Papa Shion
2 Sem Colaboração
Notas iniciais
POV Shion
Eu andei pelas escadarias com Ikki pendurado pela orelha esquerda, o que eu não gostava muito de fazer. Punições em público já não eram do meu feitio há algum tempo, observei que constrange-los não era necessário sempre, porém eficaz em algumas situações.
Desde o incidente com os garotos na última rebelião malfadada, onde percebemos o dedo de Kanon, o assunto estava em pauta e ainda não resolvido. Eu via os memorandos há semanas na minha mesa, resultantes das reuniões oficiais. Deveria eu aprovar as punições na arena novamente?
Afastei aqueles pensamentos, agora eu precisava resolver as coisas na minha família. Entrei na casa de aquário, sendo seguido por Dohko que trazia num aperto firme Shun e Hyoga. Olhei para ele friamente e agradeci, ele apenas acenou e virou-se de costas, deixando-me com minha família.
Camus e Milo estavam de pé na sala, Shaka e Mu chegaram com Kiki logo após eu entrar no recinto. Pisquei nervoso olhando meu relógio e percebendo que Minu não estava lá, me questionando sobre o que fazer com ela.
— Vou ligar para a Minu, pai, não se preocupe.
Mu pegou meus pensamentos, o que me fez lembrar de cuidar deles melhor, vez que ele e Shaka, ambos telepatas, estavam na sala.
— Shun, Hyoga e Ikki sentem-se no sofá agora.
Eles obedeceram, enquanto Kiki e Isaak me olhavam como se questionando sobre o que fazer, foi então que eu disse:
— Vocês dois vão para o quarto, enquanto aguardam eu chamar por vocês.
Eu disse num tom autoritário, porém suave. Os dois não tinham feito nada, porém eu queria colocar ordem naquele pardieiro. Vi os dois caminharem tranquilos para o quarto e Mu retornar de sua ligação, não perguntei por Minu, vez que não precisava dela naquele momento.
Via Camus trucidando Hyoga com o olhar, bem como Shaka fazendo o mesmo com Shun sem saber ao certo o que tinha acontecido. Foi então que comecei a falar.
— Bom, garotos, eu quero entender o que aconteceu. A única coisa que sei é que Ikki e Hyoga sumiram de seus respectivos quartos entre duas e três da manhã. Depois disso, ambos não atendiam os celulares e simplesmente desapareceram. Depois de procura-los durante toda a madrugada e parte da manhã, encontramos Ikki, Hyoga e Shun se atracando numa briga como três animais.
Percebi que Shun, com os olhos cheio d´água, olhava entristecido para Mu que se compadecia da situação. Parecia que Shun pensava algo e pedia ajuda ao pai lemuriano. Hyoga chorava, o que não era muito de seu feitio, e pude ver que ele gesticulava algo para Milo e Camus. Ikki, por sua vez, não dizia nada.
— Esqueci alguma coisa?
Ninguém respondia nada, quando eu decidi me sentar numa cadeira. Percebi que meus filhos se sentaram de modo a ficarem próximos dos meus netos. Mu puxou uma cadeira se sentando ao lado de Shun e Camus se sentou numa poltrona relativamente próxima ao Hyoga.
Ninguém dizia nada, foi quando decidi passear pelos pensamentos de todos, o que não me agradou muito. Mu, mais uma vez, estava preocupado com Shun que havia lhe passado uma versão da história em que era vítima. Camus, por sua vez, acreditava que Hyoga não tinha culpa pela briga, apesar de estar decidido a dar-lhe uma punição por ter passado a madrugada foram sem autorização.
— Então, ninguém tem nada para falar? Ah sim, esqueci de algo...
Vi Camus me olhando preocupado.
— No dia do casamento, enquanto todos dançavam, vi Ikki e Hyoga quase fazerem sexo em público e, depois, Shun e os dois brigarem como vimos hoje: como três animais selvagens.
Camus abriu os olhos, mirando Milo que estava igualmente surpreso. Mu e Shaka já sabiam da história, porém não puniram o menino a meu pedido, a fim de que pudéssemos fazer essa reunião entre eles acontecer. E agora eu os faria falar.
— Pois bem, os três sabem que merecem uma surra, o que é muito simples para qualquer um de nós fazer. Porém, pelo visto, as punições não estão funcionando para esse assunto, vez que os três continuam aprontando. Então, hoje nós faremos vocês colocarem para fora tudo que estão sentindo e vamos resolver de uma vez essa palhaçada.
Vi, então, Shun se encolher, Ikki revirar os olhos e Hyoga derramar mais lágrimas. Fazer eles enfrentarem aquele problema de uma maneira madura seria mais doloroso que qualquer castigo que poderíamos dar. Os meninos queriam desesperadamente escapar dessa situação, mas ninguém dizia nada, e eu precisava romper esse silêncio.
— Ikki.
Ele me olhou, meio enfurecido e preocupado.
— Você não tem nada a dizer?
Ele olhou para o teto, questionava-se mentalmente sobre o que dizer.
— Não. Não tenho.
Eu o fuzilei com os olhos, ele notou e manteve uma postura de desdém.
— Você deu um soco no seu irmão na festa, fugiu de madrugada com o Hyoga e se atracou, novamente, numa briga com Shun. E você não tem nada a falar sobre a motivação disso tudo?
— Nope.
Ele falou e eu tencionei meus lábios, fechando as mãos em punhos. Ikki conseguia ser petulante mesmo quando estávamos em situação como aquela. Na hora, eu ia continuar, mas vi Camus assumindo.
— Hyoga, eu não posso acreditar que você fez tudo isso. Posso saber porque raios essa briga ainda está acontecendo depois de tanto tempo?
Hyoga apenas chorava, foi quando vi Milo ir abraçar o menino.
— Shun?
Shaka questionou, com sua dureza habitual. Shun apenas se afundou mais no sofá e começou a chorar. Foi quando vi Mu se aproximar ainda mais de Shun, com uma postura protetiva e preocupada.
Hyoga levantou a mão para chamar a atenção de Ikki para algo que eu não sabia o que era e acabou encostando, sem querer e de leve em Shun. O filho de Mu, então, teve uma reação bastante agressiva e empurrou Hyoga com força enquanto disse entredentes.
— Não encoste em mim.
Hyoga sentiu-se bastante agredido e empurrou Shun de volta, que foi segurado com Ikki. Assim, em menos de trinta segundos, os três estavam se batendo novamente. Cada casal segurou seu filho, eu não precisei segurar Ikki, que parou sozinho.
Olhei para todos e comecei a desafivelar o meu cinto. Se eles não queria falar, eu os faria falar de uma maneira ou de outra. Quando ia mandar Shun, que começara tudo isso, vir até mim, Mu me interrompeu.
— Pai, eu acho que... Bem... O traído aqui foi Shun, não é?
O respeito e reverência que Mu trazia em sua voz e postura não me deixaram pensar que ele estava me afrontando como fez antes do casamento de Milo e Camus. Na verdade ele estava defendendo Shun.
— Há, era só o que me faltava. O Shunzito aí foi traído, mas depois fez a gentileza de dar para meio Santuário né?
Milo soltou, fazendo Camus levar as mãos aos cabelos.
— Olha como fala, Milo.
Foi a vez de Shaka se posicionar, defendendo o filho da acusação de Milo, que, aliás, foi absolutamente inapropriada.
— Eu falo como eu quiser, budista.
Vi Shaka dar um passo em direção a Milo e Camus posicionar-se a sua frente. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo, estavam os quatro adultos brigando?!
— CHEGA, TODOS SENTADOS.
— O bom é que o Shun e o Hyoga tem que os defenda e eu fico aqui todo fodido sozinho.
Ikki acabou soltando baixo, depois que eu gritei e todos pararam de falar. Por óbvio ele estava apenas resmungando e deu azar o silêncio ter tomado a sala. Eu suspirei.
— Olha essa boca, Ikki! Ninguém aqui precisa ser defendido, vocês que precisam falar o que estão sentindo para conseguirmos resolver. Mas, como eu posso esperar uma postura madura de vocês se sequer seus pais conseguem demonstrar isso?
Eu disse, encarando meus filhos e genros. Mas seria possível? Onde eles queriam chegar com aquilo? Foi quando a porta se abriu e Minu entrou, olhei para o relógio e falei bastante alterado.
— Faz mais de uma hora que mandei você vir pra cá.
— Eu tinha outros compromissos.
Ele respondeu com desdém, levantando os ombros. Eu parei, olhei para o chão e contei até cinco tentando entender a postura da minha filha desde o casamento de Camus.
— Que outros compromissos?!
Ele revirou os olhos, me respondendo com outra pergunta.
— Qual é a seriedade da reunião?
Eu ainda estava segurando o cinto que havia tirado antes dos adultos resolverem se atracar, ela olhou para minha mão e fez uma careta em desaprovação. Eu tive que me segurar para não pegá-la e descer aquele cinto nela, onde já se viu agir daquela maneira?
Foi quando vi Mu levantar-se preocupado. Me contive, eu precisava falar com ela, mas queria resolver um problema de cada vez.
— Quer saber, Minu, vá embora.
Ele franziu o cenho se questionando sobre minha ordem.
— Como assim?
— Você tem evitado contato com todos daqui, faltou à parte mais importante do casamento dos seus irmãos, vem faltando no trabalho para me evitar, não responde aos nossos chamados. Isso era para ser uma reunião familiar, mas me parece que atualmente você não quer integrar essa família. Então, você está autorizada a ir embora.
De alguma maneira eu machuquei Minu, e muito, ela ficou pálida e depois enfurecida. Não chegou a reagir, vez que Mu a direcionou para fora, onde provavelmente devem ter conversado. Eu, particularmente, não gostei do que falei para ela, mas era necessário dar um chacoalhão. E por falar em chacoalhão, continuei:
— VOCÊS PERDERAM O JUÍZO NÃO É? AO INVÉS DE ME AJUDAR A EDUCAR ESSES MOLEQUES, COMEÇAM A DEFENDE-LOS E SE ENFRENTAR? MAS ONDE É QUE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO?
A minha vontade, em parte, era dar uma surra em todo mundo. O que, obviamente, não ia adiantar em nada. A questão emocional daqueles garotos era tão complexa que, naquela hora, todo o nosso conhecimento de psicologia e mediação seria necessário.
Mas, ao que parecia, a única pessoa centrada naquela sala era eu. Olhei para baixo e pensei melhor, aquela não era a melhor maneira de fazer aquilo, vez que eu não tinha todos em sintonia. Talvez porque Milo e Camus tinham acabado de chegar de viagem, eu não sei... Levei minhas mãos às têmporas.
— Essa conversa vai ficar para outro dia.
Olhei sério para Camus e Mu, ambos sabiam bem o que aquilo significava. Eu não estava feliz com nenhum dos meus filhos, a postura dos três estava me decepcionando... Em especial no tocante ao comportamento da Minu.
Como eu poderia controlar os moleques se nem os pais deles estavam com a cabeça no lugar? Eu precisava pensar melhor e agir efetivamente. Coloquei o cinto na bainha da calça novamente, me aprumei e sai pela porta sem dar grandes explicações a ninguém.
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