Papa Shion
6 DR e Insegurança
Notas iniciais
POV SHION
Eu ligava sem parar para o celular dele e não encontrava resposta alguma, me questionava qual a razão de Dohko ter saído da minha casa tão ofendido. Será que eu havia perdido parte da conversa dele com meus filhos?
Já tinha revirado toda a sede administrativa, ele não estava na minha sala ou na dele, bem como não estava em nenhuma das salas do prédio. Fui até a torre e andei por todos os cômodos sem sucesso também. Passei por todas as casas zodiacais e não pude sentir seu cosmos.
Vasculhei o refeitório, o estacionamento, o centro de treinamento. Passei pela arena aberta e todas as suas câmaras internas. Andei pelas trilhas, procurando pelos bancos do caminho. Não estava em lugar algum.
Agora faltava apenas o local das amazonas e as colinas... As colinas?! Era isso. Ele estava no nosso chalé, local no qual ficávamos quando não queríamos que os outros nos encontrassem, era nosso disfarce perfeito. Pelas nossas funções, conseguimos isolar o local de atividade, ninguém passava por lá normalmente.
Demorei mais de quinze minutos para chegar, andando com passos rápidos. Abri a porta de maneira abrupta, já chamando por seu nome.
— Dohko!
Ele não estava na pequena sala escura de madeira, o cheiro daquele lugar já me acalmava. Era lá que eu podia amar Dohko sem me preocupar com mais nada. Ele também não estava na cozinha, mas estava lá em algum lugar, eu podia sentí-lo.
Foi então que o vi no nosso quarto, sentado na cama. Ele estava curvado, com os pés quase apoiando no chão e as mãos apoiadas em seus joelhos segurando sua cabeça. Eu nunca havia visto ele nessa postura.
— Doh...
— Oi Shi.
Ele olhou, não estava chorando, mas sua face estava absolutamente entristecida. Eu respirei sentindo uma pontada em meu peito por vê-lo daquela forma.
— Meu amor... Você pode me contar o que está acontecendo? Foi algo que Camus disse? Eu posso resolver isso...
— Não Shion. Não é isso...
— Então o que é? Por favor, me fale, eu vou resolver.
Foi então que o libriano olhou no fundo dos meus olhos e não disse nada. Obviamente nosso relacionamento era difícil, mais difícil que os demais. Ambos tínhamos os cargos mais elevados do Santuário, bem como havíamos passado pelas guerras mais sangrentas da história dos cavaleiros dourados.
Aprendemos a nos satisfazer com pouco. Pouco contato e pouco tempo, era o que podíamos ter e aproveitávamos cada segundo. Aprendemos a nos virar com as migalhas que conseguíamos em meio a uma infinidade de afazeres e responsabilidades.
— Shion, eu não estou mais feliz.
Aquilo foi uma facada em meu peito. Ele não estava mais feliz... Comigo?
— Eu não te faço feliz?
Ele suspirou profundamente.
POV DOHKO
Como explicar para o lemuriano que eu não via mais sentido em nada daquilo? A fala de Camus foi um tapa em minha cara “não estamos interessados em seu sermão” e “isso é um assunto de família”. Após tantas décadas com Shion, eu precisava ouvir isso do garoto que eu vi crescer.
Mas o pior é que ele tinha razão. Eu não tinha relação nenhuma com Shion e a família dele, nós não éramos mais que um caso, em verdade. Um relacionamento escondido, espúrio e duvidoso.
Quando olhei novamente para Shion, restou claro que ele acompanhava meus pensamentos, coisa que eu odeio profundamente e eu já havia me prometido que não faria novamente. Franzi o cenho e ele logo se desculpou.
— Perdão Dohko, não consegui controlar, só queria saber que o eu havia feito de errado.
— Você não fez nada de errado...
— Mas me explique a razão desse descontentamente. Se foi só pelo que o Camus falou...
— Não Shion, não foi. Ele tem razão, a verdade é que não somos mais que meros amantes. Nos encontramos às escuras há décadas, nos escondemos, vivemos juntos algumas horas em cada semana e pronto. Qual é nossa relação além disso?
Vi Shion se ajoelhar a minha frente e segurar meu rosto entre suas palmas, fazendo com que eu o encarasse.
— Você sabe que isso não é verdade. Se estou vivo hoje, devo a você. Você foi minha única razão de sobreviver à guerra sangrenta...
— E qual é a razão de vivermos hoje?
— Não posso acreditar que você está passando por stress pós-traumático também. Não posso acreditar que você também não se encontra nesse tempos de paz e...
— Não, não é isso.
— E então?
Fiquei calado novamente, ele não entendia. Finalmente estávamos numa era em que havia paz, não precisávamos sair em combate semanalmente sem termos a certeza de quantos voltarão. O relacionamento gay é aceito, não há mais necessidade de se esconder da sociedade. Temos tempo, coisa que nunca tivemos... Qual a razão de prosseguirmos escondidos?
Vi, então, Shion se sentar ao meu lado na cama olhando para baixo. Ele havia novamente lido meus pensamentos. Aquilo me irritava.
— Me perdoe, não quis te chatear.
Eu fiquei calado ao lado dele, ambos olhando para o chão.
— Você quer tornar nosso relacionamento público, Dohko?
— Eu não sei mais o que eu quero. Só sei que talvez não tenha mais razão para mantermos segredo sobre isso.
— Eu não sei se essa ideia me agrada Dohko. Temos posições de cúpula aqui, você sabe que sempre querem procurar alguma fraqueza para tentar atrapalhar o andamento das coisas aqui... Aliás, Saga fez na sema...
— Ah, sempre Saga! Chega com esse seu complexo!
Vi Shion franzir o cenho. Eu definitivamente tinha que vigiar melhor as minhas palavras. Fiquei calado e ele prosseguiu.
— Realmente, não há mais preconceito contra casais homoafetivos, aliás, quase todos aqui são homossexuais. Não temos mais batalhas. Mas nós dois estamos na posição de chefia aqui, temos famílias que teria que lidar com isso. Eu realmente não sei, Dohko. Não me agrada em nada essa ideia.
Aquilo foi devastador para mim, não lhe agradava a ideia de assumir que me amava? Aliás, ele me amava? Pela sua face eu pude ver que ele não acompanhava mais meus pensamentos. Me levantei.
— Pois bem, Shion, se você acha isso...
— Espere Dohko, eu apenas...
— Já ouvi o bastante. Preciso voltar, deixei Shiryu sozinho treinando na cachoeira e Shunrei já deve estar voltando do centro, preciso falar com ela.
— Dohko, por favor, não terminamos de conversar.
— Agora eu já sei o que você pensa, não se preocupe Shion, se não quer que ninguém saiba, ninguém saberá.
Eu falei abrindo a porta e saindo rápido. Não aguentava mais aquela conversa. Na verdade sequer me lembro de eu e Shion discordando de algo sobre nossa relação. Talvez ele tivesse razão, talvez fosse melhor deixar as coisas como estavam.
Ou talvez fosse melhor terminarmos com esse relacionamento. Fechei a porta sem saber se ele havia lido meus pensamentos ou não, naquele momento eu apenas queria distância. Após alguns minutos, eu percebi que ele não me seguiu. Na verdade acho que sequer saiu do chalé.
Não tardou até eu chegar na casa de libra, pelo horário, Shiryu já deveria ter voltado do treino e Shunrei do centro. Abri a porta e vi ambos lá, ela arrumando as flores que comprou no vaso da sala e ele assistindo televisão no sofá.
— Boa tarde, crianças.
— Oi mestre. – Shiryu disse sem tirar os olhos do televisor.
— Papai!
Shunrei pulou em mim, ela sempre afetuosa. Conseguiu me arrancar um sorriso, trazendo um pouco de paz para o meu coração.
— Você já comeram? – Perguntei.
— Ainda não... – Disse o meu pupilo. — O que acham de pedirmos uma pizza?
— Não Shiryu, estou de dieta. – Shunrei falou.
— Até parece que tem gordura aí para perder... Vai acabar anoréxica já já.
Eu decidi cortar a conversa antes que eles começassem a discutir.
— E se pedirmos no Giollo´s? Você pode pedir uma salada, Shunrei, e você uma pizza Shiryu.
Eles concordaram, pedi para que fizessem o pedido enquanto eu tomava banho. Precisava relaxar um pouco, aquele dia tinha me exaurido do ponto de vista psicológico.
POV Shion
— Mestre...
— Mestre?
Eu estava sentado em minha poltrona de leitura, com o livro no colo e os olhos num ponto fixo no assoalho de madeira do meu escritório de casa. Ao fundo, demorei para distinguir as vozes dos meus pupilos me chamando.
— O-oi crianças.
— Está tudo bem?
Perguntou a Saori, um pouco preocupada enquanto Ikki me fitava com uma das sobrancelhas levantadas.
— Sim, está. O que vocês querem?
Eu perguntei de forma delicada após limpar o pigarro da garganta.
— Estamos com fome... Será que podemos pedir delivery?
— Não gosto de vocês comendo essas porcarias, sabem disso.
— Mas não tem nada aqui e...
Eu revirei os olhos enquanto peguei o telefone e disquei para o Giollo´s.
— Alô, olá, tudo bem? Podem me mandar um filé de linguado com legumes, uma porção de peixe no vapor com cogumelos, uma chapa de brócolis com tofu e um bifum com curry, amendoim e vegetais.
Desliguei e vi os dois me olhando com bastante revolta.
— Que que foi?
— O Giollo´s tem um monte de coisa gostosa e o senhor me pede essa gororoba saudável? Por que raios não me pediu uma pizza?
Ikki disse, e nos moldes dele até que foi bastante educado. Eu ignorei e tornei meus olhos para o livro, na tentativa de enganá-los. Eu não estava com cabeça para ler ou para qualquer outra coisa.
Eu e Dohko nunca havíamos discutido na vida e, por mais que não tenhamos brigado, ele disse que talvez não devêssemos mais prosseguir com o relacionamento. Será que foi sério? Será que ele realmente está pensando em terminar o relacionamento?
E que ideia foi essa de tornar nosso relacionamento público? Seria um escândalo! E nem quero pensar em como Camus, Milo, Mu e Shaka receberiam essa notícia. Isso sem falar em Ikki e Saori. Eu não sei... Só se...
— Paaaaai, a comida chegou.
— Podem comer, eu preciso terminar essa leitura.
Falei alto, do meu escritório. Era uma forma de eu escapar do contato social que não queria. Não sentia fome alguma, na verdade meu estômago estava completamente embrulhado. Respirei fundo com uma sensação de enjoo constante.
Seria o fim?
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