Pandemonium

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Dedico esse capitulo á todos aqueles que foram sinceros comigo. Icaro, Kevin, Ana... Muito obrigado!

Havia dois anos que Tina estava na escola. Ela não queria estudar, ainda mais com o pandemonium acontecendo. Mas, em Pandora, as crianças eram obrigadas á ingressar em alguma escola da região. Enquanto os filhos estudavam, os pais serviam ao exército. O pai de Tina havia morrido alguns meses antes dela nascer. Ela não o conhecia, mas ouviu tantas histórias de sua mãe, que podia imaginar exatamente como ele era. Tina sempre pedia à sua mãe que contasse histórias antes de dormir, e as suas favoritas eram as que envolviam seu pai. Ele era um bom homem, gostava de ajudar as pessoas. Chamava-se Chang. Era alto, magro, tinha os olhos grandes e negros, e seus cabelos eram grisalhos. Pelo menos era assim que a mãe de Tina o descrevia. Ele veio para Pandora há trinta anos, a fim de tentar sobreviver e dar uma vida melhor á sua família. Ninguém sabe ao certo como ele morreu. Ele desapareceu poucos anos antes do “Pandemonium” começar. Tina achava que se ele estivesse aqui, nada disso aconteceria, não haveria Pandemonium, crianças inocentes não morreriam. Seu irmão não teria morrido. Luke, que havia sido tudo para ela. Luke era quem cuidava de Tina. Ele a defendia, a protegia. Na ausência de Chang, era ele quem fazia o papel de pai. Não só de pai, mas de mãe, amigo e irmão. E ela havia o perdido. Ela havia perdido o que mais importava na vida dela.

Tudo isso passou pela cabeça de Tina em questão de segundos. Ela ainda estava deitada no chão, na área de dormitório. Aquilo era mesmo real. Ela havia mesmo perdido seu irmão.


Tina levantou-se, e foi correndo em direção ao seu irmão. O desespero já estava tomando conta de seu corpo. Sua visão já estava embaçada, devido as lagrimas que estavam prestes á cair. Ela se ajoelhou ao lado do irmão. Ela ainda tinha esperanças de que ele pudesse sobreviver, mas assim que chegou ao seu lado, percebeu que não teria mais volta. Os dois tiros haviam acertado em cheio a cabeça de Luke. Tina entrou em total desespero. Ao ver seu irmão de perto, não conseguia mais se controlar. Ela gritou. Ela sabia que não iria adiantar nada, mas ela precisava fazer isso. Então, começou a chorar. Beijou a bochecha de Luke, mesmo com todo aquele sangue. E depois de algum tempo, ficou em silêncio. Olhou para o rosto de seu irmão, que agora estava perfurado. O silêncio foi rompido pela voz de Loretta.

– Muito bem crianças. Vocês estão indo muito bem! – Ela estava com metade do corpo pra fora do helicóptero, e segurava um megafone próximo á boca. – Achei que deveria avisar que só restam mais seis sobreviventes. O fim de alguns de vocês está próximo. Boa sorte!

Seis sobreviventes. Tina só precisava matar mais quatro para sair dali, e voltar para a casa, ver sua mãe.. Agora ela precisava se levantar. Ela não poderia ficar ali com seu irmão pra sempre, por mais que ela quisesse. Ela se levantou. E se dirigiu de volta ao dormitório em que havia guardado a outra arma, que seria usada por Luke. Pegou a arma. Ela estava certa do que iria fazer logo em seguida. Parou por um instante. Ela não queria matar ninguém. Então pensou. Ela não precisaria matar ninguém, se ela se matasse.

Pegou um dos revolveres e colocou na sua boca, apontando diretamente para sua garganta. Seria fácil se matar. Ela não iria precisar matar ninguém. Ninguém precisaria matar ela. Ela iria acabar com isso da forma mais rápida possível. Estava prestes á puxar o gatilho, quando ouviu um barulho vindo do pátio, em frente aos dormitórios. Parecia ser alguém gritando. Ela se dirigiu á porta, com a arma em sua mão. Quando chegou ao lado de fora, viu alguém ajoelhado ao lado de Luke. Tina se aproximou, bem devagar, e percebeu quem era. Joseph, o melhor amigo de Luke, estava aos prantos. Ele era da idade de Luke, aproximadamente quinze anos. Tinha os cabelos loiros, e seus olhos eram azuis como o céu. Usava um corte militar, e um colar de identificação. Quando Tina se aproximou um pouco mais, ele se virou e olhou aterrorizado para Tina.

– Tina, como assim você está viva? – Disse ele. Joseph parecia desesperado. Ele não estava feliz por ver Tina viva. – O que aconteceu?

– Não sei Joseph. Isso tudo está sendo horrível. Eu não quero permanecer mais nenhum segundo aqui. Não consigo viver sem meu irmão. – Tina se virou, e começou á andar.

Já estava quase entrando no dormitório, quando Joseph gritou:

– Onde você está indo Tina? A gente precisa sair daqui. Vamos enfrentar isso juntos, pelo seu irmão. – Ela não deu ouvidos. Continuou andando. – Ei! Tina onde você está indo?

– Vou fazer o que eu estava prestes á fazer, antes de você chegar. – Tina pegou a arma. Mas dessa vez, apontou para a própria cabeça. – Boa sorte, se quiser continuar no jogo.

– Tina, eles mataram seu irmão! – Disse Joseph. ­– Não importa quem tenha feito isso. A culpa é desses malditos ditadores! Você se suicidar não vai adiantar muita coisa. Isso não vai parar. Adolescentes e crianças inocentes continuaram morrendo! Não passou pela sua cabeça, que sua mãe vai ficar pior ainda se te perder?

Joseph estava certo. Tina não deveria se matar. Ela havia esquecido que sua mãe estaria a esperando em casa. Se perder um filho já é triste. Imagine perder dois. Tina precisava tentar. Ela precisava continuar. Ela abaixou a arma e a recarregou.

– E o que você pretende fazer? – Perguntou Tina.

Joseph abriu um pequeno sorriso, sem mostrar os dentes. O tipo de sorriso que se dá, quando alguém próxima á você morre, e alguém te conta uma piada. Se é que você consegue imaginar essa situação.

– Vamos eliminar os outros quatro sobreviventes. – Disse Joseph. – É o único plano que nos resta.



Á não ser pelo corpo ensanguentado de Luke no centro do pátio, a área de dormitório permanecia deserta. Havia cerca de vinte pequenas casas, parecidas com chalés. Enfileiradas, uma atrás da outra. Na frente de todas elas, havia um enorme pátio, que era onde Luke havia morrido. Tina precisava sair de lá. Aquele lugar não era mais o mesmo. Ela desejou nunca mais precisar voltar ali.

Tina ofereceu uma de suas armas á Joseph, já que ele estava sem nenhuma. Os dois tinham um plano. Iriam se aproximar da frente da escola, pela floresta que a rodeava. Eles não imaginavam onde os outros quatro sobreviventes poderiam estar. Mas achavam que a frente da escola, seria um bom lugar pra começar. Foram correndo para a floresta, e quando chegaram lá, encontraram o que esperavam. Nada. Ninguém havia pensado em se esconder na floresta. Talvez fosse um lugar muito óbvio. Tina tinha boas lembranças daquele lugar. Ela e seu irmão, sempre brincavam de “esconde-esconde” ali. Tina sempre ganhava, pois subia nos galhos mais altos, e seu irmão nunca olhava pra cima, quando a procurava. Afinal, que criança de sete anos conseguiria subir uma árvore de cinco metros? Luke nunca soube esse segredo dela, ninguém nunca soube. Quando ela estava triste, subia a árvore mais alta da floresta. Ela preferia chorar em um lugar onde ninguém fosse vê-la.

Eles estavam andando em total silêncio. Então, ouviu-se um barulho, vindo de trás deles. Joseph correu desesperado, e Tina achou melhor fazer o mesmo. Em um momento de descuido, tropeçaram na raiz de uma árvore. O desespero aumentou. Tinha alguém próximo deles. Eles tinham certeza disso. Tentaram se levantar, mas os pés de Tina estavam presos. Ela nunca pensou que um dia as árvores as colocariam em uma enroscada.

Enquanto Joseph tentava tirar Tina dali, ouviam-se passos. O barulho continuava vindo de trás deles. Quando os dois se viraram, puderam ver uma dos sobreviventes apontando uma faca ensanguentada para eles.