Pallas e os Gregos
1 Um loiro tenta me atropelar
Eu nunca fui muito boa em descrições, principalmente quando se trata de mim mesma.
Eu não sou estadunidense e entrei nessa por puro acaso. Brasileira com orgulho, eu era só mais uma jovem branca de baixa renda que tinha acabado de concluir o ensino médio e tentava desesperadamente conseguir uma vaga na universidade. Mas um ano já estava se passando e nenhuma esperança.
Com 18 anos, meu pai já estava me pressionando pra sair de casa e arranjar um emprego que ajudasse nas despesas, mas minha mãe contra argumentava que devíamos pelo menos esperar o resultado das faculdades, em janeiro. Enquanto isso, eu planejava um curso pra fevereiro dentro da carreira que eu queria exercer e maneiras eficientes de ganhar dinheiro sem ter que sair de casa todos os dias.
Éramos só nós três, numa casa alugada. Apesar do meu pai trabalhar em uma ótima empresa de biodiversidade, nossos gastos eram altos, já que minha mãe estava se dedicando completamente em sua carreira culinária, o que nem sempre dava os resultados ($$$) esperados. Eu era sua auxiliar, enquanto não achasse algo definitivo pra fazer, o que não ajudava tanto assim.
...
Tudo começou num domingo, quando fui andar de bicicleta na Av. Paulista. Ok, é mentira, eu não sei andar de bicicleta, fui lá pra aproveitar qualquer coisa que fosse de graça e eu conseguisse participar (pra quem não sabe, aos domingos e feriados a Avenida Paulista, uma das principais vias da cidade de São Paulo fecha para lazer, ou seja, nada de carros, apenas várias pessoas ocupando as ruas).
Eu estava apreciando uma feirinha gastronômica e observando uns acrobatas fazendo piruetas em fitas, quando alguém gritou para saírem da frente no mesmo instante em que um garotinho fofinho vinha em minha direção. Instintivamente, eu corri pra salvar o menininho, quase sendo atropelada por um ciclista acima do limite de velocidade.
—Seu irresponsável! — gritei, enquanto o garotinho corria de volta pros braços da mãe e encarei um cara loiro.- Você não sabe que há crianças por perto?
—Eu disse pra sair da frente. — retrucou, revirei os olhos.
—Como se uma criança fosse entender!
—Olha, eu sinto muito, mas eu tenho que ir. Pode sair da frente? — falou, sério. Cruzei os braços.
—Se está com tanta pressa, por que está aqui, andando de bicicleta? — questionei, ele bufou.
—Eu vim pra curtir o domingo, mas aconteceu uma coisa e eu preciso sair logo daqui, então, por favor, me deixe ir. — respondeu.
—Mesmo assim, você não devia correr desse jeito numa ciclovia com tanta gente distraída por perto, alguém pode realmente se machucar.
—Já disse que sinto muito, agora me dê licença. — insistiu, olhando nervosamente para trás. Ergui as sobrancelhas.
—Tem alguma coisa errada com você. — comentei, ele me olhou desnorteado.
Olhei em volta e não vi nada fora do normal. Voltei a encara-lo, mas então, no vão entre dois prédios, uma sombra enorme e estranha chamou minha atenção. Eu devia ter ficado muito tempo sob o sol, mas não conseguia desviar os olhos daquela parede.
—O que...
Minha voz sumiu, a sombra se mexeu, encolhendo e depois aumentando, como se estivesse se aproximando. O cara na bicicleta percebeu meu espanto e seguiu meu olhar, depois me encarou alarmado.
—Você consegue ver?- perguntou, o encarei.
—Claro que sim, é impossível não ver aquilo.- retruquei.
—Talvez a névoa não funcione com você.- comentou.
—O que você quer dizer?- perguntei, mas um movimento repentino me chamou a atenção. Olhei para a sombra e ela não estava mais lá. Procurei em volta, nada.- Sumiu.
—O que?
O garoto olhou pro local onde a sombra estava minutos antes e empalideceu, começou a olhar em volta como eu.
—Ok, preciso ir.- falou.
—O que esta acontecendo?- perguntei, ele me olhou.
—Nada, não se preocupe, ele vai ignorar você.- falou, nervosamente.
—Quem é ele?- perguntei, mas o loiro estava olhando em volta atento.
—Tarde demais.- sussurrou, alarmado. Olhei na direção que ele estava olhando e sufoquei um grito.
—Ortros! Como um ser mitológico pode estar atrás de você?- exclamei, observando um cachorro gigante com duas cabeças e uma calda de serpente.
—Como você.. Ah, não importa, preciso sair daqui.- falou, se ajeitando na bicicleta, pronto pra ir.
—Espera, e as pessoas?
—Vão ficar bem, é a mim que ele quer.- respondeu, então contornou meu corpo e deu uma pedalada.
—Você não pode estar falando sério!- gritei, mas ele já estava se distanciando.
—Não se preocupe, você vai ficar bem!
Olhei de novo pro lugar onde aquele "cachorro" enorme agora se mostrava visível e vi que ele me encarava, com a baba escorrendo. Me afastei lentamente e ele avançou alguns passos, ele realmente havia me notado. Fingi caminhar calmamente, na mesma direção que aquele cara tinha ido e tentei não olhar pro cachorro gigantesco que ninguém mais parecia notar.
A sombra de suas duas cabeças começou a aumentar atrás de mim, apertei o passo, mas podia sentir seu bafo quente se aproximando. Comecei a correr, mesmo sabendo que não seria o melhor á se fazer. Vislumbrei o cabelo loiro daquele garoto que quase havia me atropelado descendo as escadas da estação do metro.
—Ei, cara loiro, espera!- gritei e tentei correr mais rápido ainda.
Consegui chegar nas escadas e conforme ia descendo para o subsolo, fiquei aliviada achando que estaria a salvo, a final, um ser daquele tamanho, não conseguiria entrar numa estação de metro. Mas é claro que eu estava errada. Assim que se aproximou das escadas, seu tamanho foi diminuindo, até estar mais ou menos no tamanho de um leopardo.
Fui até as catracas, com aquele monstro no meu encalço. Aproveitei que um cara estava passando o bilhete na catraca e passei em seu lugar, o que fez com que ele ficasse furioso e chama-se a atenção dos guardas, que vieram atrás de mim. Desci para a plataforma, tentando desesperadamente achar aquele cara da bike, o que não foi difícil. Por estar com uma bicicleta, ele atraia certa atenção, principalmente por estar passando o portão de segurança e adentrando o túnel.
Corri em sua direção, com minhas pernas já tremendo pelo esforço. Graças aos céus aquele bicho tinha ficado preso nas catracas com porta de vidro. Cheguei ao túnel e ouvi algo como se estivessem fazendo uma oração antiga, era o loiro.
—Ei, cara.- chamei, ele me olhou.
—Você não devia estar aqui.- reclamou, bufei.
—Aquela droga de cachorro correu atrás de mim, enquanto você simplesmente sumiu!- exclamei, ele riu.
—Ele não estava atrás de você.
—Ahh, estava sim. Ele me encarou e depois veio pra cima de mim, até encolheu pra conseguir entrar na estação.- retruquei.
—Ele está aqui?
—Sim!- gritei, irritada.
—Droga, preciso me apressar.- falou, então voltou a recitar o que me parecia uma oração em uma língua que não consegui identificar.
Ouvi um ruído de eletricidade.
—Temos que sair daqui se não quisermos ser atropelados por um trem de mil toneladas.- chamei, mas ele me ignorou.
Então um rosnado chamou minha atenção, aquele bicho maldito havia conseguido passar pelas catracas e não só isso, haviam os guardas também, que estavam gritando e pedindo pras pessoas saírem do caminho.
—Temos que fugir!- insisti, e novamente fui ignorada.
—Ei, ali. Tem dois adolescentes nos trilhos!- gritou um dos guardas.
—Ei, seus moleques, saiam dai.- gritou o outro.
—Estamos ferrados.- comentei.
A gritaria chamou a atenção do cachorro, que pulou nos trilhos e veio em nossa direção.
—Agora é uma boa hora pra correr.- chamei.
Foi então que ele finalmente parou de cantar.
—Até que enfim me escutou!- reclamei, ele me olhou.
—Eu sei que parece assustador, mas ele não vai realmente machucar você.- falou.
—Você é louco.
O cachorro estava crescendo de novo, preenchendo todo o espaço disponível no túnel, enquanto os guardas desciam para os trilhos para nos pegar.
—O que vamos fazer?- perguntei, mas ele não estava prestando atenção em mim.
—Vamos, abre logo. Túnel maldito!- xingou ele, dando um soco na parede.
De repente, tudo pareceu tremer e no lugar onde o cara havia socado, agora havia um buraco.
—Bem na hora!
E realmente foi. Os guardas me puxaram e o cachorro tentou nos abocanhar, tudo ao mesmo tempo.
—Ai!- gritei, sentindo uma ardência no braço esquerdo. A cobra que havia no rabo de Ortros deu o bote enquanto os guardas tentavam me arrastar de volta pra plataforma.- Seu idiota, você não disse que ele não podia me machucar?- gritei, exasperada, sentindo meu braço arder. O loiro arregalou os olhos. Sem que eu percebesse, ele tinha arrumado uma espada e lutava com as duas cabeças.
—Isso não devia ser possível!- falou, no instante que uma das cabeças bateu em seu corpo, o jogando contra uma das paredes. Ele pareceu desnorteado por uns segundos, então se levantou e encarou as duas cabeças.- Se livre dos guardas, eu tiro a gente daqui.
A dor estava ficando insuportável. Eu havia sido picada por uma cobra que era o rabo de uma criatura mitológica, enquanto guardas do metro tentavam me arrastar pra fora dos trilhos e minha única opção era acreditar que um loiro idiota que quase me atropelou podia me tirar daquela roubada.
Respirei fundo e pisei o mais forte que pude no pé de um dos guardas, que gritou e afrouxou o aperto. Consegui me soltar o suficiente pra virar pro outro guarda e dar uma joelhada entre suas pernas, foi nocaute. No entanto, o outro guarda voltou a si e veio novamente pra cima de mim, transformei a dor em raiva e acertei um soco em seu nariz, um crack me avisou que eu havia quebrado o nariz do guarda, ele se afastou urrando.
Enquanto isso, o garoto tentava afastar as duas cabeças e a cobra que compunham o corpo de Ortros.
—Como você vai se livrar dele?- gritei.
—Eu só preciso que você chegue até as sombras.- respondeu.
—Você quer dizer aquele buraco na parede?- perguntei.
—É, o buraco, vá até ele.- mandou.
Ortros havia crescido, o que me permitia passar por entre suas pernas. A cobra já havia me picado, não estava mais interessada, mas não pude dizer o mesmo das cabeças, elas ainda queriam me mastigar. Elas se preocuparam em conseguir me pegar, enquanto a cobra investia no cara loiro. Daquele tamanho, Ortros não tinha muito espaço pra se mover e as duas cabeças ficavam brigando pra ver quem conseguia me pegar primeiro, o que ajudava a manter uma distância segura entre mim e seus dentes.
Ainda tentando ficar longe das duas bocas, ouvi o som de algo rasgando. Então as duas cabeças se levantaram e urraram. A cabeça da cobra estava decepada no chão.
—Corre!
Aproveitei a distração das duas cabeças e fui em direção ao buraco na parede do túnel. O garoto me empurrou para dentro e segurou a espada, as cabeças estavam voltando enfurecidas.
—Entre, confie em mim.- pediu.
Ele me empurrou para dentro. A escuridão me cercou. Achei que íamos morrer, éramos dois adolescentes encurralados num buraco com duas cabeças gigantes tentando nos devorar. Mas então, senti a terra se movendo em baixo de nossos pés, estávamos nos movendo.
Quando eu já estava quase tendo um ataque claustrofóbico, a terra se abriu e saímos no meio de um pátio, onde vários adolescente jantavam em mesas de piquenique.
—Me ajudem, ela foi picada pela cobra de Ortros!- gritou meu companheiro.
Meu corpo pareceu pegar fogo. Olhei pro meu braço e vi que estava roxo e inchado. Vi pontos pretos e ouvi um barulho de algo caindo, era eu.
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