Notas iniciais
Caros leitores,
Esta é uma fic que venho escrevendo há muitíssimo tempo, porém ainda está em construção por ser, provavelmente, a história que mais me exige dedicação e empenho. Logo, estou fazendo essa postagem como teste, gostaria de saber opiniões sinceras a respeito de Paper Walls e conforme a coisa for indo, continuarei postando seus capítulos.
XO
PS. Agora que estou de férias e tenho tempo de sobra, irei usá-lo para continuar as fics já postadas!

Havia algo de esquisito no ar, algo de realmente extraordinário aquele dia. E, veja bem, nada de extraordinário acontecia no mundo.

Talvez Spike já tivesse pressentido, no fundo de seu âmago, desde a hora que levantou que aquele dia teria algo especial.
Spike não era lá muito sensível para pressentimentos, aliás ninguém era. Não sabia escutar e interpretar todas as vozes e sensações que vinham de dentro de si.
Despertou cedo, como todo dia. Sua rotina matinal era a mesma desde seus 15 anos, quando se parava de estudar em ordem de cumprir os Serviços Designados em Prol da Comunidade Mundial, e seguia da seguinte forma: lavava seu rosto, colocava um pão na torradeira, trocava seus pijamas pelo uniforme cinzento da indústria e então voltava para a cozinha. Sua torrada estava pronta, geralmente passava manteiga nela, mas naquele dia optou pela geleia de framboesa. Nunca realmente vira uma framboesa na vida, mas o gosto o lembrava a casa de sua mãe. E, para finalizar, antes de sair de seu apartamento engoliu sua pílula azul, o Abselemox diário com um copo d'água.
O vento estava mais recatado que o comum, e veja que ele não costumava atingir nada com muita intensidade, por causa dos muros. O ponto de ônibus era na esquina de seu prédio, em frente a uma das mais movimentadas avenidas de toda a Capital.

07:08 era o horário preciso diário do ônibus que ia até a Indústria II, onde Spike seguia sua linha de protocolo. Terças-feiras eram mais botões amarelos do que azuis, e alguns vermelhos, não muito diferente de segundas-feiras, mas suas ordens eram diferentes e o garoto se esforçava para decorar os padrões enquanto sentado no banco aguardando transporte.

— Amarelo, amarelo, azul, amarelo. Pausa. Pressionar alavanca, amarelo, vermelho, amarelo…- murmurava bem baixinho para si mesmo. Não tinha certeza se gostava de trabalhar na Indústria II, Cuidados Civis parecia um tanto mais interessante, embora não fosse sua função. Quem sabe Comércio? Não pensava muito a respeito no entanto, sua mente não lhe permitia.

Naquela terça-feira, às 07:06, Spike presenciou algo nunca visto antes em sua vida: em meio ao tráfego monótono e cinzento da avenida, cheio dos anúncios do próximo jogo de basquete entre o Capital e o Silenium, eis que passa uma bicicleta verde na calçada do outro lado da rua; não que nunca tivesse visto uma bicicleta, ele mesmo tinha uma, mas Céus, era uma terça-feira! Como se não bastasse, a moça que a pedalava usava cabelos curtíssimos e um vestido florido. Nada de uniformes, nada de penteados.

A senhora ao seu lado no ponto de ônibus, que tinha sentado não tinha nem dois minutos, pareceu tão surpresa quanto ele:

— Ela não pode fazer isso! — exclamou horrorizada. — Ah, a Segurança não vai

gostar nada…

Spike assentiu, não sabia ao certo ao que ela se referia, se era o corte de cabelo da menina, o vestido colorido (o que indicava que ela não trabalhava), ou o fato de estar dirigindo uma bicicleta num dia de semana. Olhou em seu relógio para ter certeza de não estar confundindo datas ou horários; não estava. Quando olhou novamente a rua, ela já havia ido.

Procurou curioso com o olhar, investigando a avenida até seu limite visível para ver se a encontrava novamente. Por um momento, esqueceu completamente o protocolo padrão de seus botões.

— Trabalhador, não vai entrar? — ouviu uma voz masculina questionar, e quando virou-se a olhar notou o ônibus das 07:08 já parado em sua frente, de portas abertas. Eram 07:09.



— De vestido?

— Colorido. — ele falou cada sílaba pausadamente, ainda incrédulo.

— E mais alguém viu? — perguntou Jean curioso quando passou seu crachá na leitora, adentrando no edifício cinzento após o bipe.

— Mas é claro! Todo mundo viu. Ela estava simplesmente lá, pedalando! — Spike constatou novamente, passando seu crachá também.

— Não é possível, cara. Tem certeza que não esqueceu de tomar Abselemox e teve alucinações? — perguntou num tom zombeteiro.

— Ora, cale a boca. Mas é claro que não esqueci. Estou lhe dizendo o que vi, é fato.

— Bom, — prosseguiu Jean ao entrar no elevador — se diz, acredito. Mas uma coisa é certa: já deve ter sido recolhida. Os loucos não ficam muito tempo aqui em cima.

Spike assentiu com a cabeça, enquanto o elevador que os levaria ao subsolo abriu às portas.

O primeiro andar do prédio da Indústria II tinha um pé direito bastante alto, e cores de dourado e vermelho no inteiror, Spike não conhecia de fato outras partes do estabelecimento com exceção do caminho que seguia todo dia até o -3. Dentro do elevador, a figura grandiosa de Stanis Goldwatch, o Grande Soberano Mundial, sorria para eles, ainda assim carregando um caráter seríssimo nos olhos acinzentados. Embaixo de sua figura, lia-se “Boa obediência, trabalhador!”. A mente de Spike vagou mais uma vez para a figura da moça desempregada na bicicleta, o que seria a vida de um não-trabalhador? Não podia imaginar.



A linha de produção da Indústria II era bastante segmentada em suas determinadas funções, Spike e Jean iam diretamente as suas funções: programação. Sentavam-se em seus determinados cubos, que continham os números de seus crachás no topo, alinhados ao longo de uma extensa esteira mecanizada, e a cada sinal de luz em suas cabines, roboticamente, dirigiam seus protocolos padronizados. Spike era 0315.

Spike gostava dos botões amarelos, mais do que dos cinzas ou azuis, era bem mais vibrante. As flores no vestido da moça hoje de manhã eram amarelas, pensou. E logo des-pensou e voltou a pensar em seus botões. Perguntou-se se Jean teria as mesmas cores de botões que ele, se teriam as mesmas sequências ou os mesmos padrões; por um momento, se questionou sobre a importância de seu próprio trabalho se o seu cubículo e seu padrão de terça-feira fosse exatamente igual ao dos outros inúmeros cubículos naquela extensa esteira mecanizada da área de programação da Indústria II. Dispensou aquele questionamento tão rápido que sequer teve tempo de se sentir insignificante. Olhou de relance para o adesivo em sua mesa durante a pausa das luzes de sinalização: “Continue o bom trabalho.”; perguntou-se se Jean teria ganho um adesivo igual, mas logo voltou seu foco aos botões novamente.



Na volta para casa, Spike saltou no mesmo ponto de ônibus de onde partira aquela manhã. As ruas não estavam tão movimentadas quanto de manhã, com a séria diminuição na quantidade de ônibus e caminhões, era possível ler o grande cartaz no muro do outro lado da avenida: “ORDEM, PROPRIEDADE, TRABALHO” acompanhado da figura de Goldwatch; Spike sequer se deu o trabalho de ler o que já conhecia de cor, e seguiria seu caminho para casa normalmente se não tivesse ouvido sinos de bicicleta soarem logo atrás de si.

— Cuidado! — uma voz feminina gritou antes de quase bater nele e freiar seu meio de locomoção a apenas alguns centímetros do garoto.

Era ela! De novo, bicicleta e vestido colorido numa terça-feira.

— Sinto muito, não estava olhando para frente. — ela se apressou em dizer, descendo da bicicleta. — Está uma noite muito bonita, sabe? Fica difícil se concentrar nesse concreto todo. — falou sorrindo.

Spike sentiu que demorou demais para responder qualquer coisa, mas seu cérebro estava trabalhando de forma absurdamente lenta. Como é que não se olha para frente quando andando de bicicleta? Estava olhando para onde? Por que está sorrindo? Por que não usa uniformes?

— Está tudo bem? — ela perguntou, analisando o rosto dele.

— Claro. — respondeu ele, sentindo-se então envergonhado por sua demora. E, talvez por não saber mais o que falar, soltou, um pouco sem jeito — Sabe, você não pode fazer isso.

— Isso o que? — ela questionou.

— Isso. — ele apontou para a bicicleta, e em seguida para o vestido, depois o cabelo. Para sua surpresa a moça riu. — Estou falando sério. — ele disse, genuinamente preocupado com a criatura — A Segurança não gosta disso. Quer ser recolhida?

— Claro, claro. — ela disse, com descaso, ao parar de rir. — Eu sou Gaia, como se chama? — estendeu a mão.

— Spike. — ele respondeu. — Você é louca. — concluiu calmamente, pensando em voz alta e fazendo-a rir novamente. Tinha a impressão de que ela estava rindo dele, e não necessariamente do que dizia.

— Tudo bem, Spike. — Gaia pegou sua bicicleta novamente e, antes de montar nela, perguntou com um sorriso que ele nunca tinha visto antes — Quer uma carona?

— Na bicicleta? — ele questionou desacreditado no que estava ouvindo.

— Não é claro?

— É terça-feira.

— Acho que sim.

— Pois justamente.

— Você é mais chato do que parece.

— O que?

— Você.

— Chato?

— Pois justamente. Quer uma carona ou não?

— Não posso! — ele respondeu intrigado, nunca havia conhecido uma louca antes. — E você também não pode!

Gaia suspirou, sorrindo piedosamente para ele em seguida.

— Tudo bem. — ela saltou na bicicleta e saiu pedalando, mas não sem antes gritar — foi um prazer conhecê-lo, Spike!

O garoto ficou parado estático na calçada por mais algum tempo, completamente incrédulo do que tinha acabado de acontecer. Perguntou-se se alguém mais teria visto aquela cena, algum carro que passou na rua talvez? Olhou no relógio, 18:12; surpreendeu-se ainda mais, chegaria em casa dali 3 minutos, isso eram 6 minutos a mais do que já chegara em toda sua vida! Estava atrasado para o jantar que nem prepara ainda!

Ainda assim, Spike sentiu-se rir ao chegar em casa. Talvez tivesse vivido o dia mais louco de sua vida até então. Um conjunto de coisas esquisitas tomavam conta de corpo de um jeito caloroso e engraçado, estaria então doente? Sentia-se estranhamente leve, ao olhar-se no espelho da sala constatou que seus cabelos escuros estavam mais desalinhados do que o normal, e as pupilas dilatadas em contraste com as íris castanhas.

Preocupado, engoliu a segunda dose de Abselemox antes do jantar, algo que não costumava fazer. Sentiu-se mais relaxado quase instantaneamente, as sensações esquisitas passaram e ele não riu mais, embora Gaia tumultuasse seus pensamentos de perguntas durante o jantar, e depois o banho, e então roubou-lhe minutos de sono.


Spike sonhou que dirigia uma bicicleta verde, podia quase sentir o vento bater com uma intensidade fora do comum em seu rosto, e usava roupas tão coloridas quanto as de Gaia. Pedalava por toda a avenida vazia, até alcançar o limite da cidade com a floresta, e então se viu voar, e voar, e voar, acima das cidades, para além dos muros, rumo a eterna escuridão. Foi tomado pelo medo de repente, lá embaixo via o mundo, cercado por águas escuras e tempestuosas, que culminavam em castacatas para absimos, seus sons eram tão altos que ele quase não pode se concentrar em pedalar mais. Então, não podia mais se mexer, a bicicleta cedeu a gravidade e se pôs a cair, levando-o junto, em direção as águas frias e cruéis do espaço.

Notas finais
Caso não tenha lido as notas iniciais: é extremamente importante para mim saber a sua opinião sobre a história até aqui, então peço que deixe um comentário sincero. Obrigada desde já!
XO,
Elle.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.