Panaceia
1 Panaceia
Notas iniciais
Não só isso como ainda é rarepair de vilão, que é outro nível de rarepair nesse fandom lmao Mesmo assim, eu acho esse casal muitíssimo interessante e foi maravilhoso (e super gostoso!) trabalhar com a dinâmica deles dois. Tem muita coisa legal que dá pra escrever com os vilões dessa série, e eu sou eternamente grata ao Horikoshi por ter criado esses personagens divinos ♥
A palavra panaceia significa "remédio que cura todos os males".
Boa leitura!
Panaceia
Shigaraki Tomura sabia que era perigoso sair sozinho naquela hora da noite. Mesmo assim, ele gostava da quietude da madrugada que envolvia as ruas quando ele não conseguia dormir e não conseguia se concentrar o suficiente para jogar videogame.
O homem se deixava levar pelo labirinto de ruas e becos na região menos nobre escondida próxima do centro da cidade. Os postes mal forneciam iluminação decente, e ele evitava pisar no lixo acumulado no chão e nas poças que refletiam a lua cheia no céu, que ele preferia não saber se eram apenas água ou alguma outra coisa. Se chegasse no esconderijo sujando todo o chão, Kurogiri o mandaria limpar assim que visse e Shigaraki não estava disposto a tal trabalho.
Algumas vezes ele conseguia escutar os miados dos gatos que faziam das caixas de papelão abandonadas seus lares, assim como o sussurrar de outras pessoas. Shigaraki apertava o passo quando percebia que estava na linha de visão dos outros — não por ter medo de conflitos, mas por não querer botar sua reputação em risco.
Não que ele fosse assim tão conhecido, ao menos por enquanto. Com a cabeça baixa, roupas escuras e o capuz cobrindo o cabelo claro, Shigaraki parecia mais com a sombra de um adolescente delinquente que preferiu passar um tempo longe dos pais. Se não fosse por sua altura ele poderia, talvez, realmente se passar por alguém mais novo.
Em um dado momento o cheiro de fumaça misturou-se com o ar que ele respirava, e logo o homem notou que não era fumaça de cigarro. Ele parou, olhando por cima do ombro rapidamente antes de tirar a máscara em formato de mão do bolso do moletom preto — que agora estava fazendo-o suar mais do que gostaria — e colocou-a em seu rosto.
A pressão da palma em seu nariz era quase reconfortante por pura familiaridade, assim como ter os dedos escondendo o espaço entre seus olhos. Não demorou mais que alguns passos — longos, leves, porém um tanto afoitos — para que ele escutasse o crepitar do fogo misturado a burburinhos do que parecia ser uma conversa.
Instintivamente, ele parou logo antes de onde a ruela se dividia, sabendo que seria visto tanto se seguisse em frente quanto se ele virasse para o lado. Parte dele dizia para continuar caminhando e ignorar tudo, mas sua curiosidade foi mais forte; antes dele mesmo perceber, Shigaraki estava espiando, escondendo-se atrás da parede.
Três homens estava perto do fogo. Shigaraki conseguia sentir não apenas o cheiro da fumaça como também do lixo velho — borracha, plástico, papelão — se desfazendo, misturando com o que ele depois reconheceu com o de carne humana sendo incinerada. O homem engoliu a saliva, e passou a analisar o local: apesar do corpo sendo queimado junto com todas as tralhas para ofuscar o cheiro, mal haviam sinais de violência.
O grupo de criminosos estava com as roupas intactas, e eles eram até mesmo bem vestidos. Os únicos traços de sangue estavam na parede, mas logo depois Shigaraki percebeu que eles também se encontravam na roupa de um dos homens, que limpava o braço e a manga de seu casaco verde de gola peluda com insistência antes de se virar.
“Quem está aí? Apareça.” Shigaraki soube no momento que escutou a voz de um deles que ele não devia tentar sair correndo. De qualquer forma, seria estúpido — as ruas eram estreitas e o grupo estava em clara vantagem numérica. Além disso, ele não sabia quais eram suas individualidades e muito menos até onde estariam dispostos a ir numa luta.
Provavelmente até a morte.
Ele andou até ficar de frente com o grupo, que havia se virado também para encará-lo. Um deles — o de casaco — deu alguns passos para a frente, e foi nesse momento que o homem entendeu que ele era o líder. Foi apenas quando ele parou, porém, que Shigaraki notou com quem ele estava lidando.
O homem tinha o cabelo escuro cortado curto, e além do casaco, usava roupas formais — incluindo até mesmo uma gravata. O que mais chamava sua atenção em suas escolhas de roupa, porém, eram as luvas brancas cirúrgicas, que pareciam curtas demais para suas mãos, e a máscara em forma de bico de pássaro que cobria o nariz e o queixo, feita de couro marrom e detalhes dourados em metal.
Tão dourados quanto os detalhes da máscara eram seus olhos, que brilhavam como os de uma ave de rapina analisando se devia ir atrás de sua presa.
Shigaraki sentia-se como um rato pequeno e indefeso que saiu da toca no momento errado. Os outros homens usavam máscaras parecidas com as do líder, escondendo suas identidades e marcando-os como iguais; apenas ele era o diferente, apenas ele estava atrapalhando os negócios alheios.
Ele queria ir embora, mas não conseguia deixar de admirar os olhos amarelos do outro homem; estes eram belos demais para um criminoso, adornados por cílios longos.
No fundo de sua mente, Shigaraki conseguia escutar a voz de seu mentor falando sobre quem era aquela criatura mascarada. Sim, ele era…
“Shigaraki? Não esperava encontrar alguém como você por aqui sozinho. Ouvi falar de você…” A voz do outro homem saiu abafada por conta da máscara, mas isso não impediu Shigaraki de sentir os pelos de sua nuca se arrepiando ao ser chamado pelo nome. Mesmo assim, isso não deveria ser uma surpresa — e no fundo, o vilão não pode deixar de sentir uma pontada de orgulho, mas que ainda não servia para aliviar completamente a tensão no ar.
“O que o líder da Liga dos Vilões faz andando por esse canto da cidade? Não me diga que é um viciado.” Shigaraki podia imaginar os tipos de negócios que deviam ser feitos naqueles becos escuros, e sabia muito bem das drogas que circulavam pelo submundo. Mesmo assim, ele não era interessado — a última coisa que precisava era de um vício que poderia acabar com seu dinheiro e com a reputação que estava enfim começando a construir. Ele era esperto o bastante para não cair nessa espécie de tentação.
“Eu só estava caminhando… E me pergunto o que alguém como você também faz aqui, Chisaki.” Ele colocou as mãos nos bolsos do casaco, dando de ombros enquanto respondia. Em momento algum ele deixou de encarar os olhos amarelos de Chisaki — que a cada segundo mais parecia um pássaro, com sua máscara de bico e a gola escura do casaco servindo praticamente como uma plumagem, combinando perfeitamente com o cabelo bem penteado.
Por trás de sua própria máscara, Shigaraki sorriu ao notar a mudança sutil no arco de suas sobrancelhas finas e longas, que se aproximaram dos olhos em um sinal de leve irritação.
“Chisaki não. Overhaul. E como pode imaginar, eu estava cuidando do lixo.” A palavra em inglês foi dita com um claro sotaque, e as sílabas se arrastaram em comparação ao japonês fluente, dando uma ênfase que Shigaraki não soube identificar se foi, de fato, intencional.
Chisaki Kai não esperava ser incomodado saindo naquela hora da noite — na verdade, ele normalmente não se deixava ser incomodado. No entanto, assim que o outro homem apareceu na sua frente, Chisaki soube que não podia mandá-lo para longe tão facilmente.
Os boatos sobre a Liga dos Vilões — nome que Chisaki considerava um dos mais clichês já inventados — aumentavam a cada dia. Para o jovem mestre yakuza, pequenos boatos de rua não costumavam atiçar seu interesse, mas quando ele começou a escutar o nome sendo murmurado pelas paredes de seu escritório, Chisaki percebeu que era bom manter-se informado.
Ele entendia, em parte, o apelo da Liga para criminosos desamparados, sem organização e com uma sede pela ideia de uma aliança e proteção. O que ele não entendia era como alguns de seus subordinados pareciam estar quase se vendendo à ideia. Chisaki não esperava lealdade incondicional dos membros mais jovens e com quem ele tinha menos intimidade, mas ainda assim era irritante saber que tinha concorrência.
Shigaraki era exatamente como descreviam: alto, magro e pálido, como se mal saísse de casa. Iluminado pelo fogo e pelo luar, ainda mais com a calça e o moletom folgados de cores escuras, parecia ainda mais com um jovem que desistiu da vida em sociedade, e não apenas de sair para tomar um mínimo de luz e ar fresco.
Debaixo do capuz, porém, Chisaki sabia que não estava enfrentando apenas um jovem adulto folgado. Seu cabelo, de um azul quase tão pálido quanto a pouca pele exposta de seu pescoço, contrastava com o vermelho de seus olhos que se escondiam entre os espaços dos dedos da estranha máscara que usava.
Chisaki se perguntava como ele optou por algo tão excêntrico, da mesma forma que foi conquistado por uma mórbida curiosidade em saber como e do que aquilo era feito. Ele devia admitir: era marcante e memorável.
Os dois se encararam em silêncio, sem mover os pés um único centímetro. Estava ficando difícil respirar por causa da fumaça, mas ninguém tossiu — nem mesmo um dos subordinados de Chisaki.
Shigaraki moveu um dos braços, apenas o bastante para que pudesse coçar o pescoço insistentemente com quatro dedos da mão direita, mantendo o polegar distante. Chisaki notou as marcas vermelhas de unhas na pele, claramente frutos de abuso contínuo, e por um segundo ele estreitou os olhos antes de passar o polegar na própria testa.
Aquilo não ia levar a nada se continuasse daquele jeito. Além disso, a fumaça já devia estar ficando perceptível, e a cada segundo a possibilidade de um herói aparecer para verificar a origem daquele fogo apenas aumentava. Shigaraki devia saber disso, ao menos, e Chisaki não sabia se ele estava testando sua paciência de propósito ou se estava perdido em pensamento.
Chisaki não queria admitir, mas era difícil olhar para os olhos vermelhos de seu suposto rival e não querer saber mais sobre ele — sua origem, suas motivações, se tudo o que diziam sobre ele era verdade.
De qualquer forma, não seria naquele momento e nem naquele lugar que ele iria descobrir.
“Se não tem mais nada a dizer, não vou perder meu tempo. Se me der licença…” Ele falou antes de se virar, encarando os subordinados antes de fazer sinal com a mão para que começassem a andar. Os dois assentiram em silêncio, entendendo que tudo ali já estava dado por encerrado, e deram as costas para Shigaraki.
“Overhaul, espere.” Bastou que eles se afastassem apenas um pouco para que Shigaraki abrisse a boca novamente, marcando seu pedido com a voz meio rouca mas ainda assim insistente. Chisaki parou de andar, pisando firme no chão antes de olhar para trás por cima do ombro, numa pergunta silenciosa que Shigaraki entendeu, também, como um sinal de quem tinha pressa.
“Quero me encontrar de novo com você. A sós.” Suas palavras fizeram com que Chisaki o encarasse mais curioso, mas cauteloso, como um falcão averiguando se deveria deixar aquela presa que estava se fazendo de fácil escapar ou se deveria dar o bote, ainda que isso significasse arriscar um contra-ataque.
“Quer lutar?” Um dos mascarados logo atrás de Chisaki se virou e perguntou, sem precisar do menor comando do líder. Por alguns instantes Shigaraki deixou de olhar para o líder yakuza, concentrando-se na voz e na figura do outro homem, completamente coberto com roupas pretas e pesadas. Logo ele abriu a boca, e Shigaraki mal percebeu quando respondeu “não, só quero conversar”, de modo a fazer com que Chisaki soltasse um murmúrio que pareceu de interesse por debaixo da máscara.
Shigaraki logo processou que a individualidade daquele homem devia forçar as pessoas a falar a verdade — o que, nas mãos de alguém no submundo, era certamente perigoso. Nesse momento, ele notou a sorte que teve de não ter sido alvo dele mais cedo, e do quão inteligente Chisaki era para andar sempre com alguém tão útil. Bem que ele podia aprender com isso.
Chisaki olhou para o outro subordinado, este coberto totalmente por um longo capote branco, chamando-o por Chrono, que entregou-lhe uma caneta e um bloco de rascunho que carregava consigo. Apesar da pouca iluminação, Chisaki não pareceu ter dificuldades em escrever o que queria no papel, com traçadas firmes e decididas.
Logo ele separou a folha e andou até ficar perto de Shigaraki novamente, apenas o bastante para estender o braço e garantir que ele pudesse pegá-la.
“Me encontre nesse endereço, no dia e hora indicados. Tenha uma boa noite.” Chisaki falou assim que Shigaraki tocou o papel com três dedos, afastando o braço assim que ele notou que o outro vilão estava segurando-o com precisão o bastante para não sair voando. Seus dedos sequer se tocaram, e naquele pequeno instante Shigaraki se perguntou o que poderia ter acontecido caso ele tivesse se aproximado apenas mais alguns milímetros.
Em silêncio ele assentiu, observando Chisaki e seus comparsas darem as costas mais uma vez antes de saírem andando. Shigaraki leu o papel em seus dedos rapidamente, reconhecendo a caligrafia fina e legível do outro homem. Ele memorizou o endereço, dia e horário, mas ao invés de simplesmente se desfazer da pequena prova de suas aventuras noturnas, Shigaraki optou por colocá-lo no bolso da calça antes de voltar para o lugar que chamava de casa.
Seu coração batia mais forte no peito, e não era pela ansiedade de ser pego em flagrante por Kurogiri.
O endereço indicado por Chisaki dava nos limites da cidade, e Shigaraki teve que sair pouco antes do anoitecer para pegar o trem e garantir que chegaria no horário marcado. Desacostumado a sair da rotina daquela forma, ele acabou dormindo durante boa parte da viagem e teve que procurar por algumas ruas até encontrar um restaurante onde pudesse jantar antes de seguir para o ponto de encontro.
Ao contrário das ruas estreitas e sujas que concentravam criminalidade, o subúrbio era assustadoramente quieto durante a noite. Não havia burburinho de conversas suspeitas ou miados de gatos alertas com quem passasse perto das caixas de papelão que serviam de abrigo. As únicas coisas que Shigaraki conseguia ouvir enquanto passava pelas ruas praticamente vazias eram o vento fazendo as folhas das árvores balançar e as batidas de seu coração.
Ele encontrou Chisaki parado perto de um poste, cuja luz amarelada parecia que iria falhar a qualquer momento. Atrás dele se encontravam os portões cobertos de ferrugem e musgo que levavam a uma grande construção abandonada, que tomava conta de boa parte dos terrenos ali por perto. As casas vizinhas, extremamente humildes em comparação, se encontravam totalmente no escuro e Shigaraki não conseguia escutar uma conversa, uma risada, um gemido que indicasse a presença de alguém.
Por um instante, Shigaraki sentiu como se ele e Chisaki fossem as únicas pessoas vivas no meio de uma imensa cidade fantasma.
Chisaki, que ainda se vestia de modo excessivamente formal, mas sem abandonar o casaco, as luvas cirúrgicas e a máscara em forma de bico de pássaro tão característica, gesticulou silenciosamente com a mão para que ele o seguisse. Sem ter coragem de abrir a boca e dizer ao menos um cumprimento após a longa viagem — quase como se sua voz pudesse atrair algo sobrenatural -, Shigaraki assentiu e encarou-o com seus olhos escarlate visíveis por entre os dedos de sua própria máscara antes de passar a acompanhá-lo.
O outro homem o guiou até quase o final do portão, onde Shigaraki notou que as barras de ferro estavam mais soltas. Chisaki moveu duas delas com cuidado, de forma a aumentar o espaço entre elas para que pudesse passar e entrar na propriedade abandonada. Shigaraki fez o mesmo e esperou até que o outro homem colocasse as barras no lugar original novamente antes de voltar a adentrar no terreno.
Os dois passaram pelo o que antes já devia ter sido um belo jardim, mas não entraram na grande construção pela porta da frente, que foi selada com grandes tábuas de madeira. No entanto, isso não impediu Chisaki de tirar uma lanterna do bolso interno de seu casaco e andar, confiante, até a lateral do prédio, onde uma pilha de lixo não identificável servia como apoio para subir e entrar pela janela aberta.
Chisaki subiu primeiro, devagar, e Shigaraki prestou atenção nos locais em que ele pisava para tentar fazer igual. Quando chegou sua vez ele não teve muita dificuldade, mas achou incômodo o fato de que o outro vilão apenas ficasse iluminando o caminho e não lhe ofereceu uma mão para puxá-lo para dentro.
De qualquer forma, Shigaraki definitivamente não esperava que seu encontro a sós com Chisaki apenas para conversar envolvesse exploração urbana e invasão de propriedade.
Nenhuma palavra foi dita durante os primeiros minutos que eles passaram andando pelo o que parecia ser uma escola. A janela pertencia a uma sala de aula, com um quadro, carteiras e armários empoeirados, além de material escolar gasto nas mesas rabiscadas com desenhos e palavras que resistiam ao tempo.
Eles desviaram de um grande mapa do Japão que estava caído no chão, amarelado e roído, e foram para um grande corredor. Parte das paredes já tinha cedido e algumas das portas das outras salas ou não existiam mais ou estavam no chão, tornando o ambiente estranhamente espaçoso.
Shigaraki mantinha-se o mais perto possível de Chisaki, que era claramente mais familiarizado com o lugar que ele. O vilão não sabia se o yakuza tinha algum objetivo específico em mente levando-o para um local tão específico, mas ele já sabia de uma coisa: lutar não era uma opção, não em uma área tão isolada e que ele mesmo mal conhecia.
Aquele era um raciocínio justo, mas não era o suficiente para saciar a curiosidade de Shigaraki, que procurava observar os detalhes de onde passava da melhor maneira possível.
Foi apenas quando os dois homens atravessaram um corredor a céu aberto que ligava duas partes do prédio que Shigaraki teve coragem de abrir a boca e de fato começar um diálogo, quebrando o silêncio pesado.
“Que lugar é esse?” Ele perguntou, mantendo a voz baixa. Ainda assim, parece que suas palavras ecoaram pelo lugar, ainda mais quando os dois entraram na outra parte do prédio e Chisaki começou a subir um lance de escadas velho com passos tão leves que mal faziam a madeira ranger.
“Um internato para crianças com individualidades… Difíceis de lidar.” A resposta intrigou Shigaraki, mas explicava todas as salas de aula. A breve hesitação na fala de Chisaki, porém, intrigou-o mais ainda. Ele não era bobo — tinha entendido as implicações escondidas -, mas queria saber porque Chisaki havia pausado antes de terminar de falar, o que o levou a ter esse breve momento de insegurança, talvez até fraqueza.
Não tinha como aquilo ter sido intencional.
“Crianças problema?” O homem ousou atiçar um pouco mais o assunto, no mesmo momento que eles terminaram de subir as escadas. Chisaki ficou parado, a lanterna apontando para o corredor logo adiante, e então ele olhou diretamente nos olhos vermelhos de Shigaraki antes de falar mais uma vez.
“Amaldiçoadas seria melhor.” Mesmo no escuro, os olhos dourados de Chisaki pareciam brilhar como os de um caçador; no entanto, sua voz era suave e melancólica, sem o tom acusatório que Shigaraki escutou na primeira vez que o encontrou.
Chisaki soube que o outro homem entendeu o que ele queria afirmar após os segundos de silêncio. O capuz do casaco que Shigaraki estava usando tinha caído, revelando seu cabelo totalmente despenteado, mas que ele não se importou em passar a mão para ao menos tentar dar um jeito.
Ele continuou encarando-o não com malícia, mas com uma curiosidade genuína por saber mais da história daquele lugar. Por um instante Chisaki pensou se o outro vilão iria perguntar se ele passou parte de sua infância ali, mas aquilo nunca aconteceu.
“Isso foi abandonado há muito tempo, antes de nós nascermos. É uma relíquia das primeiras gerações.” Nem Chisaki e nem Shigaraki estavam vivos na época que aquele lugar funcionava, ainda mais isolado — praticamente numa zona rural -, com paredes coloridas em tons mais vivos e com um grande jardim na frente que serviam para mascarar a dor e o isolamento de jovens segregados por seus poderes.
Décadas atrás esse tipo de preconceito era bem mais comum, para não dizer indiscreto. Atualmente, com o programa de aconselhamento do governo — um serviço público prestado a todos os cidadãos, de fácil acesso e totalmente grátis -, ninguém falava sobre isso na televisão, nos jornais ou em revistas.
Chisaki sabia que isso era mentira, e era capaz de notar que Shigaraki também sabia disso pela maneira que ele passou a coçar o pescoço freneticamente enquanto eles andavam pelo corredor vazio que levava aos vários quartos que um dia já foram ocupados.
“Queria saber porque o governo não faz nada com esse lugar, então, já que só ocupa espaço.” A voz de Shigaraki, que andava pouco atrás dele, saiu trêmula, chamando a atenção de Chisaki. O yakuza não parou de andar, mas encarou-o discretamente por cima do ombro.
Suas unhas estavam sujas de sangue.
“É difícil engolir a vergonha de admitir a existência de coisas assim.” Coisas como nós, Chisaki quase completou, mas não era como se ele precisasse. Aquele lugar afirmava isso por si só, mesmo estando abandonado e deixado para trás, escondido em um mundo que idolatra poderes e super-heróis, negligenciado por medo e vergonha porque não era como se fosse fácil admitir que crianças amaldiçoadas existiam.
Crianças como eles já foram um dia.
Os dois entraram em um quarto onde parte do teto tinha caído, de forma a fazer com que o ar e a luz do lado de fora entrassem. As camas de solteiro estavam desarrumadas, com lençóis esfarrapados e roupas pequenas para adultos como eles espalhadas em cima. Em uma delas, um ursinho de pelúcia jazia esquecido, agora sujo e esburacado demais para servir de consolo a quem poderia precisar, enquanto que na pequena escrivaninha, lápis de cor mordidos estavam quebrados e sem ponta, sem poder riscar os cadernos que foram deixados para trás.
No chão, havia um pôster antigo de um super-herói clássico. Shigaraki fez questão de pisar nele com força.
“De qualquer forma, Shigaraki, o que você quer comigo?” Chisaki questionou, chamando a atenção do outro homem, que parou de olhar para o chão e passou a encará-lo.
O yakuza estava parado em pé logo embaixo de onde a luz natural entrava, parecendo assim com uma criatura estranhamente imponente. Ele olhava fixamente para Shigaraki, estando com os ombros eretos e as mãos nos bolsos da calça, deixando apenas o polegar para fora.
Por um instante Shigaraki até se esqueceu do que ele queria propor primeiramente. A história e o significado daquele lugar tinham tomado conta de sua mente, assim como as poucas palavras que os dois trocaram logo antes.
Ele olhou para Chisaki, e ao notar a melancolia misturada com dúvida em seus olhos amarelos — tão expressivos, tão atraentes -, Shigaraki transformou sua própria tristeza em raiva, e então em coragem para respondê-lo.
“Quero seu conhecimento. Sua experiência, para ser mais exato.” Chisaki não saiu do lugar, mas cruzou as pernas casualmente e ergueu a sobrancelha, agora mais curioso. Sua cabeça pendeu ligeiramente para o lado, e com a ajuda da máscara, ele parecia com uma ave inspecionando algo novo sem saber o que fazer.
“Você está no submundo há um bom tempo, certo? E ainda está conseguindo manter a yakuza… Idiota você não é.” Ao escutar aquelas últimas palavras Chisaki soltou uma pequena risada que não apenas Shigaraki de surpresa como também o fez se questionar como devia ser o seu sorriso por debaixo da máscara — certamente devia ser tão belo quanto o dono, e quando ele pensou nisso, Shigaraki teve que se conter para não começar a coçar o pescoço novamente.
“E o que te leva a querer a ajuda de um yakuza? Existem vilões mais influentes e você sabe disso. Além disso, o que eu ganharia com você?” Chisaki perguntou de volta, ficando com a cabeça ereta novamente. Ele não sabia muito sobre Shigaraki além de seu nome, seu poder, e alguns boatos sobre suas conexões.
Sabia, porém, sobre a Liga: seus objetivos — que nunca foram segredo no submundo -, sua integração e acolhimento, sua fama e crescimento recente. Fora a reputação, que podia ser útil para a sua situação atual, o resto não interessava tanto assim o yakuza.
Mas Shigaraki… Ele era interessante, diferente do tipo de líder que Chisaki imaginava antes de conhecê-lo pessoalmente. Sua maneira de falar o intrigava, com a voz meio arrastada, as palavras oscilando claramente entre o premeditado e o improvisado, assim como suas ações.
Chisaki estava atraído por isso. Normalmente ele conseguia ler bem as intenções dos outros, assim como conseguia imaginar o que eles gostariam que ele falasse ou fizesse. Com Shigaraki, porém, era diferente: ele não sabia o que esperar ou afirmar quais seriam suas próximas palavras ou ações. Para alguém a princípio tão simples, ele era uma incógnita, e Chisaki queria saber mais sobre ele, sobre seu poder, sua história, sobre o homem que se escondia com uma máscara de mão.
“Mais influentes talvez, mas não quer dizer cooperativos ou inteligentes. E ainda tem a questão do dinheiro. Mesmo em queda, a yakuza ainda consegue ter mais poder financeiro que a maioria dos vilões comuns.” Shigaraki surpreendeu-o novamente, e Chisaki podia praticamente sentir que ele estava sorrindo. Ele sabia o que falava, com certeza tinha pensado bem sobre o assunto dias antes. Sim, existiam vilões mais influentes, mas a grande maioria não era boa em negociações — Chisaki os classificava como brutos, como rebeldes, pessoas com muito poder e pouca estratégia que, provavelmente, não ficariam soltos por muito tempo; e aparentemente, Shigaraki deve ter chegado a essa mesma conclusão e estava atrás de um aliado a longo prazo.
“Quanto ao que você pode ganhar comigo… Influência. Contatos. Respeito. Imagine ampliar as redes de seus negócios, encontrar pessoas dispostas a fazer o trabalho sujo no seu lugar... Isso e segurança.” Chisaki devia admitir, os pontos levantados por Shigaraki eram relevantes aos seus interesses. Tudo que o yakuza queria era garantir o melhor para que sua família continuasse a existir — e restaurá-la acima de tudo -, honrar quem o acolheu mesmo que fosse numa organização cujo modelo estava em declínio. Havia segurança nas palavras do outro vilão, e ele não precisou da ajuda da individualidade de seu subordinado para saber que ele estava sendo sincero.
Shigaraki não estava oferecendo mais do que podia pagar, e sabia conquistar com um carisma improvável.
“Pois bem, me diga o que quer saber.” Chisaki não era de tomar decisões tão rapidamente, mas com aquele homem ele sentiu que podia fazer isso e não se arrepender. Os olhos de Shigaraki brilharam com a resposta, simples e positiva, praticamente automática, e não demorou muito para começar a falar.
Os dois conversaram por um bom tempo, mantendo a voz baixa mesmo que estivessem sozinhos e soubessem que não seriam incomodados. Foi apenas quando Shigaraki falou que gostaria de pegar o primeiro trem do dia para ir para casa que Chisaki notou a distância ingrata que ele fez o outro homem andar — e Shigaraki certamente devia estar cansado.
Foi acordado, então, que ao menos inicialmente tudo ficaria em segredo. Não contariam nada a ninguém, sequer aos seus subordinados mais leais, assim como também foi acordado que eles passariam a se encontrar em locais de acesso mais fácil e não tão longe, até mesmo para não gerar suspeitas.
Essas negociações foram feitas com facilidade, sem objeções de nenhuma das partes. Logo os dois começaram a se encontrar mais vezes, sempre que surgia uma oportunidade em suas agendas, normalmente durante a noite.
Quanto mais tempo eles passavam juntos, melhor eles se conheciam; e quanto mais eles se conheciam, mais apreciavam a companhia um do outro.
Shigaraki era muito mais competente do que aparentava, e aprendia rápido: ele era atencioso, dedicado, e principalmente devoto com sua ideologia. Odiava super-heróis, mas não era por motivos simplórios como o fato de que eles prendiam criminosos — na verdade, havia uma lógica por trás, uma raiva pelo o que ser herói se tornou naquela sociedade, uma vontade de desintegrar tudo aquilo com suas próprias mãos.
Chisaki odiava individualidades e odiava mais ainda o julgamento daquele mundo, o fato de que seu destino estava ligado a algo que ninguém podia determinar antes de nascer. Odiava o próprio poder que corria em seu corpo, que ele usou apenas uma vez para que Shigaraki tivesse uma ideia do que podia fazer — desfazer e refazer coisas e pessoas, uma coisa grotesca e assustadora. Chisaki queria se livrar daquilo, fazer com que parasse de existir, curar aquela praga que estava nele, em Shigaraki, no resto da população. Queria, ironicamente, desfazer e refazer a sociedade.
No entanto, não eram apenas suas ideologias que importavam.
Chisaki gostava de jogos de tabuleiro e de cartas, enquanto Shigaraki era obcecado por videogames e tecnologia. Na primeira vez que Shigaraki tentou usar termos de RPG para explicar seus pensamentos, Chisaki não entendeu e o outro gargalhou por minutos a fio como se fosse criança. Enquanto isso, Chisaki teve sua vingança quando teve que ensiná-lo a jogar xadrez, derrotando-o facilmente no seu primeiro jogo.
Shigaraki, apesar de não parecer, era intenso. Era assim que ele demonstrava seus sentimentos, seus pensamentos, e era com essa intensidade que ele colocava suas ideias criativas em ação.
Ele gostava de entender as coisas, e Chisaki achava até mesmo adorável a forma como ele mesmo se encantava com os planos mais absurdos, especialmente quando se animava e começava a falar como se tudo fosse um jogo, com termos que aos poucos ele começava a compreender puramente por convivência.
Também era doce como, algumas vezes, ele brincava de enrolar os fios claros de seu cabelo no dedo, ainda mais nos momentos em que estava raciocinando, ou quando começava a cantarolar baixinho — curiosamente, ele cantava bem, e quando Chisaki elogiou sua voz o outro vilão até ficou um tanto envergonhado antes de agradecer com uma humildade que o pegou de surpresa.
Sua mania de coçar o pescoço não era doce, mas Chisaki nunca ousou se intrometer quanto a isso, e no final acabou até mesmo se acostumado com o som ocasional das unhas do outro passando pela pele marcada. No final, era apenas mais uma característica de Shigaraki, quase da mesma naturalidade como a sua necessidade real de segurar os objetos com um dedo levantado — normalmente o mindinho — para evitar ativar sua individualidade por acidente.
Chisaki era calmo, pragmático e paciente. Sua voz era sempre suave e mansa, quase cantada, e Shigaraki podia escutá-lo falando para sempre. Ele gostava de pássaros — o que para Shigaraki não foi uma descoberta surpreendente -, e se pudesse, ficaria horas falando sobre cada espécie que conhecia. Se não fossem os negócios, Shigaraki certamente o deixaria fazer isso.
Aos poucos, ele foi aprendendo a reconhecer os sinais sutis no olhar de Chisaki, como ele piscava mais rápido ao ficar surpreso, como sempre inspecionava tudo com atenção antes de tocar por ser obcecado com limpeza. Uma vez ele apontou para uma mancha de comida na calça de Shigaraki, que deu de ombros — era pequena e ele podia botar para lavar depois -, enquanto o yakuza transformou aquilo em algo que precisava ser resolvido logo e quase chegou ao ponto de comprar ele mesmo outra peça de roupa para que ele usasse.
Seu senso de humor era peculiar, mas fazê-lo rir de verdade não era impossível. Shigaraki logo aprendeu as piadas que ele mais gostava, e como os dois tinham o contato um do outro, com o tempo as mensagens que eles trocavam pelo celular evoluíram de datas e formalidades para perguntas sobre o dia um do outro e trocas de imagens e vídeos que eles achavam que o outro iria gostar.
Com o tempo, eles criaram um laço que podiam chamar de amizade — eles se entendiam, se divertiam juntos, estavam descobrindo, aos poucos, pequenas coisas um sobre o outro. Em algum momento, porém, ambos cruzaram a linha que separava a mera amizade e o amor, e isso ficou claro nas trocas de olhares cada vez mais intensas, em como Chisaki tentava esconder o rosto quando suas bochechas ficavam vermelhas, em como Shigaraki disfarçava nervoso quando ele perdia a voz ao falar por se encantar com a mera beleza do outro homem.
O sentimento era novo, e em teoria um relacionamento entre supostos rivais era errado e até arriscado. Porém, justamente por ser algo inédito em suas vidas, os dois acabaram optando por querer ir além no que antes era apenas um acordo formal.
Isso ficou claro semanas depois, quando os dois se encontraram em uma casa vazia — aparentemente os donos se mudaram e ninguém tinha demonstrado interesse em comprá-la até o momento.
A mobília era pouca, mas ao menos era utilizável. Mesmo Chisaki pareceu ter deixado de lado seu nojo de germes e permitiu-se sentar no sofá no que devia ser a sala, ficando ao lado de Shigaraki; e mesmo que isso fosse algo simples, estava mexendo com a mente do homem.
Eles não pareciam vilões, não quando ficavam rindo e trocando mensagens pelo celular, ou quando se deixavam falar sobre banalidades como jogos, música e programas de televisão. Era compreensível quando seus pontos de encontro eram lugares como o internato, becos estranhos, parques vazios durante a noite, mas aquela casa…
Parecia com um convite implícito.
“Overhaul…” Shigaraki o chamou, decidindo por si mesmo que era melhor fazer alguma coisa do que ficar tentando esconder o turbilhão de sentimentos guardados em seu peito. Chisaki olhou para ele, e Shigaraki já sabia que ele estava esperando até que ele falasse mais — e ele queria, mas era um tanto complicado quando o outro homem estava tão perto dele.
Ele podia desistir, podia deixar aquilo de lado e falar que esqueceu, que não era nada importante. Mesmo assim, Chisaki certamente o pegaria na mentira, o que apenas tornaria a situação mais constrangedora.
De qualquer forma, não era como se Shigaraki nunca tivesse percebido como o outro vilão também parecia estar mais apegado a ele, como se nunca tivesse notado seus olhares mais demorados e a maneira que ele tentava usar a gola e o capuz de pelo grosso do casaco para se esconder como se fosse uma ave tímida.
“Eu estava pensando… Você nunca me viu sem máscara e nem o contrário. Já faz um tempo que mantemos contato e, hmn…” Ele não sabia como falar isso sem parecer que estava propondo algo mais sério, e era embaraçoso o quanto ele estava deixando clara a sua inexperiência com relacionamentos — por sorte, ele não era o único.
“Você acha que podemos ficar mais íntimos?” Chisaki completou, e a escolha de palavras fez com que Shigaraki corasse por trás da própria máscara. Será que Chisaki ao menos tinha noção do que estava insinuando, ou aquilo foi completamente proposital?
Ainda assim, não era mentira que Shigaraki queria, sim, ficar mais íntimo do outro homem de todas as maneiras possíveis — e pelo jeito que Chisaki estava brincando com o capuz do próprio casaco, escondendo um pouco o rosto, ele também tinha percebido como aquilo podia ser interpretado com segundas intenções.
“Sim! Quero dizer, acho que podemos mostrar nossos rostos agora, já que confiamos um no outro. Não tem problema pra você, né?” Shigaraki perguntou, enrolando uma pequena mecha de seu cabelo no indicador, e Chisaki sentiu o seu peito se aquecer com aquele simples gesto. Se ele já achava adorável com o outro mascarado, devia ser ainda mais se pudesse ver todo o rosto.
“Não, não tem. Acho que é justo.” Ele aproveitou e respondeu, deixando de lado a própria vergonha porque aquela podia ser uma oportunidade única. Chisaki não costumava mostrar o rosto para muitas pessoas mesmo dentro da própria yakuza, então se ele estava considerando deixar que Shigaraki o visse assim, então era algo extremamente significativo — e ele podia sentir que o outro homem entendia a importância de tal ato.
Se ele deixasse, Shigaraki podia facilmente passar os dedos pela máscara de Chisaki. As pontas acariciariam o couro, circulariam os detalhes metálicos, sentiriam cada detalhe da costura. Da mesma maneira, Chisaki poderia tocar na máscara de Shigaraki, de modo que seus dedos enluvados seriam capazes de passar pelas laterais de cada dígito, fazer as curvas de cada junta, descer devagar até o pulso.
“No três nós tiramos juntos.” Shigaraki afirmou, por fim, aproveitando para mudar de posição de modo a ficar de frente para Chisaki, que assentiu com a cabeça antes de fazer o mesmo.
O silêncio da expectativa permaneceu por alguns segundos antes que os dois começassem a contar ao mesmo tempo. No um, respiraram fundo, enquanto no dois, eles subiram com os braços, Chisaki se preparando para tirar a máscara por trás e Shigaraki deixando que seus dedos tocassem o pulso da própria máscara.
No três, eles tiraram as peças juntos, deixando-as em seus respectivos colos; o ato, para eles tão natural quando estavam a sós, pareceu durar uma eternidade com a companhia e a atenção de serem assistidos.
Sem a máscara, Shigaraki parecia ainda mais com um jovem adulto. A franja comprida e despenteada de seu cabelo pálido ainda cobria boa parte da testa, mas Chisaki podia ver as rugas profundas nela e ao redor dos olhos — certamente não naturais para a idade, e que ele se perguntava se podiam ter sido fruto de alguma luta anterior ou acidente com o próprio poder.
Os olhos eram grandes, e as pupilas vermelhas chamavam a atenção. Chisaki era familiarizado com aqueles olhos, mas não imaginava que, sem a máscara, Shigaraki pudesse parecer mais adorável, ainda que de sua maneira. Ele também notou uma cicatriz na pálpebra do olho direito, assim como outra na boca, passando por cima dos lábios ressecados no lado esquerdo.
Por fim, mas não menos importante ou surpreendente, Shigaraki era dono de uma pequena pinta perto da boca, logo abaixo dos lábios no lado direito — e Chisaki estaria mentindo caso falasse que não sentiu uma mínima vontade de passar um dos dedos por ela.
“Não imaginava que você tinha uma pintinha. Que fofo.” Ele comentou, e Shigaraki riu envergonhado, claramente não acostumado com o elogio. Seu nariz e bochechas ruborizaram, e ele quase escondeu o rosto com a ajuda dos braços por instinto, mas Chisaki notou que ele se segurou.
Shigaraki olhou para ele, e contemplou-o claramente apaixonado.
Que Chisaki era atraente, isso ele já sabia. A máscara de bico cobria bem menos que a de mão, mas o pouco que deixava para a imaginação ainda bastava para fazer com que Shigaraki passasse um bom tempo se perguntando quanto ao mistério de como seria o resto de seu rosto.
Ele parecia vulnerável sem o bico, menos caçador e mais presa. O cabelo continuava bem penteado, as sobrancelhas ainda eram finas, os olhos ainda eram estupidamente atraentes, dourados com cílios longos perfeitos. Shigaraki só não se perguntava se ele nunca havia lutado na vida porque Chisaki tinha uma pequena cicatriz na testa, perto da linha do cabelo, no lado esquerdo.
No entanto, aquela não era a única cicatriz em seu rosto.
Perto da ponta do nariz, no lado esquerdo, começava uma cicatriz bastante irregular que ia até o queixo, passando por parte de sua bochecha e lábios — a área atingida na boca nunca sarou completamente, de modo a deixar parte dos dentes sempre expostos -, indo até o queixo. A pele ali tinha uma coloração mais escura, e a marca aparentava ser antiga. Shigaraki não sabia o que poderia tê-lo deixado daquela forma, então imaginou que devia ser fruto da individualidade de outra pessoa — de qualquer forma, ele não se sentia seguro para perguntar e possivelmente estragar o momento com lembranças negativas.
Independente disso, Shigaraki sorriu, e Chisaki, mesmo tímido, sorriu também. Foi satisfatório para Shigaraki ver os cantos da boca do outro homem subindo, os dentes brancos aparecendo dos dois lados, e foi nesse momento que ele não resistiu e teve que falar.
“Você é lindo, Over-” A frase foi interrompida pelo outro homem, que apenas sussurrou “Chisaki” e pegou uma máscara cirúrgica descartável — que Shigaraki nem sabia que ele guardava — do bolso da calça, segurando-a pelos elásticos nas laterais antes de se aproximar e deixar que suas bocas se tocassem, ainda que com a barreira do tecido.
Shigaraki não sabia o que fazer com as mãos, com a boca, com nada. Aquele ato totalmente espontâneo o pegou de surpresa, e ele conseguia sentir a pressão dos lábios de Chisaki por cima do tecido fino que impedia o toque direto de seus rostos.
Ainda assim, ele não pode deixar de registrar que Chisaki não apenas pediu para chamá-lo pelo nome de verdade como também que ele estava tão inseguro quanto o próprio Shigaraki. Seus dedos tremiam enquanto ele segurava a máscara do melhor jeito que podia, e ele certamente devia estar lutando para não usar sua individualidade para desfazê-la e então beijá-lo diretamente.
Chisaki sabia que isso era algo além do que foi combinado, mas Shigaraki era tão bom, tão parecido com ele, tão bonito de seu próprio jeito! Não havia mais como ignorar o clima claramente romântico naquele cenário, a profundidade das trocas de olhares, o jogo de sedução tão sutil quanto uma longa partida de shogi e ao mesmo tempo tão chamativo quanto a magia de um RPG, os sentimentos novos e ricos espalhados pelo ar, nas roupas, em seus corpos e seus corações.
O mundo podia estar doente, mas para Chisaki, Shigaraki era sua panaceia.
Shigaraki não precisava que Chisaki falasse tudo aquilo — a convivência o ensinou a entendê-lo, assim como também o ensinou a se apaixonar. Chisaki não era apenas um belo rosto, uma bela voz, uma mente brilhante; ele era tão mais que isso, mesmo que não reconhecesse, mas Shigaraki adorava seu humor excêntrico, sua risada, seu fascínio por aves, seu jeito atencioso para os pequenos detalhes.
Ele relaxou, aproveitando o momento e o carinho antes de Chisaki se afastar, e Shigaraki sentiu falta de poder sentir o contorno de seus lábios pressionados contra os dele, mesmo que ele ainda pudesse sentir um pouco do tecido da máscara.
“Perdão pela máscara… Eu não quero correr o risco de, bem...” Chisaki começou a falar, completamente sem jeito, e naquele momento Shigaraki percebeu que era a sua vez de interrompê-lo.
“Tudo bem. Eu gostei.” Ele simplesmente afirmou, tímido e ainda assim sincero, ficando parado sem saber o que fazer — parte dele queria segurar as mãos de Chisaki, segurar seus ombros, puxá-lo para um abraço, mas isso era um limite.
Chisaki devia imaginar o quanto era frustrante, mas ao menos era bom ter uma maneira de beijar o outro homem e eles queriam — precisavam — fazer aquilo de novo.
“Eu também.” Chisaki acabou por sussurrar em resposta, repetindo o gesto de colocar a máscara entre seus rostos antes de seguir para um segundo beijo. Shigaraki, agora mais emocionalmente preparado, fechou os olhos e permitiu que eles retomassem de onde tinham parado.
O tecido fino incomodava um pouco a respiração nos primeiros momentos, mas o beijo estava lento o bastante de forma a dar tempo não apenas dos dois homens se acostumarem com isso como também foi o bastante para que memorizassem o formato de suas bocas antes de moverem mais os rostos, em uma tentativa de fazer com que o contato fosse mais intenso.
Chisaki soltou um murmúrio contra o tecido, e a ponta de sua língua acabou por umedecê-lo um pouco. Shigaraki notou o que aconteceu, e em sua típica curiosidade e espírito aventureiro, repetiu o gesto mesmo que o gosto não fosse dos mais interessantes.
Assim que ele fez isso os dedos de Chisaki, que seguravam os elásticos, estremeceram um pouco e ele se remexeu no lugar, quase perdendo o contato improvisado com Shigaraki, que abriu a boca e deixou seus dentes roçarem contra a peça, fazendo pressão o suficiente para que o parceiro sentisse antes de voltar a beijá-lo com a boca fechada.
Eles continuaram repetindo os pequenos gestos, abrindo os olhos vez ou outra para fechá-los logo em seguida, e ambos estavam cada vez mais inquietos. Eles não queriam parar, mas também não queriam ficar apenas naquilo, e nenhum dos dois sabia de fato como prosseguir naquela situação.
Chisaki sentia o corpo ficando quente demais para todas aquelas roupas, as mãos suando mais que deveriam para as luvas finas, e a calça e roupa íntima ficando apertadas entre suas pernas.
Quando ele notou o que estava acontecendo, Chisaki parou, se afastando e remexendo-se novamente. Shigaraki o observou ligeiramente confuso ao vê-lo se levantar, tentando se cobrir com o casaco, deixando a própria máscara de couro cair no chão.
“Desculpe, Shigaraki, eu… Eu vou ao banheiro.” Foi apenas depois que ele falou isso que Shigaraki entendeu o motivo para toda aquela pose, e ele não era capaz de imaginar que um yakuza era capaz de ficar tão embaraçado por conta de uma reação completamente natural de seu corpo.
Por um momento ele quase riu porque ele não tinha como definir aquilo como algo além de absurdamente bonitinho, mas então Shigaraki percebeu o que aconteceria se Chisaki realmente fosse cuidar daquilo no banheiro fora de sua vista.
“Não, não precisa! Fica aqui…” Ele pediu, tentando não parecer tão desesperado quanto sua cabeça ficou com a possibilidade de perder aquela chance. Sim, ele sabia que Chisaki gostava dele — não tinha como duvidar -, mas Shigaraki ainda não sabia se aquela seria apenas a primeira de futuras vezes ou um raro acontecimento oferecido pelo destino, isso se não fosse ambos. De qualquer forma, ele não queria desperdiçar, não queria ficar longe do outro justo naquele momento.
“Mas eu preciso… Oh.” Chisaki tinha se virado quando começou a falar, olhando para Shigaraki — porém, mesmo que tivesse buscado manter seu olhar fixo no rosto ligeiramente ruborizado do outro homem, não demorou muito para Chisaki notar como ele estava sentado com as pernas mais abertas, sem esconder o volume na sua calça.
Agora que ele sabia que não foi o único mais afetado pela situação, Chisaki deixou de se agarrar tanto ao casaco e voltou a sentar-se no sofá. Shigaraki olhou rapidamente para a sua calça, num misto de interesse e timidez, e então se mexeu no lugar.
“Você quer cuidar disso aqui? Mesmo que eu não possa te tocar?” Chisaki passou por cima da própria vergonha para fazer aquelas perguntas. Não era como se apenas ficar ali se encarando fosse resolver algo, e não era como se ele ou Shigaraki, por mais que fossem inexperientes com intimidade física e demonstrações de afeto, também não tivessem seus próprios desejos.
O coração de Shigaraki estava batendo forte. No começo da noite ele jamais imaginaria que veria o outro homem sem máscara, o beijaria e ainda por cima o escutaria propondo algo sexual. Por mais que Chisaki não pudesse tocá-lo, ele não queria ignorá-lo, e por mais que ele ficasse um tanto sem jeito, era claro que o yakuza gostaria de ajudá-lo da melhor maneira possível em tal situação.
“Sim. Ter você assistindo já é algo diferente, se não te incomodar… E se você quiser, também, eu adoraria ver como você faz sozinho.” Shigaraki também não imaginava que, um dia, ele diria algo assim para Chisaki de forma tão aberta e honesta.
Por um momento ele pensou se não estava sendo direto demais, se não estava indo rápido demais, se devia cortar tudo aquilo e falar que era melhor eles esperarem ou algo do tipo porque talvez aquilo fosse algo muito fora da zona de conforto do seu parceiro e...
“Então já pode ir tirando a calça.” Chisaki cortou seus pensamentos e suas inseguranças com a resposta, e quando Shigaraki parou para prestar atenção, ele percebeu que o outro homem estava tirando as luvas. Seus dedos eram longos e as unhas eram curtas, bem cortadas.
Ele se perguntou como seria segurar aquele local que parecia tão delicado, beijar-lhe a palma, acariciar cada um dos dígitos. Shigaraki queria saber como seria poder sentí-lo afagando-o atrás das orelhas, passando os dedos pelas mechas de seu cabelo, acariciando os pelos de sua nuca e passando pelo seu rosto, traçando suas cicatrizes, contornando seus lábios, segurando seu queixo. Gostaria que Chisaki passasse as mãos em seu corpo, explorando e descobrindo-o devagar, pressionando e soltando, envolvendo-o, até mesmo tomando-o com os dedos em seu interior.
Chisaki passou a tirar o próprio cinto, e Shigaraki parou de se perder em fantasias envolvendo as mãos igualmente delicadas e mortais do yakuza. Um dia, talvez, ele poderia ter o privilégio de sentí-las diretamente, de poder tocá-las, mas no momento tudo que podia fazer era vê-las despidas e em ação — coisas que já se provaram como um deleite.
Shigaraki abriu o botão e desceu o zíper da calça escura, tomando cuidado para não tocá-la com os cinco dedos de uma das mãos e desintegrá-la sem querer. Da mesma forma, ele imaginava que Chisaki também devia estar se controlando para não ativar a individualidade acidentalmente no corpo inteiro e perder as roupas.
Ele se levantou apenas para poder retirar a peça junto com a roupa íntima, deixando-as de lado no braço do sofá, tirando também os sapatos. Chisaki não se despiu tanto, optando apenas por abrir os últimos botões da camisa e abaixar a calça e a cueca o bastante para expor seu membro enquanto o parceiro se sentava novamente.
Por um momento Chisaki quase falou que nunca tinha se tocado daquela forma na frente de outra pessoa, mas bastou que seu olhar se encontrasse com o de Shigaraki para que ele soubesse que o mesmo valia para o outro vilão. Era irônico como os dois tinham experiência em lutas e negociações ilegais, podendo até matar caso necessário, mas quando se tratava de algo em teoria muito mais simples, eles não tinham a menor experiência e estavam se descobrindo juntos.
Com isso em mente, Chisaki se permitiu relaxar mais, passando os dedos de uma das mãos lentamente pela virilha enquanto assistia Shigaraki começando a tocar as próprias coxas. Normalmente, quando estava sozinho, Chisaki não se focava tanto em começar devagar ou experimentar muito com o próprio corpo — tudo que ele queria era se livrar do desejo acumulado o mais rápido possível -, mas como estava acompanhado era apenas justo que se demorasse mais.
Shigaraki tomava cuidado para nunca encostar todos os cinco dedos das mãos em sua pele, e parecia acostumado a fazer isso. Seus ombros ainda estavam meio tensos, e o rubor era chamativo em seu rosto pálido.
Em suas fantasias, Shigaraki se imaginava trocando provocações com Chisaki, falando com naturalidade tudo que queria fazer com ele sem gaguejar ou hesitar, mas na realidade ele não tinha coragem para começar esse tipo de diálogo. Não que o silêncio fosse incômodo; era bom poder apenas focar nas ações de Chisaki, em como ele buscava provocá-lo visualmente, como ele demorava-se olhando para seu rosto antes de subir com a ponta do dedo indicador pela sua ereção, para então espalhar o pouco de pré-gozo pela glande.
Chisaki suspirou baixo com essa ação, e mesmo suas orelhas ficaram quentes quando ele viu que Shigaraki lambeu os lábios discretamente ao assistí-lo, apoiando-se no braço do sofá e abrindo mais as pernas. Naquela posição, Chisaki podia ver claramente o que o parceiro estava fazendo, assim como também foi capaz de ver seu sorriso convidativo, incentivando-o a se soltar mais.
O yakuza moveu-se no lugar, ficando mais confortável, deixando que a outra mão passasse a acariciar os testículos enquanto ele continuava a acariciar o resto da extensão de seu membro devagar, os dedos passando por cima de cada veia com cuidado, pressionando o períneo apenas um pouco.
Shigaraki foi o primeiro a envolver sua ereção com a mão, ainda que com o mindinho levantado, passando a mover o punho para cima e para baixo. Outras pessoas provavelmente achariam graça naquilo, mas Chisaki apenas olhava atentamente com os olhos brilhando em curiosidade e desejo antes de seguir e realizar o mesmo ato.
As respirações dos dois homens estavam cada vez mais ofegantes, e Shigaraki foi o primeiro a gemer de fato. Sua voz era naturalmente rouca, e a excitação apenas deixou aquilo ainda mais erótico, fazendo com que Chisaki ansiasse por ouvir mais, de novo e de novo.
Se pudesse, Chisaki o beijaria diretamente, não apenas na boca mas também em seu rosto, em suas cicatrizes, na pintinha logo abaixo dos lábios e além — muito além -, descendo pelo pescoço, ombro, pelo resto de seu corpo. Ele sabia que a cicatriz em seu rosto não devia ajudar muito durante o sexo oral mas Chisaki ainda faria o seu melhor, o lamberia devagar, tomaria todo o cuidado possível para não machucá-lo com os dentes, e ele não se importaria de sujar seu rosto com suor, saliva e até mesmo gozo se aquilo significasse que ele poderia ouvir o outro homem gemendo, chamando seu nome, xingando baixinho e pedindo por mais.
Shigaraki também queria tocá-lo, e ele sabia disso. Em alguns momentos, as pernas do outro homem se moviam inquietas, e Chisaki se perguntava como deveria ser a sensação de ser envolvido por elas, ou de ter o outro homem sentando-se em seu colo, movendo o corpo contra o seu.
Chisaki tremeu ao imaginar isso, e acabou por soltar um gemido mais alto e aumentar a intensidade da masturbação para logo em seguida mover o quadril contra a própria mão, usando a outra para se apoiar no sofá. Shigaraki quis se aproximar, beijá-lo e mover ele mesmo seu quadril contra o dele, esfregar-se com ele até que ambos gozassem, mas sabia que aquilo não seria possível.
No entanto, ele não podia deixar de imaginar como devia ser incrível ver todo o corpo do yakuza reagindo aos seus toques. Shigaraki adoraria mordiscar seu pescoço, passar os dedos pela cicatriz em seu rosto, colocá-lo de costas e penetrá-lo, intensa e profundamente, fazê-lo gemer e talvez até gritar de uma maneira que nunca imaginava que seria capaz, gozar dentro dele apenas para que Chisaki soubesse quem realmente podia amparar seus medos, quem lhe dava prazer, quem o amava independente de seu passado ou da sua individualidade.
Ele queria falar todas aquelas coisas tanto quanto queria demonstrá-las, mas Shigaraki estava cada vez mais próximo de seu limite. Ele sabia pelo suor que descia em sua testa, pelo pulsar cada vez mais intenso em seu membro, pela dificuldade que estava tendo até mesmo em controlar o que fazia com as pernas.
Chisaki também não parecia que ia aguentar se segurar por muito mais tempo do que ele. Para quem havia começado bastante tímido e mal parecia que iria aceitar aquela sugestão, ele estava tão excitado quanto Shigaraki, chegando a até mesmo chamá-lo pelo nome algumas vezes em uma necessidade crescente.
Não demorou muito até que o yakuza chegasse ao seu limite, gozando na própria barriga sem deixar de mover o quadril, fechando os olhos e chegando até a sorrir, aproveitando o momento. Shigaraki praticamente não piscou, deliciando-se com tudo — desde o arfar da respiração errática até a mudança em sua expressão.
Pouco depois de Chisaki terminar, sentando-se cansado, Shigaraki atingiu o seu próprio orgasmo, permitindo-se gozar na mão. Os dedos de seus pés se agarraram ao sofá, tremendo, e ele teve que se controlar para não se segurar na mobília com a outra mão também e começasse a desintegrá-la.
Tudo foi muito rápido, mas incrivelmente intenso. Aquele havia sido um passo que os dois nunca tomaram antes — nem entre eles e nem com outras pessoas -, servindo tanto para tornar o laço mais forte como também para fazê-los necessitarem de mais.
Seus olhares se trocaram no meio do silêncio cortado apenas pelas suas respirações erráticas, e os dois souberam de imediato que não tinha como manter aquilo como algo de uma noite só — talvez nunca tivesse sido desde o começo. Não havia arrependimento, apenas dúvidas e expectativas, uma nova espécie de felicidade irradiando seus sorrisos, abraçando-os como eram por trás de suas máscaras, aceitando-os como os humanos que nunca deixaram de ser mesmo quando tomaram o caminho da vilania e a vida no submundo.
“Eu conheço uma casa de banho aqui perto. Não deve ter ninguém a essa hora, então se você quiser podemos passar lá.” A oferta de Shigaraki foi uma surpresa, mas Chisaki não pode deixar de notar a consideração do outro homem por ele — não que fosse um segredo o quanto ele era organizado e exigente com limpeza e higiene, mas ainda era algo atencioso da sua parte.
“Por mim não tem problema.” O yakuza respondeu, e por mais que ele não pudesse se aproximar e dar um beijo na bochecha de Shigaraki, apenas sua resposta bastou para fazer o outro homem sorrir.
Chisaki não costumava frequentar casas de banho. Durante a infância, quando era mais difícil controlar sua individualidade, ele temia desfazer as coisas dos outros e não se sentia confortável ficando tão exposto com outras pessoas. Após crescer, porém, sua maior motivação para tal era no fato de que ele tinha um lugar decente para morar e um banheiro só para ele.
Como Shigaraki bem disse, o lugar estava literalmente vazio e a recepcionista ficou até surpresa ao ver dois clientes chegando naquela hora da noite. Ela não questionou nada, pois ambos logo pagaram e pegaram o que precisavam educadamente antes de sumir para a área masculina.
Poucos minutos depois eles estavam sentados em frente aos chuveiros individuais. Com apenas eles dois, a sala parecia ainda maior do que já era, e a banheira sem ninguém parecia quente e convidativa.
Shigaraki passou os primeiros momentos ocupando-se com sua própria higiene, mas ele não pode deixar de ser vencido pela própria curiosidade e pouco depois de enxaguar o próprio cabelo ele olhou para Chisaki.
O yakuza se ensaboava com calma, evitando se olhar no espelho logo na sua frente. Shigaraki conseguia imaginar o motivo, e simpatizava com ele. Ao menos ele parecia claramente satisfeito — até mesmo feliz — apenas com o fato de estar se limpando, e aquilo aquecia o peito do homem.
“Posso enxaguar suas costas?” Ele ousou perguntar, e Chisaki piscou em surpresa mas não ao ponto de se irritar por ter alguém interrompendo seu possível transe. Shigaraki queria, na verdade, ensaboá-lo e até lavar seu cabelo, mas isso tudo envolvia o toque direto e portanto estava fora de questão. Ao menos tirando o sabão de suas costas ele poderia ajudar.
“Claro.” Chisaki afirmou, sentando-se de costas para ele e passando o chuveiro para que Shigaraki o segurasse. O homem tomou cuidado ao tocar o objeto, evitando o contato direto com a mão do outro.
Chisaki Kai tinha tatuagens nas costas, como um típico yakuza. Shigaraki Tomura já imaginava aquilo, mas queria aproveitar a chance para admirar a arte na pele. Os desenhos eram grandes, e Shigaraki apenas conseguia imaginar a demora das sessões e o nível de autocontrole que Chisaki precisou durante as mesmas — e se ele se submeteu a isso, então devia significar muito para ele.
Perto de cada ombro, dois kois de escamas coloridas nadavam contra a corrente, que fluía para baixo antes de se mesclar com as chamas de uma grande fênix, de asas abertas e pose imponente, voando orgulhosa exibindo suas penas, as garras e o bico afiado. Atrás dela, compondo o resto do ambiente, várias flores se encontravam em meio a folhas verdes e longos ramos de árvores, que serviam de abrigo para pássaros menores de diversas espécies — pardais, beija-flores, andorinhas. Tudo era pintado com extrema delicadeza, com cores suaves na pintura e traços precisos que seguiam as linhas naturais de seu corpo.
Shigaraki estava impressionado com o nível de detalhes e atenção. Aquilo certamente devia ter custado um bom dinheiro, mas se era algo permanente, certamente deve ter valido cada segundo, cada centavo, cada gota de tinta.
Ele queria passar as mãos pelo desenho, pelos músculos, pela arte viva que era Chisaki. Queria poder beijar cada centímetro, acariciar cada parte do desenho, memorizar ele mesmo as linhas e curvas, as penas dos pássaros e as escamas dos kois, as pétalas das flores e as chamas que viravam água. Queria poder abraçá-lo e se imaginar virando parte daquele cenário, massageá-lo com cuidado, fazer pequenos círculos com a ponta dos dedos com ele deitado ao seu lado até que adormecesse.
“Suas tatuagens são incríveis… Você fica muito bem com elas.” Ele comentou, notando que Chisaki não pareceu notar ou ao menos protestar contra o fato de que ele estava se demorando muito.
O yakuza passou todo aquele tempo olhando para as mãos em seu colo, relaxando com a água corrente em suas costas. Ele não se importava com a demora. Banhos longos e demorados, do tipo que deixavam os dedos enrugados depois, sempre foram seus preferidos, pois ele sempre saía deles se sentindo completamente limpo e purificado de corpo, mente e alma.
Quando era mais novo, Chisaki descobriu que gostava de banhos longos também porque o espelho ficava embaçado com o vapor da água quente e ele não podia enxergar seu rosto machucado no próprio reflexo. Era quase como se, ao menos momentaneamente, as memórias não passassem de um pesadelo distante, como se as mãos das pessoas que um dia o machucaram nunca tivessem de fato o alcançado.
“Você não quer saber o que elas significam?” Ele aproveitou para perguntar, percebendo que o outro vilão não falou nada sobre isso. Normalmente pessoas costumam querer saber o significado das tatuagens das outras, mesmo sem nem conhecer direito quem carrega.
Chisaki também não costumava se despir da cintura para cima em locais que não fossem na privacidade do seu quarto ou seu banheiro, sendo aquele momento uma clara exceção, então as pessoas que sabiam de sua tatuagem eram poucas e especiais.
Shigaraki era, portanto, um dos privilegiados e também uma das pessoas mais importantes na vida de Chisaki. Ainda assim, não era como se o yakuza precisasse dizer isso, considerando como o outro homem contemplou-as em silêncio.
“Quero, mas você não precisa falar se não quiser… Imagino que sejam muito pessoais. Não queria perguntar e te deixar desconfortável.” Ele não estava errado: os desenhos tinham, sim, um significado muito importante para o dono. Ainda assim, aquela devia ser a primeira vez que Chisaki escutava essa resposta, e ele acabou rindo baixinho não por achar graça, mas por acreditar que o outro homem era, de fato, uma figura tão única quanto a máscara que usava publicamente.
“Sabe, acho que tatuagens cairiam bem em você também.” Chisaki olhou para Shigaraki por cima do ombro, e então se virou devagar. Ele estava sendo completamente sincero, e considerava aquilo até mesmo como um elogio. Por mais que algumas pessoas das gerações mais antigas ainda tivessem um certo preconceito com tatuagens e modificação corporal, Chisaki gostava e acreditava que a pele de Shigaraki merecia ser marcada — assim como também adoraria saber o que o outro homem escolheria eternizar nela.
Shigaraki não esperava que o yakuza fosse se virar, ficando com o rosto tão próximo do dele. Ele sentiu as bochechas ficarem quentes e por um segundo ele quase fechou todos os dedos em torno do chuveiro que ainda estava segurando, deixando a água agora cair pelo peito de Chisaki.
Por um momento ele se imaginou como o outro homem afirmou, e ele não podia negar que a ideia era tentadora. No entanto, para o contexto dos dois, aquela não era apenas uma sugestão inocente. Tatuagens no submundo eram uma marca específica da yakuza, tão específica quanto as máscaras de médico da peste que Chisaki e seus subordinados utilizavam.
Ainda assim, Chisaki não falou com essa intenção — aquilo era óbvio por sua voz mansa, pela maneira que se virou, pela maneira que ele ainda estava olhando para o rosto de Shigaraki praticamente sem piscar, admirando cada pequeno detalhe incluindo aqueles que o próprio dono nem mesmo gostava.
Chisaki queria tocar em seu cabelo molhado, afastar os fios longos da franja de seu rosto e colocá-los gentilmente logo atrás de sua orelha. O silêncio havia tomado conta do local onde estavam, e bastava apenas uma pequena iniciativa, um gesto de aproximação. Chisaki ergueu a mão, segurando o chuveiro, notando que Shigaraki apenas deixou que seus dedos deslizassem mais para baixo para dar espaço para sua mão.
Os corações de ambos estavam batendo forte, e os espelhos estavam começando a ficar embaçados por conta da água quente. Nenhum dos dois ousava mexer muito as pernas, pois a proximidade tornava fácil que eles se tocassem mesmo sem querer — e mesmo que eles pudessem apenas se levantar ou afastar os bancos para trás, nenhum dos dois parecia ter coragem para tal.
Aos poucos, seus rostos se aproximavam e não era possível saber quem começou a se mexer primeiro. Tudo que eles sabiam era que a atração era inegável, poderosa demais para ser ignorada, e que naquele momento apenas um toque, apenas um beijo, parecia ser a coisa mais certa a se fazer.
Até Shigaraki se afastar.
“Desculpe, nós não podemos…” Ele sussurrou como se fosse um segredo, como se tivesse mais alguém por perto para escutá-los e que tivesse presenciado o que quase aconteceu. Ele não queria se afastar, não queria negar aquele carinho, mas Shigaraki não podia se esquecer de quem era, e Chisaki também não podia se perder apenas por causa de seus sentimentos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Chisaki voltou a encarar as próprias mãos, refletindo em silêncio. A culpa não era de Shigaraki, não era dele — era daquele mundo doente, das individualidades que se espalhavam e se transformavam com a força de um vírus, que estavam presentes neles sem que eles ao menos quisessem ou tivessem o mínimo direito de escolha.
Se não fosse pelo seu poder, Chisaki não estaria naquela situação. Se não fosse pelo seu poder, Chisaki não teria crescido em meio ao desprezo misturado com medo, sendo castigado por conta de sua existência amaldiçoada desde cedo. Se não fosse pelo seu poder, ele poderia tocar Shigaraki sem medo, poderia abraçá-lo, beijá-lo, fazer carinho em seu cabelo, encostar a cabeça em seu peito e ficar ouvindo as batidas de seu coração.
Ele não podia fazer nada disso, e Shigaraki também não podia porque ele era tão vítima, tão amaldiçoado quanto ele. E por mais que Shigaraki fosse seu igual em vários aspectos, por mais que ainda fosse sua panaceia, sua cura ainda não era definitiva.
Chisaki quis chorar, mas segurou as lágrimas. Não era como se chorar fosse adiantar alguma coisa, já que Shigaraki sequer podia abraçá-lo e afagar sua cabeça para confortá-lo. Se fosse para ser assim, era melhor fazer o papel de gângster sem coração.
No fundo, o homem sabia que era um gângster que sempre se importou demais.
Ele se levantou e seguiu para a banheira, esperando que a água levasse seus problemas embora ainda que só por um instante. Shigaraki o seguiu em silêncio.
Apesar da decepção, a aliança entre a yakuza e a Liga acabou sendo de fato firmada, tornando-se pública semanas depois. Era mais fácil para que os dois líderes se encontrassem com mais frequência, ainda que em um contexto claramente mais formal, que exigia o uso das máscaras.
Todos os homens da família yakuza de Chisaki usavam máscaras de médico da peste, e Shigaraki os via como uma família de pássaros de todas as espécies. Alguns membros eram meros pardais, outros falcões, alguns eram corvos e havia até mesmo abutres. Chisaki era o pássaro que voava mais alto, o líder do bando, com o bico afiado e as asas longas, e bastava um pequeno gesto para que os outros que voavam atrás fizessem sua vontade.
Enquanto isso, a Liga dos Vilões era imensamente variada, com Shigaraki se destacando com sua máscara de mão, sempre atencioso e ao mesmo tempo severo a depender da situação. Ele domava praticamente todo tipo de animais, desde os pequenos e astutos coelhos até o mais poderoso e selvagem dos tigres, ainda que ele mesmo mantivesse a humildade de não se achar demais.
Os sentimentos que os dois líderes mantinham um pelo outro jamais foram discutidos publicamente — se o fizessem, estariam colocando em risco coisas demais. Os mais atenciosos até podiam notar os olhares demorados nas reuniões, o desejo contido de ao menos um aperto de mãos, as palavras que ficavam presas na garganta.
Enquanto eles estivessem naquele submundo, não havia esperança de um final feliz; e quanto mais cavavam, mais eles se sujavam com a hipocrisia, com sonhos destruídos, com todo o horror que os heróis e o governo tanto buscavam esconder, assim como o sangue.
Era com sangue que as coisas eram resolvidas de vez no submundo, e seria com sangue que o novo líder de verdade seria escolhido um dia. Shigaraki e Chisaki sabiam disso desde o começo, podiam sentir o momento chegando com o avançar do tempo, assim como sentiam a ansiedade tomando conta de seus corpos a cada vez que escutavam sobre isso.
Apenas um homem podia ter o direito de liderar as duas facções.
A batalha foi marcada para acontecer em um dos maiores clubes de luta ilegais da cidade. Não seria justo que o combate fosse em um local que desse vantagem para qualquer um dos dois, e que não pudesse ser assistida por outras pessoas. Assim, seria um teste digno.
A lua estava cheia naquela noite, e Shigaraki quis comentar aquilo com Chisaki quando o encontrou na sua frente na arena. Ele tinha certeza que o outro homem ficaria feliz, se lembraria de quando se encontraram pela primeira vez — ao menos, ficaria se a realidade não fosse tão cruel.
Alguém perguntou para Chisaki se ele gostaria de tirar o casaco antes de começar, mas ele negou e continuou encarando os olhos vermelhos de Shigaraki escondidos atrás dos dedos de sua máscara.
Não era necessário que eles mostrassem seus rostos para mostrar o que estavam sentindo: raiva, ansiedade, principalmente tristeza, coisas que vilões entendiam muito bem, coisas que vilões precisavam, coisas que monstros como eles mereciam sentir.
Os primeiros segundos foram de total silêncio — não foi possível ouvir nem mesmo alguém tossindo. O lugar estava cheio de gente, fossem os pássaros de Chisaki ou os animais selvagens de Shigaraki, assim como indivíduos que não se encaixam em nenhuma das organizações que estavam ali apenas para ver o que aconteceria.
Todos doentes, todos amaldiçoados, mas os que estavam na arena eram os mais amaldiçoados dali.
Porém, não havia sentido em ficar esperando. Aquela luta deveria ser decidida o mais rápido possível. Quanto mais se estendesse, maior seria a dor.
Shigaraki começou a correr assim que notou que Chisaki começou a tirar uma de suas luvas. Chisaki ativou a individualidade e a desfez logo antes de seu oponente chegar perto dele, saltando para o lado na tentativa de desviar. No entanto, Shigaraki notou aquilo, e logo mudou o passo, avançando com o braço estendido para poder atacar o outro homem.
Naquele momento os dedos dos dois se tocaram pela primeira vez. Pouco após isso uma das máscaras caiu no chão.
Notas finais
As tatuagens do Chisaki realmente são cheias de significado. Os kois representam a perseverança mesmo na adversidade, pois são peixes que nadam contra a corrente na época do acasalamento. Já a fênix, obviamente, significa renascimento - no caso do Chisaki, o renascer de sua vida desde que ele entrou para a yakuza.
As flores e a natureza também são símbolos muito presentes em tatuagens yakuza, enquanto os pássaros estão mais por gosto pessoal meu e do personagem, mas eles também podem indicar como o Chisaki é, de certa forma, aquele que vai liderar os outros da sua espécie para o renascer da nova era da yakuza nesse universo.
Podemos dizer que eu me diverti MUUUUUUUITO pesquisando sobre essas coisas e sou uma sucker por simbolismos e arte na pele!
Falando em tatuagens e yakuza, nem todo mundo com tatuagens chamativas é aceito em casas de banho no Japão justamente por esse tipo de associação, mas no mundo de BNHA eu acredito que esse tipo de preconceito diminuiu bastante até porque essa espécie de organização está quase acabada no canon. Por outro lado, o preconceito com individualidades...
Eu me diverti MUITO escrevendo sobre a cena do internato! Gosto de exploração urbana e acho interessante como um lugar abandonado pode estar tão cheio de histórias. A atmosfera dessa cena é melancólica, na minha opinião, e eu realmente acho que coisas assim já existiram no mundo de BNHA, se pá ainda existem em outros países ou em comunidades mais isoladas nesse universo.
Acho que dá pra notar que eu simpatizo MUITO com os vilões e realmente espero que eles tenham a chance de ter uma vida digna um dia, nem que seja em outro universo... Acho eles muito humanos e muito bem trabalhados, é um prazer escrever com eles! Amo como eles são maravilhosamente complexos e como você é capaz de entender seus motivos, por mais que eles não façam coisas boas... Eles acrescentam muita riqueza e muitas reflexões em BNHA. Espero poder trabalhar mais com eles no futuro!
Quanto a última cena... Bem, eles estavam destinados a uma tragédia. Agora quem ganhou e quem perdeu? Eu não sei e SIM, ISSO FOI DE PROP?“SITO. O final realmente tá aberto e livre a interpretações de todos os tipos, então não há resposta errada sobre o que pode ter acontecido.
Foi sacanagem da minha parte? Não vou mentir porque foi mesmo, mas se isso te consola, eu achei ó TRISTE QUE S?“ DE ESCREVER. Um dia ainda escrevo uma fic AUzinha bem fofa deles sendo felizes juntos e vivos pra compensar a dor aqui :'D Então pfvr não me jogue pedra, a culpa é do universo que se passa a história mesmo ;;
Espero que tenha gostado! ♥
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