Papa Shion
12 Decisões Abruptas
Notas iniciais
POV Dohko
Eu olhava para o Shion sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça segurada pelas suas mãos enquanto os cabelos longos lhe cobriam até a cintura. Se não fossem os silenciosos soluços e seu corpo que pulava e em cada um deles, eu não perceberia o choro que dominara Shion.
Eu vi Shion chorar poucas vezes na vida. Eu posso contar nos dedos e vivenciar novamente cada uma delas, mas nenhuma se comparava a dor que ele sentia agora. Honestamente, eu estava completamente arrependido de ter forçado toda essa situação, ele bem conhece seus filhos, já sabia o que tudo isso geraria.
Ao mesmo tempo, mantinha minha opinião quanto ao mimo dos filhos de Shion. Minu perdeu as estribeiras e falou mais do que devia, sendo que Mu me surpreendeu positivamente até certo ponto porque eu sabia que o que ele disse não era de todo verdadeiro.
Aliás, falando em surpresas, o que foi aquela reação horrorosa de Camus? A forma como ele falou fez com que eu tivesse que me segurar para não levantar e agarrá-lo pelo colarinho. Mas eu não podia inflamar mais ainda aquela situação, tive que agir com sensatez e enquanto mediador daquele conflito horrendo e sem razão.
Afinal, como nosso relacionamento poderia afetar qualquer um dos três de maneira negativa? Como algo que vivemos por tanto tempo em segredo e sempre nos colocando em segundo lugar poderia, de alguma maneira, poderia incomodar tanto os três? Eu digo os três porque mesmo Mu falando em apoio, ele não havia aceitado aquilo completamente, o que ficou claro não apenas em suas expressões, mas quando se juntou ao Camus para poder segurar Shion.
Eu olhava para Shion soluçando e não sabia o que dizer, se eu o consolava, se dizia que o amava ou se me desculpava por ter gerado tudo isso.
— Você não é culpado...
Foi quando me recordei que Shion é telepata.
— O culpado de tudo isso sou eu.
Eu não sabia o que responder. O silêncio voltou a dominar a sala e eu fiquei aflito com minhas próprias perguntas. O que, afinal, Shion queria dizer com aquilo? Ele se culpava pela atitude dos filhos ou pela nossa relação?
oOo
POV Milo
O que aqueles malucos estavam fazendo eu não sabia, mas estavam perdendo o melhor almoço da história. Aqueles adolescentes comiam como animais, a ponto de não deixar sobras para Mu ou Camus, o que no início me preocupou e depois fez com que me sentisse bem – afinal, eles menosprezaram todo o trabalho que tive na cozinha e simplesmente esqueceram do almoço em família.
Depois de algumas horas desisti de insistir nas mensagens de whatsapp, pois ele não respondia absolutamente nada. Sequer lia. Nem me preocupei, pois imaginei que talvez fosse algum problema com a Minu... Eu já sabia do que ela andava aprontando pelas fofocas que rolavam no Santuário e provavelmente o chifrudo tinha descoberto.
Estava sentado no sofá, todos já haviam partido. Hyoga dormia com a cabeça no meu colo, já Isaak dormia em seu quarto. Camus chegou de forma abrupta, batendo a porta e andando num frenesi até nosso quarto. Fiquei preocupado com Hyoga, mas ele não havia acordado. Me levantei com cuidado para não aordá-lo, andei até o meu quarto e fechei a porta.
— Posso saber o que aconteceu?
Eu questionei olhando para Camus que andava de um lado para o outro sem esboçar qualquer fala.
— Camy...
Ele levou as mãos aos cabelos. Sua cabeça estava a mil, eu podia ver.
— Milo, nós vamos embora. Arrume suas coisas.
Eu respirei fundo, sem entender o que ele dizia.
— Ok, fomos enviados em serviço externo? Para onde e por quanto tempo? Preciso saber o que colocar na mala...
— Não Milo, nós vamos embora.
— Vamos para outro posto de forma permanete?
— Milo, não. Nós vamos embora.
Era sua terceira repetição, dessa vez ele olhou no fundo dos meus olhos. Eu finalmente entendi, ele queria desertar? Abandonar nossos postos enquanto cavaleiros? Abandonar nossas casas e nossa responsabilidade enquanto protetores? Mas...
— Milo, você está comigo?
O que aquela pergunta significava? Que ele iria mesmo sem mim? “Comigo”... O que havia acontecido para ele pensar assim?
— Camus, você sabe que a punição para desertores é a morte, correto? Não sei se ainda está válido, pois muitos cavaleiros abandonaram o Santuário e estão bem, mas há um protocolo a seguir. Devemos pedir o desligamento e...
— Você está comigo ou não?
— Camus, calma! Eu sempre estou com você, mas...
— Então arrume as suas malas!
Ele disse jogando duas malas grandes em cima da cama. Jogou algumas gavetas inteiras dentro de uma e saiu para o quarto dos meninos, fazendo o mesmo sem acordá-los.
— Camus, podemos conversar?
— Não quero conversar, Milo. Quero apenas sair daqui.
— Mas e seu posto? Você tem suas responsabilidades administrativas, Shion concordou com isso?
Quando mencionei Shion, vi fogo nos olhos do meu marido. Ele agarrou meu braço com força, quase me machucando, quando deu uma ordem.
— Eu não quero mais ouvir esse nome, entendeu?
Eu apenas acenei amedrontado. Definitivamente algo havia acontecido, mas eu não ia conseguir arrancar de Camus naquele momento, sem dúvida nenhuma uma briga séria. Fiquei realmente receoso em bater de frente com ele, era melhor concordar. Joguei qualquer coisa nas malas e fui atrás dele.
— Minha mala está pronta, você tem certeza disso?
— Absoluta.
Camus colocava as roupas dos meninos na mala, jogando todas as malas no carro logo depois. Aquilo era impulsivo demais para Camus, se fosse há alguns anos, eu estaria amando. Mas tudo que eu conseguia sentir agora era preocupação.
— Camus, o que falaremos para os meninos?
— Eles não precisam entender agora. Mas no futuro vão me agradecer por eu dar uma vida normal para eles.
Então era isso, ele definitivamente queria abandonar nossos postos. Aquilo devia ser feito de outra forma, definitivamente. Havia um protocolo a seguir, sair daquela forma era sinônimo de desertar, o que me fazia pensar que o que Camus queria, na verdade, era apenas ferir profundamente o seu mestre.
— Camy, ao menos me deixe fazer o reporte formal ao Shion.
— Milo, eu já disse. Não farei reporte nenhum.
— Camus, seja razoável.
Ele me ignorou, indo acordar os meninos e os levando sonolentos até o carro enquanto eles reclamavam.
Ele entrou no carro, eu também e ele logo disse enquanto colocava o cinto.
— É o seguinte, estamos saindo do Santuário. Por hora vocês não precisam entender, nem concordar, mas acho que precisamos de um tempo daqui. No futuro, depois de eu dividir certas coisas com vocês, cada um pode decidir fazer o que quiser da vida. Até lá, estamos fora da ordem dos cavaleiros.
A frase de Camus não fazia sentido, sairíamos sem concordar, mas se futuro alguém quisesse voltar, tudo bem? Ele realmente estava confuso. Percebi que Hyoga ia reclamar, mas lhe dei uma olhada como quem pede para não fazê-lo. Camus não estava em seu estado normal e era melhor nem tentar entender o que estava acontecendo enquanto ele não se acalmasse.
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