Pandemonium - Interativa
2 Princesses and Heroes
Notas iniciais
Jane estava fazendo uma de suas atividades preferidas no acampamento meio-sangue: caminhar pelos campos de morangos, sem nenhum destino aparente ou objetivo aparente. Caminhar apenas pelo prazer de fazê-lo, sozinha com seus pensamentos. Não que a loira não gostasse de pessoas, mas era tão tímida que ficar sozinha acabava sendo mais divertido do que ficar nervosa na frente de conhecidos com quem não tinha muita intimidade.
Gostava do roçar das folhas verdes dos arbustos em suas pernas descobertas pela saia cor-de-rosa, e das ocasionais borboletas que por ali passavam. Acima de tudo, amava a paz e a doçura do local (muito parecidas com as da própria Jane Bennet), mesmo que estes fossem ocasionalmente interrompidos por dois ou três campistas barulhentos e animados, rindo alto e gritando.
A filha de Deméter sentou-se em meio aos arbustos, colocando uma das frutinhas vermelhas na boca. Tinha um bloquinho de notas na mão, onde rascunhava um poema. Era inútil tentar. Toda vez que escrevia algo acabava se lembrando demais de Henry, o que a levava ao choro excessivo.
Ainda se lembrava do rosto da Empousa que havia encerrado precocemente a vida do rapaz, colocando fim também a vida normal da garota. Jane gostaria de encontrar o monstro novamente mais do que desejava qualquer coisa no mundo, mas, mesmo que a encontrasse, o que poderia fazer? Era apenas uma garotinha, não sabia nem mesmo como controlar seus poderes. Era inútil, assim como sua tentativa de fazer um poema.
Ela sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, que caiam de seus olhos involuntariamente. Ao redor de seus pés, pequenas plantas floresceram e morreram em poucos minutos. A loira ficou apenas lá sentada, com lágrimas florescendo em seus belos olhos verdes e rolando por seu rosto de porcelana.
Jane ouviu um farfalhar a alguns metros de si, ignorando por pensar que se tratava apenas de outro semideus. À medida que o barulho se aproximava, contudo, se sentia mais nervosa e menos triste. Estava com medo de olhar, mas com mais medo ainda de ficar parada.
A garota virou a cabeça com os olhos ainda cheios de lágrimas. Ao perceber o que lhe encarava, gritou.
***
Kenai estava irritado. Ou melhor: continuava irritado. Primeiro, havia sido acordado aos berros por um maldito filho de Hermes que havia ido até o chalé de Ares para avisar de uma reunião qualquer que aconteceria de noite em volta do anfiteatro. Depois, quando ia voltar a dormir, fora desafiado para uma luta com Tristan, um convencido qualquer filho de Apolo. Claro que tinha dado uma surra no pobre garoto, mas ele tinha pedido. Como se Kenai Nimble pudesse ser vencido por qualquer um.
O que melhorava um pouco seu humor era estar curioso sobre a tal reunião. Não que o filho de Ares se importasse com essas coisas normalmente, mas depois do desaparecimento da garota que era o oráculo na semana anterior e do surgimento da nova profecia, todos estavam preocupados com o que aconteceria dali em diante.
De qualquer forma, aquilo não era problema dele, pelo menos por enquanto. Percy Jackson cuidaria daquilo, como sempre. Ele e aquela namorada filha de Atena dele sempre resolviam a maioria dos problemas do acampamento e dessa vez não seria diferente.
O moreno às vezes sentia uma pontada de ciúme de toda a atenção que o Jackson recebia, mas não era como realmente se importasse. Não desejava ser um herói.
Pegou seu Chakram* e partiu em direção a floresta, esperando encontrar algum monstro. Estava passando pelos estábulos quando escutou um grito agudo e aterrorizado vindo do lado dos campos de morangos.
Kenai correu até lá o mais rápido que pôde, encontrando uma Jane em posição de defesa, com apenas uma adaga na mão e os olhos vermelhos de tanto chorar. Ele pegou uma pedra no chão e jogou na cabeça da harpia que atacava a menina, que se virou para o garoto derrubando a filha de Deméter.
– Ei, sua pomba velha, por que não ataca alguém que possa se defender? – A harpia sibilou, olhando em direção do filho de Ares irritada – Isso mesmo, venha cá!
Ele jogou o Chakram na direção do monstro, que acertou o monstro e depois voltou na direção do seu dono. A harpia gritou, um som esganiçado e ensurdecedor.
Com as garras estendidas para frente, voou em direção ao garôo e o acertou no tórax, rasgando a camiseta e cortando o peito do garoto. Ele revidou com um golpe do Chakram no pescoço do monstro, que mais uma vez guinchou.
Jane, se levantando, correu e enfiou sua adaga nas costas da Harpia, fazendo com que o monstro de desfizesse em pó. Dando um passo para trás, acabou pisando em um buraco que fez com que a loira se desequilibrasse e caísse estatelada no chão.
Kenai riu ao ver a garota caída.
– Aqui, princesa, levanta – ele ofereceu a mão para ela – Bom trabalho ali com a monstrenga. Faz alguma ideia do que um monstro estava fazendo nessa parte do acampamento?
Jane corou fortemente ao ser chamada daquela forma, mas aceitou a ajuda se levantou, ainda um pouco atônita pela luta. Olhando para baixo, respondeu baixinho:
– Não. O-Obrigada pela ajuda ali atrás.
– Não há de que. Nada como ajudar uma dama – ele piscou para ela – Sou Kenai Nimble, filho de Ares.
Ela sabia quem ele era. Todos do acampamento sabiam.
– Jane Bennet – ela juntou as mãos, entrelaçando os dedos – Deméter.
– É a princesa dos cereais, então? – ele implicou – O que tem de tão interessante no chão que você não para de olhar para ele?
– Na-nada. Me desculpe – ela olhou para o garoto. Era justamente esse tipo de situação que procurava evitar ao ficar sozinha nos campos de morango.
– Não precisa ficar nervosa, Jane. Eu sei que sou lindo e mar... – Kenai olhou para o chão, percebendo raízes saindo do solo e se enrolando tanto nos coturnos dele quanto nas sapatilhas da garota.
Jane percebeu para onde ele olhava e enfiou as unhas na palma de suas mãos, para tentar se controlar.
– Eu... Me desculpe! – E saiu andando em direção aos chalés.
***
– Lettie! Acorda! – A morena estalou os dedos na frente do rosto da amiga, fazendo Scarlett sair de seu devaneio – A reunião já vai começar, e eu to ansiosa!
Os olhos de Kiera brilhavam de empolgação. Não era preciso muito para que a sonhadora filha de Morfeu ficasse daquele jeito: animada, agitada e curiosa.
– Pelo amor de deus, ou melhor, dos deuses: se acalme! Céus, você daqui a pouco vai sair pulando por aí – Scarlett respondeu mal-humorada.
– Estou seriamente cogitando fazer isso – disse Kiera, séria, para então abrir um sorriso brincalhão – eu to tão curiosa! O que você acha que Quíron vai falar? Será que tem alguma coisa a ver com o desaparecimento da Rachel? Ou eles vão finalmente instalar Wi-Fi no acampamento?
A morena puxou o braço da amiga, fazendo com que se dirigissem para o anfiteatro. Chegando lá, encontraram um espaço lotado de campistas, brilhando com a luz de uma enorme fogueira que tinha as chamas purpúreas.
– O que você acha que significa? – perguntou Kiera, maravilhada.
– O que significa o quê, Kiera? – respondeu à amiga.
– A fogueira, Lettie – os olhos lavanda da garota refletiam o tom das chamas, se tornando ligeiramente lilases – As cores refletem o humor do acampamento.
– Provavelmente está refletindo a minha irritação por ter sido arrastada até aqui. – Scarlett resmungou, alto o suficiente para que apenas a filha de Morfeu ouvisse.
– Você é tão irritante! Tudo bem, volte par o seu chalé, fica lá enfurnada escutando música depressiva e...
– Calma, drama queen. Eu já estou aqui, não estou?
– Eu não sou uma drama queen! Não é minha culpa se você parece ser uma lesma, de tão preguiçosa – Kiera protestou.
– Além de dramática, ela ainda é teimosa... – Cantarolou Scarlett.
– Não sou teimosa!
– É sim.
– Não sou não!
Scarlett levantou uma sobrancelha e sorriu, como se dissesse: ta vendo?
A morena suspirou, ignorando a amiga. Deixaria para continuar aquela discussão depois (embora odiasse dar o braço a torcer), pois na hora Quíron estava começando o discurso, e naquele momento sua curiosidade falava mais alto que sua teimosia.
– Como vocês sabem, nesta semana o oráculo do acampamento, Rachel Elizabeth Dare, desapareceu sob circunstâncias misteriosas – o centauro começou.
– Vá direto ao ponto, Quíron! Não tenho tempo para blábláblá – resmungou o Sr. D.
– Como eu estava dizendo, Rachel desapareceu. Antes de sumir, ela me contou sobre o sonho que teve e fez uma última profecia – Quíron hesitou, antes de continuar a falar – A profecia envolvia forças que não podemos controlar, mas também envolvia sonhos.
Quíron descreveu cada detalhe do sonho de Rachel, explicando que eles deveriam contar a ele se tivessem qualquer tipo de sonho parecido ou anormal.
Kiera estava pulando por dentro. Sendo filha de Morfeu, o que mais amava eram sonhos e histórias. A garota queria estar envolvida nessa profecia, queria viver aventuras tão dignas de serem contadas quanto as que Aquiles e Perseu viveram, na Grécia antiga.
Em algum lugar no fundo de seu ser, a morena dos olhos de lavanda sentia que era uma heroína.
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