Pale (interativa)
5 Fugitiva
Notas iniciais
O contorno das janelas cintilava por trás das cortinas de seda devido ao alvorecer. Sarah Moore despertou abruptamente, perturbada graças à barulheira exterior cujo volume era tão elevado que alcançara seu quarto na torre oeste – a torre leste era reservada aos empregados. Exasperando, ela desceu de sua cama espaçosa, calçou seu sapatos, vestiu um casaco quente e rumou para a longa escadaria, disposta a dar um fim àquele impasse. Saindo pela lateral do castelo, pegou-os no flagra na ponte e cruzou os braços de insatisfação.
Usando toda sua autoridade de líder, ela pacificamente ordenou – Abaixe a arma Allan. Você sabe que não queremos que sangue inocente seja derramado.
Ao avistá-la resgatou a última gota de piedade que restava em si e não atirou, embora quisesse muito. Entregou a pistola de volta ao guarda e alertou à Jinx. – Te pouparei apenas dessa vez.
Jinx estreitou os olhos, o fuzilando em seus pensamentos, em seguida passou um braço ao redor de Maisha num gesto protetor.
Sarah assentiu para Allan e ele caminhou em sua direção.
– Você não tem jeito mesmo – ela suspirou. Conhecia muito bem a personalidade impulsiva de seu namorado.
– Não podemos deixar que eles nos desrespeitem. É para o nosso próprio bem, ele é que são os intrusos.
Há quatro anos, Sarah havia fugido de casa com Allan Williams no meio de uma noite de verão. Sua história não parecia tão trágica para quem contasse porque ninguém conseguia sentir sua dor. A vida antes de conhecê-lo era solitária, ela morava com a mãe e a irmã caçula de nove anos. O pai as abandonou quando ela tinha apenas seis anos e a mãe não tinha tempo disponível para ela, somente para a irmã, por isso Sarah acabou se distanciando e agarrou a mão do primeiro estranho gentil. Quando eles ficaram juntos pela primeira vez, ela se apegou a ideia de que finalmente tinha encontrado alguém que pudesse oferecer amor e atenção, apesar disso não transparecia seu lado emocional ou "humano" quando estava longe de Allan, podendo ser inescrupulosa e inflexível. Por outro lado era compreensiva com quem buscasse sua ajuda, porém era difícil conquistar sua confiança. Seu pontos negativos eram que ela odiava receber ordens, sua inteligência lógica era muito acima do normal e por ser um prodígio era complicado detê-la em combate. Sua coragem passava dos limites aceitáveis, mas não ao ponto da idiotice. Quem a testemunhava agir tão calculista assumia que esse traço de personalidade era como uma espécie de "armadura" contra o dano sentimental. Raramente se gabava sobre si ou sobre sua vida e desenterrava com destreza segredos dos outros. Possuía uma excepcional memória fotográfica e era vingativa, muito vingativa, pois jamais se esquecia dos erros alheios.
– Também não podemos feri-los, eles são responsabilidade do seu tio – ela pausou, passando uma mão entre o cabelo macio dele. – Está com sono?
– Um pouco – respondeu sem ânimo e constrangido.
– Então vem dormir comigo – ela sussurrou em sua orelha.
Por fim, Allan e Sarah subiram a torre e foram para seu dormitório. Para dispersar os outros recrutas ou até mesmo evitar que eles também atacassem outro líder e isso resultasse num motim, a sacerdotisa escolheu mais dois aliados para levá-los para dentro do castelo. Eram a vez dos aliados Sydney Rutherford e Jean Hernandez se apresentarem para o Imperador. Ela parecia ser uma garota fria e de fato era, porém também se destacava por ser destemida. Gostava de sorrir sempre para as pessoas mesmo que não estivesse feliz de verdade, como foi o que aconteceu ao passarem pelo salão principal.
Sydney lançou um sorriso charmoso para seu aliado e eles se curvaram antes de se aproximarem do trono. Jean era uma pessoa bastante calma, não se irritava com facilidade e geralmente era sempre reservado. Preferia ficar sozinho a ter amigos falsos, mas sempre que tinha amigos leais nunca os abandonava e sempre agia o mais justamente possível. Seu estilo era básico tanto quanto Ian Hart. Tinha ombros largos, braços médios, pernas fortes e gostava muito de usar calças, jaquetas e óculos escuros para disfarçar seu problema de pigmentação nos olhos.
Ao pararem, notaram que não era Obel que estava no trono e sim uma das líderes, Nicole Montibeller. Nick era a única filha adotiva do Imperador e exceto por ela o único elo que restara de sua família de sangue era Allan. Antes de ingressar na comuna, Nicole foi criada somente por seu pai porque sua mãe morrera no parto. Klaus Montibeller era um ex-soldado que após sofrer uma grave fratura na perna voltou para a vida civil. Desde pequena a educação e comportamento de Nick eram extremamente rigorosos e restritos com punições severas, mas não físicas. Mesmo tendo crescido alguém rígida e decidida, sua auto-estima e auto-confiança eram muitas vezes rebaixadas por conta da maneira como seu pai a tratava, mas logo aprendeu que não deveria se importar com a opinião dele sobre ela, pois Klaus só falava aquilo por não ver seus próprios erros e defeitos. Por ter passado a adolescência toda sendo aquilo que o pai queria que ela fosse, mas no mesmo dia que iria para a faculdade desviou-se do caminho e pegou um avião para o Japão onde moraria e trabalharia em Pale. No último ano do colégio havia recebido uma proposta de Obel para morar em Pale. Enquanto visitava a Alemanha, ele observou atentamente de longe os detalhes de sua vida particular e algo nela o chamou a atenção. Talvez o Imperador tenha visto nela a filha que lhe foi roubada injustamente e que agora estava largada num orfanato por aí.
Levantando-se, a elegante Nicole caminhou ao redor dois. – Boa noite.
– Pensei que o Imperador estivesse nos esperando – Jean reclamou, suspeitando.
– Meu pai estava com sono e resolveu ir descansar. Espero que não se importem – ela explicou com um sarcasmo quase imperceptível. Que diferença faria se eles se importassem?
No entanto, Nick sabia que naquele momento Obel não tinha ido dormir. Ele estava no subsolo do castelo, vagando entre as sessões do banco de almas, contemplando sua coleção. Cada alma estava armazenada em um pequeno frasco de vidro sussurrante e uma vez que fosse liberta, se perderia para sempre; desconheciam para onde ela ia depois.
– Não, claro que não – Sydney prontamente objetou temendo discutir com aquela mulher.
– Quero ouvir sobre ambos, estarei gravando – ela virou-se e ligou o gravador de áudio em cima da mesa ao lado do trono onde também estava o cálice de vinho de Obel.
– Você começa — a aliada murmurou para Jean.
Ele saltou. – O quê? Nem pensar, as damas primeiro.
– Já se decidiram? Não tenho todo o tempo do mundo.
Por fim, acabou desistindo e sendo o primeiro a se apresentar. – Sempre passei por muitos problemas pessoais, tanto na escola quanto em casa. nunca me dei bem com meu padrasto Juan Fernandez que foi casado com minha mãe Luana Hernandez que infelizmente chegou a falecer. Eu e ele sempre discutíamos muito. Certo dia, o miserável difamou a minha mãe e tentei brigar com ele já que conversar não resolveria mais nada. No final das contas, minha mãe o defendeu e eu fui expulso de casa. Caminhando pelas vielas da minha cidade natal que é Barcelona encontrei um panfleto sobre Pale e decidi que chegaria aqui a qualquer custo.
– Gostamos de pessoas esforçadas. Você tem cara de que é bom em armas de longa distância – Nick comentou ao voltar para o acento e cruzar as belas pernas.
Jean mirou o teto para não perder a concentração. – Eu já treinei com um rifle, mas não sou tão experiente assim.
– E você, Sydney? – a líder fitou-a.
– Minha vida foi marcada aos cinco anos quando meu pai morreu. Pouco tempo depois minha mãe se casou de novo e eu também odiava o meu padrasto. Num súbito e aterrorizante acidente que tirou a vida da minha mãe quando eu tinha apenas treze, me vi sozinha com Joe. Nos sábados à tarde quando meus tios não estavam por perto passei a ser abusada pelo mesmo aos quinze. Esperei completar dezesseis para guardar dinheiro e cair na estrada – explicou sem muitos detalhes.
– Qual arma você consegue manusear melhor?
– Arco e flecha. Além disso, sou ótima em estratégias e em luta corpo á corpo.
– Arco é flecha é bom para situações em que estivermos sem outra opção, não poderíamos usar esse tipo de arma em um centro urbano não é?! — Nick sorriu e estalou os dedos. – Vou escalar um grupo, que incluirá você, para capturar almas de vítimas que vivam em áreas montanhescas ou florestais.
Sydney assentiu alegremente mesmo duvidosa quanto à ideia. Entrar em grupo significaria que ela se misturaria à pessoas que gostariam de sua presença e outras não, ou seja, existiam grandes chances de intrigas e competitividade.
– Tenho uma dúvida, prometo que é a última. Por que vocês não se vingaram de seus padastros?
Eles se calaram, desconheciam a resposta.
– Será que se eu escolher que a primeira missão de vocês é assassiná-los, vocês o fariam sem sentir culpa?
Nenhum dos dois respondeu.
– Nos tragam a almas deles e nós estaremos trocando favores. Por enquanto é só, eu vou comunicá-los quando for solicitada as suas visitas ao país de suas respectivas vítimas.
Jean e Sydney deram as costas. Ao lado de fora, na ponte, a sacerdotisa entregou a chave da cabana e eles foram se trocar nenhuma palavra. Em frente à porta de sua nova residência, ele enfiou a chave na maçaneta e antes que pudesse reagir sentiu um objeto metálico e gélido ser encostado contra seu pescoço quando ela o agarrou com um braço.
– Abra a porta, me deixe entrar e não diga nenhuma palavra ou eu te corto – Greta Green ameaçou.
Sydney teria reagido se um revólver de calibre de nove milímetros não estivesse apontado para sua cabeça. Greta era boa em segurar duas armas ao mesmo tempo e se orgulhava disso.
– Você é a garota que foi presa com o Ian? Não precisava de toda essa violência, era só ter pedido – ele tentou manipulá-la. É óbvio que se ela fosse burra o suficiente para soltá-lo Jean revidaria.
– Me engana que eu gosto, vocês são uns filhos da puta que só querem se dar bem às custas da desgraça alheia, tenho certeza que me entregariam.
– Você não atiraria em nós, entraria numa encrenca maior ainda se nos matasse. Sua arma não tem silenciador, os guardar escutariam os tiros e viriam checar. Nos encontrariam mortos e começariam a procurar por você. Os muros têm quinze metros, a parte mais baixa fica próxima à portaria e não há como escalar sem ser vista pelas câmeras de segurança. Os cidadãos comuns podem até não suspeitar de você, mas uma hora ou outra você terá que sair nas ruas da comuna. Ainda mais, a arma que você está me apontando é de uso privativo das Forças Armadas e o Ian é filho de um militar, não é?! Você denunciaria de que ele também fugiu da prisão, imagine como deve ser horrível carregar o peso de uma traição e um homicídio em vão – Jean tentou manipulá-la de novo, mas dessa vez foi honesto, afinal, não havia vantagem para Greta em matá-los.
Greta hesitou, mas não cedeu. Permaneceu em posição de ataque e poderia eliminá-los numa questão de segundos. Realmente tinha roubado o revólver de Ian enquanto ele estava distraído bebendo e conversando com Rebeca; que recebeu o apelido de "ruiva com o fogo no rabo".
– Mesmo se você se esconder, eles vão saber que você foi a autora do crime no necrotério quando encontrarem suas digitais no meu pescoço, então o que você vai fazer depois que acabar com a gente? Fugir? Isso não será suficiente — Sydney continuou a mesma linha de raciocínio de seu aliado, abrindo a porta e sendo forçada à entrar.
A adaga ainda estava encostada à pele dele, prestes a cortar sua artéria.
– Não quero matar nenhum de vocês, só quero um lugar para ficar, mas ainda não confio em vocês.
Ela trancou a porta da frente e entregou a chave para Greta. – Ninguém entra e ninguém sai se você não abrir. Agora pode confiar em nós?
Com as mãos trêmulas, ela desencostou a adaga de Jean. Em seguida, guardou cada uma em um bolso do jeans e deixou o revólver exposto pela metade servindo de aviso "Se você ousarem fazer qualquer coisa já estarei pronta para disparar". Podendo respirar melhor, ele fechou as mãos em punho e sentiu um incontrolável desejo de botá-las em volta de seu pescoço e apertá-lo até que ela caísse mole no chão. No entanto ao contrário disso, sentou-se na cadeira de fibra à sua frente e a contemplou. Sydney foi conhecer o resto da cabana, largando-os à sós na sala.
– Como você conseguiu fugir da prisão? – ele ficou curioso.
– A minha cela ficava embaixo de um alçapão. O alçapão saía em um bar. Uma infiltrada nos ajudou e Ian ficou bebendo com ela enquanto escapei pela janela do banheiro.
– Você os deixou para trás – ressaltou incrédulo.
– Sim, percebi que em Pale é cada um por si – Greta esticou um sorrisinho sádico, pensando em denunciar Ian e a Rebeca apenas pelo prazer de vê-los se ferrarem.
– Gostei da camiseta – Jean apontou. Ele gostava dos filmes do Iron Man, mas nunca leu os quadrinhos.
Ela suavizou a voz, sendo mais simpática. — Obrigada. Gosta desses heróis?
– Sim, um pouco. Nunca li nenhum quadrinho dele.
– São bons para colecionar, mas eu não os coleciono. Sabe, você parece ser experiente em assassinatos – admitiu.
– Não sou tão experiente, só pesquiso muito sobre ciências forense, técnicas de sobrevivência e armas – Jean foi modesto.
Sem mais assunto, eles foram para o quarto. Sydney desforrava as camas para irem dormir.
– Pode ficar com a minha cama por enquanto – ele disse.
Corando, Greta se opôs. – Não precisa, eu durmo no sofá.
– É sério, eu quero que você durma na cama — franziu a testa, meio colérico. – É melhor você aceitar logo antes que eu mude de ideia até por quê não podem te ver aqui dentro e as pessoas desse lugar são muito indiscretas, vivem espiando a janela dos outros.
Ao dar uma última checada nela, Hernandez fechou a porta ao sair do quarto e as permitiu que ficassem à vontade. Alguns valores ainda se mantinham intactos. Sydney a emprestou um de seus pijamas e elas não demoraram a ir dormir. Em caso de emergência, Greta dormiu com a adaga debaixo do travesseiro. Sydney não conseguiu dormir com peso na consciência de estarem abrigando uma fugitiva, apesar de ela parecer uma boa pessoa.
Enquanto isso, as entrevistas continuavam no castelo. As próximas seriam Dorothy Burcley e Maisha Flowers.
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