Papeis, livros, eu-lírico e eu te amo
16 Um cara apaixonado
Notas iniciais

— Não poderei te dar atenção, Steve.
Foi a primeira coisa que ele dissera depois de muitos minutos de silêncio. Steve sorriu e fez aquela coisa de entortar um pouco a cabeça para o lado direito que o deixava exatamente parecido com um filhote de labrador e que Bucky achava impossível de resistir. Depois de toda aquela pressa inicial, Steve realmente começara a ir com mais calma, e fora tão bom que aquelas três semanas passaram mais rápido do que os dezessete anos que o Barnes vivera até então. Não era como se nunca mais tivesse pisado na casa do Rogers, o pai do loiro o convidou para o jantar no domingo retrasado e ele não pôde negar, Joseph Rogers era carismático e certamente sabia como convencer as pessoas.
Completamente diferente da última vez, assistira ao jogo dos Knicks na sala com os dois – o que o deixou verdadeiramente curioso, mas julgou que não deveria questionar no meio da partida e acabou se esquecendo de sua dúvida em seguida – logo em seguida jantaram, e Steve fizera questão de levá-lo de volta para casa. Acabavam se vendo todos os dias na escola, claro, era inevitável afinal, mas o tempo que realmente passavam juntos se resumia aos vinte minutos de intervalo ou então nas poucas visitas que se prestavam. Não estava ruim, longe disso, desta forma tinha tempo estendido para poder apreciar as pequenas coisas que jamais tivera oportunidade de apreciar à distância, como, por exemplo, a coloração de seus olhos.
Steve tinha olhos azuis, todos sabiam disso, mas o que eles não sabiam era que os azuis de seus olhos eram exatamente no mesmo tom do lago Seneca quando a luz do sol incidia sobre a superfície num dia de céu limpo. Quem olhava distraidamente, enxergava um tom claro qualquer de azul, e Bucky gostaria muito de dizer a todas essas pessoas que elas estavam erradas, a coloração dos olhos do loiro era diferente e especial. Outra coisa que pudera notar é que haviam duas pintas muito próximas uma da outra em sua bochecha direita, e uma solitária quase na mesma direção na outra bochecha, e aquele trio se conectava em linhas imaginárias em sua mente e transformavam Steve numa constelação bonita de sentimentos que transbordavam e o alcançavam com suavidade.
Steve, que permanecera calado, acabou rindo soprado quando percebeu que a atenção do Barnes continuava em seu rosto e aproveitou o momento para procurar a mão dele sobre a mesa. Era apenas um resvalar de dedos, uma carícia mínima que ele fazia nos dígitos do moreno, mas que acordava todas as coisas que estavam adormecidas em seu estômago. Fazia três semanas que iniciaram aquele relacionamento – fosse lá de qual natureza fosse, decidiram não dar nome ainda, – e todas as vezes na qual o tocava, sentia algo crescente em seu estômago que tinha um sabor conhecido. Certamente sabia o que era, mas preferia guardar para si até ter certeza, se contentaria somente em tocá-lo e aproveitar o momento, era inútil pensar a respeito – e eles definitivamente não precisavam disso.
— Você me disse que não tinha tempo para me dar atenção, no entanto não tira os olhos de mim. – Steve riu soprado, meio abobalhado, porque era isso o que sentia quando era observado através daquelas lentes verdes por muito tempo.
— É difícil não olhar pra você. – Bucky suspirou, estava bem consciente daqueles dedos acariciando levemente os seus sobre a mesa da biblioteca da escola.
— Se quiser que eu pare, eu paro. – Estava falando do toque, Bucky percebeu quando ele desviou a atenção para as mãos unidas sobre a mesa.
— Não pare, está bom assim. – O Barnes suspirou e também começou a mover os seus dedos, retribuindo as carícias do Rogers.
— Estava pensando. – Steve começou. – Hoje é sexta-feira, poderíamos fazer algo à noite.
— Tem algo específico em mente?
— Achei cinema e jantar muito clichê. – Fez uma careta involuntária que arrancou uma risada baixa de Bucky. Steve sorriu com o próprio feito. – Você tem algum problema com locais parcamente iluminados e cheio de coisas antigas?
— O que quer dizer com isso? – Uniu as sobrancelhas.
— Meu pai é o responsável por uma nova coleção de objetos e está com as chaves do museu. – Deu de ombros. – Tenho autorização prescrita para visitar as exposições antes do público, então não é exatamente contra a lei. – Bucky arregalou os olhos.
— Isso não necessariamente significa que deve prestar visitas noturnas, Steve, ficou maluco?
— Você precisa ver o museu à noite, Bucky, é pacífico e bem mais interessante.
— Alguma chance de encontrar o chefe dos hunos andando pelos corredores do museu enquanto tenho que fugir de um esqueleto de tiranossauro rex? – Semicerrou um dos olhos. Steve riu soprado.
— Eu sei que a imaginação proporcionada por Uma Noite no Museu é bem tentadora, mas na vida real as coisas são mais... paradas. – Riu soprado outra vez. – Mas não menos interessantes, isso eu posso garantir.
— Se isso não trouxer problemas para o seu pai e se não me colocar numa situação complicada com os meus, então que mal haverá nisso? – Deu de ombros. – Sim, Steve, podemos visitar a exposição.
— Passo na sua casa às 20h? – O loiro sorria, fazendo o moreno sorrir junto.
— Tudo bem. – Steve segurou a mão do Barnes e selou seus dedos enquanto mantinha os olhos nos esverdeados do outro. – Só tenho uma dúvida. – Bucky começou a falar para disfarçar o momento de desconforto. – Seu pai sabe sobre isso?
— Ele sabia que te convidaria e também sabe que sempre acabo aparecendo pelo museu à noite, então imagino que tenha deduzido o resto. – Deu de ombros.
— Seu pai te deixa ir até o trabalho dele à noite? – Bucky uniu as sobrancelhas, sentindo um calafrio gostoso subir pela espinha quando Steve beijou seus dedos mais uma vez.
— Quando era pequeno, ele me levava até lá. Depois que cheguei numa idade na qual podia sair à noite, passei a ir por mim mesmo. Acredite em mim, o museu é um excelente lugar para se pensar na vida, fiz vários trabalhos escolares por lá, o acervo de pesquisa deles é incrivelmente completo.
— Este é o seu jeito de trapacear, Steve Rogers? – Bucky arqueou uma sobrancelha.
— Talvez. – Steve beijou outra vez os dedos do Barnes e finalmente libertou sua mão. – Vou deixar que termine o seu trabalho, à noite passo para te buscar.
— Tudo bem. – Bucky suspirou e voltou a olhar para a tela de seu notebook. Se sentiu incomodado em seguida, quando percebeu que o Rogers não se levantou para sair. – Aconteceu alguma coisa?
— Eu sei que detesta esse tipo de coisa e por isso preferi te perguntar antes. – Steve começou. – Não tem ninguém por aqui agora e o bibliotecário não está exatamente prestando atenção na gente, eu posso te dar um beijo de despedida antes de voltar para a sala de aula?
Bucky engoliu em seco. Eles não mantinham contato físico em público a seu pedido, porque se sentia desconfortável, porque não gostava de ser o centro das atenções e porque achava desnecessário ter o mundo assistindo ao relacionamento deles, mas ele nunca disse que o Rogers não podia fazer de jeito nenhum. E pensando nisso, ele percebeu que havia muitas coisas a serem resolvidas entre eles, e havia muitas coisas a serem discutidas também. Suspirando derrotado e soltando um riso abafado, ele mesmo segurou a nuca de Steve e selou seus lábios, sorrindo tão logo se afastou.
— Você sempre pode quando não tem uma multidão por perto, te disse que não sou averso a contato físico, eu só não gosto de ser palco para que outros fiquem me assistindo.
— Deveria se acostumar, porque você é um belo palco e eu adoro poder te assistir. – Steve sorriu e acariciou seu rosto. – Vou indo na frente, nos vemos mais tarde.
— Tchau, Steve.
— Até logo, Bucky. – Piscou para o moreno e se retirou.
Caminhou por toda a biblioteca calmamente até a saída, aproveitando para lançar um sorriso confiante para o garoto que não aparentava ter mais de vinte anos. Sabia que ele tinha assistido à cena, assim como sabia que, pelas regras da escola, demonstrações públicas de romance não eram permitidas, mas o gosto da novidade e a adrenalina pelo novo eram bem mais doces e tentadores do que obedecer um pedaço de papel estúpido. Steve queria aproveitar ao máximo aquela parcela de sua adolescência e não se importaria se fosse punido para tanto. O garoto na recepção pareceu não se importar com nada, e o loiro agradeceu em silêncio pelo ato generoso quando atingiu a porta de entrada.
No corredor, Steve procurou desviar daquele aglomerado de pessoas andando em todas as direções, caminhando para suas salas ou até mesmo para longe delas, estava avoado demais para prestar atenção em quem ia à sua frente quando, de repente, esbarrou sem querer em uma delas. Sorriu amistoso quando viu que se tratava de Sam.
— Hey, tava te procurando, cara. – Ele começou antes mesmo de se desculpar pelo encontrão.
— Aconteceu alguma coisa?
— Naah, só queria saber se já realizou seu teste vocacional, parece que os professores ficaram malucos com essa história e começaram a nos encher para fazer logo essa droga de prova.
— Ainda não pensei no que quero fazer depois da escola. – Steve respondeu após ter ponderado por um breve momento. – Tô meio que indo com o fluxo.
— Já sabe o que o Barnes fará?
— Não pensei em perguntar. Sei lá, é meio chato ficar questionando esse tipo de coisa quando temos coisas mais interessantes para fazer.
— Sei, coisas mais interessantes... – Sam zombou, vestindo um sorriso malicioso.
— Apesar de estudarmos juntos, quase não nos vemos fora dos portões da escola e aqui é meio difícil ficarmos realmente juntos, é claro que quero gastar cada segundo que temos beijando Bucky, e nem adianta fazer chacota disso, porque é verdade mesmo. – O loiro deu de ombros, enterrando as mãos nos bolsos da calça.
— Não estou fazendo chacota, só acho engraçado ter se tornado tão romântico de repente. – Sam também deu de ombros.
— Sempre fui romântico, qual é? – Steve riu soprado.
— Dylan que o diga, não é mesmo? – O garoto arqueou uma sobrancelha, zombando outra vez.
— Cala a boca, Wilson. – Steve riu. – Vem, vamos logo para a sala de aula antes que eu te espanque.
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