Paleta de Palavras
1 Adieu
Notas iniciais

A chuva começava a escorrer pela janela. Faltava um sopro para o anoitecer, embora as nuvens pesadas já tivessem adiantado a partida do sol. Sentei-me num canto da antessala de quartos e acendi um dos cigarros de especiarias que Sebastien trouxera para mim da sua lua-de-mel na Índia. Agora, pouco havia dele ali para se recordar. Mamãe limpara da mansão todos os vestígios do meu irmãozinho. Assim, talvez, estivesse convencida de fazer do luto um tanto mais tolerável.
Mas Sebastien jazia aceso em nossas memórias. Nas minhas, especialmente. Basta que eu me sente aqui, neste cômodo que por anos fora confidente dos nossos risos e pecados, que sou capaz de fazer se manifestar a sua imagem, somente com a força do meu desejo. Mamãe diz que irá me chamar um médico, pois não ando bem da cabeça. Talvez ela tenha razão. Dói-me subir aqui noite e dia na vã expectativa de preencher o meu vazio com o fantasma de Sebastien.
Vejo-o na ventania que agita as cortinas da sacada; sinto-o no perfume das suas rosas favoritas; toco-o nas suas cartas que chegaram no último outono; largo-me no canapé de olhos fechados, ao som de Summertime, a sua, a minha, a nossa canção. Evoco na melodia a sua lembrança. Sorrio ao murmurar os versos:
One of these mornin's, you goin' to rise up singin’
Then you'll spread yo' wings an' you'll take the sky
But till that mornin', there's a nothin' can harm you
Poucos artistas nos leram tão bem quanto Ella Fitzgerald. Mas quem diria que ela já previa a sua partida? Quem poderia imaginar que as trincheiras levariam de mim a minha parte mais preciosa? Ah, Sebastien. Nossa história foi um filme triste. Um sacrilégio deliciosamente vivido. Uma música para se cantar com o coração partido.
A luz fria, azulada, do começo de noite, se espalha pela antessala. Meu cigarro se acaba, o disco de Fitzgerald chega ao fim, mas a tristeza permanece em mim. Fico em silêncio, ferindo-me com os ecos da partida, pois coração já não tenho mais para sentir.
As cortinas agora pararam de esvoaçar. Mais uma vez, você se foi.
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