Papa Shion
19 Falsas Desculpas
Notas iniciais
POV Shion.
Não podia ser, eu quando olhei para trás me deparo com Camus.
Apesar de me manter firme, senti minhas pernas bambearem. O que ele queria naquele momento? Ao seu lado estavam Milo e atrás Isaak. Os três aparentavam extrema preocupação. O silêncio se instaurou na sala de modo que era possível até mesmo escutarmos a respiração uns dos outros.
Camus caminhou até perto de mim e caiu de joelhos.
— Clemência, Mestre. Eu te imploro clemência.
Eu tive que me virar para disfarçar a lágrima que caiu dos meus olhos. Era tarde demais, Camus, meu tolo filho. Já não dependia mais de mim. Eu já não podia mais perdoá-lo... Abaixei a cabeça e ordenei.
— Aldebaran, Carlo e Shura.
— Sim, mestre?— Responderam em uníssono.
Minha voz quase não saiu, mas a ordem foi emitida. Eu senti como se mil cristais me rasgassem por dentro.
— Prendam-nos.
Em uma fração de segundo, Aldeberan segurou Milo por trás, Carlo prendeu Isaak e Shura apontava seu braço que servia como faca afiada no pescoço de Camus que estava prostrado no chão. Eu nunca pensei ver uma cena como essa, irmãos dourados contra irmãos dourados em tempo de paz. E o que doía mais ainda era que isso ocorria por uma ordem minha, eu havia decretado a prisão do meu próprio filho.
Camus não se movia, via-se apenas suas lágrimas se formando no chão. Então ele disse.
— Eu acato a ordem que for. Mas o culpado disso sou eu, não eles.
— Levem-nos daqui!
Eu disse, sendo que Dohko tentou pegar em meu braço para me conter. Mas eu estava decidido, eu não tinha opção, eu devia aplicar a lei e eles deveriam arcar com as consequências do que fizeram. Eu não podia beneficiá-los por ser, respectivamente, pai, avô e sogro – se eu fizesse isso, perderia a credibilidade frente aos outros cavaleiros.
— Apenas me deixe falar, eu sei como resolver essa situação!
Todos pararam olhando para Camus.
— A única coisa que peço em troca é a possibilidade de salvar o meu filho, Hyoga. Preciso de liberdade temporária para isso e eu vou precisar de ajuda. Por favor mestre, se não agirmos agora muitos morrerão, inclusive Hyoga e Ikki.
Fiquei calado, seria possível que Camus teria uma saída?
— Apenas me deixe traze-los de volta e acabar com toda essa situação. Então, logo depois, eu me rendo ao Santuário e aceito a punição que entenderem, mesmo que capital. Só peço em troca que eu possa salvar meu filho e que poupem a vida de meu marido Milo e de meus filhos Isaak e Hyoga.
Ele estava disposto a responder com sua vida para que ajudássemos a salvar seu filho? Aquele parecia o Camus que eu criei. Ele parecia ter voltado a si... Mas não... Eu nem entrei na cabeça dele, mas eu tinha certeza que ele não estava lá por estar arrependido, mas procurava desesperadamente ajuda para achar Hyoga.
— Aldebaran e Carlo, levem os dois até a prisão bunker mais próxima. Camus, como pode ser resolvida essa situação?
Ele se levantou e me olhou nos olhos tão ferido, se condenando por toda essa bagunça. Se eu não estivesse tão bravo, na certa o abraçaria, mas não agora, não depois de tudo que ele fez. Todo esse sofrimento era merecido.
— O marco zero.
Ele disse com certa reverência a mim. O marco zero?
— Isso pode funcionar...— Disse Saga, cruzando os braços e franzindo o cenho.
— O que é o marco zero?— Questionou Kanon.
— É o local mitológico do início do mundo. Acreditam que foi o local exato do big bang. Mas isso é apenas uma história não?— Questionou Mu.
— Pela mitologia, o local de maior poder do ponto de vista energético é o marco zero, se utilizarmos o cetro desse ponto exato, seu poder se multiplica e podemos mudar tudo isso mesmo sem ter uma deusa preparada o manejando.— Disse Dohko.
— Mas mesmo assim eu creio que seria prudente levar Saori conosco. É necessário seu potencial para ativar o cetro no ponto que precisamos.
Ouvi a última frase de Camus e respirei fundo. A ideia do epicentro terrestre poderia funcionar, na verdade era a melhor chance que teríamos de conseguir algo e, sem dúvida, Saori seria útil se trabalhasse comigo. Camus fizera um bom trabalho ao pensar nisso. Na verdade eu sequer sei como ele pensou nisso, foi quando li seus pensamentos.
— Hyoga e Ikki estão lá fazendo o que?
— Eles tentaram fugir numa embarcação que naufragou em meio aos tornados e maremotos, segundo a Pítia que consultei.
O desespero de Camus era tamanho que chegou a cometer o crime de utilizar desses seres mitológicos antigos que podiam prever o futuro.
— Sei que é proibido mestre, mas foi uma medida desesperada para saber o paradeiro de Hyoga. Ela me apontou esse local. Quando eu descobri por Mu que informou Milo dos problemas de Saori manejando o cetro, eu interliguei as duas coisas. Os maremotos estão desembocando lá e não tenho como salvá-los sozinho. Talvez seja uma forma de salvar a humanidade e os nossos pupilos, mestre.
Eu olhei para Mu o condenando por passar informação confidencial a desertores, mas quem eu queria enganar? Não eram desertores, eram minha família. A verdade é que, querendo ou não, a ideia de Camus era a nossa única saída.
Foi quando olhei para Saga, por mais que eu o odiasse, ele era a pessoa mais experiente, junto comigo, Dohko e Aioros. Saga se pronunciou:
— A ideia de Camus me parece promissora e é o melhor que temos.
Dohko me olhou:
— Saori precisa ser levada e escoltada, os demais devem proteger as dozes casas. Em que pese não estejamos diante de um ataque, nossos inimigos podem se aproveitar dessa situação para tentar tomar o Santuário.
— Você está certo, Dohko. Eu vou, eu tenho o conhecimento para acessar o potencial do cetro junto com Atena.
Mu se prontificou na mesma hora.
— Mestre, se me permite, gostaria de acompanha-lo, exige-se três cavaleiros da ordem pelo protocolo.
Eu concordei. Foi quando ouvi os pensamentos de Camus, ele não aceitaria não me acompanhar. Claro que eu deixaria, aquilo fazia parte do acordo, ele queria salvar Hyoga.
— Mestre— Camus disse com a cabeça baixa e prostrado, com um joelho abaixado – Imploro que me permita acompanha-lo.
Saga logo disse, na certa pela diferença e inimizade que havia entre mim e ele:
— Camus é um desertor, não pode escoltar Atena em qualquer missão.
Dohko interferiu:
— A Assembleia não deliberou, se não votamos, a decisão não é definitiva nem oficial.
Antes que Saga respondesse, eu disse:
— Saga, creio que temos coisas mais importantes para fazer hoje do que nos alfinetarmos. Camus não é uma ameaça, em que pese tenha comprovado sua irresponsabilidade diante de todos.
Vi Camus engolir em seco com a minha fala, aquilo havia doído. Saga decidiu concordar em não levar aquilo adiante.
— Camus, você como desertor, não está apto a escoltar Atena. Porém, permito que nos acompanhe. Sou um homem de palavra e eu dei minha palavra que em troca de sua ideia você estaria livre para salvar Hyoga conosco.
Camus manteve o olhar baixo.
— Dohko, você vem comigo e Mu. É necessário ao menos dois cavaleiros experientes como nós para tal trabalho. Saga e Aioros ficam responsáveis e no comando aqui no Santuário e... Se eu e Dohko não voltarmos, Saga é o sucessor como Mestre do Santuário. E que os céus conspirem ao nosso favor...
Saga ficou abismado com minha fala. Todos ficaram. O comando seria de Camus, dá-lo ao Saga era um tapa na face do meu filho e uma bandeira de paz com meu maior rival. Respirei fundo e disse:
— Mu, Dohko... Aprontem-se.
Trouxe Saori por telecinese, avisando telepaticamente Shura e Aioria dos novos planos.
— Saori, temos um plano, preciso de você centrada e despertando o espírito de Atena que está você.
Sai andando de mão dada com minha pupila, a causadora da confusão e possível salvadora, sendo seguido por Mu, Dohko e Camus que andava mais para trás e cabisbaixo. A vergonha que ele estava sentindo era na certa maior do que ele conseguia carregar. Eu só não sabia se era orgulho ferido por ter que voltar ou se estava realmente arrependido, eu só sei que o contato com Camus me incomodava.
POV Mu
Eu estava preocupadíssimo, mas com fé que o plano funcionaria. Porém, o que me deixou mais satisfeito naquela situação toda, é que talvez meu mestre e meu irmão poderiam se resolver. A história toda era muito estranha.
Saori e Shurei conseguirem burlar meu mestre e brincar com o cetro, uma deidade marítima se juntou a elas. Não contentes em causar desordens climáticas e ambientais, Saori e seu novo namorado decidem simplesmente reverter a rotação da terra para voltar no tempo.
Eles conseguem despertar até a fúrias de Cronos, deidade que somos instruídos a não incomodar jamais.
Em meio à baderna, além de metade de nossa família ser considerada desertora pelo meu próprio pai, Hyoga e Ikki decidem fugir. Desesperado pelo bem estar do meu sobrinho, Camus chega a consultar uma pítia para descobrir seu paradeiro, uma pítia! Qual seria o próximo passo? Uma cartomante?
Agora estávamos acreditando que Ikki e Hyoga de fato estavam perto do epicentro, pois a “pítia disse”. Aquilo era ridículo, e mais ridículo ainda era Camus acreditar nisso. Na certa era coisa do Milo. De qualquer forma a ideia de utilizar o cetro lá era boa, sem dúvida, um centro de poder...
Só me questionava como seria essa viagem. Levaríamos ao menos dez horas para chegar lá e Camus estava muito próximo do meu pai. Por hora nada havia acontecido ainda, mas Dohko não saia por um segundo de perto de Shion.
Me questionava para que Dohko tinha que vir nessa viagem. Ele só atrapalhava e não fazia parte da família. Quando pensei isso percebi que Shion estava na minha cabeça e como ele me olhava indignado pelo meu pensamento. A verdade é que eu não aceitava eles, respeitava, mas não gostava de ver meu mestre dando atenção a mais alguém.
Eu respirei fundo e fui me sentar com meu irmão.
— Camyu...
— Oi Mu.
— Dureza hãm?
— Eu só quero conseguir salvar Hyoga. O cetro é necessário para acessar esse lugar no meio dessa baderna.
— Mas você não se arrependeu de desertar?
Ele respirou profundamente. Era claro que não, ele não estava arrependido. Na certa por isso que Shion se mantinha tão distante. Percebi que Camus olhava com raiva para Shion ao lado de Dohko.
— Eu também não gosto desse relacionamento.
Camus ficou calado, estava difícil manter um diálogo. Eu prossegui:
— Mas preciso lidar com isso.
— O que me incomoda não é o relacionamento e sim o fato de Shion ter mentido por toda a nossa vida. Fico imaginando quantas viagens mentirosas ele fez, quantas reuniões fingidas e quantas vezes nos deixou sozinhos para ficar com Dohko.
— Mas Camus... Ele estava sempre conosco, nos arrastava nessas viagens, nós adiávamos ir e ficar sem fazer nada. Eu também estou fulo da vida com essa história, mas não acho que Shion nos abandonava por ninguém...
Eu olhei para os dois. Aquilo não me agradava, mas eu precisei falar.
— Camus, veja o quanto Dohko e Shion são cúmplices. Eles não precisam nem falar o que pensam um para o outro, é uma sintonia perfeita. Além disse, veja como Dohko dá apoio ao papai, eu nunca o vi tão mal e acho que se o libriano não estivesse aqui, ele já te teria se afundado completamente.
Camus se mantinha impassível, com os olhos cheios de lágrimas. A dor pela possibilidade de perder Hyoga o estava consumindo a ponto de passar por cima de seu orgulho e pedir perdão mesmo sem concordar com isso. Ele estava disposto a sacrificar a própria liberdade, talvez até a vida, pelo filho.
— Mu, vamos entrar para comer algo, a chuva está começando novamente.
— Ele vai me ignorar até quando?
Camus perguntou enraivecido sentado ao meu lado, no convés daquele barco. Perguntou alto, como indireta ao meu pai que logo avançou sobre nós, se desvencilhando de Dohko que tentou segurá-lo.
— Você pode ter enganado os outros cavaleiros, mas não a mim. Eu sei que não se arrependeu de desertar, eu sei que não teria voltado se não fosse a situação com Hyoga! Então não me venha fazer exigências sobre a forma que devo trata-lo ou não, pois bem sabe que eu deveria mata-lo desde o segundo que o vi!
— Pois então mate!
Eu não podia acreditar que estava ouvindo um diálogo como aquele. Me levantei e entrei no meio dos dois.
— Por favor vocês dois... Vamos ser civilizados, ao menos até salvarmos a humanidade.
Vi Shion virar e falar de costas para nós.
— Camus, você não merece nem que eu te dirija a palavra. Você não merece estar ao meu lado. Você não merece um segundo do tempo que despendi para a sua educação.
Vi o olhar de Camus congelar.
— Camus, você foi um erro na minha vida.
Shion disse, quebrando o coração de Camus e me deixando desesperado.
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