Paleta de cores
1 Branco
Era uma vez...
Um garoto que via as cores do mundo desbotadas. Elas lentamente se tornavam cinzentas para ele, mas ainda assim, o garoto cinzento nunca deixou de desenhar e pintar.
Era inevitável que ele odiasse seus quadros desbotados, e a cada vez que isso acontecia, menos cor podia ver. O garoto cinzento corria numa espiral de ódio que o afundava mais no monocromático.
Alguns dias, ele mal aguentava abrir os olhos ao acordar. Não podia ver suas emoções, mas devia ter poucas coloridas àquele ponto. Dessas, seu ódio era um laranja vibrante, e sua tristeza ia do azul mais frio ao preto sem aviso.
Numa tarde em que pintava no seu banco preferido do parquinho perto de casa, sua mão começou a tremer. Parecia estar protestando sobre como era impossível pintar o pôr-do-sol sem conseguir ver a beleza dele. Por que ele continuava tentando?
Lágrimas pretas caiam de seu rosto. Ele não se importou de secar. Elas começaram a ter um brilho vermelho, e ele, tremendo com cores que pensava terem sido apagadas de si, jogou seu material no chão.
As tintas cinzentas que estavam abertas mancharam a grama, deixando o verde pálido das folhas bem mais sem graça.
A pintura foi borrada, mas ele não se importou de apanhar. Agora estava tudo cinzento. Ele sentiu o momento em que suas últimas cores se esvaíram.
Foi quando sentiu algo puxando sua calça. Ao olhar, viu um garoto em miniatura. Ele sorria apesar de ser todo branco. Estranho, mas adorável. De onde viera?
Cinzento estava vazio demais para de assustar. Apenas estendeu a mão e colocou o pequeno branco em seu colo. Esse apontou para os materiais artísticos com o cenho franzido, mas cinzento balançou a cabeça com desânimo. Branco puxou sua blusa repetidas vezes, mas só lágrimas cinzentas caíram.
— Eu não vejo as cores como deveria, e ninguém acha graça no que eu faço. Desista...
Branco emburrou-se. Batendo o pézinho na coxa de cinzento, apontou para os próprios olhos insistentemente.
— Não me diga que... Você quer ver por mim?
O pequeno assentiu e apontou pras coisas de cinzento de novo. Sua expressão era de irritação, mas ele parecia estar implorando por alguma coisa.
— ...Ok. Eu vou tentar. Tentar. — murmurou cinzento. Ele pegou o que havia jogado no chão e recomeçou sua tentativa com Branco lhe ajudando. Se ele precisasse de inspiração, Branco lhe tocava e ele sentia um pouquinho de cor passar por sua mente, mesmo que apenas por um mero segundo. Quando ele chorava, Branco absorvia as lágrimas e com suas pequenas mãos, segurava o pincel junto de cinzento até que o garoto maior conseguisse passar todas elas para o quadro.
Ao acabarem, cinzento havia colocado muito cinza de si no quadro, e essa falta de cores era tudo o que podia ver.
— Eu disse. Está horrível. — Resmungou, olhando para o chão.
No entanto, Branco não deixou acabar assim. Ele escalou cinzento até chegar em sua cabeça e poder colocar as mãozinhas o mais próximo possível dos olhos do garoto. Apesar delas se mancharem um pouco de cinza, Cinzento pôde ver todas as cores que Branco via em seu quadro. O cinza que vinha dele era cheio de sentimentos vibrantes para Branco.
Branco acabou desmaiando e a mágica se desfez. Preocupado, Cinzento correu com ele para casa. Uma casa de um cinza desconfortável, que Cinzento vivia escapando.
Cinzento não fazia ideia de como cuidar de Branco. Não era um ser que fazia parte de seu mundo cinzento.
Cinzento... Cinzento... Cinzento?
As mãos de Branco estavam cinzentas, então talvez ele precisasse de cores. Mas onde consegui-las? Tudo era cinzento para o jovem artista, se é que podia se considerar um.
"A não ser que..."
Ele tinha acabado de ver que o que havia colocado de si no quadro era colorido para Branco. Talvez pudesse ajudar? Dependendo de qual ponto de vista estivesse certo, a situação poderia piorar ou melhorar drasticamente.
Ele tocou na cabeça do pequeno Branco com delicadeza.
"Cores... Cores... Cores..."
Suas lágrimas voltaram. Ele mal percebeu que elas eram um azul solitário.
"Pense em cores... Você precisa de cores... Não pense nisso, nem naquilo, não, não..."
Branco abriu os olhos. Ele estendeu a pequena mão até o braço de Cinzento e sorriu, lágrimas caindo de seus olhos também. O garoto maior de alguma forma conseguia entender o que significavam, como no ditado que uma imagem vale mais que mil palavras.
"Eu queria ser sua paleta de cores, mas você acabou ficando sem elas... Me desculpe, eu estava tão fraco e ainda assim quis voltar uma última vez para devolvê-las, mas veja só...", os olhos de Branco brilharam com afeto, "nós dois não percebemos que a questão era você sentir minha falta."
Cinzento estava transbordando de emoções e já não era mais cinzento. Seu cabelo castanho quase sufocou o menor num abraço. Esse também já não era mais tão menor, e foi de vinte centímetros para um pouco menos que seu amigo real.
Desde então, os dois continuam amigos, apesar das dores dos que veem o mundo colorido de forma diferente, e Branco nunca mais sofreu outra tentativa de esquecimento, assim como as tintas uma vez jogadas no chão.
Notas finais
E afinal, se eu não tiver nada de interessante para oferecer, as pessoas ficam menos dispostas a ouvirem, então aqui está. Eu ofereço uma história.
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