Papa Shion
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Notas iniciais
Papa Shion
POV Shion
Meus filhos foram passar o final de semana fora, o dinheiro que eu dei de presente de casamento fora o suficiente para pagar a festa e cobrir os rombos que Milo fez de maneira absolutamente irresponsável. Porém, preciso dizer que fiquei bastante satisfeito ao ver que eles não esbanjaram numa lua de mel, vez que estavam com as finanças comprometidas, indo passar apenas um final de semana longe na minha casa de campo.
Obviamente, não contei ao Camus a presepada de Hyoga no casamento, decidindo deixar para o retorno deles. Assim, deixei a punição de Ikki para depois e combinei com Shaka e Mu para que realizássemos uma conversa conjunta com todos a fim de fazer os adolescentes colocarem seus sentimentos de uma maneira mais produtiva.
Já eram quase duas da manhã, era sábado e eu estava em meu escritório. Muita papelada havia se acumulado, não por culpa de Camus, mas as coisas estavam intensas administrativamente naquela época de crise na Grécia. Quando dou por mim sinto uma mão no meu ombro, era ele.
— Oi meu amor...
— Oi Dohko.
Um beijo de leve sela nosso encontro, ele me olhava preocupado, estava trajando sua armadura. Na certa devia estar treinando Shiryu até altas horas, como gostava de fazer quando era treinos nos rios para inverter as águas. Dizia que de noite as águas eram mais difíceis de domar em função da influência lunar.
— Você não acha que anda trabalhando demais, Shi?
— E, você, Dohko, não acha que anda trabalhando demais?
Ambos sorrimos como velhos amigos que éramos. Velhos amigos, velhos amantes. O casamento de Camus me deixou bastante nostálgico, para nós a vida não foi tão boa quanto para eles. Na idade de Camus e Milo estávamos numa batalha de vida e morte onde perdemos quase todos os nossos amigos. Éramos solitários, ambos, lobos solitários amargurados por um passado que nos perseguia.
Se não fosse Dohko, talvez eu não tivesse conseguido seguir em frente. E creio que se não fosse eu, ele também não teria prosseguido. Era duro para nós suportar a bagagem emocional que carregávamos, depois de vermos tanta morte e devastação, mas precisávamos seguir em frente – por nossos filhos e netos.
Passamos alguns momentos nos olhando, eu não precisava de palavras ou pensamentos lidos para entender Dohko. Apenas seu olhar bastava, ele estava exausto, cansado e preocupado comigo.
— Sabe ariano, não preciso ler pensamentos para entender você.
Revirei os olhos.
— Vamos libriano, vamos dormir.
Fomos cada qual para a sua casa. Dohko e eu nos contentávamos com pouco, não precisávamos de muito contato físico, que só ocorria quando realmente não havia ninguém por perto. Nossas vidas sofridas haviam nos ensinado a aproveitar o pouco de tempo alegre que nos era dado em conjunto. Pela minha posição e pela posição dele, aprendemos a não nos mostrar em público.
Mas não passávamos sequer um dia sem nos ver ou nos falar. Dohko era parte de mim, parte integrante de mim, e eu dele. Mas não precisávamos de rótulos ou nada do tipo, nossos sentimentos bastavam. Ele havia sido o único homem que conheci na vida e eu o único homem da vida dele, não precisávamos de mais que isso.
Cheguei em casa, avistei Ikki dormindo no sofá. O carreguei delicadamente para a sua cama, abrindo a porta do quarto com meu pé. Ele deitou tranquilo, como se a vida fosse tranquila. Eu sorri satisfeito me lembrando que graças aos nossos esforços esses garotos podiam viver em tranquilidade.
Abri a porta do quarto de Saori que estava entreaberta. Ela mais uma vez estava quase sem roupas, apesar dos meus avisos. Revirei os olhos e a cobri com seu cobertor, daquele jeito ela acabaria se resfriando.
Saori era bastante petulante, muito mais que imaginei quando me responsabilizei por ela. Ikki foi mais fácil de colocar nos eixos do que eu pensei. Mas ambos exigem atenção constante e uma educação bastante estrita. Tentava me lembrar do passado, com a certeza de que Minu, Camus e Mu me davam menos trabalho do que esses dois.
Fui tirando minhas roupas para entrar no banho, parei para me olhar no espelho por um momento. Apesar da idade, eu tinha os músculos bastante definidos. Nem podia acreditar que o tempo parecia que não passava para mim... Bem como para Dohko. Ah Dohko...
O domingo transcorreu bem. Eu estava cuidando das crianças com olhar severo, Shun estava por perto e me preocupei de Hyoga e Ikki se excederem. Mas não... Estava tudo bem. Vi Dohko, então, passar por nós com Shiryu e Shunrei que estavam se provocando com empurrões. Ele me olhou discretamente, eu evitei o contato visual.
Estar tutoreando Ikki me fez ter menos tempo nos últimos meses, mal nos víamos e quando nos encontrávamos era algo muito rápido. Mas fazer o que, ossos do ofício. Tínhamos coisas mais importantes com o que nos preocuparmos.
Eu só não via a hora de conseguir escapar com ele uns dias para minha casa de campo. Lá podíamos ser livres, como sempre fazíamos. A verdade era essa, só conseguíamos realmente nos relacionar em viagens. Por isso várias vezes eu tentava nos mandar para fora do Santuário ao mesmo tempo.
Naquela noite, eu estava sentado em minha varanda lendo um livro. Estava com insônia, e o ronco de Ikki me atrapalhava um pouco. Naquele momento fiz uma anotação mental de leva-lo a um otorrinolaringologista, aquilo não podia ser normal.
Foi quando ouvi alguém me chamando em pensamento, sorri olhando para o lado. Essas surpresas não eram comuns, mas eram três da manhã. Ele também não conseguia dormir. Passamos algum tempo olhando o céu estrelado, ele de longe e eu da rede onde lia. Suspirei pesadamente e caminhei até ele.
— Que honra sua visita, meu amigo.
Ele sorriu da minha cordialidade, mas entendia minha preocupação.
— Está um clima estranho para dormir hoje, e esse barulho de grilos está insuportável... Tivemos alguma desordem climática? Tem grilos para todos os lados... Nunca vi nada assim na vida.
Ele estava certo, algo estava estranho com o ambiente. Havíamos há tempo experimentando algumas mudanças climáticas e experiências animais e de insetos que nunca tínhamos passado.
— Seria o el nino?
Levantei a sobrancelha, pensando em Saori e seu cetro. Mas não, ela não faria nada escondida de mim com o cetro. Mas fiz uma anotação mental de redobrar a atenção, o cetro sendo usado de maneira errada causava esse tipo de efeito colateral.
— Posso saber o que se passa nessa cabeça ou a reunião é particular?
Eu ri baixo, Dohko sempre se incomodou com meus diálogos internos demorados. Não sabia ao certo o que ele vira em mim, vez que eu sempre fora assim, nada aberto. Muitas vezes eu ria, pensando em como eu e Camus éramos parecidos em alguns aspectos... É, a fruta nunca cai muito longe da árvore.
— E a conversa com você mesmo continua, não é?
Ambos rimos. De repente parei, algo estava me perturbando e eu não sabia o que era. Ele olhou para mim confuso.
— Há algo errado...
Dohko, em sua calça de sarja e camiseta branca assumiu uma postura defensiva me questionando o que estava acontecendo em pensamento.
Olhei para a minha casa, caminhando. Eu não ouvia mais os roncos altos de Ikki. Ele não estava lá para a minha completa preocupação. Apesar de saber que o menino andava na linha, quando se tratava desse leonino eu sempre me preocupava. Em que pese eu tenha o controlado, qualquer coisa era suficiente para ele se rebelar ou até... Será que meu menino tornaria a usar drogas?
Aquilo me causou um nó na garganta. Saori estava dormindo, Isaak também e Hyoga também. Espere... Corri até a cama de Hyoga e puxei o lençol, eram travesseiros. O que raios esses dois estavam aprontando?!
Dohko me olhava.
— Ikki e Hyoga estão aprontando, não estão nos quartos.
— A essa hora?!
— Sim. Não sei mais o que fazer... Eles não têm limites, não têm respeito nenhum. Deixei passar na festa para esperar Camus chegar, mas dessa vez não passa.
Peguei uma palmatória e sai andando pelo Santuário junto com Dohko. De certa forma aquela situação tinha um lado bom: eu e Dohko podíamos caminhar juntos, vez que tínhamos um pretexto. Uma pena que eu estava realmente preocupado, embora não muito, sabia bem o que eles deviam estar fazendo e não muito longe.
Passamos hora andando sem parar e nada dos meninos. Aquilo começou a nos perturbar, sendo que o amanhecer chegava e nada dos dois. Ainda bem que Dohko estava me ajudando. Ao longe ouvi gritos me chamando.
— Pai!
Era Camus. Ah, ele mal havia chegado e eu tinha que dar péssimas notícias. Parecia que nós não tínhamos um minuto de sossego com aqueles adolescentes.
— Mestre Dohko— Camus cumprimentou com uma pequena reverência com a cabeça, aquele era meu filho.
— E aí o da balança!— Milo chegou batendo nas costas de Dohko, me fazendo revirar os olhos. Aquele não tinha sido completamente educado por mim. Pelo menos Dohko o fuzilou com os olhos como quem exige respeito, embora eu saiba que no fundo ele se diverte com o Milo.
Camus, então, notou a palmatória na minha mão. Levantou uma sobrancelha e me questionou.
— Preciso me preocupar?
— Notei que Ikki e Hyoga sumiram durante a madrugada.
— Mas será possível!
Vi Camus praguejar e levar as mãos aos cabelos nervoso. Não queria ser portador de más notícias.
— O senhor já tentou ligar para o celular dele?
— Sim, de ambos. Não atendem, mas não o deixaram em casa.
Vi Camus discar para Hyoga e depois mandar uma mensagem enfurecido.
— Camus, Shion, Milo...— Falou Dohko – Vejam, os meninos saíram juntos, os carros estão aqui, eles não deixaram o Santuário. Creio que seja melhor esperar eles voltarem.
Eu olhei para o meu companheiro, era verdade. O melhor a fazer era aguardar, estava exausto e andando há horas. Camus esperava meu comando, o que me incomodava um pouco na minha relação com Dohko ser às escondidas era que Camus nunca deu a ele o peso e consideração que eu queria que desse. Mas eu não podia fazer nada.
— Dohko tem razão. Vão para a casa de vocês e aguardem, desfaçam as malas e relaxem. Eles estão bem. Nós vamos procurar mais de qualquer forma.
Vi meus filhos obedecerem e eu e Shion caminharmos pelas planícies. Num relance vimos o nosso local de refúgio quando não conseguíamos viajar para longe do Santuário. Uma pequena casa de ferramentas na ala sul do local, que tinha dois cômodos. Ninguém nunca aparecia por lá, era onde conseguíamos estar juntos quando não dava mais para aguentar.
A vontade de entrar lá passou pelas nossas cabeças, mas tínhamos trabalho a fazer, qual seja, encontrar aqueles dois moleques. Ao longe avistei Minu chegando num taxi, estreitei os olhos e Dohko percebeu que algo estava errado.
— Preciso falar com ela.
— Ok, vou continuar procurando os garotos.
Dohko rapidamente se afastou, acostumamo-nos a colocar nossos filhos sempre em primeiro lugar. E naquele momento eu queria entender onde raios aquela garota havia se metido, que não chegou na hora para o casamento do irmão e faltou ao trabalho por dois dias.
— Minu.
— Mestre Shion.
Ela disse olhando para baixo, seus pensamentos contrastavam com aquela postura submissa. A verdade é que eu não queria invadir seus pensamentos, mas eu o faria, se necessário fosse. Ele me olhou preocupada.
— Vou te dar a chance de me dizer, por si só, o que tem acontecido com você?! Você sempre foi meu braço direito aqui, a mais centrada desse Santuário inteiro e agora vem me evitando e faltando com os seus compromissos.
— Acho que mereço um desconto, faz anos que não tiro férias, “mestre”.
Minu foi mais petulante do que eu permitiria em qualquer momento, falando comigo como quem cobra direitos de um superior qualquer. Onde ela estava pensando que estava? Quem ela estava pensando que era? Aliás, o que raios estava acontecendo? Eu estava completamente perdido.
— Minu, posso saber o que raios está acontecendo com você?
Eu tinha o cenho franzido, Minu não havia me afrontado daquela maneira nenhuma vez na vida. Ela revirou os olhos, e eu me segurei. O que raios estava acontecendo com a minha garota?
Ao longe ouvi um grito, era Dohko dizendo algo como “o que está acontecendo aqui?”. Me virei na hora, ouvindo algum tipo de confusão enquanto Minu aproveitou para me deixar falando sozinho.
A deixei ir, e segui o som da baderna que estava ouvindo, era Ikki, Hyoga e Shun gritando pelo o que eu podia entender. O que eles estavam aprontando agora? Uma briga, claro! Quando percebi, Dohko estava segurando Shun pela orelha, enquanto empurrava Hyoga com uma perna e puxava o colarinho de Ikki.
Cheguei, peguei Ikki pela orelha e fiz sinal para que Dohko me seguisse com os outros dois. Aquela situação seria colocada em pratos limpos naquele segundo. Aproveitei minha mão livre.
— Mu, chame Shaka e me encontre na casa de Camus agora. Estou com o Shun.
Pensei melhor, e liguei para Minu também, que atendeu após minha insistência.
— MINU, PARA A CASA DO COMUS AGORA.
— Mas mestre, eu...
— EU DISSE AGORA.
E desliguei. Aquela família estava fora de controle, era hora de deixarmos algumas regras claras e colocarmos alguns pontos nos respectivos ís.
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