Papa Shion
10 Nem Sempre é Fácil
Notas iniciais
POV Shion
Eu caminhava ao encontro dos meus filhos me questionando como seria explicar que há décadas eu me relacionava com Dohko às escondidas. Passei a mão em minha testa e percebi que estava suando em bicas.
Era difícil entender por que raios Dohko queria mudar o que já funcionava bem há tanto tempo. Ele queria romance? Demonstrações públicas de carinho? Mudança de status no facbook? Ora, sequer um facebook eu tenho!
Eu concordei, mas aquilo me corroía por dentro de todas as maneiras possíveis. Minu estava me dando trabalho como nunca fizera, eu não podia baixar a guarda e mostrar que não era perfeito. Mu eu acho que aceitaria até que bem, mas Camus... Ah Camus! O que eu faria? Minha autoridade dependia de não ter qualquer falha...
Quando dei por mim, eu havia parado no meio das escadarias para me apoiar numa pilastra, sentia minha pressão baixa e a vista turva. Aquilo era muito mais difícil do que eu imaginei, a ponto de me tirar o fôlego. Talvez aquela não fosse a melhor hora. Talvez devêssemos esperar a hora certa de compartilhar uma notícia tão estrondosa, talvez... Talvez não seria bom contar isso para eles.
Shun acabara de se acalmar, eu não podia trazer um problema assim para a família. Finalmente Ikki estava nos eixos, Saori se comportava bem, todos os meus netos estavam em harmonia. Para que mexer em algo que estava plenamente bom?? Percebi que tinha alguém parado do meu lado, respirei fundo.
— Mestre?
Era Camus.
— Mestre? O senhor está se sentindo bem?
Foi difícil voltar à realidade. Será que eu deveria falar agora?
— Pai, por favor, o senhor está bem?
Ouvi Camus chamando novamente. Seria essa a hora de abrir o que eu escondi por tanto tempo?
— Pai, o que o senhor escondeu por tanto tempo? O que está acontecendo, Camus?
Era Mu, meu filho telepata que chegara na pior hora possível.
— Eu não faço ideia do que está acontecendo, ele está mudo e pálido desde que o avistei. O que ele está pensando, Mu?
— CHEGA DISSO. Mu, já avisei para não entrar na minha cabeça! É sério!
Vi meus filhos se olharem preocupados. Aquela seria a hora? Não, claro que não. Pelo canto do olho vi Minu passar na escadaria de cima com roupas muito curtas, uma maquiagem borrada, meias arrastão rasgadas. Ela cambaleava. Vê-la assim me fez me recompor rapidamente e marchar até o encontro dela até agarrá-la pelo braço.
— O que aconteceu com você?
Camus e Mu me seguiram, Minu tentou me afastar com um tapa em meu ombro que não me acertou, mas serviu de impulso para ela se curvar e começar a vomitar freneticamente no chão. Ver minha caçula naquele estado era muito triste, ela estava acabando consigo própria pouco a pouco.
Meus olhos se encheram de água e honestamente eu não sei se foi a briga com Dohko e todo esse drama, mas quando dei por mim eu estava chorando enquanto segurava os cabelos dela para que vomitasse.
Mu começou a lacrimejar comigo, enquanto Camus estava atônito com toda a situação, se perguntando se não sabia de algo.
— Mestre, talvez seja melhor tirar a Minu do meio do pátio.
— Sim Camus, ela apenas precisa parar de vomitar.
Um silêncio se instaurou e ficamos os quatro juntos naquela cena bizarra, mas os quatro juntos, como antigamente. Estar com meus três sozinho era coisa que não experimentava há muito tempo.
— Mu, melhor avisarmos em casa que comecem a comer sem a gente...
— Boa ideia Camus, vou ligar para o Shaka.
Peguei a Minu no colo e comecei a caminhar até minha casa. Ela havia praticamente desmaiado, eu me questionava se isso era só bebida ou se havia droga envolvida. A enfiei no chuveiro sem nenhuma resistência da parte dela, a troquei e coloquei na cama.
Meus filhos estavam na sala sentados, me aguardando. Logo vi que tinham algo a dizer.
— Podem falar.
Mu olhou para mim e começou.
— Pai, a Minu já é adulta, gostaria que o senhor não se esquecesse disso.
— O que quer dizer?
— O que eu quero dizer é que ela está querendo curtir um pouco a vida, tem se sentido muito presa. Então, por mais que ela seja a caçula de nós, só peço que não se esqueça que ela já tem vinte e um anos e que beber e ir para a balada não é errado e sério quanto o senhor pensa e...
Levantei uma sobrancelha e fiquei olhando para Mu me questionando se aquilo era petulância ou não. Ele estava querendo me ensinar a ser pai? Acho que eu devia estar com a face transparecendo o que eu pensava porque rapidamente Camus tomou a palavra.
— Mestre, longe de nós querer te dizer o que é certo ou errado em matéria de educação— ele disse olhando para o irmão – apenas temos receio que Minu se afaste ainda mais. Eu sei que nos últimos meses ela mal nos vê e, talvez, se o senhor utilizar seus métodos corriqueiros ela apenas desapareça daqui.
Eu apoiei meu queixo em minha mão, Camus tinha um ponto. Ela estava no auge da rebeldia, sequer conversar com ela eu conseguia, quanto mais tentar puni-la. Era sim bem provável que ela se revoltasse contra todos e nos abandonasse. A questão era: o que eu devia fazer naquela situação?
Foi quando ouvi um forte zumbido vindo do lado de fora, caminhei até a janela e vi uma quantidade absurda de gafanhotos. Fechei a janela me questionando o que raios eram essas desordens climáticas que vinham acontecendo. Fiz uma nota mental para cuidar disso depois.
— Pois bem, o que vocês sugerem?
Os dois me olharam com os olhos arregalados, eu nunca havia dado essa espécie de abertura para eles.
— O-o que?
— O que sugerem? Vocês são adultos, são pais e amam a irmã de vocês. O que eu devo fazer? Não consigo me aproximar mais dela, que se fechou para todos nós. Meu plano era espera-la acordar e arrebentar uma vara no traseiro dela, mas vocês dizem que não seria a melhor aproximação e talvez tivesse efeito contrário. O que fazer então?
Ambos ficaram me olhando, eles obviamente não tinham a resposta. Eu também não tinha. Não havia outra saída que não fosse cortar aquele mal pela raiz. Eu não podia deixá-la impune, eles sabiam, eu sabia. Eu poderia ajudá-la, mas para isso ela precisaria entender que precisava de ajuda antes.
— Pois bem, então eu vou falar o que eu acho para vocês. SOMOS INTEGRANTES DO SANTUÁRIO. Nossa vida não nos pertence, nós devemos sempre e em primeiro lugar obediência às normas de conduta desse lugar. Se ela quer viver a vida adoidada, sinto muito, mas esse não é o lugar! Se ela quer se embebedar e voltar como uma prostituta para casa, sinto muito, mas esse não é o lugar! Ela tem uma alta posição administrativa aqui dentro e eu não vou admitir esse tipo de postura de uma integrante de nosso alto escalão. E digo mais! Eu, enquanto pai dela, não vou admitir esse tipo de atitude, hoje é terça-feira! Ela falta ao trabalho há meses, tem se portado como uma qualquer e eu não criei uma qualquer! Ela merece ser punida e eu vou puni-la, e se isso a afastar e ela quiser ir embora, talvez seja melhor que procure um local mais apropriado para viver dessa forma que ela deseja.
Eu falei com rigidez, e cada uma das palavras que eu disse doeram em mim. Mais ainda por saber que ela estava de pé ao lado da porta ouvindo nossa conversa, coisa que acho que nem Mu percebeu. Eu a ouvi retornando à cama e se deitando, talvez a ressaca fosse tão forte que ela sequer conseguisse discutir naquele momento.
— Mas mestre...
Mu tentou argumentar, enquanto Camus parecia concordar comigo.
— Eu já tomei minha decisão.
Mu olhou para o chão resignado, murmurou uma concordância falsa e pediu licença para sair, o que eu prontamente concedi. Camus me olhou um pouco amargurado.
— Mestre, o que mais o está incomodando? Nunca vi o senhor assim, e já vi diversas pessoas chegando em estado pior que a Minu.
— Eu vou conversar com vocês depois. Agora preciso cuidar disso. Creio que seja melhor que vá para a sua casa e me dê privacidade para quando sua irmã acordar.
POV Dohko
Falar do meu relacionamento com Shion foi rápido e indolor aos meus pupilos. Eu contei, sem abrir espaço para discussão e exigindo respeito ao meu amante. Ponto. Eles consentiram, minha Shunrei ainda me deu um beijo desejando toda a felicidade do mundo.
Não entendia por qual razão com Shion tudo era mais complicado, não levei nem dez minutos para contar e encerrar o assunto. Caminhando, encontrei Mu e Camus que me encararam encabulados e preocupados. Era isso, Shion já havia contado.
Eles passaram reto por mim, cochichando entre eles sobre a irmã. Pelo visto a conversa não havia sido das mais fáceis, mas ao mesmo tempo ele estavam bem e conversando. Shion definitivamente havia exagerado em seu receio.
Eu fiquei feliz por dentro e caminhei até a casa do meu ariano, abrindo a porta feliz e já pronto para confortá-lo pela conversa difícil que deveria ter tido com os dois.
— Amor?
Vi Shion me olhar preocupado.
— Amor? Estou aqui, vai dar tudo certo.
— Dohko, por fazer, agora não é uma boa hora!
Ele parecia que queria que eu saísse, e falava baixo como se não quisesse que alguém ouvisse. Aquilo me incomodou profundamente.
— Shion, você fez ou não o que combinamos?!
— Dohko, por favor. É mais complicado do que parece...
— SHION, VOCÊ CONTOU OU NÃO QUE TEMOS UM RELACIONAMENTO HÁ QUASE QUARENTA ANOS?
— Dohko, a Minu...
Foi quando Minu apareceu na porta gargalhando de forma irônica e, diria eu, ligeiramente assustadora. Ela estava com um pijama de calça flanelado e olhava para Shion com ódio.
— Eu não possa acreditar nisso.... Hahahaa...
Shion ficou paralisado. Não se movia nem falava nada, eu não conseguia entender direito o que estava acontecendo...
— E AQUELA MERDA DE PAPO DE “NOSSA VIDA NÃO NOS PERTENCE E SIM AO SANTUÁRIO”? E AQUELA MERDA DE “CERTAS ATITUDES NÃO SERÃO TOLERADAS”?
Shion se mantinha rígido como uma rocha, sem se mover, olhando para a pupila com os olhos arregalados e, eu sei bem, extrema preocupação. Poucas vezes o vi assim, a última vez foi na segunda guerra que lutamos juntos, quando todos nossos amigos morreram na nossa frente.
— AH, MAS SOMOS UMA FAMÍLIA NÃO É? E NUMA FAMÍLIA NÃO SE ACEITAM CERTAS BOSTAS E BLÁ BLÁ BLÁ. FAMÍLIA. SOMOS UMA FAMÍLIA E NÃO SÃO TOLERADAS ESSAS ATITUDES.
O que aquela menina falava sequer fazia sentido... Foi quando percebi que ela estava um pouquinho bêbada, e certamente de ressaca. Devia ser disso que Shion falava quando eu comecei a brigar com ele...
Ela avançou no mestre, falando bem perto na cara e dele e começou a dar cutucões em seu ombro com o dedo em riste, parecia que com o intuito de machucar e afrontá-lo. Aquilo estava passando dos limites e eu estava prestes a tomar uma atitude, já que Shion parecia estar em estado de choque.
— Minu, chega!— Eu disse.
Ela me olhou com desdém, da cabeça aos pés.
— Você deve ser a putinha dele né?
— CHEGA DISSO MINU!
Shion finalmente gritou. Foi quando o inimaginável aconteceu, vi Minu levantando a mão direita e batendo com força na face de Shion que sequer se moveu enquanto sua bochecha ficava vermelha e seus olhos se enchiam de lágrimas e fúria.
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