Papa Shion
5 Sem Paciência
Notas iniciais
— Eu nunca imaginei que presenciaria a cena ridícula que presenciei hoje. Eu nunca, na minha vida toda, pensei que vocês com a idade que têm, me fariam algo como fizeram há pouco. Pior que eu sequer quero entender a motivação, porque, se querem saber, ela pouco importa. Quem começou, também pouco importa. O que os motivou é indiferente. Para mim, a única coisa que não sai da minha cabeça é que meus dois filhos, bem criados, cavaleiros de ouro da mais alta estirpe, pais de famílias, profissionais respeitados, atracaram-se em público numa briga ridícula como duas crianças de dez anos de idade.
Mu olhava para as próprias mãos e Camus encarava o semblante desgostoso do pai.
— Como eu posso querer que os seus filhos, meus netos, aprendam a dialogar se vocês dois não têm essa capacidade? Como eu posso exigir, aliás, dos funcionários do Santuário que se comportem se vocês, cavaleiros da mais alta patente, não o fazem?
Mu engolia em seco, Camus estava imóvel. Era difícil para ambos encarar aquela situação.
— Eu honestamente não sei mais o que fazer com a nossa família. As coisas parecem fora de controle, mais ainda, agora, parecem quase que impossíveis de resolver. O que eu posso fazer com vocês dois agora? Qual é minha função como pai ao ver meus dois filhos, adultos, rompendo todos os protocolos? Qual é a minha função como mestre geral do Santuário vendo meus dois cavaleiros de ouro fazendo o que fizeram e desrespeitando as regras?
O silêncio instaurou-se na sala.
— Eu honestamente não sei... Como pai eu me questiono se deveria dar uma surra de cinto ou vara em vocês dois, mas ao mesmo tempo acho isso absolutamente ridículo pela idade de ambos. Como Grande Mestre, eu deveria ou tirar-lhes as armaduras ou prendê-los numa das prisões, de acordo com o que está no nosso código de atuação. Então, eu pergunto, o que raios eu devo fazer.
Um barulho fez-se na sala e a porta do escritório se abriu.
— Shi, nós...
Dohko parou na hora o que dizia, assustado por ter mais pessoas no recinto. Olhou preocupado para Shion como que se questionando se ter chamado o amante pelo apelido na frente dos filhos poderia fazer com que alguém notasse o relacionamento deles.
Não demorou até Shion subir uma barreira de proteção nos pensamentos de Dohko que poderiam entrega-los diante de Mu que também tinha a habilidade da telepatia. Shion logo tranquilizou-se ao ver que os filhos estavam tão envergonhados pela situação que sequer notaram qualquer coisa.
A postura e tom de voz de Shion eram tão preocupantes que, pela primeira vez, Dohko envolveu-se com algo na frente dos filhos do lemuriano. O casal havia desenvolvido através das várias décadas de relacionamento uma forma bastante distante no que tange à família de cada um. Obviamente eles trocavam conselhos, discutiam questões, mas não se metiam um na educação da família do outro de maneira direta.
— O que foi que aconteceu? Hyoga, Shun e Ikki estão fora de controle ainda?
Dohko perguntou, preocupado, deixando claro que sabia de toda a situação. Camus e Mu não estranharam, vez que sabiam que o cavaleiro de libra havia auxiliado Shion a encontrar os adolescentes após o último desaparecimento.
— Não, ou melhor, sim. Mas o problema aqui é outro.
O silêncio novamente se instaurou.
— E qual é?
Dohko questionou e Shion cruzou os braços na altura do peito e, com um sobrancelha levantada, emitiu a ordem.
— Explique qual é o problema, Camus.
O aquariano levantou o olhar que fitava o solo com o tapete pensa para o pai, bastante incomodado com a situação e o comando.
— Eu e Mu tivemos um desentendimento, mestre Dohko.
Shion riu com sarcasmo.
— Ah sim, um desentendimento. Eles iniciaram uma batalha em meio às escadarias, uma batalha entre dois dourados! Dois cavaleiros de ouro brigando nas escadarias são um “desentendimento”, Dohko, mudaram o nome. Mas de fato, não é quase nada, só poderia ter dado início a uma guerra santa de cem anos.
Camus remexeu-se no sofá bastante ofendido com o tom e termos usados pelo mestre, ver-se naquela posição tão infantilizada o tirava do sério. Ele sabia bem o que o mestre estava fazendo e que aquele constrangimento todo fazia, de alguma forma, parte de algum tipo de punição que Shion estava bolando.
— Mu, por qual razão você não divide o que levou vocês a brigarem com o Dohko?
— Pai, acho que o senhor está exagerando.
Mu disse, num tom contido e baixo. Shion parou por um segundo fitando a parede branca, quando, de repente, num rompante, deu um tapa forte na mesa de madeira, fazendo um barulho que assustou a todos.
— EU ESTOU EXAGERANDO! VOCÊ OUVIU ISSO DOHKO? QUEM ESTÁ EXAGERANDO SOU EU E NÃO ELES! A MAIS ALTA ESPIRPE DE DEFESA DO SANTUÁRIO RESOLVE BRIGAR, CONTRARIANDO AS REGRAS, MEUS FILHOS RESOLVEM SAIR NO TAPA, CONTRARIANDO AS MINHAS REGRAS. E QUEM ESTÁ EXAGERANDO SOU EU!
Dohko olhou preocupado para o amante, e passou de leve a mão em seu braço, demonstrando uma imensa preocupação. Questionava-se se não devia assumir de lá e ter uma conversa séria com aqueles dois adultos que portavam-se como crianças.
— Acho melhor você ir lavar o rosto, tomar um ar e beber uma água, Shion.
O lemuriano olhou para o velho companheiro, sendo que jamais havia ouvido algo do tipo, ainda mais na frente dos filhos. Decidiu acatar, se ele dizia aquilo, é porque provavelmente ele estava fora de si mesmo. Enquanto Shion não estava no escritório, Dohko aproveitou para falar.
— A situação da família de vocês tem afetado bastante Shion, ele se vê encurralado pelas regras do Santuário. Não quer punir ninguém administrativamente, mas não pode fazer vistas grossas só porque você são mais próximos que os outros cavaleiros.
— Nós sabemos...
Camus disse, bastante chateado com a situação.
— O que estava passando na cabeça de vocês?
— Creio que ambos explodimos. Eu cedi às provocações de Milo e acabei me exaltando e, Camus, ao ver minha agressividade em face do meu cunhado acabou se exaltando também. Não foi pensado, simplesmente aconteceu.
— Mas esse tipo de atitude não pode simplesmente acontecer. Vocês devem dar o exemplo e...
— Dohko, nos poupe de seus sermões, creio que esse é um assunto familiar.
Camus disse frio, ríspido e seco, tal qual costumava ser em sociedade. Dohko engoliu em seco ao se deparar com a verdade, o que ele estava pensando? Quem ele achou que podia ser além de um caso escondido de Shion? Um sentimento péssimo tomou conta dele.
Shion chegou a tempo de ouvir a frase atravessada de Camus e perceber todo o estrago que aquilo fizera em Dohko. Seu sangue, mais uma vez, ferveu. Dessa vez claramente por ter visto o libriano magoado com algo, mas sem entender certamente porque aquilo o havia afetado tanto.
— Creio que eu deva ir.
Dohko se levantou e saiu da casa, sem dar oportunidade para Shion entender o que havia.
— E o que foi essa atitude, Camus?
— Não precisamos dar espetáculo para ninguém. Quer me punir? Eu não vou questionar, pode tirar minhas funções do Santuário, deixar-me na prisão, me bater, não tem problema. Só andemos logo com isso porque eu tenho adolescentes para controlar.
Shion não podia acreditar na petulância no filho e, por isso, ficou quieto o encarando. Não demorou até Camus cair em si.
— Veja Mu, como eu dizia antes de tudo acontecer, nós somos uma família e temos que continuar juntos. Eu sinto muito por tê-lo atacado, eu realmente sai de mim quando vi que você atacava Milo com poderes telepáticos de modo a lhe constringir a respiração. Eu sei bem que ele deve te-lo provocado como ninguém tem capacidade de fazer, porém conto com sua colaboração para não deixar as coisas chegarem nesse ponto novamente. Precisamos nos focar nos meninos agora.
Mu concordou e se desculpou também, logo Camus assumiu novamente a palavra novamente.
— Mestre, me perdoe. Eu não quis ser desrespeitoso. Eu apenas estou cansado de toda essa história e concordo com o senhor, precisamos resolver tudo. Talvez um acompanhamento psicológico para Shun e sessões de terapia conjunta entre os três ajude potencialmente...
— Sim, eu havia pensado em terapia também. Você está de acordo Mu?
— Sim, pai.
Shion colocou a mão nos pontinhos enquanto se sentava na cadeira e cruzava sua perna em cima da outra.
— Eu não sei o que fazer com vocês. Eu não vou deixar passar. Vocês devem dar exemplo aos meninos! Camus, você dê um jeito de controlar o Milo, antes que eu precise fazer isso. E você sabe que se eu precisar não vou evitar em fazê-lo não é?
— Sim.
— Mu, você acabou de levar uma surra. E não foi qualquer surra, foi uma surra daquelas. Creio que sua memória deveria lembra-lo que tentar sufocar alguém, ainda mais seu cunhado, numa discussão, está fora de cogitação.
— Sim, mestre.
— Já você, Camus, pela sua forma de ser, pela sua maturidade, eu jamais pensei que fosse sequer cogitar puni-lo com a sua idade. Mas quero deixar claro que hoje eu estou realmente cogitando, saiba que eu estou mergulhado em decepção com as suas atitudes.
Mu pode jurar que viu os olhos de Camus encherem-se de água, já Shion teve certeza. Quando ele proferiu a última frase, já sabia que ela doeria mais que uma surra de cane no seu filho mais velho.
— Podem ir, os dois. Eu ainda vou pensar no que fazer com vocês. Mu, entre em contato com o psicólogo ainda hoje, quero essa situação começando a se resolver.
— Me perdoe, mestre.
Camus disse, notadamente arrependido. Shion, apesar da vontade de abraçar o filho, manteve-se duro e sequer respondeu. Ignorou-o e disse para Mu:
— Você vai se desculpar agora mesmo com o Milo, entendeu?
Mu acenou positivamente, porém estava bastante contrariado.
— Não seria melhor o senhor voltar conosco e tentarmos, novamente, conversar com todos?
Camus disse.
— Camus, eu concordo com você. Mas eu simplesmente não consigo ficar ao lado de vocês dois agora sem querer quebrar uma vara em cada um. Eu não consigo, nesse momento, saber se vou ou não agarrar Milo pela orelha e colocá-lo no lugar dele. E, honestamente, agora nossa maior preocupação são os meninos e não essa rebeldia fora de hora na geração de vocês! Vocês serão punidos de maneira administrativa, enquanto isso precisamos nos focar nos garotos.
Os dois saíram, deixando um Shion bastante preocupado, que não podia esperar para encontrar com Dohko e entendeu a razão dele ter ficado tão magoado.
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