Pandora
24 Here and Now
Notas iniciais
A primeira coisa que eu notei era que eu não conseguia respirar. Nenhum órgão cooperava comigo e eu não conseguia me mover. Quando reuni todas as forças que tinha para abrir os olhos, me arrependi. A luz era extremamente forte e parecia queimar minha alma. Lentamente, meus dedos me obedeceram e começaram a se mover, fechando minhas mãos em punhos. O ar invadiu meus pulmões e meu corpo se aqueceu.
Então eu me levantei.
Eu não fazia ideia de onde estava. Na verdade aquilo não podia ser considerado um lugar. Estava tudo branco e luminoso, todos os lados para onde eu olhava tudo. Imagine uma folha de papel branca com um ponto preto no meio. Eu era aquele ponto.
Eu não sentia mais dor, sofrimento, traição, nem mesmo amor. Nada. Apenas curiosidade.
Eu usava um longo vestido branco. Meu cabelo estava solto. Olhei para a minha pele. Estava sem nenhum corte que Nick havia feito em mim. Naquele local, no momento, eu o perdoei. Seu desejo pelo poder era mais forte que sua sanidade. Se eu estava bem, por que raiva?
— Olá, Carter — disse a voz de uma garota. Eu não conseguia distinguir a idade, era como se toda a minha lógica tivesse sido jogada fora.
Mas quando me virei, olhei para a menina de cabelos negros que parecia ter treze anos. Ela usava um vestido igualmente branco, mas este batia em seus joelhos ossudos. Ela me observou com interesse enquanto eu tentava formular uma pergunta:
— Agora é realmente um local onde não conseguimos processar as informações — disse e tocou minha testa. Os meus pensamentos se embaralharam e eu sentia que ia vomitar. Eram tantas perguntas!
— Como?
— Ah, perdão. Agora é onde estamos. Chamamos de Aqui & Agora.
— Eu não compreendo... Quem é você? — foi a primeira pergunta que consegui pensar.
— Sou chamada de vários nomes no seu mundo. Por hora pode me chamar de Pandora.
E seus olhos azuis encararam os meus. Segurei a minha cabeça como se ela fosse estourar, mas eu não sentia nada. Era como algo querendo escapar da minha mente. De fato, eu senti aquilo quando a garota desviou o olhar e eu fui levada pelas minhas próprias lembranças.
Lá estava eu quando criança. Tinha dez anos. Meus olhos azuis enormes se destacavam no meu rosto, que sempre parecia triste. Mas eu estava muito feliz no dia. Era aniversário do meu irmão Sam. E lá estava ele atrás de mim, correndo desajeitadamente tentando me alcançar com suas pernas gordinhas de garoto de cinco anos. O garotinho gritava de frustração por nunca me pegar no pega-pega, então eu fingi estar cansada e permiti que o menino me tocasse gentilmente para dizer que havia vencido.
Abri meus olhos. Estava de volta àquele local branco. Pandora estava virada de costas para mim:
— Você sou eu — afirmei. — Você tem a mesma aparência da Eu de dez anos.
— Sim. Eu tomei a sua forma de treze anos. Talvez isto a lembre porque esta idade foi tão importante para você.
E eu apareci na minha casa. A minha casa de verdade, onde eu e meus pais morávamos. Em menção a eles, percebi que estavam ali na sala de visitas.
— EU ESTOU CANSADA, JOHN! EU ESTOU CANSADA DE TE ESPERAR ACORDADA PARA PERCEBER QUE VOCÊ ESTÁ BÊBADO QUANDO VOLTA!
— VOCÊ NÃO ME DIRÁ O QUE FAZER OU NÃO!
— ESTOU FARTA! ACABOU! QUERO DIVÓRCIO!
E então meu pai saiu de casa e alguns minutos depois, minha mãe também. Era óbvio que ela não iria atrás dele, mas mesmo assim a observei pela janela, andando até que desaparecesse em meio a tantas outras pessoas. Um barulho que não foi mais que um soluço ecoou pela sala e notei que um pequeno garoto entrava no meu quarto. Sam.
Eu olhei para o relógio e percebi que logo a antiga Carter chegaria da escola. Ela deveria ter treze anos. Fiquei ao lado do meu irmão, sussurrando que estava tudo bem e que eu estava bem enquanto ele rasgava todos os livros do meu estande. Surpreendi-me ao ver que o último que ele rasgou era o que sempre líamos em Hogwarts.
Engoli em seco ao perceber que ele sempre soube que era meu irmão. Tinha de saber. Ele nunca teve dúvidas sobre meus poderes também, o que me lembrou que ele era um espião. Não consegui mais pensar naquilo.
Enquanto ele rasgava nosso livro, a antiga Carter entrou no quarto.
Depois de momentos em silêncio tocando as folhas espalhadas no chão, ela começou a xingá-lo. Não tinha tantos argumentos para brigar com ele, mas usou os que tinham. Sam parecia totalmente fragilizado com a separação dos pais, mas ele não mencionou nada. Simplesmente ficou calado. Então, sua expressão se fechou e ele falou o que eu temia:
— São apenas livros, Pandora. É só lixo.
Ele parecia querer magoá-la, mas deixou-a furiosa. Pandora empurrou-o com força suficiente para fazê-lo cair, e sua magia se acionou. Eu até podia ver quando algo dentro dela se espalhou pelo quarto, uma onda transparente de magia. Quando percebi o que aconteceria, já era tarde demais. O armário onde os livros estavam, enorme e pesado, caindo.
Aconteceu em câmera lenta para mim, o que foi pior. Eu vi quando o armário atingia a cabeça frágil de Sammy e o pressionou contra o chão. Eu pude ouvir seus ossos se quebrando e vi o sangue se espalhando no piso. De repente, um flash passou por mim e o puxou debaixo de lá. Pandora, obviamente, estava com adrenalina nos sangues. Eu era apenas uma espectadora e não estava viva para ter sangue. Aquilo não me impediu de berrar.
O corpo morto de Sam no colo dela. No meu colo. Uma hora ele estava em pé, outra jazia no meu colo, morto. Ela olhou para ele e sussurrava seu nome várias e várias vezes. Quando levantou o olhar, pude ver apenas uma lágrima descendo do seu rosto pálido. Primeiramente vi medo na sua expressão. Mas então ela pareceu ver alguma coisa que eu não podia e se levantou. Ficou de pé observando-o por apenas uma fração de segundo e saiu do quarto.
Eu sabia para onde ela estava indo, claro. Eu era Pandora. Eu havia visto um caminho. Era muito longe, mas eu não teria desafios no trajeto. Eu estava indo para a Organização.
E então foi como se eu tivesse acordado. Pandora estava na minha frente.
— Ele está morto — me ajoelhei. Minha voz estava fina.
— Sim, e apenas você poderá mudar a situação. Diga-me, você sabe onde está?
— Aqui & Agora. Você disse...
— Este lugar não foi criado para nada. Todos passamos por aqui para seguirmos nosso caminho.
— Mas o nosso caminho é o Céu e o inferno, não é isso?
— Existem outras escolhas, inclusive a de uma pessoa desesperada para voltar ao mundo dos mortais.
— Fantasmas... Eles passam por aqui?
— Sim. E vocês também visitam este local quando estão dormindo, nos sonhos. Aqui é a sua terra do nunca, podemos dizer. Mas nós tínhamos uma missão para você, Carter, e não está completa. Ainda precisamos de você. Mas você deve escolher.
— Preciso voltar. Tenho que terminar o que eu já comecei. Preciso deter Nick. Ele está com os meus poderes.
— Carter, você sabe que podemos selecionar outra pessoa para a missão. Está ciente de que não será fácil em nenhum momento? Terá coisas duras para aguentar em sua jornada. E não sabemos o que acontecerá no final. Está em suas mãos fazer seu próprio destino.
— Eu sei. — simplesmente respondi. A garota de treze anos, com seus cabelos negros como o breu, sorriu.
— Por ser assim, concedo-lhe três desejos. Adeus, Pandora.
Seus olhos azuis ficaram brilhantes e foi como se seus olhos se fechassem, mas eram os meus. Não fazia a mínima ideia.
Os flashes de imagens eram rápidos demais para processar, mas minha mente se enchia de memórias que me foram tiradas. Tudo.
Me concentrei em apenas uma de cada vez.
"Me lembrei de quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Meus pais estavam dentro do quarto 412 e a enfermeira finalmente abriu a porta para mim, me deixando entrar. Sorri. Entrei saltitando no quarto de hospital e observei o pequeno ser nos braços da minha mãe. 'O nome do seu irmãozinho é Sam. Sam Stevens.' Ela riu com o nome. Estava radiante."
Eu entendi naquele momento que Sam havia trocado seu sobrenome quando veio me espionar na Organização.
"Eu fui acordada pela minha mãe com um bolo de aniversário na cama".
"O garoto chamado Thomas, meu colega de escola, me puxou para o lado e me entregou uma caixa de chocolates"
"Um ano depois, quando eu tinha treze anos, Thomas me pediu em namoro. Recusei gentilmente".
"Eu estava ao lado de Fred, presa naquela cela da Organização. Era dia doze de Março e no dia anterior havia sido meu aniversário. Meu estômago roncava, mesmo que eu tivesse acabado de comer. O ruivo me olhou com ternura e me deu seu prato de comida".
"— Eu te amo, Pandora.
— Eu também te amo, Fred.
E nos abraçamos. Coraline estava em alguma sala, sendo 'examinada'. Meu coração se encheu daquilo que eu nem sabia que tinha por ele. Amor. Aquela palavra soava tão estranha, peculiar. Explicava realmente o por que de Fred ter sido o primeiro pensamento que eu havia pensado quando havia acordado. E o por que dele, entre tantas pessoas, ter sido o garoto com quem eu havia alucinado. De eu sempre sonhar com ele. O ruivo desconhecido. Porque eu o amava tanto que não conseguia esquecê-lo, mesmo que tivesse sido forçada a perder minhas memórias".
Eu gritei. O barulho ecoou no vácuo onde eu me encontrava, no eterno vazio onde eu flutuava, sendo puxada para a realidade.
E então, eu sentia o sangue fluindo pelo meu corpo. Meu coração batendo. A pele se aquecendo.
E eu estava aonde tudo havia começado. Observei enquanto a antiga eu era resgatada da Câmara Secreta e depositada no banheiro. Nick irritou James. Era por isso que eles não se davam bem? Era besteira.
Então eu dei dois passos para trás quando James virou o rosto em todas as direções, procurando por alguém. Encostei na parede e foi como se ela passasse de sólida para gasosa, e de repente apareci no beco diagonal. Logo notei que a eu antiga estava sentada em uma cadeira da sorveteria. Percebi que eu havia acabado de comprar a minha varinha e me lembrei da sensação de ter alguém me observando. Foi aquilo que me fez esconder atrás de uma velha senhora, andando lentamente em uma direção qualquer. Quando estava indo atrás dos arbustos, fui levada a outro local. Era noite.
Engoli em seco ao notar que ao meu lado estava Nick. Estávamos em um local cheio de árvores onde conseguíamos ver tudo, mas ninguém nos veria. Se ele virasse a cabeça para o lado, perceberia que eu estava ali. Nem respirei. Ele vigiou sem interesse a casa dos Weasley e eu engoli em seco ao perceber que ele podia se virar na minha direção a qualquer segundo. Percebi que aquele era o dia em que eu e Rose fomos atacadas pelo estranho. Tinha sido ele. Ah, claro que tinha sido!
E então, de repente, a antiga Carter parou e o encarou pela janela e ele andou para trás por alguns segundos e desaparatou. Por um segundo, fiquei aliviada. Foi então que eu percebi que se Nick não atirou o feitiço nela, quem havia sido? Arregalei os olhos. Contei até dois segundos mentalmente e me aproximei mais da casa para ver se havia alguém ali, mas já obtive a minha resposta. Rose e Carter me observaram pelo canto da janela e se abaixaram. Fechei meus olhos e peguei a varinha. Pus o capuz do casaco na minha cabeça, me cobrindo...
E comecei a correr. Carter e Rose arregalaram os olhos e apontei a varinha na direção delas.
Eu tinha mesmo que bombardear seu quarto? Não podia dar apenas um susto? Não, eu sabia. A única coisa que me faria ir para Hogwarts seria aquilo. Eu tinha que fazer.
Carter se jogou em cima de Rose e ambas caíram no chão exatamente quando eu rachava seu teto.
Quando finalmente desacelerei, o cenário ao meu redor mudou.
— E daí que eu quero que ele veja o quão atrativa você é, mesmo não podendo namorá-la. Isso vai ser uma boa dose de vingança para ele. — Nick sorriu.
— Você é muito vingativo, é isso que eu acho. Nunca vou te querer como inimigo, pode crer. — Carter sorriu — Agora boa noite, eu preciso tomar um banho.
Viajei novamente. A drogada Carter andava cambaleante pelos corredores. Se apoiava nas paredes e após alguns metros, caiu.
O corredor estava vazio. Carter tossiu e estava começando a respirar pesado. Ela se encostou na parede e vi uma sombra vindo em sua direção. Não me surpreendi ao ver quem era.
— Socorro — Carter sussurrou baixinho. Mas ela sabia que não viria socorro. Se abaixou e ficou sentada enquanto Nick a agarrava e levava para fora do castelo.
Tudo começou a rodar ao meu redor. A biblioteca de Hogwarts finalmente entra em foco e de longe, observei Carter perguntar a bibliotecária:
— E alguma Coraline Ray? Sabe algo dela?
— Não, desculpe.
O dia em que encontrei a estranha na biblioteca. Eu já parei de ficar surpresa. Me lembrei que eu senti um arrepio e observei a biblioteca, encontrando uma sombra me espiando. E assim Carter fez. Fugi, correndo até o final do corredor e ela me seguiu. Concentrei minha magia na luz daquele corredor, que começou a piscar e se apagou no local aonde eu estava. Carter continuou me seguindo, e mesmo que eu acelerasse, ela não me perdia de vista. Finalmente eu fiquei encurralada no fim do corredor e escutei a voz inocente da antiga eu:
— Hey, calma! Eu não vou fazer nada! Você trabalha para a Organização?
Parei, como se ela tivesse me congelado. Engoli em seco. Carter não fazia ideia. Não fazia ideia do que me fizeram. A Fred... Eu podia dizer tudo a ela naquele exato momento. Cometeria tantos erros a menos... Movi o casaco para mostrar os cortes que Nick havia me feito no braço e me virei em sua direção o suficiente para que ela os visse.
— Não confie nele. — murmurei. Meus olhos estavam marejados.
Andei rapidamente até a parede e andei como se fosse um portal. Mas bati a cabeça no muro sólido. Não consegui respirar. Eu já tinha de ter ido embora. Não, não, não, não, não! O que eu faria? Dei alguns passos para trás e virei o corredor.
— Ei, calma! Quem é você? Eu posso ajudar! De quem você está falando? Jeremiah Watson? — Carter perguntou enquanto me seguia.
Mas graças a Deus eu me encostei em uma prateleira e me desloquei para outro lugar.
Uma voz masculina preenchia o silencio daquele corredor:
— Ao contrário de você, eu quero proteger as pessoas ao meu redor. Você nem deve ter se importado com isso, não é? Só deve estar pensando no quão sua vida foi ruim.
Sebastian provocava Carter e eu podia ver o quão enjoada ela parecia. Me fiz invisível com meus poderes que agora pareciam ilimitados. Não me senti cansada. Quando me dei conta, Carter debilmente tentava estrangulá-lo quando os braços dele a agarraram. Ele puxou seu cabelo com força e a jogou contra a parede violentamente. Então sua magia se acionou.
Ela o paralisou. Olhou fixamente para ele por alguns segundos, respirou fundo várias vezes e o soltou, jogando-o contra a parede. Então fugiu. Arregalei os olhos ao ver que assim que a magia parou de controlá-lo, Sebastian caiu de joelhos no chão. Eu não podia deixá-lo falar qualquer coisa contra mim. Me aproximei dele (agora visível) e segurei seu rosto com as duas mãos, expressão séria.
— Por favor! Por favor... — ele implorou.
— Ah, cale a boca — revirei os olhos e murmurei, observando-o — Obliviate!
Seus olhos viraram das órbitas e ficaram totalmente brancos até que voltaram ao normal e ele desmaiou. Agora eu sabia por que ele não veio me provocar depois dali. Quando o corpo inconsciente de Sebastian finalmente alcançou o chão, não ouvi nenhum barulho, já que eu estava em um corredor escuro. Eu sabia que James estava a alguns passos de mim e que ele estava procurando a antiga Carter, que havia sido raptada por Nick. Ele se aproximou.
— Ela está na casa do Hagrid. Se despeça dela. — ele sabia que eu me referia a Carter. Eu falei com uma voz rouca e bem grossa para que ele não me reconhecesse.
Quando abri os olhos, eu me localizava em uma espécie de corredor onde já não havia James nenhum, o qual eu já havia sonhado antes.
Eu realmente estava ali.
Na Organização.
Fred!
Arregalei os olhos e novamente me fiz invisível. Corri com todas as minhas forças até as celas. Eu sabia que havia voltado algum tempo no passado, já que quando eu havia vindo ali da última vez, as paredes estavam recém-pintadas. No momento, elas ainda estavam com a tinta meio lascada e de uma cor cremosa esbranquiçada em vez de totalmente branca.
Eu me lembrava de tudo o que havia passado ali. As lembranças fizeram meus olhos lacrimejarem e provocarem ânsia de vômito. Meu último dia ali havia sido aterrorizante. Eles haviam nos drogado em uma quantidade muito grande que me fazia cambalear se tentasse levantar. O homem de terno veio me buscar e usei minhas últimas forças para lhe lançar um feitiço que o nocauteou. Eu e Fred corremos, mas não era suficiente. Ele parou para lutar com os homens que nos perseguiam e eu desmaiei.
Fuja e me encontre.
Eu vou te encontrar. Eu prometo.
Quando parei na cela número 302, não encontrei ninguém. Como era possível? Ele tinha que estar ali! Era ali que eu tinha deixado ele! Ele não podia ter... Não. Não, não, não, não, não! Ele tinha dezessete anos. Aquilo podia ter acontecido. Meus olhos se encheram de lágrimas. Minhas mãos começaram a tremer. Balancei a cabeça e caí no chão. Não podia ser tarde demais. Ele continuava usando as drogas. Ele tinha que durar mais!
— Oi? Tem alguém aí? — uma voz rouca perguntou.
Eu paralisei. O mundo ao meu redor pareceu parar. De repente ele apareceu na cela à direita da que eu observava. Estava magro e parecia desnutrido. Seus cabelos ruivos batiam nos seus ombros e suas roupas estavam imundas. Mas era ele. Era ele. Me apressei em levantar, trêmula, e abri magicamente a porta de sua cela. Ele olhou para ela sem muito interesse e se sentou na cama. Franzi o cenho. Meu coração batia a mil e eu mal conseguia me manter em pé de tanta saudade dele. Retirei o feitiço que me fazia invisível e entrei na cela.
— Fred. — minha voz saiu tão triste e profunda que eu não pude acreditar que ele sequer olhou para mim.
— Saia daqui. Sabe que eu odeio quando você está aqui.
— Fred, sou eu. Car... Pandora.
— Não. A verdadeira Pandora está em algum lugar dessa porcaria de mundo. Eu nem sei se ela está viva.
Pisquei os olhos várias vezes. Ele achava que eu era uma alucinação. Meu Deus. Ele achava que eu era uma alucinação!
— Fred, sou eu. Sou eu! — me aproximei para tocá-lo, mas ele se afastou de mim. Ele não fazia ideia do quanto aquilo me magoou.
— Vá embora.
— Por favor, por favor. Você tem que acreditar em mim. — eu estava quase chorando — Essa é a sua única chance de fugir. Por favor. Não sei quanto tempo tenho antes de me deslocar.
E finalmente eu me aproximei o suficiente para tocá-lo. Minhas mãos estavam geladas de nervosismo e eu segurei o seu pulso, puxando-o. Fred arregalou os olhos. Suas pupilas dilataram. Comecei a chorar.
— Fred, sou eu. — funguei.
— Pandora? — seu tom de voz me fez chorar mais ainda.
— Eu te encontrei. — eu estava com um nó na garganta.
Nos observamos por alguns segundos antes dele se levantar e se aproximar. E finalmente ele me abraçou. Foi algo tão emocionante que eu não pude acreditar que acabou em alguns segundos. Segurei sua mão com força.
— Fred, estou ouvindo pessoas vindo para cá. Passamos tempo demais aqui.
— Pandora. Mas como você...
— Agora não, Fred!
Eu não sabia o que fazer. Se eu fosse transportada, ele seria também? Eu tinha sérias dúvidas. Os homens de terno já eram audíveis para Fred e corremos pelos corredores sem fim.
Agora podíamos ver os homens atrás da gente.
— Fred, segure na minha mão e não solte. Vou fazer uma coisa louca.
Concentrei toda a minha magia naquele local. Eu pude sentir a barreira contra magia que proibia pessoas de sairem de lá por esse meio, mas quem quer que seja que inventou aquilo, eles não sabiam de uma coisa.
Eu era mais forte.
Gritei quando eu a destruía e não abri os olhos por um segundo. Aparatei.
***
— Ah! — Fred exclamou quando caímos de joelho no jardim de algum local. Eu não fazia ideia de como havia parado lá, mas agradeci a Deus por tê-lo feito.
— Fred — eu só consegui pronunciar aquelas palavras quando o joguei na grama e o abracei. Quando nos soltamos, ele olhou para o céu e suas mãos tocaram a grama.
— Eu pensei que nunca mais veria isto daqui de novo. Pandora, como você conseguiu...?
— Eu tenho pouco tempo, Fred. Me diga: você se sente fraco? Poderes descontrolados?
— Há pouco tempo, sim. — ele parecia desconsertado — Mas eu alucinei com uma garotinha e de repente eu fiquei forte de novo. Não, eu estou muito melhor.
Quase pude ouvir Pandora me sussurrar no ouvido:
"Vou conceder-lhe três desejos"
Minhas memórias, voltar no tempo e Fred. Suspirei de alívio. Ele ficaria bem.
— Fred, eu preciso que você entenda. Sou meio que... do futuro. Vá para Southampton. É suficientemente longe de Londres. Vou demorar alguns meses para aparecer lá, mas eu prometo que vou aparecer. Fique lá, por favor. Eu te...
Seus olhos azuis me encaravam, dóceis. Foi a última coisa que vi quando contra minha vontade fui transportada para um local que eu conhecia como casa.
Sammy brigava com a pequena e inocente Carter.
Ela derrubava o armário em cima dele.
Quando a poça de sangue começou a aparecer, ela começou a chorar e fugiu para a Organização.
Me ajoelhei ao lado do armário que esmagava o meu irmão e o levantei com certo esforço e um pouco de magia. Não consegui olhar meu irmãozinho loiro. Claro que seus cabelos logo se tornariam castanhos, que seria como eu o conheceria no trem para Hogwarts. Eu toquei em seu rosto que continuava quente. Com toda a minha energia, todos os meus sentimentos reunidos, tudo mesmo, me concentrei naquele pequeno ser cuja vida literalmente dependia de mim. No início, nada aconteceu. Mas logo a poça de sangue no chão começou a retroceder e a voltar para dentro do corpo dele, como devia ser. Os ossos quebrados começaram a estalar quando voltaram ao lugar e naquele momento, só parecia que ele havia desmaiado.
Eu sentia como se toda a minha energia estivesse se drenando de mim, mas ao mesmo tempo ela continuava lá, sem ir para lugar nenhum. Sim, eu notei a diferença. Meus poderes não tinham limite, barreiras. Eu não morreria mais.
Finalmente ele começou a se mover e fiquei invisível. O pequeno se sentou desajeitadamente e seus olhos vasculharam o quarto. Se levantou, arrumou a bagunça que estava o meu quarto e se trancou no seu.
E finalmente, finalmente, eu sabia que não apareceria em mais nenhum local.
Quando eu abrisse meus olhos, eu realmente estaria no meu tempo, onde todos achavam que eu estava morta.
Fale com o autor