Notas iniciais
Olha só. Três capítulos em dois dias. Eu ouvi um vivaaaa??

POV Shion

Todo esse desastre me fez repensar a proposta de Dohko. Por um momento, quase estávamos em guerra novamente. Talvez nós merecêssemos sermos felizes como os outros eram... A verdade é que eu já era feliz, mas aparentemente ele não.

Dohko sempre quis mais. Sempre. Nunca entendi suas vontades e sua ambição com tudo. Por que não aproveitar as coisas como eram? Foi quando senti meu celular tocar.

— Dohko?

— Shion, você não notou algo estranho nas meninas quando as encontrou?

— Não, estavam estudando cálculos.

— Não sei, Shunrei me pareceu bastante inquieta.

— Não percebi nada disso, Dohko.

— Ok.

Aquela era a hora. Eu precisava aproveitar que ele me ligou, aquela era a abertura.

— Dohko, eu preciso conversar com você.

— Shion, o assunto seria nossa relação? Ou melhor, nossa “ficada”? Acho que os jovens falam assim hoje em dia.

Respirei fundo, revirei os olhos e contei até dez.

— Dohko, vou me controlar para não me ofender com essa sua fala, pois uma relação que já dura praticamente uma vida inteira não pode ser considerada uma “ficada”, como os jovens dizem. Você sabe que foi e é o único homem da minha vida e sempre será. Não quero que fiquemos afastados, vamos conversar, podemos chegar em um denominador comum.

Fez-se silêncio do outro lado da linha, de certo ele estava pensando.

— Dohko?

Perguntei inquieto.

— Sabe Shion, gosto disso de conversarmos pelo telefone. Assim você não pode ler minha mente.

Eu ri. Seu humor estava voltando.

— Prometo que não invadirei seus pensamentos, Dohko.

— Já fez essa promessa antes, mocinho.

Foi minha vez de rir om sua imitação de mim quando falo com meus filhos.

— O que acha? Podemos ir ao chalé? Por favor?

Dohko respondeu com um ok, eu sai feliz. As coisas vinham se acertando em todos os aspectos. Shun melhorara muito com a terapia e a convivência com a família ia bem. Só me faltava Dohko. Aliás, ir ao chalé me animava, após tanto tempo sem sexo.

POV Camus

— Hey hey, calma aí pessoal.

Eu sorria vendo Hyoga, Isaak, Shun, Kiki, Saori e Ikki sentados na mesma mesa comendo juntos. A terapia de Shun vinha rendendo frutos, o que só melhorou com a terapia conjunta com Ikki, Hyoga e Shun. As coisas pouco a pouco vinham se acertando com a ajuda do profissional correto.

Nunca pensei numa família tão grande.

— Nem eu, irmão.

Era Mu sorrindo, chegando com Shaka para o almoço de domingo em nossa casa.

— Miiiloooooo.

Chamei e ele saiu sem camisa enxugando o cabelo com uma toalha. Franzi o cenho estarrecido com a postura dele, que arrancou risadas do meu irmão e cunhado.

— Cadê o chifrudo?

Olhei para Mu.

— Achei que o papai estivesse com vocês.

— Não, não está. Achei que já estivesse aqui.

Foi quanto ouvimos o barulho de um forte tapa e um grito de Hyoga.

— O que é isso, Ikki?

— Hyoga foi engraçadinho comigo. Pela lógica dessa família bizarra, eu sou filho de Shion assim como vocês, o que me faz tio de Hyoga e, portanto, ele me deve respeito. Se eu quiser puni-lo, posso fazê-lo à vontade.

Eu, Milo, Shaka e Mu encaramos Ikki de tal forma que ele se encolheu e pediu desculpas ao primo no mesmo segundo, se arrependendo da brincadeira sem graça. Peguei o celular e liguei para o meu mestre que não atendia.

Achei estranho, mas seguimos.

— O que tem para comer, Milo? – Questionou Shaka.

— Macarrão caseiro, com molho caseiro feito por mim, claro. Saladas e um assado. A sobremesa é surpresa.

— O cheiro está ótimo, amor.

— Está mesmo!

POV Shion

Cheguei ao chalé antes de Dohko, aquele lugar me trazia tantas recordações. Para mim o ambiente já tinha o cheiro de Dohko, algo inebriante. Nossa relação era tão tranquila que eu nem pensava como poderia ser a minha vida sem me relacionar com ele.

— Oi Shion.

Ele chegou por trás de mim, me abraçando. Eu sorri com o contato que não sentia há tantos dias. Já havíamos passado esse tempo sem nos relacionarmos por questões alheias a nossa vontade e não por ele estar magoado comigo.

— Dohko...

Nos beijamos. Eu comecei a tentar desabotoar a calça dele que me impediu. Olhei em seus olhos, eu estava realmente cheio de desejo.

— Shion, hoje nos encontramos para conversar.

Revirei os olhos. Não poderíamos conversar depois?

— Tudo bem, libriano. Aliás, gostei dessas calças.

— Shion, cansei do nosso relacionamento como é. Quero poder ir com você a um cinema, sair para jantar num restaurante uma vez ou outra. Quero poder ao menos conversar com você sem precisar de uma desculpa esfarrapada para que ninguém perceba que somos um casal.

Eu ouvia com cuidado, sem esboçar reações.

— Os tempos são outros. Já doamos nossa vida ao Santuário e às nossas famílias. Creio que podemos ser felizes.

— Você não é feliz comigo?

Dohko me encarou.

— Sou feliz, mas do jeito que está já não é mais suficiente. Foi, por muito tempo, enquanto era necessário. Os tempos mudaram, quero mais.

Respirei fundo pensando em Camus, Mu e Minu. Será que eles aceitariam aquilo?

— Eu não preciso ler mentes para saber que sua grande questão nisso tudo é com seus filhos e o receio pela reação deles.

— Seria algo bastante grande para eles digerirem.

— Engraçado que em todos os aspectos você não se incomoda em impor as regras, em dar as ordens e em colocar o que deve ser feito. Mas quando se trata de sua vida pessoal, parece que tudo muda.

— Dohko, eu nunca tive vida pessoal pública. Essa é a verdade. Ambos nunca tivemos. Isso nos tornava mais fortes, não demonstrar os pontos fracos.

— Mas nem para os seus filhos? Eles não te respeitarão menos por isso.

— Não sabemos. Não sabemos quais serão as reações.

— Eles são mimados, se quer saber.

— Como?

— São mimados, acostumaram-se a ter você apenas para eles. Veja esses dois, até hoje disputam pela sua atenção.

— Você realmente acha isso? – Eu questionei meio ofendido.

— Sim.

Olhei para o horizonte triste, questionando a fala de Dohko. Basicamente, tudo que ele dizia em matéria de educação era levado em conta por mim, assim como o contrário. Nós, ainda que de longe, sempre participamos da educação dos pupilos um do outro. Talvez por isso ele tenha ficado tão ofendido com Camus e sua colocação.

— É isso mesmo que você quer?

— Sim.

— Eu preciso digerir essa ideia.

— Não há o que digerir, é apenas continuarmos nos relacionando, porém abertamente, sem nos esconder e sem receio de sermos vistos.

— Mas temos que pensar nas consequências, Dohko.

— Mas que consequências Shion? Seus filhos terem um ataque?

— Você fala como se isso não pudesse ocorrer por parte dos seus.

— Se ocorrer eu vou lidar com a situação como sempre fiz, conversando, explicando e impondo se necessário.

— Quero que entenda que isso é realmente difícil para mim Dohko. Mas se é a única forma de fazê-lo feliz, posso fazer esse esforço. Não sei direito como agir, foram tantos anos às escuras que me preocupo em...

— Shion, não faremos sexo em público. É apenas um relacionamento normal, as pessoas não darão tanto peso, você verá.

— Assim espero, Dohko. Assim espero. Minha maior preocupação são os meus filhos...