Papa Shion
24 Sua palavra
Notas iniciais
Saori estava isolada na torre do Santuário. Não recebia visitas e era vigiado por cavaleiros dourados o tempo todo, o que quase não a incomodava em virtude do estado de seu mestre. A menina jamais pensou que se afeiçoaria tanto a uma figura quanto a dele. Fora criada por Mitsumasa Kido, quem lhe dera o sobrenome e toda a sua fortuna.
Porém, o Sr. Kido apenas mimou Saori, nunca a educou, nunca colocou limites. Pelo contrário, ensinou que havia uma legião de cavaleiros para lhe servir de forma irrestrita. Se não fosse o contato mais próximo com o Santuário, continuaria aquela pequena tirana. E ela devia toda a sua evolução principalmente à figura de Shion.
De certa forma já nem temia por sua punição, pelo contrário, daria a vida para que Shion voltasse. Ela se culpava por ter Shion naquela situação, afinal, se não pegasse o cetro...
Foi quando ouviu uma batida na porta.
— Saori?
Era Shunrei, sua melhor amiga. Elas mal se falavam depois que tudo aconteceu.
— Minha amiga... Eu não sei como me desculpar com você...
— Saori, eu avisei que o manuseio do cetro deveria parar... E você não me ouviu.
— Você estava certa Shunrei. Se eu pudesse voltar no tempo... Mas não posso.
— Eu sei... Eu nem deveria estar aqui, mas as coisas ficaram estranhas entre a gente.
— Seu mestre ainda não te deixa falar comigo? Ele foi muito duro com você?
— Na verdade meu mestre nem falou comigo, ele vive no hospital agora... Ele está preocupado demais para pensar em qualquer coisa que não seja o seu mestre.
— Você acha que ele vai permitir que a gente volta a se ver?
— Você foi muito corajosa se arriscando, Saori. Ele costuma valorizar essas coisas. Além disso, acho que vai ficar tudo bem depois que seu mestre conversar com você e...
Shunrei parou de falar, temerosa por Shion nunca mais voltar.
oOo
Shaka corria desesperado pelos corredores e escadarias do hospital. Não conseguira entender ao certo o apelo desesperado de Milo e Camus que diziam para vir rápido ajudar o Mu. Rezava em silêncio pelo bem-estar de seu amado, certo de que aquela família não aguentaria mais tragédias.
Chegou e encarou desesperado a cena que se descortinava à sua frente: Dohko caído no chão inconsciente, Shion que prosseguia em seu coma e Mu que estava convulsionando de forma leve e com o nariz sangrando bastante.
— O que foi que vocês fizeram aqui?
— Shaka, tentamos acessar o mestre Shion através do Mu. Ele colocou Dohko lá, porém agora parece que ambos estão presos e Mu está dessa maneira...
— Mas que ideia perigosa! A mente de Mu não é párea para a de Shion, nem mesmo a minha consegue acessar, tamanho o poder dele. Alias, Shion treinou Mu, o que denota sua superioridade. Se ele quiser ficar lá e prender todos, ele pode. Aliás, eu já havia pensado nisso, se ele está desacordado é porque quer, e qualquer um que interferir é uma ameaça!
— Mas então...
— Se ele identificou Dohko como intruso, certamente descobriu o canal que é Mu. Eu não sei como salvar nenhum dos dois.
Disse Shaka com lágrimas nos olhos enquanto tentava conter o sangramento de Mu. Milo estava bastante nervoso e Camus parecia estar em transe meditativo, quando de repente falou:
— Me coloque lá. Você tem que me colocar lá!
— Mas Camus, você me ouviu? Não há o que fazer. O risco é muito grande, podemos ficar presos também! Ele pode facilmente nos matar, estaremos na mente dele, as regras serão dele.
— O motivo de maior decepção do meu mestre atualmente certamente sou eu. Se eu me redimir, se eu tentar conversar, talvez eu consiga trazê-lo para essa realidade novamente. Eu sei que vários foram os acontecimentos que corroboraram para o estado atual dele, mas como ele mesmo disse, eu sou a maior decepção e arrependimento.
Shaka olhou para o amigo tão desolado, choroso, entristecido e não sabia o que fazer. A verdade é que a única maneira de, talvez, recuperar seu amado era aquela. Shion se arriscara por todos, não faria sentido ele não se arriscar pelo marido e pelo sogro.
Camus olhou para Shaka que apenas encostou um dedo na testa dele e outro na de Shion e iniciou um transe distinto, ele usaria da diferença de tipo de telepatia para tentar manter aquilo por mais tempo.
Camus acordou num gramado, estava sol e a brisa era leve e refrescante. As cores e sons eram vivos como nunca vira e logo avistou, ao longe, seu mestre relaxado, de cabelos presos, brincando com algumas crianças. Ele sabia que tinha pouco tempo, logo andou rápido até o mestre.
Shion o avistou e andou preocupado até ele, na ânsia de conversar com urgência.
— Você é o Doutor Carlos? Como está Dohko?
— Hãm?
— Dohko. Meu marido, você veio me dar notícias, correto? Ele teve um momento de exaustão mental e saiu da realidade.
— Não sou o Dr. Carlos, mas você pode me dizer o que aconteceu?
Shion olhou desolado para o chão. Camus percebera que Shion não o reconhecera, o que já era previsto, vez que nessa realidade ele não existia, ou será que existia? Foi quando olhou com cuidado para as crianças e se identificou numa delas. Aquilo o emocionou, seu mestre não o odiava por completo, certamente. Em seu mundo ideal, não deixara de ser seu pai tão zeloso.
— Meu marido apareceu gritando sobre eu estar em coma e precisar acordar, sobre isso não ser a vida real... Imagine...
Shion falava como se Dohko estivesse completamente maluco, o que atrapalhou as coisas para Camus, pois ele planejava narrar a verdade também.
— Pois bem, se você não é o médico, como posso te ajudar? O que o trouxe a essa vizinhança?
— O senhor não me reconhece, pai?
Shion estreitou os olhos como quem ouve um absurdo.
— Veja bem, eu adotei todos esses recentemente, mas alguém da sua idade realmente sai da minha área de interesse.
Shion zombou. Camus respirou fundo.
— Mestre, o que Dohko disse é verdade. Isso não é real, você não é um cidadão comum e pacato que vive nesse paraíso, o senhor é o mestre do santuário de atena. O senhor acabou de salvar o mundo e entrou em coma, porém, talvez a realidade não seja tão fácil de encarar... Temos a Minu que te enfrentou e desrespeitou, a Saori que criaram toda a desordem climática ao utilizar o cetro de maneira inconsequente, Ikki que fugiu desertando para se encontrar com Hyoga e bem... Eu que rompi todas as barreiras do aceitável com o senhor.
Shion olhava para Camus primeiro de forma divertida, depois começou a ficar nervoso, tal qual ficou com a investida de Dohko.
— Você não tem vergonha de vir até aqui zombar do estado mental do meu marido?! E ainda inventar uma história ainda mais ridícula?!
— Ele fala a verdade, por favor mestre, me ouça!
O chão começou a tremer e policiais apareceram, era a forma como a mente de Shion iria repelir Camus. Estava claro, Dohko estava preso na mente de Shion em um manicômio criado e Camus ficaria numa prisão.
Foi quando os policiais ficaram paralisados e o chão parou de tremer. Camus e Shion olharam em volta sem entender, quando a voz de Shaka apareceu do nada.
— Essa é sua única chance Camus.
Camus entendeu, Shaka achara uma brecha, e não duraria muito até a mente superpoderosa de Shion encontra-lo. Camus, então, ajoelhou-se na frente de Shion com lágrimas caindo.
— Mestre, por favor, sei que o senhor consegue se lembrar de tudo se quiser. Eu preciso dizer o tamanho da minha vergonha por tudo que fiz e falei com o senhor. Por favor, me perdoe. E-eu... Eu fui egoísta, fui ciumento, eu queria o senhor apenas para mim e... Bom, eu fiz toda essa bagunça. Por favor, por favor mestre, precisamos do senhor lá fora. Eu assumo completa e irrestrita responsabilidade, o senhor pode me esfolar vivo, pode me matar, não importa, apenas volte para todos da nossa família, sentimos muito a sua falta.
Shion olhava sem entender. Nada fazia muito sentido, mas em algum lugar dentro de si o pedido de perdão sincero acompanhado de lágrimas vindo daquele sujeito o tranquilizara. Shion fechou os olhos quando a polícia começou a se movimentar e agarrar novamente Camus e o chão tremer.
Do lado de fora, Shaka não conseguia mais respirar. Shion os havia pego, o que não impedia os gritos de Camus enquanto era levado por policiais.
— Mestre, o senhor me prometeu quando eu era criança que jamais iria me abandonar. Onde está sua palavra?
Aos poucos, Camus era levado até o carro, da onde gritou pela janela:
— Onde está sua palavra pai?
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