Paraíso Proibido

14 Capítulo 14. Olhos Azuis


Notas iniciais
Não façam couros de aleluia para mim D: Demorei, eu sei, mas foi realmente um pesadelo esses dias sem conseguir escrever u.u confesso que não ia postar hoje ainda, para poder adiantar o próximo, maaaaas já extrapolei não é? :/ Então, aí vai o próximo capítulo! Qual será que vai ser a reação da Claire diante da Rafaela, hein? huhu *-* Tem PDV dela nesse, então vamo que vamo o/ Boa leitura amiguinhas!

Fernanda PDV {Fernanda: Ponto de Vista}

Quando nós chegamos à mesa onde Alisson e Amanda estavam sentadas, não avistei o meu alvo principal.

– Oi, meninas — falei ao me sentar em um dos brancos. Izie sentou logo ao meu. — A Claire ainda não saiu não?

– Oi, Fê. Ainda não — Amanda respondeu. — Eu mandei uma mensagem para ela, ela disse que está empacada na prova lá, estava meio brava porque não consegue terminar logo pra sair. E a turma do auditório dela foi a última a receber as folhas, então acabou atrasando um pouco.

– Caramba, que chato — assenti, apertando os lábios. Ela já ia chegar ali bufando de raiva, e quando soubesse a notícia que eu tinha para dar... Segurei o riso por causa dos meus pensamentos.

– Não ria quando a Claire estiver aqui, se não ela vai te bater! — Amanda disse.

– Mas ela vai me bater mesmo quando ouvir o que eu tenho pra dizer — comentei distraída.

– O que é?

– Logo vocês vão saber, não se apressem — falei com um sorriso arteiro. Izie me olhou e sacudiu a cabeça com um sorriso descrente.

– Você sabe que a Claire odeia surpresas, não sabe? Então se prepare para enfrentar a fera! — Alisson disse divertida.

Eu já estava mais que preparada, pode ter certeza! Ia adorar ver a cara dela, era a minha vez de descontar todas as presepadas em que ela me meteu ao longo da vida, começando por essa. Nós ficamos por ali mesmo, conversando, esperando até que a pessoa saísse, o que não demorou tanto, uns dez ou quinze minutos depois, ela chegou já soltando fogo pelas ventas.

– Isso é bullying! Pode ter certeza! — chegou ralhando. — Só a turma do meu auditório ainda estava fazendo a prova, dá para acreditar nisso? Todo mundo já saiu há pelo menos uma hora e eu lá, respondendo questionário feito uma condenada, tenha dó!

– Quinze minutos, ô estressada — falei revirando os olhos.

– Quinze minutos o quê, Fernanda? O que você tá resmungando aí? Saco.

Segurei o riso. Que mau humor!

– Faz quinze minutos que saímos, vinte no máximo. Não seja exagerada, ok? E eu não estou resmungando.

– Ah, não fala comigo não, vai. Não estou de bom humor hoje! — cruzou os braços, fechando a cara e sentando-se em um dos bancos.

Vi a deixa ali mesmo, e já entrei no assunto:

– É mesmo, é? Bem, eu tenho uma boa notícia para te dar, talvez melhore o seu dia.

Ela me olhou emburrada.

– Então desembucha, criatura. Porque pior do que está, meu dia não fica!

– É o seguinte, ô da TPM... Tem alguém querendo conhecer você.

Ela uniu as sobrancelhas.

– Me conhecer? — estranhou.

– Sim. Te conhecer... Você sabe — gesticulei.

Ela ficou de pé num pulo.

– Sério? Quem, Fê?! É bonito, pelo menos? Não estou aceitando porcarias, estou exigente, cansei de ficar com qualquer um — voltou a cruzar os braços. Tive que rir disso.

– Quem é o maluco cegueta? — Alisson perguntou com uma sobrancelha arqueada.

– Cale-se, Alisson. Prossiga, dona Fernanda.

– Bem... Tem olhos azuis — eu comecei, dando um sorriso. Ela fez uma cara tipo "opa, começamos bem!".

Izie estava de cabeça baixa, rindo em silêncio. As meninas não estavam entendendo nada, apenas ouviam a conversa.

– Olhos azuis, e... O que mais, Fê?! Fala logo! — ela veio até mim e me sacudiu os ombros. — É alto? Loiro? Moreno? Desengasgue, minha filha!

– Ahn... Não tanto, é mais ou menos da nossa altura, assim — expliquei. Estava evitando usar alguma palavra que relacionasse as características à uma garota, por enquanto. — E tem a pele clarinha, e o cabelo é escuro sim...

– Hummm — ela murmurou interessada. — Olhos azuis, a altura não favorece muito, mas eu posso relevar, pele branquinha e cabelo escuro...

– Sim, cabelo escuro, assim na altura no ombro sabe, meio repicado e cortado em V — eu comecei a dar as dicas, me segurando para não rir com a cara de confusão e estranheza que ela fez, torcendo o nariz.

– Cabelo na altura do ombro e cortado em V? Que tipo de garoto usa um cabelo desse? Credo, não deve ser muito legal — franziu o nariz.

– É que, bem... Não é um garoto — apertei os lábios.

– O que? — ela me olhou como se um fosse um E.T.

As meninas explodiram em risadas quando entenderam o que estava acontecendo. E eu não pude evitar começar a rir também.

– É uma garota, Claire! Uma garota quer te conhecer — eu disse apertando as bochechas dela, rindo. Ela não ria, e isso tornava tudo ainda mais engraçado.

– Mas o que... Fernanda, você tá de sacanagem com a minha pessoa, não é? Deve ser, deve ter perdido o medo do perigo! E isso não melhorou meu dia! — ela voltou a ficar emburrada e cruzar os braços. — Que tipo de brincadeira idiota é essa, hein? Não tem graça nenhuma.

– Não é brincadeira. É verdade, tem mesmo uma garota a fim de você. Não é, amor? — eu me virei para Izie, para pedir seu apoio, e ela assentiu com um sorriso.

– Faça-me o favor! — ela estalou a língua. Ela ia começar a ficar estressada outra vez, mas mudou de estratégia e sorriu, respirando fundo. — Olha, eu não sei se alguém já falou para você, mas eu sou hétero, está bem? Só tenho uma palavra para te dizer: pênis. Eu gosto de pênis. Você sabe o que é um pênis, Fernanda? É aquele negócio que os homens tem lá embaixo, e eles servem...

– Chega! — cortei ela, fazendo careta. — Já entendi, Claire. Obrigada pela aula de anatomia humana, eu sei muito bem o que é um pênis e sei onde e em quem eles ficam. Ew - torci o nariz.

– Então, amiguinha linda meu amor! — ela disse rindo, dessa vez apertando as minhas bochechas. — É de pênis que eu gosto. Eu não quero uma "perseguida" extra na minha vida, já basta a minha! Nada contra.

Nós rimos muito do termo "perseguida". Que pior!

– Mas... Poxa vida, Claire — eu quase nem conseguia falar, ainda estava recuperando o fôlego. — Você não quer nem ir lá fazer um social com a menina? Quem sabe fazer uma amizade, conversar um pouco, sei lá, vai que vocês não se tornam grandes amigas, huh?

Ela me fulminou com o olhar.

– Não, Fêzinha linda do meu coração, eu não vou fazer social com uma garota que quer meu corpo nu, eu não quero ser grande amiga de garota nenhuma! Estou bem com as amigas que eu tenho, apesar de que algumas delas ficam zombando da minha cara — deu um olhar sugestivo para mim e eu dei um sorrisinho. — Mas obrigada pela oferta, eu vou lembrar da sua generosidade lá na frente, pode deixar.

– Qual é, Claire? Dá um chance pra garota — Izie falou e eu a olhei com um sorriso confuso. Ela estava incentivando? — Você não nem conhece ela. Talvez depois de te conhecer ela mude de ideia quanto a querer seu corpo nu...

– É, talvez ela veja o quanto você é insuportável e queira só ficar na amizade mesmo — assenti, dando de ombros. Claire me deu um tapa no braço e as meninas riram.

– Não foi exatamente isso que eu quis dizer, mas enfim! — Izie ergueu as mãos, se defendendo.

– Só pra começar: eu conheço essa fulana?

– Ela é da minha turma — Izie disse, ficando de pé ao meu lado. — Não sei se você lembra, ela é meio que nova aqui na faculdade, faz o que? Acho que um mês e meio que ela começou a cursar moda, mas como nosso curso é separada em duas turmas, ela ficou na minha sala. Mas lembra aquela vez que tivemos uma aula com a Larissa, semana retrasada, se não me engano, e a professora inclusive introduziu ela para a sala?

– Aquela russa lá? — Claire uniu as sobrancelhas.

– Ela é russa?! — perguntei surpresa.

– Descendente de ucranianos, na verdade. Tem uns parentes lá, e o sobrenome dela é meio estranho — Is explicou. — Mas é ela mesma, a Rafaela.

– Eu não lembro da cara dela, vou falar a verdade, deixei de prestar atenção depois que a professora pronunciou o sobrenome desgovernado dela — ela fez um careta engraçada.

– Não é tão desgovernado assim! Se não me engano se pronuncia "curilenco", mas não sei exatamente como se escreve, deve ser com K, enfim — Izie deu de ombros.

– Agora que você já sabe quem é, já pode ir lá fazer um social! — falei animada.

– Fernanda, qual parte de "eu gosto de pênis" e "eu não quero fazer social com uma garota que quer meu corpo nu", você não entendeu? Ah, espera, eu vou pegar um papel e desenhar para você, porque tá difícil hein, minha filha! Nunca vi mais lerda — ela fez cara de pouco caso.

– Ai que chata! Vai lá conversar com a menina, vai. Ela está te esperando na lanchonete, eu disse que você iria — dei os ombros.

– Você fez o que?! — ela gritou, abrindo bem a boca.

– Eu disse que você iria conversar com ela — repeti calmamente.

– Fernanda! Mas... Que saco! Depois é a minha cabeça que é oca, claro. Como assim você disse que eu ia lá falar com ela? Puta que pariu! — Era sempre hilário quando ela soltava um palavrão. Claire respirou fundo, se controlando. — Está bem. Ótimo, perfeito, maravilhoso, biuriful! Sabe o que eu vou fazer? Eu vou lá naquela lanchonete, ah se vou. E vou dizer para aquela garota do sobrenome desgovernado que, a menos que ela tenha um pênis para me oferecer, eu não quero nada com ela. É isso que eu vou fazer! E quando eu voltar, é bom que se prepare para apanhar, dona Fernanda. E você também, Ísis, por ser cúmplice dessa aí!

– Tchau, Claire! — eu a empurrei dali e ela saiu resmungando.

Pobre da tal Rafaela quando visse a real faceta daquela maluca. Eu bem que avisei.

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Claire PDV {Claire: Ponto de Vista}

Era o cúmulo, o fim, o apocalipse! Eu adorava a Fê, mas essa foi demais, ela realmente se superou dessa vez. O que, ela estava tentando se vingar de mim ou algo assim? Porque era a única explicação, só podia ser! Fernanda devia ter cortado aquilo desde o início, sério, não sei porque diabos ela havia dito que eu ia falar com aquela tal de Rafaela, não sei o que ela pretendia. Se era me irritar, então ela tinha conseguido. Segui em passos pesados até a lanchonete. Quando me aproximei, pude ver uma garota sentada em um dos bancos altos, ela mexia no celular e estava de lado, o que não me dava uma visão total de seu rosto. Pelo corte de cabelo e o que a minha amiga da onça havia descrito, devia ser ela — isso se ela já não havia desistido de me esperar e tivesse ido embora, o que eu estava torcendo para ter acontecido. Respirei fundo, me preparando mentalmente para aquela conversa que seria no mínimo desconfortável se ela viesse com alguma gracinha para cima de mim, e então, quando me aproximei, sentei no banco ao lado dela. Não a olhei de primeiro momento.

– Oi, Di. Me vê uma água aí, por favor — falei à Diego, o rapaz da lanchonete, quando ele se aproximou. E ele era gatinho, só para constar.

Pude notar que a garota ao meu lado se mexeu e virou o rosto em minha direção. Eu não sabia se devia olhar para ela exatamente naquele instante, então feito uma idiota eu mordi o lábio e olhei para o outro lado — ai que ridícula, na boa. Diego voltou e me entregou a garrafinha de água e eu agradeci com um sorriso. Eu nem estava com sede! Que inferno essa Fernanda com essa ideia agora, aff. Percebi, pela visão periférica, que a garota ao meu lado desviou o olhar de mim e abaixou um pouco a cabeça. Contrariada, virei meu rosto para ela, para acabar com aquilo de uma vez. Ela ainda voltou a olhar para a frente, até que finalmente me olhou.

Foi um olhar meio tímido, meio apreensivo... Mas, de repente, meu mundo pareceu girar em câmera lenta. Seus olhos azuis eram hipnotizantes, era como olhar um vasto oceano diante de mim. Ela entreabriu os lábios avermelhados, como se fosse dizer alguma coisa, mas então os umedeceu com a ponta da língua e voltou a fechá-los, mordendo-o. Aquela situação toda começou a ficar meio constrangedora, porque tudo o que eu conseguia fazer era olhar para ela sem achar minha voz para pronunciar uma palavra sequer. Ela parecia querer falar algo, mas ao mesmo tempo parecia não saber o que dizer. Oh, meu Deus, mas o que estava acontecendo ali? Eu até tinha esquecido tudo o que tinha planejado dizer. Meio desconcertada, dei um sorrisinho. O rosto dela se iluminou no mesmo instante, e aquilo deixou ela muito bonitinha. Merda, mas o que eu estava pensando?!

– Ahn, oi — consegui me pronunciar. E foi uma bela merda, hein? Respirei fundo, engolindo aquele bolo em minha garganta. Que sensação mais estranha, sério! — Você... Você deve ser a Rafaela, certo? — estreitei um pouco os olhos.

Ela abriu um sorriso lindo. Aff, covinhas! Para piorar minha situação, covinhas eram extremamente fofas. Que saco. Me diga como desviar os olhos dela? Credo, eu não estava em meu perfeito juízo, só pode ser, pra olhar uma garota desse jeito!

– Sim, eu mesma... Mas pode me chamar de Rafa — sua voz era calma, doce, e o timbre de sua voz era como uma suave melodia. Nossa, isso foi realmente muito ridículo de se dizer, mas que diabos!

– É... Eu... Eu sou a Claire — fiz uma cara tipo "dur, isso acho que é óbvio e você já sabia". Ela deu um sorriso e assentiu. Fiquei novamente sem saber o que dizer. — Er, então... Você é da turma da Ísis, não é? Da segunda classe de Moda...

– Isso, sou sim. A Ísis, bem... Eu nunca conversei com ela, pra dizer a verdade, mas enfim... — apertou os lábios. Ela estava meio coradinha, extremamente bonitinha.

– Entendi, mas... Está gostando do curso? Da faculdade em geral e tal? — eu estava tentando puxar assunto, e minhas tentativas eram uma verdadeira porcaria, sério. Mas e daí? Ela estava respondendo, e de repente eu me sentia muito curiosa em ouvi-la falar.

– Estou sim, os professores são bem legais e as aulas em si também — respondeu com um sorriso singelo.

– Legal — dei um sorriso -, que bom, né? Mas você... Faz pouco tempo que você veio pra cá, não faz? Eu lembro que há algumas semanas a professora Larissa te apresentou à nossa turma — comentei; a verdade é que eu mal lembrava disso, só estava usando o que Izie me contou. Me sentia muito idiota por estar dando corda àquela garota desconhecida, mas eu queria saber sobre ela, queria ouvi-la falar, era gostoso ouvir sua voz e observar o jeito como ela sorria, a intensidade em seus olhos sobre mim... Era como um feitiço, e eu nem conseguia pensar, naquele momento, o quanto isso era absurdamente fora do normal.

– Sim, faz dois meses que eu cheguei... Eu vim de fora do país — ela respondeu.

– Sério? De fora? Onde? — perguntei realmente curiosa.

– Eu morava em Odessa. É uma cidade costeira da Ucrânia, uma das maiores do país. Morei em Kiev, na capital, por uns dois anos, quando me mudei para lá. Eu nasci aqui no Brasil, na verdade, meu pai é brasileiro, mas todos os meus parentes maternos são ucranianos e aí minha mãe decidiu se mudar para lá quando eu tinha nove anos de idade. E agora voltamos para cá. É isso — apertou os lábios num pequeno sorriso.

Uau. Aquilo era bem interessante.

– Caramba, que legal — disse realmente surpresa. — Bem, eu não sou um exemplo em Geografia, mas sei que as cidades da Ucrânia são bem bonitas. Enfim — apertei os lábios e me calei antes que eu começasse a falar muita besteira. — Bem, er... A Fernanda me disse que você conversou com ela e tal, ahn... — decidi entrar naquele assunto porque achei que seria melhor dizer à ela que desencanasse de mim, mas quando ela desviou o olhar e corou absurdamente por eu ter tocado naquilo, eu não consegui prosseguir com o que ia dizer.

Caramba, mas como ela podia ser tão linda, cara?! É oficial: alguma coisa muito esquisita estava acontecendo comigo, aquela garota estava me afetando de tal modo que nenhum garoto até aquele momento tinha conseguido. Quando eu havia pensado que os olhos de um garoto eram como um vasto oceano diante de mim? Quando eu havia pensado que a voz de um garoto era gostosa de ouvir e o timbre parecia uma suave melodia? Nunca! Fala sério, era bruxaria. E eu estava bem enfeitiçada.

– S-sobre isso, er... Eu... Eu não sei tudo o que ela te falou, mas... Desculpa, é que... — vai gaguejar lindamente desse jeito lá na minha cama! Porra. Espera... Não, eu não pensei isso, meu Deus do céu... - Eu tenho um pouco de... dificuldade para me enturmar e tal, fazer amizade, sabe como é... Minha timidez é um problema no começo...

– Ah, mas isso é tão bonitinho — soltei sem pensar. Ops! Me mexi inquieta. — Er, quer dizer... Timidez é meio complicado mesmo, é, eu sei, ainda mais porque você é nova na cidade, é meio chato porque vira notícia né... — trinquei os dentes. Quanta besteira! Ela sorria e eu adorava, de verdade, o modo como o azul índigo de seus olhos refletia o brilho de seu sorriso. Ela sorria com os olhos, todo seu rosto se iluminava com esse simples ato. Ai, dane-se! Ela era linda mesmo. Inferno.

– É, tem isso também, todo mundo comenta e quer saber... Mas no fundo é tudo curiosidade momentânea, sabe? Depois as pessoas se afastam, é meio chato. Eu só converso com a Flávia, ela é da minha turma também, uma baixinha, não sei se você conhece...

– Ah sim, a Flavinha, eu sei quem é. Nós não conversamos muito não, só as vezes quando nos encontramos em intervalos, mas como ela é da outra turma, não somos muito próximas — comentei.

– Pois é — ela mordeu o lábio. — Mas, de qualquer forma, eu estou começando aqui, não é? Quem sabe mais pra frente eu não tenha novas amizades, apesar dessa timidez toda, que eu espero que passe pelo menos um pouco. Mas enfim. E... Quando eu falei com a Fernanda foi porque eu queria, sei lá, ser sua amiga se você quiser, não sei...

– Espera... — uni as sobrancelhas. — Então você não queria me conhecer?

– Claro que eu queria, eu... Eu queria sim — ela respondeu também unindo as sobrancelhas, sem entender.

– Não, eu digo, me conhecer– fiz uma expressão sugestiva. — Quer dizer, a Fê me disse...

Ela ficou completamente sem graça e desviou o olhar. Eu comecei a ficar confusa, extremamente confusa. Que porra aquela Fernanda tinha aprontado comigo?! Eu via que ela queria falar alguma coisa, mas abria a boca sem emitir som algum, estava nervosa, muito nervosa. E eu estava bem confusa e perdidinha.

– Não... Quer dizer... Bem, eu... — ela gaguejava e isso deixava ela mesmo muito linda, aff. — Eu acho que... Acho que a Fernanda te disse... tudo, não é? — seu rosto estava corado.

– Bem, ela... Ela disse que... Que você estava a fim de mim. É, foi o que ela disse... E quando falou que você queria me conhecer, eu... Eu achei que você fosse dar em cima de mim descaradamente, juro que pensei isso — a olhei com cautela.

Ela deu um sorriso nervoso.

– Eu, ahn... Eu não vou mentir, eu sou gay e todo mundo que me conhece sabe disso, não nego o que eu sou...

–... Está certíssima, claro... — concordei.

–... É, então... E também não vou ser hipócrita de negar que me interessei sim por você, Claire — era a primeira vez que ela dizia meu nome. Aquilo me causou um arrepio interno, não foi legal ok? — Mas, eu não faria nada, eu nunca ia dar em cima de você ou qualquer coisa assim, até porque eu sei que você não é gay, e isso seria desconfortável, eu tenho consciência disso...

– É, eu... Eu não sou gay — falei, mas soou muito incerto até para meus próprios ouvidos. What?! Claro que eu não era gay! Quer dizer, aquela garota tinha provocado sensações estranhas em mim, não ia mentir, mas isso não me fazia gay... Fazia? Ai caramba! Será que eu era gay?! Ou bi, que fosse? Merda, eu estava em crise... Isso não podia estar acontecendo, não comigo! Fernanda, você me paga!

– Sim, você não é gay... Certo? — Rafaela me olhou incerta, as sobrancelhas unidas.

– Certo. Claro — dei uma risada nervosa -, eu não sou gay, não, claro que não... — tentei novamente engolir aquele bolo em minha garganta. Sem sucesso.

Ela assentiu, mas parecia me analisar esperando qualquer reação contrária de minha parte. Fiquei em silêncio, tensa.

– É... E eu não ia querer estragar uma amizade que nós nem mesmo começamos, certo? — ela sorriu. Ai, esse sorriso... Eu estava bem ferrada. - Então, amigas? — estendeu a mão para mim.

Engolindo em seco, estendi meu braço e nossas mãos se chocaram. Era como um choque mesmo, literalmente. A pele dela era macia e quente, e eu segurei sua mão até que ela fizesse menção de soltar.

– Amigas — concordei com um sorriso meio desajeitado, deve ter sido uma careta bem feia. — Er... Você já está sabendo do recesso que vai ter semana que vem? — desconversei.

– Estou sim. Essa prova de hoje foi para avaliar o ensino da faculdade, é uma pesquisa que estão fazendo com todas as faculdades pagas e gratuitas do país, o diretor estava me explicando, porque eu sou nova e tal, ele reuniu os alunos mais recentes para explicar o porque disso, já que estamos começando agora... E semana que vem não vão abrir o campus para os alunos porque vão fazer algumas reformas e vai ter uma reunião do comitê de educação lá, qualquer coisa assim, e eles vão contratar novos professores também, pelo o que eu entendi...

– Caramba, vai ser a semana toda?– perguntei surpresa. Eu não estava sabendo exatamente quantos dias o campus ficaria fechado. A semana inteira... Seria ótimo para o que eu estava planejando.

– Sim, vão ser cinco dias — ela assentiu. — Só retorna na outra segunda-feira.

– Eu não sabia ainda... Mas, enfim. É que, bem... Eu vou reunir as meninas e ir para o litoral, mas elas não sabem ainda — disse num tom meio divertido, e ela deu um sorrisinho. — A minha família tem uma casa de ponta de praia, então eu estava planejando algo bem bacana para esses dias de recesso... Você não quer ir com a gente? — perguntei. Eu não sabia porque estava chamando ela, não sabia porque ainda não tinha corrido dali, não sabia de mais nada, sinceramente. Eu me sentia bem à vontade com aquela garota do sobrenome desgovernado, e isso me pareceu motivo suficiente para quere-la por perto. Fim.

– Ahn... Sério? Você quer que eu vá? Não vou atrapalhar?

– Atrapalhar? Claro que não, Rafa, imagina — ela corou um pouco ao me ouvir chamá-la pelo apelido. Mas foi algo bem natural. — Vamos, vai ser legal, uma semana inteira só das garotas, oba — sorri.

Ela riu de leve.

– Claro. Eu aceito o convite. Vai ser divertido.

– Muito divertido, eu garanto. Só que, quando estiver lá, tenta não reparar muito nas minhas amigas, ok? Elas são meio loucas. Eu sou a mais normal de todas!

– Claro, imagino! Não foi o que a Fernanda disse — ela comentou divertida.

– Eu não sei o que ela disse de mim, e não quero saber se não vou ter que esganá-la, mas não acredite, está bem? Eu sou bem normal, você vai ver.

– Ta certo — disse com os olhos meio estreitos, escondendo o sorriso. — Então... Eu vou indo nessa, Claire. Ainda estou meio deslocada em meu apartamento, estou ajeitando as coisas, sabe como é... Mas, obrigada por ter vindo conversar comigo. E desculpa qualquer coisa, não sei, enfim. Claro, obrigada também por me chamar para ir com vocês ao litoral. Ah, anota meu número — ela disse ao descer do banco que estava sentada, e eu peguei meu celular no bolso e anotei. Dei um toque para que ela gravasse o meu. — E aí você me avisa tudo direitinho sobre a viagem, pode ser?

– Claro, sem problemas, perfeito. Eu te ligo e te aviso. E tudo bem, pode ir lá, eu vou encontrar as meninas e depois vou embora também. Então... Até logo, Rafa. E não precisa me agradecer, tranquilo — desci do banco também.

– Ok. Até logo, Claire — ela sorriu. Se aproximou meio timidamente e deu um beijo em meu rosto e um abraço rápido. Mas foi o suficiente para aquele choque percorrer meu corpo outra vez. O perfume dela era muito gostoso...

– Até — dei um aceno tímido quando ela se afastou. Quando ela se virou para ir embora, eu virei para o lado oposto.

Dei alguns passos quando a ouvi me chamar:

– Claire — me virei, e ela estava me olhando à distância. — Posso te fazer uma pergunta?

Meu estomago se remexeu.

– Claro — respondi um pouco mais alto para que ela pudesse ouvir.

– Se você não é gay e achava que eu ia dar em cima de você, como disse... Então por que aceitou vir falar comigo? — ela perguntou, parecia curiosa pela resposta, não estava sendo sarcástica nem nada do tipo.

Eu tinha ido até ali para mandar a garota do sobrenome desgovernado sair do meu pé, porque eu não era gay e não queria nada com ela. Mas eu cheguei ali e me deparei com uma garota linda e que, apesar de o sobrenome ser realmente desgovernado, tinha sido muito carinhosa e gentil comigo, era totalmente o contrário do que eu havia pensado. Me deparei com uma garota que conseguiu me bagunçar inteira só com um olhar... Mas eu não diria isso à ela. Então, encolhi os ombros e respondi:

– Não sei. — Completei: — Mas não me arrependo.

Ela abriu aquele sorriso que definia as covinhas em suas bochechas e fazia seus olhos brilharem.

– Também não me arrependo de nada — ela respondeu. Quando ia virar novamente, eu a chamei, e ela voltou a me olhar: — Sim?

– Qual é o teu sobrenome? — perguntei quase com divertimento, estreitando os olhos.

Ela deu um sorriso confuso.

– É Kurilenko — respondeu. — Por que?

– Com K?

– Sim... — disse meio incerta. — Mas, por que, Claire?

Sorri.

– Por nada, só uma curiosidade boba — garanti. E ela pareceu aceitar aquela explicação.

Enquanto refazia meu caminho até as meninas, tudo o que eu conseguia pensar era: Fernanda Nogueira, você é uma garota morta!

Notas finais
Aee o/ bom, espero que vocês tenham gostado do capítulo e do PDV da Claire ^-^ e que me perdoem pela demora :3 Eu vou já já voltar a escrever o próximo capítulo, os próximos prometem surpresas de verdade o/ Até o próximo! Beijos.