Notas iniciais
Gente, vocês vão ter de me perdoar por não ter respondido aos comentários do último capítulo... Li e adorei todos, mas simplesmente não deu para responder. Mas dedico este capítulo à todos que o comentaram: Katycat, MahTheApple, Marco Aurélio, Glommy in Reverse, Lily Duncan e Rebeca Costa. Vocês são muito especiais para mim, galera.
Espero que gostem do capítulo!

Kallux me acompanha até o elevador e então me diz um “até logo”. Agora eu vou descer para o subsolo do Centro de Treinamento, onde são realizados os treinos, porque acima dele, além do saguão, fica o palco, e é tradição que o vitorioso e sua equipe entrem lá vindos de baixo.

Desço sozinha. Kallux, Cabelo Rosa, Careca Verde e Cara-de-Plástica ficam para vestirem as próprias roupas, mas logo também vão descer.

Quando a porta do elevador se abre para todas as seções de treinamento, com todas suas armas, cordas e bonecos ainda rasgados e mutilados, que ainda não foram substituídos pelos novos que serão utilizados pelos tributos do ano que vem, sinto um bolo se formar em minha garganta. No meu cérebro imagens de silhuetas de todos os tributos que já morreram após passarem por aqui – todos os setecentos e trinta e seis – vagam por entre as seções, com sua esperança de vencer. E então, todos os milhares e milhares que passarão por aqui no futuro se juntam à cena. Ainda estou sã e sei que isso é apenas uma imagem mental, mas fico bastante tempo encarando a cena, desolada e sem querer passar por entre eles para chegar à área abaixo do palco, o único lugar daqui que está iluminado e onde Mastt e Simary estão.

Demoro um pouco, mas enfim vou até eles. E, embora eu considere esse assunto fútil e por isso prefira evitá-lo, a primeira coisa que faço ao chegar é apontar para o meu rosto e perguntar:

- Está ruim?

É claro Kallux me disse que estou mais bonita agora, mas não posso me basear apenas na opinião dele.

- É lógico que não, Edelweiss, não seja boba. – Responde Simary.

- Não acho que deveriam ter mexido com sua aparência deste jeito, mas não está ruim. – Diz Mastt.

Decido, então, que já recebi opiniões o suficiente para enterrar este assunto para sempre.

Já é possível ouvir as vozes da multidão da Capital chegando, lá em cima. Estarei na televisão novamente dentro de alguns minutos, sendo que, se pudesse, me manteria longe das câmeras pelo resto de minha vida.

E também me manteria longe do hino de Panem, que começa a tocar anunciando que o evento está para começar.

- Onde estão aqueles quatro? – Simary, nervosa, pergunta, olhando para o elevador, mas eu e Mastt não precisamos responder, pois como se só esperando a deixa, a porta se abre e Kallux, Cabelo Rosa, Careca Verde e Cara-de-Plástica saem de lá, vindo rapidamente nesta direção.

Simary não diz a eles algo sobre o atraso, e não posso deixar de pensar que se fosse eu quem chegasse assim, já na hora do hino, ela iria me querer esquartejar. Porém com eles é diferente, naturalmente.

- Edelweiss – Fala Kallux, com os olhos brilhando, e, embora ele tenha se colocado ao meu lado, tenho de me esforçar para ouvir suas palavras por causa do volume do hino -, esta é a primeira vez nos trinta e dois anos em que estou trabalhando como estilista para os Jogos que um tributo meu me dá essa oportunidade.

- De nada. – Digo, incerta se isso é o certo a ser respondido, visto que ele não me agradeceu, apenas me informou de algo.

O hino cessa, e ouço a voz de Ava Cantal no palco, saudando o público. Por sorte não serei entrevistada por ela hoje, mas ela terá de estar presente durante toda a coroação e os rituais que a precedem.

Minha equipe de preparação caminha até uma plataforma de metal sobre o chão. Quando Ava anunciar, a placa será erguida e eles irromperão no palco, já que antes de o tributo ser devidamente apresentado à plateia, toda equipe de seu distrito deverá ter sido antes, a começar pela equipe de preparação, então a acompanhante, o estilista, o mentor e por fim o tributo.

Tento ouvir quando ela diz os nomes dos três, mas o som é abafado. É uma das coisas que, acho, estou destinada a jamais saber.

Consigo ouvir o quanto Cabelo Rosa, Careca Verde e Cara-de-Plástica são aplaudidos quando sobem ao palco. É algo tão exagerado que tenho medo do que o público guarda para mim. Afinal, eles são apenas minha equipe de preparação, e estão sendo ovacionados.

Simary é a próxima a subir ao palco e recebe ainda mais aplausos, mas não tanto quanto Kallux, que vai depois.

- Você vai precisar ser muito forte para aguentar as próximas horas, Edelweiss. – Mastt diz, me abraçando, antes de ele mesmo ir – Boa sorte.

E me vejo sozinha sob o palco, mas por apenas alguns momentos. Ao final deles, tenho de subir também na plataforma, que me ergue até o palco exatamente da mesma forma que entrei na arena.

Sinto-me instantaneamente cegada quando a semiescuridão do andar de treinamento é substituída pelo brilho ofuscante das luzes do palco, dos flashes das câmeras e da cintilante noite da Capital, e instantaneamente ensurdecida pelos gritos, assobios e aplausos da plateia.

Debilmente, ergo uma mão para acenar e abro um enorme sorriso, o que aumenta a agitação do público. Quando consigo focar minha visão outra vez, vejo que toneladas de flores estão sendo arremessadas ao palco.

Isso deve durar por vários minutos, até Ava fazer um gesto com as mãos para eles se acalmarem, e então se virar para mim e gesticular para eu me sentar numa elegante cadeira que foi posta para mim no meio do palco.

Ando até lá, sentindo um pouco de dó por ter de pisar em tão belas flores. Mas andar por cima delas é o único jeito, porque estão praticamente forrando todo o palco.

Sento, e Ava conversa com o público antes de dar início ao espetáculo, e finjo estar prestando a atenção a tudo que ela está dizendo, sorrindo. Mas na realidade estou nervosa demais para prestar a atenção. Vão passar para eu ver, agora, um resumo de três horas de todas as últimas semanas, desde as colheitas.

Mastt tem razão. Eu preciso ter força e sorte para conseguir aguentar isso, passar por tudo uma segunda vez. Uma força e uma sorte que não creio ter.

As luzes enfraquecem, e um telão é aceso. Não preciso assistir muito para sentir meus olhos cheios de lágrimas, e torço para que a maquiagem que estou usando seja à prova d’água.

Todos os anos, fazem o resumo dos Jogos focando em detalhes que o deixem parecido com um filme, contando uma história, e neste ano, o tema dele é confiança. Não foi um tema totalmente inapropriado, mas qual é o filme sobre confiança em que quase todos os personagens morrem?

E lá está, morrendo diante de meus olhos pela segunda vez, a Joy. O Pine. Constato com horror que pareço tão psicopata quanto Aster quando mato Junie e Flavia. O mesmo horror, aliás, que há no meu olhar quando Aster mata Nydia, e depois é morta por Coriander. Descubro que Coriander realmente morreu pelas mãos dos Carreiristas, e sua morte foi longa e dolorosa. Só não fecho os olhos em todas essas partes porque eu sei o que acontece quando um vitorioso se recusa a ver um segundo sequer dos resumos dos Jogos. Casos assim acontecem com bastante frequência, e Pacificadores sobem ao palco para mantê-lo assistindo, por bem ou por mal. Mas espera-se que os vitoriosos passem por isso de cabeça erguida.

Quando o vídeo acaba ao final da terceira hora, com a minha vitória sendo anunciada, o telão é apagado e as luzes voltam com a mesma intensidade de antes.

Parece que eu passei pela arena não uma, mas duas vezes. Porém Ava, que certamente não se importou com a sensação de ter assistido a tudo duas vezes, sorri para mim.

- Ora, sem desânimo, Edelweiss! Agora vamos para a parte mais especial da noite!

A plateia vai à loucura com a menção à minha coroação. Demasiado abalada para me importar, levanto enquanto o presidente Snow sobe ao palco acompanhado por uma menina de não mais de oito anos, segurando uma almofada com uma coroa prateada incrustrada de diamantes sobre ela.

Fixo meu olhar no chão, procurando não olhá-lo de jeito algum. Não que haja algo bizarro na aparência do jovem presidente, mas o olhar sempre cruel dele é algo insuportável. Sempre achei isso, e a impressão se agravou depois da gafe que quase cometi na minha entrevista.

Olhando para nada além de os sapatos dele, vejo-o parar à minha frente, e mais algum tempo depois sinto quando algo frio e pesado é colocado sobre minha cabeça, se encaixando nela perfeitamente.

O presidente Snow e a menina saem da minha frente, e finalmente tomo coragem de levantar a cabeça e sorrir e acenar novamente para a plateia, que me atira ainda mais flores.

Ava implora para que prestem atenção a um último comunicado dela, antes de encerrarmos, mas ela demora vários minutos para conseguir. E, no final, ela só quer lembrar a todos que assistam à entrevista que ela fará comigo amanhã, como é obrigatório para toda a nação.

Meu humor abaixa quando me lembro de que amanhã terei de ser entrevistada, mas levanta até o ápice quando penso que, depois da entrevista, entrarei em um trem que me levará diretamente para o Distrito 3, meu lar.

Meu sorriso e minha empolgação para com o público se tornam menos artificiais depois disso, o que é muito bom, pois preciso de mais rios dessas coisas, já que os Pacificadores aparecem para me escoltar até a mansão do presidente para o banquete da vitória. E embora o percurso do Centro de Treinamento até lá seja curto, muita gente aparece no caminho pedindo autógrafos meus, fotos comigo, ou simplesmente dizendo o quanto são meus fãs e quanto dinheiro investiram em mim nos Jogos, me fazendo demorar mais de duas horas até chegar.

Sinto até alívio ao subir as escadas de mármore que levam às enormes portas da mansão do presidente Snow, mesmo que isso não pareça muito possível.

Entrando na mansão, sou guiada por dois avoxes – os servos mudos da Capital, que são pessoas que sabiam demais e tiveram suas línguas arrancadas fora para que nunca contassem os segredos para alguém – para uma sala onde há a maior mesa de banquete com a maior quantidade de comida que já vi em toda minha vida.

Snow, o anfitrião do banquete, está sentado na ponta da mesa, e ao redor dela gente da alta-hierarquia me aplaude quando chego, como se eu ainda não houvesse sido suficientemente aplaudida.

Além deles, também há Simary, Kallux e Mastt aqui. Não a minha equipe de preparação; ela não deve ter sido considerada importante o bastante para ser convidada.

Me sento no único lugar vago na mesa, que é a ponta oposta da em que o presidente está sentado, e ele me observa longamente, antes de se levantar e começar a fazer um discurso sobre os Jogos.

Sou convidada a falar quando ele termina, mas o convite me soa mais como uma intimação, então prefiro não negá-lo. Porém, limito-me a dizer poucas frases. Não sou capaz de dizer mais que isso sem usar palavras que, definitivamente, não seriam bem vistas.

Recebemos a permissão de comer após isso.

Todas as conversas feitas durante a refeição são sobre mim, ou a última edição dos Jogos, assunto que acaba me envolvendo. Tento responder educadamente às pessoas o tempo inteiro, mas vai ficando mais difícil conforme as horas vão passando, e eu vou sentindo que aos poucos o meu corpo vai ficando mole e minhas pálpebras começam a pesar.

O relógio de parede do aposento já está marcando quatro horas da manhã quando o presidente faz outro discurso, este para se despedir, e todos os convidados se retiram da sala, caminhando juntos para a porta de entrada.

Mastt vem até mim e passa um braço ao redor de meus ombros. Sorrio fracamente para ele.

- Nunca estive acordada até tão tarde.

- Sempre há uma primeira vez.

Os convidados começam a pegar seus respectivos agasalhos no mancebo e a se despedirem, e eu e Mastt paramos, esperando para sairmos junto com Simary e Kallux.

- Obrigada por ter esperado por mim de verdade. – Aproveito para dizer, mesmo que um mero “obrigada” não expresse a minha verdadeira gratidão.

Mastt olha bem dentro de meus olhos por um momento, e em seguida, abaixa sua cabeça até os seus lábios encontrarem os meus.

É um beijo que expressa o que palavras não conseguem dizer – mas mais que “não há de que”, definitivamente.


Notas finais
Até o próximo capítulo! Que, por acaso, será o penúltimo. Ai, ai...