Panem Et Circenses
26 Finalistas
Notas iniciais
Por quê?
Essa é a pergunta que eu me faço quando Kalle enfia sua espada nas costas de Aven, logo abaixo de sua mochila.
E nos poucos segundos antes de morrer, ela faz a mesma pergunta, em voz alta, virando a cabeça lentamente para olhar para ele. E é a única coisa que ela tem tempo de falar, antes de começar a tossir compulsivamente, como se estivesse engasgada, e sangue começar a jorrar de sua boca, caindo na neve e no agasalho branco de Kalle.
Kalle, sorrindo com tranquilidade, como se a pergunta que Aven fez – que, para me deixar ainda mais horrorizada, foi a mesma que eu fiz para Flavia quando ela estava prestes a me matar – fosse uma pergunta inocente sobre um assunto que ele entendesse bem, puxa a lâmina para fora do corpo da garota, que desaba no chão. Logo a neve ao redor dela fica manchada pelo seu sangue, que não para de escorrer de sua boca e de seu nariz, e me sinto tonta ao me lembrar de que Pine também teve uma hemorragia interna antes de morrer.
Ele espera o canhão – o último canhão que soará na Trigésima Segunda Edição dos Jogos Vorazes – soar, para então responder, olhando-a como se nada estivesse errado com ela:
— Porque se você matasse a Três e nós dois fossemos os finalistas, eu ia ter maior dificuldade em matar você do que se eu e a Três o fossemos.
Quando Kalle fala isso, percebo o quanto eu estou farta. Farta de ter medo de Carreiristas. Farta dos Jogos Vorazes. Farta de ser considerada fraca.
Farta de tal forma que, quando ele se dirige para mim, perguntando “E então? Pronta para a final?”, com a calma que se convida alguém para dar um passeio, eu respondo:
— Céus, você nunca cala a boca?
É uma vitória particular ver que isso desmancha o sorriso dele imediatamente. Mas estar farta não é me livrar de todos os meus medos, e sim me cansar deles. Assim, mesmo que não dê para perceber com a minha resposta atravessada, eu ainda tenho medo de Kalle. Ou, mais precisamente, da dor que ele vai me proporcionar ao me assassinar.
— Acredita que me perguntam isso desde que eu era bem pequeno? – Ele responde, pulando o corpo de Aven para chegar até mim, me apontando a espada já suja de sangue.
Não. Não pode ser tão fácil assim. Os Idealizadores sempre fazem de tudo para tornar as finais dos Jogos inesquecíveis, e as últimas mortes costumam ser as mais horrendas e cruéis. Eles vão simplesmente deixar que eu, finalista, morra assim, com uma espada cravada no pescoço? Sem nenhuma emoção que distinga esta morte de todas as outras vinte e duas?
Logo quando estou começando a acreditar nisso, o chão sob nossos pés começa a tremer.
— Que droga...? – Kalle fala por nós dois, se afastando um passo de mim por reflexo, e ambos olhamos em volta, para ver as árvores à nossa volta também tremendo.
Vai ficando mais forte, e nós dois somos jogados na neve. A espada dele sai de suas mãos, e eu aproveito para tentar pegá-la, mas o tremor também a leva para longe de mim.
Tento, mas não consigo me levantar. Ele tampouco, mas o vejo sendo arrastado pelo tremor para uns seis metros longe de mim, e a espada dele indo a sua direção, ficando novamente ao seu alcance.
Ele agarra a empunhadura. Está mais uma vez armado.
Mas nenhum de nós vai conseguir fazer algo enquanto o tremor estiver acontecendo. Se o plano dos Idealizadores dos Jogos era nos fazer lutar assim, está sendo um fiasco completo.
Eu entendo que o plano deles não é bem esse quando o chão começa a se partir.
Primeiro, vejo surgir uma rachadura no espaço entre eu e Kalle. Depois, finalmente, parece que o chão inteiro começa a se rachar, e então se parte, revelando água por baixo do chão que em que pisamos há dias.
Ao que a arena é fragmentada, e eu me vejo sobre um pedaço de chão de aproximadamente cinco metros quadrados coberto de neve flutuando na água, separada da floresta, que também foi dividida em pedaços, e separada do pedaço onde está Kalle com sua espada e o corpo de Aven, com a espada dela a seu lado, o tremor para.
Agora é que a luta final vai começar de verdade.
Ponho-me em pé, e ele faz o mesmo. Calculo que o trecho de água entre onde eu e ele estamos não é maior que dois metros. Ele poderia atirar a espada em mim, mas seria muito ariscado. Eu poderia desviar e ainda pegar a arma.
Mas Kalle teria uma segunda chance, pois ainda pode pegar a espada de Aven no chão, enquanto eu estou pateticamente desarmada.
Ele não perde tempo. Se aproxima da borda do pedaço dele e, após examinar bem o trecho de água, recua alguns passos para pegar impulso e, correndo, pula para o meu.
O chão treme mais uma vez, agora por causa do peso dele.
Recuo para longe dele, apesar de não ter para onde ir. Kalle continua avançando, para me matar.
Focada que estou para me manter distante dele, acabo não prestando atenção em onde estou pisando. A área em que estou é pequena, e acabo pisando em falso, caindo de costas na água.
Eu acreditava que era experiente em sentir dor, tanto física quanto emocional, graças aos meus últimos dias na arena. Mas nenhuma dor, em nenhum momento, se compara a esta.
Nem a morte não pode ser mais dolorosa do que a água fria encostando, de repente, em cada centímetro de meu corpo. É tão gelado que eu sequer consigo me lembrar de o que é sentir calor.
Eu sinto vontade de morrer.
Mas lembro de ter ouvido falar, em algum lugar, que em situações desesperadoras as pessoas arranjam uma energia que elas sequer sabiam que tinham.
E descubro que isso é a mais pura verdade.
Paro de me contorcer na água com desespero, e começo a nadar para cima.
Sei que se eu subir na neve, Kalle vai estar lá esperando para me matar. Por isso, não é isso que eu faço.
O que eu realmente faço é emergir por apenas um instante, e antes que ele possa baixar a espada sobre meu crânio, agarro uma perna dele e o puxo para baixo, submergindo eu mesma logo em seguida.
Eu tenho o benefício do elemento surpresa. Os poucos segundos em que estive debaixo d’água antes dele me fazem estar mais acostumada com a situação do que Kalle, e enquanto ele ainda está se debatendo, surpreso, volto a nadar para cima.
O ruim é que ele logo se recupera, e vem atrás de mim.
Quando você está fugindo de alguém que quer te matar, parece que toda a velocidade é pouca. Quero nadar mais rápido e mais rápido, e ao ver que não consigo, tiro o meu agasalho para me livrar de um pouco de meu peso. Ele está tão encharcado que não faz diferença se estou com ele agora ou não.
Foi a ideia perfeita. Eu não só consigo nadar mais rápido como o casaco vai à direção de Kalle, ficando bem na frente do rosto dele, e ele tem de parar por um segundo para tirá-lo da frente.
Este segundo me dá grande vantagem, e no seguinte estou agarrando a borda de um pedaço de neve.
Mas não é o pedaço de neve em que eu estava antes, e sim o em que ele estava.
Estou molhada até os ossos, batendo os dentes e tremendo violentamente de frio, como Aster estava quando saiu daquele lago no dia em que formei minha aliança com Nydia e Coriander, quando apoio meus braços no chão e começo a me erguer para fora da água.
Kalle chega logo atrás, e sinto suas mãos agarrando um de meus pés antes que eu possa subir, tentando me puxar para baixo como eu fiz com ele. Me seguro firme e, com o meu pé livre, dou um forte chute no rosto dele.
Isso o repele razoavelmente, mandando-o para alguns centímetros mais abaixo. Mas na insistência de não me soltar, ele acaba arrancando minha bota direita.
Subo no pedaço de neve, e olho em volta. Estou no mesmo plano que o corpo de Aven, e a espada dela.
Neste momento, sinto algo que já não sentia há muito tempo: Uma fagulha de esperança.
Agarro a espada que, há pouco, quase tirou minha vida, mas que agora é a única coisa que pode salvá-la. Kalle se agarra ao pedaço de neve, e tenta se erguer também. E eu, com a outra mão, o agarro pelos cabelos, imobilizando sua cabeça, e passo a lâmina da espada em sua garganta.
E o mais estranho nisso é que eu não fico com medo, não sinto remorso, não fico espantada por ter matado alguém pela terceira vez, nem animada por ter sobrevivido.
Eu só dou em Kalle um golpe no pescoço, o solto, e assisto ao seu corpo afundar nas profundezas de uma água muito fria e escura, deixando um rastro mais escuro ainda de sangue no caminho, totalmente apática.
Espero um canhão, mas o que ouço ao invés disso é uma voz alta vindo de alto-falantes invisíveis dizendo:
— Senhoras e senhores, tenho o prazer de anunciar a vitoriosa da Trigésima Segunda Edição dos Jogos Vorazes, Edelweiss Roxteed, do Distrito 3!
Fale com o autor