está tão cansada — falei meio chorosa. Não queria acordá-la, coitada...
– É a única maneira, Rafa. Acorde a Claire, ela nos diz para onde ir, e então volta a dormir. Melhor isso do que ficar perdendo tempo sendo que nem sabemos se seguir adiante vai nos levar a algum lugar, isso só vai nos atrasar mais. Já faz quase cinco horas que estamos na estrada, eu estou exausta, dirigir em trânsito é um terror...
– Eu sei... — murmurei, pensativa. Eu não estava dirigindo há tanto tempo, mas também já estava ficando cansada desse acelera, freia, acelera, freia, o tempo todo... É exaustivo. Suspirei resignada. — Tudo bem, eu acordo ela, esperem só um minuto.
Entrei no carro e me estiquei até o banco do passageiro, onde Claire dormia tranquilamente sem nem sonhar o que estava acontecendo. Toquei seu ombro e comecei chamando-a devagar, baixo, não queria que ela acordasse no susto. Mas, como ela não deu sinal de vida, comecei a sacudir de leve seu ombro. De repente ela abriu os olhos bem rápido e se endireitou no banco, olhando para mim, perdidinha.
– Claire, calma... — falei devagar. Se ela despertasse rápido daquele jeito ia ficar com uma bela dor de cabeça.
– O que houve? Nós já chegamos? — perguntou baixo, a voz ligeiramente rouca. Respirando fundo, encostou a cabeça no banco, os olhos mal paravam abertos.
– Ainda não, é que... — quando falei isso, ela me olhou unindo as sobrancelhas. — Parece que meu GPS nos tirou da rota principal e agora estamos meio que perdidas. Ele me mandou entrar no quilômetro quarenta e dois, e foi o que eu fiz, então... Estamos aqui, paradas, sem saber pra onde ir — apertei os lábios. — Desculpa te acordar...
– Sem problemas, Rafa. Espera — ela disse e soltou o cinto de segurança, saindo meio cambaleante do carro. Suas sobrancelhas se franziram ao olhar em volta. — Onde é que nós estamos?! — questionou confusa.
– Não sei Claire, é um viaduto e foi pra cá que o GPS nos jogou...
– Mas, calma... Você disse quilômetro qual? — voltou a me olhar.
– Quarenta e dois. Foi o que o GPS mandou e eu entrei.
– Ah ta! Quilômetro quarenta e dois, já entendi. É que o GPS do celular identificou essa rota como principal porque ela já foi a principal um dia. A ponte está comprometida e o peso de muitos carros poderia provocar a queda, então eles fecharam o acesso por aqui e criaram um desvio, os poucos carros que ainda passam por aqui geralmente vão destino à um pequeno centro industrial que tem no quilômetro cinquenta e um, uma das entradas adiantes. Eu já vim parar aqui várias vezes, relaxem que eu coloco a gente de volta na rodovia principal.
Já ficamos bem mais aliviadas ao ouvir aquilo, pelo menos não estávamos completamente perdidas. As meninas voltaram para seus carros, e Claire quis assumir o volante, mas não achei uma boa ideia, ela estava cansada ainda, dava para notar em seu rosto e em como seus olhos ainda estavam meio pesados. Então, eu insisti e voltei para o volante e pedi que ela fosse me falando o caminho. Saímos dali.
– Você entra na próxima à direita — ela me disse. — Aí vai ter um retorno, vamos passar por cima de outro viaduto e o final dele é na rodovia que nós estávamos. Dali é só seguir adiante e entrar no quilômetro sessenta.
Eu assenti. Dali em diante a viagem foi tranquila. O trânsito já estava fluindo melhor na rodovial principal, então não demorou muito para que chegássemos até o quilômetro sessenta. Claire não voltou a dormir depois disso, disse que já estava bem desperta, mas de qualquer forma nós fizemos uma parada em uma loja de conveniência de um posto de gasolina e eu comprei um café para ela. A viagem até a casa dela durou aproximadamente cinco horas e meia, o que foi bem cansativo para as meninas que vinham dirigindo o caminho todo.
Quando entramos no centro da cidade, Claire ficou mais esperta para me mostrar o caminho, já que eu já tinha desistido de confiar naquele GPS do meu celular. Ela estava meio inclinada em minha direção, apontando as ruas que eu deveria entrar e quando parei no farol e olhei para ela, nossos rostos estavam bem próximos. Ela deu um sorrisinho, que eu retribuí, mas não conseguia desviar meu olhar do seu — e ela, pelo jeito, não fazia a menor questão também. Eram esses olhares que me deixavam intrigada.
De repente, o celular dela tocou, e ela desviou apenas o olhar e atendeu o celular.
– Diga, criatura — atendeu. Deduzi que era uma das meninas, só podia ser. — Por que? — Ela ficou em silêncio por um instante, as sobrancelhas unidas. — Ta ok né! — Afastou o celular do ouvido e ativou o viva-voz. — Pronto, Fê, pode falar.
– Hummmm... - Fernanda e Ísis disseram ao mesmo tempo, num tom de zombaria. Fernanda continuou, as duas riam: — Eu estou aqui no carro de trás e posso ver vocês, viu? Que clima todo é esse aí entre vocês duas hein?! Rostinho coladinho, sorrisos... Claire, Claire, tome jeito!
Eu desviei o olhar, rindo, e me endireitei em meu banco. Claire estava vermelha, só não sabia se de raiva ou de vergonha.
– Vai se ferrar, Fernanda! Você consegue ver isso aqui também? — ela se debruçou entre os bancos e mostrou o dedo do meio. As meninas riram alto no telefone.
– Bravona!
– Você me ligou só pra isso, bitch?– ficou emburrada.
– Obviamente! E eu ia perder uma chance dessas?!
– Então, tchau! — e desligou na cara da menina.
Eu sacudi a cabeça, rindo de leve, e dei uma espiada pelo retrovisor — as duas riam no carro de trás. Não perdiam uma mesmo! Durante o resto do caminho, eu a olhava pelo canto do olho e ela estava emburrada, nem olhava mais para mim quando me mandava entrar em tal rua. Eu estava achando super graça daquilo, o modo como ela se sentiu incomodada... Não sabia se isso era bom, mas algo me dizia que sim, e isso me confortava. Claire só voltou a me olhar quando finalmente chegamos na avenida onde ficava a casa de seus pais, aí ela se endireitou no banco e me apontou o lugar. Eu embiquei o carro na entrada, e logo atrás as meninas pararam os carros também. O relógio marcava quase duas e meia da tarde. Soltei o cinto de segurança e Claire fez o mesmo, descendo do carro ao mesmo tempo que eu.
– Tcharan!– Claire cantarolou com um sorriso, abrindo os braços. As meninas se aproximaram agitadas, já comentando sobre a casa.
Casa essa que, para constar, era realmente muito bonita. Era uma construção de três andares, contando com a garagem, branca e preta com vidros grandes. De frente para o carro estava a garagem, que ficava no subsolo da casa, um portão de metal largo; logo ao lado direito havia um portão que dava acesso às escadas que levaria à entrada da casa (n/a: Casa de Praia). E, olhando para o outro lado da avenida: estava a praia, apenas há alguns metros da construção. Era o tipo do lugar que você imagina em uma de suas "viagens dos sonhos", ou algo bem próximo do que se vê em filmes.
– Eu sei, eu sei, meus pais são um tanto clichê — Claire disse quando Fernanda comentou sobre a casa. As meninas estavam maravilhadas, e não era pra menos. — A primeira vez que eu vim aqui quando era pequena, eu sempre perdia meus pais lá dentro, sério!
– Ah, então isso foi ontem! Porque você não cresce nunca, Claire — Fernanda lançou a piada, o que deixou Claire irritada e nos fez rir. Realmente ela não era um exemplo de altura — mas eu não podia falar nada porque não ficava muito atrás, e nem a própria Fernanda, se fosse ver. Acho que, de todas ali, só Amanda parecia ser um pouco mais alta, questão de três ou quatro centímetros e olhe lá.
– Cale-se, Nogueira. É que casa é comprida, sabe, os cômodos meio grandes, é por isso — estalou a língua. — Enfim, vamos entrar! Eu vou mostrar pra você lá dentro e aí a gente já vem buscar as malas e guardar os carros. Venham, venham — ela acenava agitada.
Quando ela abriu o portão, as meninas já entraram animadas, comentando sobre o lugar. Eu entrei depois da própria Claire, e depois que fechou o portão ela segurou minha mão e seguiu comigo pela escada, só soltando quando chegamos em frente a porta de vidro. Ela tomou o lugar à frente de nós, para se pronunciar:
– Ok, meninas, vamos fazer um mantra antes de prosseguirmos — juntou as mãos na frente do rosto como se fosse rezar. As meninas acharam graça daquilo e até ela mesma riu. — Agora é sério. Que nada estrague essa nossa semana aqui! Que dessa porta para dentro só entrem coisas boas, e que a gente possa aproveitar o máximo possível!
– Glória a Deus, irmã! Em nome do nosso Senhor — Alisson brincou, com uma mão no peito e a outra erguida no alto. Nós rimos.
– Sem blasfemar! — Claire disse, rindo.
– Blasfemar jamais — Alisson negou com a cabeça, ainda rindo de leve.
– Então, é isso aí. Que estes sejam os melhores dias para nós! — elas ergueram as mãos e soltaram um gritinho. Era super legal o modo como elas eram espontâneas, eu gostava disso.
Nós batemos palma, e eu me manifestei, entrando na brincadeira delas:
– Agora: quem quer entrar na casa?!
– Isso! — Fernanda disse animada e tocou meu braço, concordando. — Chega de missa e abre essa porta logo, ô metida a pastora!
Claire sacudiu a cabeça, rindo, e se adiantou para abrir a porta. Lá dentro, as meninas ficaram caladas por um momento, só observando a decoração, até começarem a comentar sobre isso também. A casa por dentro era realmente mais bonita do que a fachada sugeria — toda decorada em tons claros, com móveis em madeira imbuia escura, com o melhor toque americano. Na sala, o sofá era creme e havia uma grande televisão de plasma embutida em um painel de madeira, com um home theater logo abaixo e um aparelho de som, com caixas grandes que ficavam uma de cada lado do home. Havia quadros nas paredes também, alguns eram apenas rabiscos, artes abstratas, outros pareciam respingos de tintas coloridas, já outros eram paisagens, eles pareciam avivar mais o ambiente.
No primeiro andar ficava a sala, a cozinha, um banheiro e nos fundos a área com uma piscina grande e um jardim, onde tinha um mini-bar e uma churrasqueira de pedra em uma pequena área de lazer. No andar de cima ficavam os três quartos, todos suíte, com camas queen size e com varandas e visão privilegiada direto pra praia. Mas, espera... Três quartos? Nós estávamos em seis pessoas... Três quartos, seis pessoas, igual: duas por quarto, certo? Fernanda e Ísis ficariam juntas, é claro; algo me dizia que Alisson e Amanda eram "íntimas" o suficiente para dormirem no mesmo quarto, então... Ah, não...
– Você vem? — Claire apareceu em meu campo de visão. Eu estava parada no meio da sala, imaginando ter que dormir na mesma cama que ela e num quarto onde só estaríamos nós duas... Será que ela já tinha se dado conta disso?
– Onde? — perguntei perdida.
– Nós vamos descarregar os carros e começar a ajeitar nossas coisas — respondeu com um pequeno sorriso.
– Ah, sim! — sai do meu devaneio. Mais ou menos, porque não conseguia deixar de imaginar aquilo... - Vou sim, claro.
Eu me adiantei para fora da casa, mas Claire logo me alcançou.
– Ta tudo bem? — ela questionou, me olhando em dúvida.
– Sim, Claire, é claro. Como não estaria? — dei um sorriso para disfaçar meu embaraço momentâneo. — O lugar é ótimo, a casa é perfeita, e a companhia é a melhor que eu poderia querer — lancei um olhar rápido para ela, que abaixou a cabeça e sorriu, corando um pouco.
– É que... Você estava meio que "brisando" ali na sala quando te chamei... Por isso perguntei, achei que tivesse alguma coisa errada.
– Ah — dei uma risada curta -, isso. Não é nada não, eu tenho essa mania de as vezes ficar pensando em um monte de coisa ao mesmo tempo, é normal, não é nada com que você tenha que se preocupar — me esquivei. Não era de todo mentira, mas enfim.
– Entendi — ela disse com um sorriso. — Então, tudo bem.
Depois disso, nós descarregamos os carros e os guardamos na garagem — deixamos apenas a Sportage da Claire do lado de fora, pois ela disse que iria no mercado. E aconteceu como eu previa: Fernanda e Ísis ficaram em um quarto, Alisson e Amanda em outro, e eu acompanhei Claire até o último quarto disponível. Perfeito...
– Nós vamos ficar aqui — ela disse. Percebi que ela tentou soar o mais normal possível, mas era visível que estava um pouco nervosa. Eu também estava.
– Ahn, ok — falei meio desconcertada, com a mão na nuca. — E... Você não se importa? Digo, de ter que dividir o quarto comigo...
Ela me olhou e deu sorriso — um sorriso nervoso.
– Não, Rafa. Imagina, é claro que não — respondeu. — Por que me incomodaria? Não tem problema algum.
– É que, bem... Eu confesso que não estava esperando ter que dividir um quarto com alguém, acho que nem cheguei a pensar nisso, e... Não sei, eu tenho algumas manias, enfim — sacudi a cabeça. Eu ainda estava parada na entrada do quarto e Claire já havia entrado.
– Que tipo de mania? — quis saber.
– Bem, algumas... Tipo, eu gosto de dormir no escuro, bem escuro mesmo, as vezes até uso aquelas máscaras de sono, sabe?...
–... Sei sim, mas ah, isso não é problema, eu também gosto... — ela comentou distraída, enquanto colocava suas malas sobre a cama.
– É, e... Eu durmo sem roupa porque fico mais à vontade e... — parei de falar quando Claire deixou cair uma de suas malas. Ela me olhava com uma expressão que eu não sabia se era pânico ou alarme.
– V-você dorme... O que? — ela perguntou quase num murmúrio.
– Eu durmo sem roupa — repeti, estranhando aquela reação dela. Mas então eu me toquei: ela devia estar pensando que eu ia dormir sem roupa ali com ela, é claro! Agora entendi o pânico todo. Me apressei em dizer, sentindo meu rosto queimar um pouco: — Mas só quando estou sozinha! Quer dizer... Nã-não que eu vá dormir sem roupa aqui... Não, até porque... Porque você vai dividir o quarto comigo e, bem... Não.
Ela pareceu respirar depois daqueles longos segundos me olhando.
– É, eu... Ahn... Acho... A-acho que é melhor você ficar de roupa mesmo, é... Até porque... Só uma cama, er, você sabe... — disse sem me olhar direito.
– Sim, claro, eu não vou... Dormir sem, digo... Enfim. — Caramba, que constrangedor!
Ela apenas assentiu e virou de costas para mim, pegando a mala que tinha derrubado e ajeitando-a. Eu baixei o olhar e encostei no batente da porta, meu rosto queimava. Como eu não pensei antes de falar aquilo?! Teria poupado esse constrangimento todo... Sacudi a cabeça.
– Mas, Rafa, er... É muito ruim você dormir de roupa? — Claire falou de repente. Levantei meu olhar em sua direção, ela estava sentada na beirada da cama, mas logo levantou e veio até mim.
Uni as sobrancelhas.
– Como assim, Claire?
– Digo... Por que você dorme sem roupa? — ela parou diante de mim.
Eu estava ficando mais confusa ainda com aquelas perguntas.
– Eu, ahn... Bem, é que... Eu me sinto mais confortável, não sei, só com o lençol ou a coberta sobre meu corpo — eu explicava. Seus olhos estavam estreitos, fitando meus lábios enquanto eu falava, e ela mordia o lábio, me observando. Isso foi um pouco intimidador, confesso, mas esse era mais um olhar que se encaixava na lista de olhares misteriosos que ela me lançava. Continuei, dessa vez sustentando seu olhar: — Eu criei esse hábito desde que fui morar sozinha, é mais confortável, como falei, parece que eu descanso melhor quando durmo sem roupa...
Ela sacudiu a cabeça de leve, como se para espantar algum tipo de pensamento ou sair de um transe, exatamente como eu fazia, e então me olhou "normalmente", eu diria.
– Então... Seria muito ruim você dormir de roupa, não é? Porque você já está acostumada e tal — comentou.
– Não, não tem problema. Afinal, eu não vou estar sozinha aqui, existem limites, certo? — dei de ombros. Não me importava realmente de ter que dormir de roupa, não era o fim do mundo.
– É que... Se você quiser dormir sem... sem a roupa, quer dizer, er... Bem, se você quiser — ela se embaraçou um pouquinho, mas entendi a essência. Ela estava me dando carta branca para dormir sem roupa com ela ali? Espera aí...
– Mas, Claire, e você... — não terminei de formular a pergunta, mas ela logo respondeu:
– Não, tipo, se você acha que vai se sentir pouco a vontade com isso, mudando seus hábitos, eu posso deixar o quarto só para você. Eu fico na sala, sem problema nenhum.
Ah, tá. Já estava estranhando mesmo ela dizer que eu podia dormir sem roupa com ela ali! Até parece que eu ia fazê-la sair do quarto pra isso. Dei uma risada rápida, sacudindo a cabeça.
– Nem pensar, Claire. Eu não vou tirar a anfitriã da casa de seu próprio quarto só pra eu poder dormir pelada! — ironizei. Ela corou um pouco e abaixou a cabeça, rindo de leve.
– Não ia ter problema nenhum — insistiu.
– Não e não. Ponto final. — Dei um sorrisinho.
– Ok, já que você insiste. Chega de falar de dormir pelada então! — ela passou por mim e saiu do quarto, parando do outro lado da porta. — Vou ver se alguma das meninas estão com coragem para ir até o mercado comigo.
– Qualquer coisa eu vou, se elas não quiserem, é só me avisar — me ofereci, dando um sorriso.
Ela concordou e retribuiu o sorriso, saindo dali. Eu ajeitei minhas malas e então desci e fiquei sentada na sala. Acabou que algum tempo depois Claire desceu reclamando porque nenhuma das meninas queria ir até o mercado, então eu tentei acalmá-la e disse que a acompanharia.
– Obrigada, Rafa, você é uma ótima amiga, sabe! — ela disse bem alto e Fernanda logou desceu as escadas, rindo, acompanhada das meninas que vieram atrás.
– Bla, bla, bla — cantarolou divertida. — Vai lá com a Rafa no mercado, nós vamos dar um jeito na casa e vamos colocar pra gelar a cachaça que trouxemos!
– Vocês trouxeram cachaça? Mas, dona Fernanda, você está se saindo uma bela pinguça hein?! Eu não me lembrava de você ser assim não — Claire cruzou os braços.
Izie gesticulou, dizendo:
– Ela está exagerando. Só trouxemos duas vodcas e dois engradados de energético. — Fernanda deu um cutucão nela, que encolheu o braço, sorrindo. — E ah, a Alisson e Amanda trouxeram vinho, leite condensado e umas frutas pra fazer batidas. Foi abacaxi e pêssego, não foi? — ela olhou para Alisson, que assentiu.
– Pinguças, de qualquer maneira!
– Não seja tão careta, Claire, temos que aproveitar essa semana aqui de alguma forma né! — Amanda disse e as meninas super concordaram no mesmo instante.
– Eu não vou tirar nenhuma bêbada da sarjeta, já estou avisando! — Claire levantou as mãos e isso só fez as meninas rirem. — Vamos embora, Rafa, minha melhor amiga – ela frisou e eu ri disso, sacudindo a cabeça.
As meninas não deixaram passar essa — nunca deixavam.
– Ahhhhh!– disseram em uníssono, e posso dizer que Claire logo se arrependeu de ter dito aquilo. Fernanda zombou, de novo: — Quanta intimidade! "Minha melhor amiga" — elas riam. Essas garotas eram do tipo que perdiam a amiga, mas não perdiam a piada. Era engraçado, porque Claire se irritava muito fácil com elas, como se não estivesse acostumada com isso ainda.
– Não me dirija a palavra, Nogueira! — Claire logo ficou emburrada e saiu me puxando para fora da casa.
– Cuidado para não colocarem no fogo no mercado, Rafa! — Amanda brincou e eu lancei um olhar cúmplice para ela e pras meninas, que riram. A porta bateu com força atrás de nós.
– Essas meninas me irritam! — estalou a língua.
– E é exatamente por isso que elas não param, Claire, porque você dá corda se estressando com tudo o que elas dizem e isso acaba deixando tudo mais divertido. Relaxa, entra na brincadeira, uma hora perde a graça — pisquei pra ela e abri o portão para que passasse.
Antes de passar, ela parou e me olhou, estreitando os olhos.
– Talvez você tenha razão — comentou. Assenti com um sorriso.
Então, entramos no carro e dirigimos até o mercado mais próximo, Claire dirigiu dessa vez. Lá, compramos bastante coisa de comer, não só alimentos comuns como muitas besteiras também, e levamos mais energético, mais uma garrafa de vodca e outra de vinho, dois engradados de ice e comprou kiwi e ameixa para fazer batida, pois ela disse que sabia fazer uma batida "bem louca" com aquelas frutas.
– Ah, pra quem não é pinguça, ta sabendo legal hein?! — brinquei e ela riu, dando um empurrão em meu ombro.
Quando voltamos, já tinha até uma música rolando lá. Amanda apareceu primeiro, brincando e perguntando quem precisava ir pra balada quando se tinha um somdaqueles em casa. Logo em seguida Fernanda e Alisson apareceram com um copo na mão com alguma bebida, dançando ao ritmo da música.
– Só faltaram... — Alisson começou, e Amanda terminou a frase com ela: — As luzes piscantes!
– Vem, Claire, larga essas sacolas, eu sei que você sabe dançar essa! — Fernanda disse com um sorriso, puxando Claire pelo pulso. — No synth (n/a — 0:56 na música), agora!
Ela retomou a dança e Claire a acompanhou, com direito a um passinho ensaiado entre elas. Ela já tinha até esquecido que estava brava com a amiga, só pelo modo como sorria e dançava. Eu tentei não olhar demais, porque com certeza as meninas veriam uma brecha perfeita ali, mas Claire dançava realmente bem — provavelmente elas deviam ir bastante em clubes e pubs, fato que se confirmou quando ela disse:
– Hey Fê, lembra aquela menina no South Edge? Ela dançava assim! — e ela fez uma dancinha muito estranha com o cotovelo, que fez as meninas quase chorarem de rir. Era realmente muito ridículo imaginar alguém dançando daquele jeito em um clube, impossível não rir. — Era bem assim mesmo, cara, ela estava chapada!
Fernanda riu e começou a fazer aquela dancinha esquisita, que Alisson e Amanda imitaram.
Izie apareceu na sala bem no meio dessa cena e logo estava rindo também.
– Que show de esquisitice é esse aqui?! — perguntou divertida.
– É o passinho do cotovelo, lembra?! — Fernanda respondeu, sem parar de dançar.
– Ah! No South Edge, aquela menina, eu lembro — Izie riu. — Vocês não prestam. — Ela veio até mim. — Vem, Rafa, eu te ajudo com as sacolas, porque essas daí quando começam, pode esquecer!
Ela então me ajudou com as sacolas e depois colocamos tudo em seu devido lugar na cozinha. Logo as meninas puxaram Claire para fazer a batida de kiwi, enquanto as playlist rolavam solta no som. Eu estava só imaginando como seria aquela semana, se logo no primeiro dia elas já estavam nessa agitação toda... Algo me dizia que aquela semana ia render bastante.
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