Papeis, livros, eu-lírico e eu te amo
7 Discursos vexatórios
Notas iniciais
Steve trouxe da cozinha alguns lanches quando achou que já era tarde o suficiente para estarem de estômago vazio e se sentou à mesa de seu computador enquanto Bucky ainda insistia em continuar sentado em seu tapete. Segundo o Barnes, soaria uma invasão de intimidade se sentar em sua cama e ele não gostaria de cruzar essa barreira porque se conheciam há pouquíssimo tempo. Steve achou adorável, mas guardou para si mesmo. Enquanto isso, Bucky se concentrava nas correções e em seu sanduíche de geleia e manteiga de amendoim como se o mundo lá fora fosse um detalhe desinteressante.
Teve sua atenção distraída pelo toque do celular do loiro, o que o fez desviar a seus olhos para o mínimo sorriso que Steve dava para a tela de seu telefone. Fazia um tempo desde que Bucky o vira em um relacionamento, mas imaginava que alguém como Steve Rogers não ficaria sozinho para sempre. Era óbvio que não ficaria, ele era Steve Rogers afinal. Poderia não ser o capitão de nenhum dos times da escola, mas isso não fazia dele uma pessoa menos interessante. Isso ele jamais seria. Bucky suspirou baixinho e voltou a dar atenção às suas correções.
— Acho que já está bom por hoje, certo? – Steve o estava encarando com aquele mesmo sorriso do celular. Era um sábado, claro que ele tinha algo mais interessante programado para fazer à noite, no que Bucky estava pensando?
— Ah, sim. – Bucky fechou seu caderno e começou a desligar o seu notebook ao mesmo tempo em que jogava o material todo dentro de sua mochila de qualquer jeito. – Acabamos nos empolgando, eu já corrigi toda a sua parte, depois envio uma cópia para o seu e-mail e qualquer nova alteração nós realizaremos por lá, ficará mais fácil manter somente um arquivo a partir de agora. – Ele se levantou, encarando Steve. – Envio o arquivo assim que estiver em casa.
— Ei, Bucky. – Steve se levantou e levou aquele bendita mão para sua nuca outra vez. – Você tem algo programado pra hoje à noite?
Bucky arregalou levemente os olhos e ficou em silêncio por um instante. O que Steve Rogers estava fazendo agora? Aquilo estava mesmo acontecendo? Ele pigarreou antes de responder.
— Estava planejando reler O Morro dos Ventos Uivantes. – Deu de ombros. Não queria ter soado tão babaca, mas também não gostava de mentir. Steve riu soprado e ele sentiu vontade de se jogar da primeira ponte que encontrasse no caminho.
Mas o Rogers o achava cada vez mais encantador. Ele e a sua honestidade. E a sua inteligência. Ah, sim, sua inteligência era totalmente cativante. Steve aumentou o sorriso.
— Você poderia abandonar Emily Brontë por hoje e me acompanhar até um lugar?
— Que lugar? – Ele finalmente recobrou seus sentidos e jogou sua mochila nos ombros.
— Você já me disse que não faz muito o seu estilo, mas vai acontecer uma festa na casa de um conhecido e eu gostaria muito que fosse comigo. Se você quiser, claro.
— Eu não sei. – Bucky mordiscou o lábio inferior e desviou sua atenção.
Quando ele disse que trocava qualquer coisa por uma noite de leitura, não exagerara nem um pouco. Bucky odiava música alta e lugares lotados, ele odiava festas mais que qualquer outra coisa. Nunca havia nada de produtivo que pudesse vir de uma, ele achava que era um desperdício de tempo e paciência. Achou que seria melhor se dissesse a verdade a Steve.
— Não sou uma boa companhia em festas, eu não danço e não bebo, também não gosto de lugares lotados e de música alta. Provavelmente ficarei encostado no primeiro sofá que vir assim que chegar lá e você vai acabar se arrependendo de ter me convidado.
— Bom, você soa exatamente como alguém que eu conheço. – Ele colocou as mãos na cintura.
— Quem?
— Eu. – Ele riu soprado. – Não sou a pessoa mais empolgada do mundo com festas, eu queria uma companhia só para que não seja obrigado a dançar, porque seria uma catástrofe se eu fizesse isso. – Bucky riu soprado. – Então? Você me acompanharia para poder salvar a minha pele nessa? – E Steve fez uma expressão tão fofa que Bucky se achou ridículo por não conseguir encontrar nenhum outro adjetivo além desse para defini-la.
— Claro, eu vou. – Sorriu um pouco. Iria até o fim do mundo depois daquela expressão.
Mais tarde naquele dia, na proteção de seu quarto, encarando suas roupas em seu guarda-roupa, Bucky suspirou derrotado. Aquela havia sido uma péssima ideia, onde estava com a cabeça? Ah, sim, naqueles benditos olhos azuis que pareciam existir com o único propósito de tragar sua alma cada vez mais fundo enquanto ele sequer se esforçava para exercer alguma resistência. E também naquele sorriso de dentes perfeitamente brancos que era o mais bonito de toda a existência humana, ele tinha certeza disso.
Suspirou derrotado outra vez.
Sequer sabia o que um adolescente vestia em uma dessas festas, procurava evitar até passar em frente a uma para não correr o risco de ser puxado desavisadamente para a boca do inferno. Desistindo de apelar para o seu lado fashionista – que certamente viera com defeito naquela encarnação – pegou o celular da mesa de estudos. Natasha poderia muito bem ajudá-lo a escolher algo meramente satisfatório dentro daquele guarda-roupas cheio de camisetas com referências literárias.
— O que aconteceu, traça com cabelos compridos? – Ela certamente estava jantando, ouvia o som do mastigar enquanto falava.
— Nat, eu preciso mesmo da sua ajuda agora. – Suspirou irritadiço, levando a destra aos olhos. Eu não acredito que vou pedir isso a ela, pensou.
— E o que aconteceu, Bucky? Algum dos seus personagens favoritos morreu?
— Não. – Suspirou outra vez. – Eu preciso que me escolha uma roupa decente para vestir.
— O quê? – Ela riu soprado. Bucky se arrependeria até o final de seus dias.
— Você vai escolher a droga de roupa ou vai ficar rindo da minha cara, Natasha?
— Qual é a ocasião?
— Eu preciso mesmo te dizer? – Cara, ele iria se arrepender tanto no futuro.
— É claro que precisa. – Ele tinha certeza de que ela sorria diabolicamente do outro lado da linha, podia ouvir o sorriso em seu timbre. Ele bufou.
— Uma festa, Natasha, você pode me ajudar antes de começar com as suas merdas? – Revirou os olhos. Deveria ter pedido ajuda à sua mãe, ela pegaria mais leve.
Bucky aguardou a amiga gargalhar do outro lado da linha e se recompor, desculpando-se em russo com alguém que imaginou ser a sua avó. Agora ele sabia o motivo de ela não ter comparecido às aulas naquele dia, quando sua avó paterna vinha da Rússia visitá-la, Natasha preferia passar o dia ao lado da senhora de 78 anos a fazer qualquer outra coisa. Depois de incontáveis minutos, ela finalmente começou a falar.
— Eu não posso ir até a sua casa agora, mas conheço o seu guarda-roupa de cor, ele é o mesmo desde a sétima série. – Parou para tomar alguma coisa. – Use qualquer calça jeans com aquela sua camiseta preta com o ABC dos autores e aquele seu All Star preto muito bem cuidado. Minimalista e charmoso, exatamente como você, meu bem. E não se esqueça de me contar exatamente como foi a sua festa e se ele beija bem.
— Ele quem? – Bucky uniu as sobrancelhas.
— Steve Rogers, ora! Eu duvido que a festa tenha sido ideia sua. – Ela riu quando ele bufou.
— Obrigado pela ajuda, agora você já pode ir se foder, Nat. – Revirou os olhos e desligou a chamada.
Bucky retirou as peças de seu guarda-roupa e seguiu para o banheiro antes de descer para jantar. Tomou um banho rápido, não queria correr o risco de deixar Steve o esperando, caso ele resolvesse aparecer antes do horário combinado. Quando desceu todo arrumado, a mãe arqueou uma sobrancelha em sua direção e ele se arrependeu novamente de ter contado anos atrás que era apaixonado pelo loiro. Sentou-se em silêncio e ela se sentou logo à sua frente. Bucky se dedicou ao seu prato de comida enquanto a mulher sorria.
— Tudo bem, você pode falar, mãe, eu sei que está louca para fazer um comentário que me deixará vermelho pelo resto da noite. – Ele revirou os olhos, sorrindo levemente para a matriarca.
— Nunca o vi tão arrumado para passar a noite lendo em seu quarto, por acaso vai sair? – Ela arqueou novamente uma das sobrancelhas, sorrindo de viés.
— Steve me convidou para ir em uma festa, não volto tarde.
— Não tem problema ir para uma festa, mas você sabe que, na condição de mãe, serei obrigada a recitar o meu discurso mais embaraçoso, não é mesmo? – Ela manteve a sobrancelha arqueada, utilizando um timbre que indicava que estava aparentemente bem mais empolgada do que realmente deveria estar.
— Mãe, é sério, não precisa, não vai acontecer absolutamente nada. – Bucky começou a tossir, desesperado.
— Eu não sei... vocês são adolescentes... vão sair sozinhos num sábado à noite... – Ela zombava. – Não sei se devo confiar em vocês assim.
— Mãe, por favor. – Ele pediu, sentindo as bochechas queimarem levemente.
— Seu pai vai dizer se eu não disser, você sabe disso, não sabe? – Ela arqueou a sobrancelha mais uma vez. – Melhor que eu diga, não é mesmo? Você é um péssimo mentiroso, não vai conseguir sair sem dizer a ele que eu não o adverti.
— Mãe. – Ele escondeu o rosto na canhota enquanto se arrependia por ter aceitado ir naquela droga de festa.
— Prometo não ser detalhista, me deixe exercer o meu papel de mãe pelo menos uma vez, você nunca sai de casa para que te passe um sermão ou um discurso vexatório. Não estrague a minha noite, James, vivi a minha vida toda só para te deixar embaraçado no seu primeiro encontro. – Ela se divertia com seu desespero, Bucky conseguia identificar naqueles olhos tão verdes quanto os seus. Ele suspirou e a encarou seriamente.
— Vá em frente, eu não conseguirei impedi-la mesmo. – Ela sorriu vitoriosamente.
— E por onde devemos começar...? – Ela dava batidinhas de leve em seu lábio inferior. – Camisinha! – Pareceu escolher a pior das opções para começar aquele assunto que ele já conhecia de cor. Bucky grunhiu.
Aquela fora a pior ideia da sua vida, deveria ter escolhido ficar em casa.
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