Papai... Noemi? [CcL 15]
1 Eu sou um Papai Noel - Capítulo Único
Notas iniciais
Beijos de Mel ^^
Quando as decorações de Natal começaram a aparecer nas lojas e casas, percebi que não teria mais como fugir. Sem poder reclamar, deixei a minha confortável casa em Helsínquia* para ir à Joulupukki*, no Polo Norte.
Nunca é uma viagem fácil; é mais frio que qualquer lugar habitado por humanos no planeta, além de Joulupukki ser um lugar que não consta em nenhum mapa ou GPS. Acredite, nenhum aeroporto vai garantir voos para lá.
Mas com um pouco de esforço – e, talvez, um pouquinho de magia – , eu consegui chegar lá. Quando eu pisei na neve espessa em frente à fábrica pela décima vez na minha vida, não pude deixar de sentir o mesmo fascínio que senti aos meus sete anos, quando fui lá pela primeira vez. Um imenso prédio colorido, destoando-se da imensidão branca ao redor, com várias torres postas em lugares aleatórios e que expeliam glitter dourado e vapor ao invés de fumaça. Jouluppuki, ou mais conhecida como a Fantástica Fábrica de Brinquedos do Papai Noel, era tão imensa que, dentro dela, caberia uma pequena cidade.
Assim que pus os pés no hall de entrada, um bando de criaturinhas que não passavam da altura do meu joelho me cercou, fazendo tanto rebuliço que eu quase podia sentir as paredes da fábrica vibrando com o barulho e a agitação.
— Senhorita Noemi, você está atrasada! – gritavam os duendes, puxando a barra da minha calça e me arrastando até uma porta gigante no lado oposto do saguão. – Nós fizemos todo o trabalho!
Fiz cara de quem se desculpa, mas eu me atrasava sempre, de propósito. Fabricar brinquedos era um pesadelo para mim, então eu deixava a maior parte para aqueles serezinhos esquisitos que, não importava quantas vezes eu os destratasse, sempre seguiam as minhas ordens e faziam o trabalho que eu deveria ter feito. Mesmo assim, não é possível que o Natal se realize sem a presença do Papai Noel, então eu precisava ir.
Oh, desculpe-me. Você, leitor, deve estar confuso. Você certamente deve conhecer o Papai Noel: um sujeito roliço, de barbas brancas e roupa vermelha, que vive no Polo Norte e dá presentes às crianças boas e carvão às más.
Há muito tempo atrás, existiu um senhor assim. Seu nome era Nicolau – não o santo católico, que dava moedas às pessoas pobres; esse aí nunca teria sido santificado depois de morrer se tivesse chegado até onde o outro Nicolau chegou. E quando eu digo onde ele chegou, quero dizer no conhecimento sobre o mundo da magia – um dos maiores tabus na Igreja.
Cheguei em um salão amplo, cheio de máquinas esquisitas, andaimes, esteiras rolantes e duendes circulando. Passei por uma sessão onde um duende estava sentado em cima de um trem de brinquedo, deslizando velozmente pelos trilhos. Quando ele passou por mim, agarrei sua orelha pontuda e ergui-o na altura do meu rosto.
— Sem brincadeiras no serviço, tampinha. – Recebi de volta um olhar mal-humorado. Acho que eu não tinha muito direito de criticá-los, afinal, eu só trabalhava uma ou duas semanas, enquanto os duendes trabalhavam trezentos e sessenta e quatro dias por ano. O único dia de folga era, por algum motivo, no Réveillon.
Eu tinha a opção de ficar o ano inteiro também; ou alguns meses, o que os outros Papais Noéis ao longo da História geralmente faziam. Mas eu tinha uma vida que queria levar na minha cidade natal.
Todo final de ano eu era infernizada por causa de Nicolau. Aquele velho maldito que viveu séculos antes de mim resolveu se inspirar na velha crença popular de que crianças boas são recompensadas e as más, punidas, para tornar isso seu objetivo de vida.
Segundo a história que os duendes me contaram há muito tempo atrás, Nicolau aprendeu magia, mesmo correndo o risco de ser perseguido pela Igreja Católica, e viajou para o norte da Europa. Lá, ele encontrou os duendes selvagens e, segundo os mesmos, “educou-os e tornou-os seres civilizados, os quais devem eterna gratidão a ele”. Ou seja, o velho sequestrou os duendes e escravizou-os sem que eles se dessem conta disso. Esperto.
Fingi inspecionar uma série de bonecas de porcelana em que duas duendes fêmeas discutiam sobre que vestidos colocar nelas. O trabalho de um Papai Noel era supervisionar tudo aquilo e, no caso dos mais habilidosos, construir brinquedos também. Mas os duendes já faziam um excelente trabalho sozinhos, e eu não era nem um pouco habilidosa, então por que eu era necessária?
Nicolau fez muitas coisas inimagináveis; desenvolveu magias estranhas, domesticou as renas do Norte e as ensinou a voar, até mesmo chegou a contribuir com um ou outro ritual mágico para o Yule, de presente aos poucos celtas que restaram na Europa.
Mas ele era humano. E humanos não são imortais. Antes de morrer, Nicolau lançou um feitiço sobre a humanidade – ou, talvez, uma maldição. Sempre haveria alguém no planeta que continuaria o que ele começou. Independentemente das circunstâncias, ao menos uma criança no mundo ganharia um presente de Natal do Papai Noel.
Desde então, a cada geração que passava, surgia um Papai Noel. Aos meus sete anos, no Natal, ao invés de presentes, eu ganhei uma trupe especialmente irritante de duendes que me veneravam e explicaram-me tudo isso. E que eu nasci com algum tipo de marca em mim, que selava o meu destino: todo Natal, eu precisava viajar ao Polo Norte e entregar presentes.
Papai Noemi. Ridículo, mas é a verdade.
Surpreendentemente, aquelas semanas passaram voando enquanto eu fingia saber o que eu estava fazendo ao dar ordens aos duendes, torcendo para não arruinar o Natal de alguma criança no mundo por um erro de cálculo. Talvez – só talvez – eu estivesse me divertindo.
No dia vinte e quatro, empacotamos todos os presentes e colocamos todos dentro de um saco de tecido puído, de aspecto absolutamente comum, mas que na realidade não tinha fundo. Mais uma das invenções estranhamente úteis de Nicolau – não era muito fácil armazenar em um trenó os presentes de todas as crianças do mundo.
Então, finalmente, quando eram onze e cinquenta e nove da noite, o trenó levantou voo, comigo e mais um punhado de duendes junto.
Muitas vezes, se perguntam como o Papai Noel consegue levar presentes à todas as crianças do mundo em tão pouco tempo. A verdade é que, quando é meia noite, o tempo para nós, Papai Noel, duendes e renas, se torna mais lento. Enquanto para o resto das pessoas se passa apenas um minuto, para mim são várias e cansativas horas procurando os presentes certos e deixando-os nas casas certas.
Depois que todos os presentes foram entregues e o tempo voltou a correr normalmente, as renas começaram a fazer o percurso de volta; seus focinhos vermelhos estavam se apagando por causa do cansaço. No caminho de volta a Joulupukki, olhei para fora do trenó e vi as casinhas com luzes acesas e decorações de Natal enfeitando os telhados passarem por baixo de mim. De relance, vi uma garotinha abraçar um urso de pelúcia com um laçarote de fita no pescoço, com um enorme sorriso no rosto.
Sorri. Eu ainda não entendia qual era a minha utilidade no Natal mas, talvez, ser o Papai Noel não seja tão ruim assim.
Notas finais
*Joulupukki é o Papai Noel na Finlândia (significa, literalmente, "Cabra do Yule", a comemoração celta correspondente ao Natal) #LadyLanaiTambémÉCultura
Enfim, essa é a minha décima contribuição pro CcL. Viva! o/ e que venham mais dez u.u
Beijos de Mel ^^
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