Papa Shion
14 Decepção
Notas iniciais
POV Mu
Contei tudo que acontecera ao Shaka no caminho. Meu marido sentia uma dificuldade plausível de entender a dinâmica de nossa família, talvez porque ele não teve isso ou talvez porque enxergar figuras tão proeminentes do Santuário como seres falhos era difícil.
— Eu não posso acreditar. Não posso acreditar que Shion e Dohko esconderam isso de todos por tanto tempo. Mas é mais difícil ainda acreditar que Camus teve essa reação tão absurda! Afinal, qual é o problema nesse relacionamento? E como ele pode afetá-lo tanto?
Eu o ouvia atentamente enquanto corria com o carro a cinto e vinte quilômetros por hora, rezando em silêncio para chegar ao aeroporto internacional a tempo. Eu precisava arrastar meu irmão de volta...
— Mu, para mim está claro que você pensa diferente do que diz. Você não está confortável com esse relacionamento também. Só tento entender a razão...
Eu respirei fundo e não respondi. Ele prosseguiu.
— Você sabe que se Camus e sua família realmente desertarem, se não quiserem voltar conosco, se tornarão inimigos do Santuário.
Eu não respondi, apenas uma lágrima caiu dos meus olhos. Eu não poderia jamais ser rival do meu irmão, mas não sei qual seria o decreto do meu pai diante disso. Nessa hora me questionei se deveria tê-lo chamado para o aeroporto...
Shaka estava rígido no banco de carona, era nítido para mim que ele apenas julgava Camus e suas atitudes. Aquilo me irritava um pouco, eu estava bastante nervoso, por qual razão meu marido não podia ser um pouco mais compreensivo.
— Porque antes de qualquer coisa, somos cavaleiros de uma ordem. Nossos sentimentos pessoais não podem interferir nisso.
— Então se eu quisesse fugir, você não acompanharia como Milo fez com Camus?
Um silêncio melancólico se fez no carro. Me lembrei de alguns meses atrás quando Shaka me abandonou na minha crise. Pelos céus Shion acabou dando um jeito em tudo. A verdade é que não sabia o que era mais importante para Shaka, se o Santuário ou nossa família. Para mim a resposta era muito clara: minha família acima de tudo.
Larguei o carro no estacionamento de qualquer jeito e corri, sendo seguido por Shaka, por toda a área procurando Camus. Usei minha credencial para acionar a segurança, alguém tinha que encontrar meu irmão.
Shaka sumiu, na certa devia estar procurando melhor do que eu. Olhei meu celular e vi as mensagens de Milo, pelo horário eu já devia tê-los perdido. Tentei ligar desesperadamente, mas a ligação não era completada. Não havia mais tempo.
Camus e os outros haviam fugido. Chegamos tarde demais.
POV Dohko
Shion estava num estado letárgico. Até se movimentava pouco, porém já não chorava mais. Se eu não o conhecesse, diria que estava alheio a tudo, mas o conhecendo bem eu sabia que dentro de sua cabeça acontecia uma guerra pessoal e ele se questionava o que fazer e como fazer.
Decidi que era hora de uma aproximação e, quem sabe, uma conversa. Ele precisava sair daquele estado. Tínhamos tarefas a cumprir.
— Shi... Fale comigo, por favor.
Ele apenas engoliu em seco enquanto eu segurei sua mão me sentando ao lado dele.
— Shi. Vai ficar tudo bem, eu prometo... As coisas vão se acertar. As coisas tem que se acertar. Só precisamos dar tempo ao tempo.
Ele fez que ia responder e ficou calado, apenas apertando minha mão com vontade de me sentir perto dele.
— O que Camus falou foi inadmissível. Mas eu sei que vocês acharão uma maneira de se acertarem, afinal, é seu filho...
Shion engoliu em seco com uma careta, parecia que diria algo como “Camus não é meu filho”, mas não disse. Como eu queria poder ler pensamentos naquele momento... Ficamos em silêncio, por mais uma ou duas horas.
Shion não queria falar e eu respeitaria isso. Mas o meu apoio incondicional ele teria. Sempre. Acabamos nos juntando num abraço, sentados no sofá e permanecendo assim por mais tempo... Até que Mu entra na sala ao lado de Shaka com uma face perturbada.
No mesmo momento Shion se levanta de sobressalto com os olhos arregalados olhando para Mu.
— ELE NÃO FEZ ISSO!
A veia que salta na testa de Shion quando está nervoso estava mais aparente que nunca. Shaka se mantinha impassível e Mu quase chorava como quem implora clemência ao pai. Eu, como o único não telepata da sala, estava completamente perdido. O que estava acontecendo?
— Calma Shion, o que houve?
Vi meu companheiro ficar calado, olhando para o chão. Olhei para Shaka que foi bastante claro e direto.
— Camus, Milo, Hyoga e Isaak saíram do país, optando pela deserção.
Aquilo caiu em mim como uma bomba. Mu olhou sério para Shaka.
— Eles saíram do país, talvez tenham ido apenas tirar alguns dias de férias. Não podemos nos precipitar.
Um silêncio se instarou na sala, até que Shion rompeu o clima falando com a sua voz forte e firme de sempre. Era como se ele tivesse voltado ao seu estado normal.
— Camus, Milo e seus pupilos bem sabem que são obrigados a solicitar saídas à administração. É de conhecimento geral que sair do país é proibido sem a devida autorização.
Ele não disse mais nada, apenas caminhou pelas escadarias. Nós o seguimos e vimos que ele entrou na casa de aquário e vasculhou o ambiente, dando-se conta que as armaduras estavam no local. Para que o crime de deserção se configure, é necessário que os cavaleiros não levem consigo as armaduras – o que demonstra que abandonam suas funções como cavaleiros.
— Dohko, por gentileza convoque uma reunião geral administrativa.
Shion virou as costas e saiu, andando para a torre. Ele estava determinado, já havia visto ele assim antes, e sabia que nada o deteria.
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