Paraíso
4 Capítulo 3: O primeiro ciclo
Anne não sabia – curiosamente – que morava em um país chamado Akaland. Suas professoras velhotas e sua mãe e seu Pai nunca mencionaram esse nome. Todos tratavam o país como um lugar único no planeta, sem nome e sem necessidade de identificação. Até o momento Anne achava que tudo se resumia à Terra.
Caleb lhe explicou que Akaland se concentra no ocidente do planeta, na parte sul, coisa que Anne já sabia. Mas era algo novo saber que ali existira uma América. Quando soube dessa informação ficou chocada e maravilhada. A América existiu! O lar de Scarlett O’Hara e Rett Butler! Será que eles existiram também? Quanto mais Caleb lhes contava, mais ela queria saber. Ficava excitada até lembrar novamente de sua mãe e Jane, provocando uma bola de angústia em sua garganta.
No momento estavam caminhando por um pequeno deserto cheio de dunas além do Norte, onde nada crescia. Ainda estava de noite, mas o luar iluminava todo o ambiente com sua luz prateada, de uma forma sombria e delicada. Era lindo.
Caleb disse que aquele era o caminho mais próximo para os ciclos do inferno e para onde deveriam ir.
— Ciclos do inferno? – Perguntou Anne.
Inferno, segundo as velhas, é um lugar além da nossa dimensão, onde as almas ruins são mandadas para viver em eterno sofrimento. O lugar é comandado por Lúcifer, conhecido como Diabo ou Satanás. Na verdade, ele tem vários nomes. Anne estudou religião com uma velha chamada Ailane. Ela estranhou esse tipo de disciplina na escola, pois era a única que podia regressar aos tempos antigos sem objeções da organização escolar. Sempre foi a matéria que Anne mais gostou. Ela é fã de Moisés.
— Inferno é como é chamada as divisões de proteção de Akaland. Ciclos. São apenas três etapas, atualmente. Antigamente haviam nove, por se basear à risca nos infernos de Dante e também porque o pessoal do lado de fora era muito furioso. Os infernos foram reduzidos a três depois que as coisas se acalmaram um pouco. Ambos ganharam alguma coisa com isso: Akaland, menos custos com cenários monitoração, e o lado de fora, mais terras.
— E como vamos passar por eles? – Perguntou Rute, preocupada.
— Eu sei como burlar cada um deles. – Caleb deu um sorriso malicioso.
Eles andaram por mais vinte minutos. Todos estavam cansados. Anne queria trocar de roupa, mas havia esquecido de dizer às meninas que fizessem malas. Ela nunca havia fugido antes, então essa não foi uma ideia urgente. Caleb, por outro lado, carregava uma mochila que ele havia escondido em uma arvorezinha que antecede o deserto. Ele tinha comida, água e algumas toalhas.
Finalmente começaram a sentir a areia se transformando em terra, porém não havia nenhum sinal de vegetação à frente.
Caleb fez sinal para que parassem.
— Meninas, estamos chegando ao primeiro ciclo do inferno. Mantenham a calma, é muito importante que vocês prestem bem atenção. Como vocês não conhecem os infernos de Dante, eu vou lhes dar uma breve sinopse. Existem nove ciclos de inferno, cada um para um pecado específico: virtuosos pagãos, luxúria, gula, ganância... Enfim, são nove. Para nossa sorte, agora são apenas três, mas ainda continua sendo muito ruim. O primeiro ciclo que temos que superar é o Lago da Lama, que é o da gula. Haverá lama espessa demais para correr e tempestades de granizo, neve e agua suja. Mantenham a calma e tentem andar o mais rápido possível. Não olhem para trás e não desistam. O segredo deste ciclo é o foco. Não o percam.
— Quanto tempo vai levar para passarmos por ele? – Perguntou Sofia, assombrada.
— De dez a quinze minutos.
— Que?! – Exclamou Anne.
— Tá de brincadeira, né? Vamos ser massacradas em quinze minutos. – Disse Rute.
— E eu não disse a pior parte. Cada um segue em sua solidão. Então vamos estar sozinhos.
Anne ficou branca. Ela morria de medo de tempestades. Como iria conseguir passar por aquilo sozinha?
— Vamos conseguir, meninas. É só ter foco. – Disse Sofia, tentando ser otimista.
Os quatros seguiram andando, até que uma trovoada ecoou por todo lado.
— Já sabem que estamos aqui.
Caleb andava cauteloso guiando as meninas para o horizonte.
O clima começou a mudar. Nuvens que antes não estavam ali agora se faziam presente em todo o céu, bloqueando toda a luz prateada da lua. Anne começou a sentir pingos de chuva caindo nela. Estava muito nervosa, pois não conseguia ver nada ao redor entre os intervalos de cada relâmpago. Até que algo aconteceu.
Olhou para os lados e não havia mais ninguém. Rute, Sofia e Caleb haviam desaparecido. Começou a gritar por seus nomes, pois havia esquecido de que Caleb havia lhe dito que os três estariam sozinhos. Quando se lembrou, entrou em pânico. Ficou parada onde estava, com falta de ar e as orelhas queimando. Eu tenho que voltar, eu tenho que voltar!
Se deu conta de que estava perdendo o foco quando uma lama espessa começou a subir pelos seus tornozelos. Respirou fundo e tentou se acalmar. Começou a andar devagar para frente, com os olhos fechados, esperando que aquilo acabasse logo. A lama atingiu sua cintura.
Pah!
Um granizo acertou em cheio a sua cabeça. Era grande e a fez cair com a sua força. Afundou na lama imunda e espessa. Levantou-se com dificuldade e continuou a caminhar.
Foco.
Anne ainda não havia aberto os olhos, então não sabia o que estava acontecendo à sua volta. Temia que se abrisse os olhos novamente e lembrasse que estava sozinha, estrasse em pânico novamente. Permaneceu assim.
Estava muito frio, muito mesmo. Seus dentes batiam e podia apostar que sua boca estava roxa. Sentia o fedor de fezes com urina com carne podre e com enxofre predominando em todo lugar. Tentar não vomitar era difícil demais.
Após uns cinco minutos que pareceram uma eternidade, sendo apedrejada por granizo e atolada por lama, o céu finalmente se abriu e as chuvas pararam, porém, a lama continuava ali.
— Ela consegue me ouvir? Ótimo. Anne?
Mas o que... Havia uma voz saindo do céu! Perece algo do tipo que Deus faria. Quase riu do pensamento.
— Anne! Sou eu, seu Pai. Querida, volte, por favor.
Ah não. Anne temia que ele ainda estivesse procurando ela. Mas por que ela era tão importante para ele? Que louco.
Anne resolveu começar um diálogo.
— Onde estão minha mãe e Jane?
— Elas estão a salvo. Prometo que as liberto se você voltar.
Por algum motivo Anne sentia que aquela conversa não era tão amigável quanto parecia. E por que não tiraram a lama?
— Pai, o que está acontecendo? Por que as capturou? Errei a tal ponto minha perspectiva de sua conduta?
— Claro que não, querida. E eu não as capturei, elas vieram me procurar. O que aquele garoto sujo detestável disse a você? Não acredite em uma palavra do que ele disser.
— Solte elas.
— E então você volta?
— Mentiroso! Você está me chantageando!
— Não fale assim com o seu Pai, menina! Você vai se arrepender disso.
— Você não é meu pai.
Suas pernas pareciam presas pela lama, mas mesmo assim conseguiu andar. Pretendia continuar a norte, quando sentiu suas pernas se moverem para trás.
A lama começou a circular para sul cada vez mais forte, o que fez Anne cair e perder o controle. Estava sendo arrastada de volta. Tentava se segurar em algo, mas era inútil pois não havia nada para se segurar. Estava perdida.
— Anne!
Ela escutou a voz de Caleb. Estava por perto.
— Estou sendo levada pela lama!
Houve uma pequena pausa. Anne deduziu que ele estivesse sendo arrastado também.
— Eu vou te jogar uma corda. Segure firme!
Anne esperou a corda, até que ela chicoteou na sua cara. Apressou-se para pegá-la e segurou firme, como Caleb havia ordenado. Mas onde estava ele?
Então o viu. Caleb não estava sendo arrastado pela lama. Ele estava... era isso mesmo? Ele estava voando!
A mochila dele estava diferente. Parecia que ela estava cuspindo fogo. Que máximo!
Ele a puxou de volta para norte.
—-------------------------------------------------------------------------------
Estavam no deserto novamente. A areia fina estava sendo molhada pela lama que caia de seus corpos. Caminhavam penosamente à frente, em silêncio, quando Anne falou.
— Ele disse que eu ia me arrepender. Ah não, ele vai fazer algo com elas, eu sei!
— Não vai, Anne, eu prometo. – Disse Caleb.
— Ah você julga que sabe de tudo? Você não conhece meu pai. Nem eu que convivia com ele o conheço.
— Anne se acalme. Nós vamos tirá-la de lá.
— Então por que estamos indo pelo lado oposto de onde elas estão? Mas que inferno, só eu estou preocupada? Por que vocês, meninas, ainda não falaram nada?
— É claro que estamos preocupadas com Jane e sua mãe, Anne. Não seja cretina. – Foi Rute que respondeu.
— Cretina? Cretina é você! Então por que não voltamos?
— Você é mais esperta que isso, Anne – disse Sofia, surpreendendo-a. – Não podemos libertá-las sozinhas. Precisamos da ajuda desse pessoal malvestido do lado de fora.
— Malvestido? Menininha, essa roupa que eu estou usando foi feita por um etilista muito famoso do lado de fora chamado Valentino Versace. Ele pertence a uma longa linhagem de etilistas que marcaram o mundo da moda por séculos. Ela só está um pouco rasgada.
— Continua sendo feia e esfarrapada. E não me chame de menininha!
— Você é a mais nova. – Disse Rute para provocar.
— E você é uma Puta!
Rute ficou boquiaberta e estava se aproximando perigosamente de Sofia, quando Caleb se pôs no meio das duas.
— Wow! Estamos perdendo o foco, garotas. Vamos continuar andando, por favor. O próximo ciclo só está a vinte minutos.
— Está louco? Deveríamos descansar, estamos caminhando faz um bom tempo – disse Anne.
Todos concordaram, até mesmo Caleb, que gostaria de continuar andando. Se lavaram com um pouco de água, só para tirar a lama de seus corpos. O mesmo armou uma barraca com coisas que tinha dentro da sua mochila voadora, com espaço suficiente para todos, porém ele preferiu ficar no lado de fora.
— Eu vou dar uma volta. – Disse Anne.
— O que? Eu achei que o motivo de pararmos era porque vocês estavam cansadas!
— Eu sei, eu sei. Mas é porque eu preciso ficar sozinha um momento.
Caleb bufou.
— OK. Mas não vá muito longe.
— Eu vou até onde eu quiser, você não manda em mim.
E saiu. Ela se sentiu meio mal por ser grosseira com ele depois de ele a ter salvado daquela lama. Mas até aquele momento Anne ainda pensava se seria melhor se a lama a tivesse levado até o seu pai. Podia agora mesmo estar negociando a liberdade de sua mãe e Jane. Poderia estar fazendo algo útil para as duas, mas tudo o que ela faz é continuar fugindo.
Olhou para baixo e viu o estado de suas sapatilhas. Imundas, com manchas que jamais poderiam ser lavadas. Sua blusinha rosa e o moletom já eram. A calça jeans, nem se fala. Tudo que ela mais queria naquele momento era um banho. Como foi que sua vida se tornou aquela bagunça? Essas últimas seis horas foram de matar.
Vshhh...
Anne escutou um barulho de areia sendo deslocada. Havia alguém ali por perto. Se apressou para voltar e avisar aos outros, quando uma figura surgiu no horizonte. E outra. E mais uma. Eram três pessoas muito altas, correndo em sua direção. Anne não tinha se dado conta do quanto tinha se distanciado do grupo até aquele momento. Já havia dunas demais para ver o acampamento. Ia ser capturada, e talvez Caleb nunca mais a encontre. Por que era sempre ela?
Uma das sombras chegou bem perto, a agarrando pelo braço. Anne se debateu mais logo desistiu. Ouviu risadas. Haviam homens e mulheres.
— Olha só, Desi. Uma daquelas pirralhas geneticamente perfeitas tá tentando ir pro lado de fora.
Anne deduziu que aquela era a voz de uma mulher, só que a voz era mais grossa que o usual e a mulher era muito corpulenta para os padrões femininos. Os outros dois eram homens. Anne lembrou-se das cenas de estupro que via nos telões e em como ficava chocada e enfurecida por terem apenas gravado e não terem feito nada a respeito. Teve medo de que aquela fosse uma dessas situações. Precisava escapar.
— Então vamos dar o que ela quer e leva-la para o lado de fora. – Disse um dos homens que Anne deduziu ser Desi.
— Desi, é arriscado. Nós já estamos passando dos limites. Só nas últimas duas semanas pegamos três pirralhas do Norte e agora mesmo estamos com uma que diz ser do Sul.
Anne gelou. Eles estavam capturando meninas dentro de Cinnamon? Ah céus, o que eles fazem com elas? E uma delas era sua irmã!
— Karina, solte-a. – Disse o tal de Desi. – Ela deve saber que não somos inimigos. Queremos ajuda-la.
A brutamontes Karina a soltou e ela massageou o braço. Ela não fugiu. Já havia sido capturada de todo jeito.
Foi o Desi quem falou.
— O que está fazendo aqui e como conseguiu atravessar o primeiro ciclo?
Anne não estava com paciência para mentir. Disse o seu nome e contou da sua mãe e sua irmã, de como elas foram sequestradas, e contou de Caleb e suas outras irmãs, que estavam indo rumo ao lado de fora. Ela contou tudo. Que eles fizessem o que quisessem com essa informação, pois o Pai já sabia e ele seria o único que Anne gostaria que ficasse no escuro se não soubesse.
— Ela está com o Versace! – Exclamou o outro homem ao qual ela ainda não sabia o nome.
— Calma, Grilo. Você sabe que Caleb tem acreditado em tudo que lhe dizem. Não é culpa dele. Ah, esses malditos Pais. Podemos ajudar você com sua mãe e sua irmã.
— Não prometa nada ainda, Desi!
Que nome estranho, Grilo. Que afirmação estranha. Ela queria saber mais.
— No que Caleb tem acreditado?
— É uma longa história, que esperamos contar a você. Por que não vem visitar o nosso acampamento? Prometo que ninguém tocará em você.
— Mas Caleb está me esperando...
— Será breve. Você voltará em vinte minutos, prometo.
Desi esticou a mão para Anne e ela a pegou. Ele era mais velho que Caleb, talvez tivesse uns 25 anos. Se vestia cheio de trapos pretos, com luvas e botas grossas. Tinha uma barba grandinha. Era estranho ver homens mais novos que os Pais. Ela olhava de Desi para o tal de Grilo. O outro era feio e magro. Dasi era bonito. Nas últimas horas viu mais homens jovens que a maioria das garotas em Cinnamon jamais viria.
Andaram por uns dois minutos até avistarem uma barraca meio grandinha rodeada por pequenas dunas. Uma vozinha de menina saiu de lá de dentro e fez o coração de Anne parar.
— São vocês? Ah, que bom, eu não sei assar coelho.
Karina colocou a mão na testa.
— Quantas vezes vou ter que dizer que não é para falar assim quando chegar alguém, garota? Tem que se manter caladinha até entrarmos, senão alguém descobre o nosso esconderijo!
Ah, será? Por favor, seja ela! Por favor, seja ela!
— Ah, é mesmo. Me descul...
A menina que saiu da barraca parou no meio da palavra “desculpe” assim que viu Anne. Vestia um avental de rosas por cima da blusinha azul e da saia jeans e estava segurando uma panela, mas deixou-a no chão e correu para abraça-la.
— Ah, Anne! Você está bem!
Anne a abraçou, mas ainda estava chocada e irritada por não saber o que estava acontecendo. Estava cansada de não saber de nada. Aquilo a enlouquecia.
— Mas que diabos você está fazendo aqui, Jane?!
Fale com o autor