Palavras que machucam
3 ♥Patins que flutuam♥
Notas iniciais
O carro chacoalha suavemente sobre os cascalhos. O aquecedor temperamental torna a fazer alguns chiados, encobrindo a voz do cantor country que toca na rádio local.
Riley mexe no botão do rádio mudando a estação e um rock dos anos oitenta chia um pouco antes de ecoar pelo carro.
Sugo uma respiração estrangulada e observo a neve cair pelo vidro embaçado.
Tento não surtar por estar confinada com Connor em uma caminhonete pequena. Ele estava sentado na frente, no banco do passageiro, mas sua presença é tão forte que parecia até mesmo que ele estava sentado ao meu lado.
Me espremo ainda mais contra a porta do carro, me mantendo quieta, com medo de que algum movimento brusco chame a sua atenção. As minhas mãos suam sob as luvas, mesmo com o frio de congelar os ossos do lado de fora.
Eu sei. Eu estava soando pateticamente como uma criancinha assustada.
Mas, não é como se eu pudesse controlar o meu medo. Connor era como o meu pesadelo particular, que vinha me aterrorizar nas noite chuvosas com seus olhos escuros, quase negros.
O olho sorrateiramente e observo a linha marcada do seu maxilar quadrado, sem a barba dessa vez para obscurecer, o cabelo de um tom claro de castanho se enrolava na nuca, sob o colarinho da camiseta. Ele tinha os cílios espessos que faziam sombra sobre as bochechas salientes. O que eu achava encantador em um garoto, mas em Connor apenas o deixava ainda mais assustador.
De repente, sinto uma sensação incômoda e um calafrio se alastra pela minha pele, olho para o retrovisor tentando achar a fonte daquela sensação. Solto uma respiração trêmula pelos meus lábios entreabertos quando noto olhos castanhos me observando atentamente pelo espelhinho.
Desvio o olhar rapidamente, com as bochechas pegando fogo.
Como eu disse, olhares feitos para enrubescer.
O seu olhar continua queimando sob a minha pele e sem conseguir evitar, eu volto a encará-lo pelo retrovisor. Ele arqueia uma sobrancelha para mim, como se estivesse me desafiando, eu cruzo os braço em uma demonstração clara de birra infantil.
Bufo e reviro os olhos em uma atitude nada feminina. Ele solta uma risada rouca, baixinha, que parece ser uma descarga de 220 volts sobre a minha pele arrepiada.
—Chegamos. -A voz de Riley corta a nossa guerra silenciosa e eu volto a desvia o olhar.
De repente, sinto vontade de me encolher ainda mais dentro do meu casaco até desaparecer.
Connor sempre teve esse poder sobre mim. Sempre teve esse poder de me fazer sentir constrangida, apenas por existir. Os seus olhares me intimidavam e me faziam sentir desconfortável. A sua voz, sempre naquele tom baixo e rouco quando se dirigia a mim, me causava calafrios de terror. O meu corpo sempre parecia paralisar quando ele estava por perto, como se ele apertasse um botão e eu não pudesse mais me mover.
Eu o odiava por isso.
—Vamos lá, Hailey. Eu não tenho todo o tempo do mundo. -Riley fala, batucando os dedos no volante, com impaciência.
Agarro a minha mochila rapidamente e impulsiono o meu corpo para fora do carro.
Nunca a brisa de inverno contra o meu rosto pareceu tão libertadora.
☆☆☆
—Mais força, Hailey!
O grito do meu treinador me faz ranger os dentes. Já fazia meses que eu treinava o salto triplo, mas em todas as vezes em terminava estatelado no gelo como uma mosca esmagada na parede.
Dou mais uma volta na pista, sentindo as lâminas dos patins deslizarem cada vez mais rápido. Eu precisava que aquele maldito salto desse certo, o campeonato de patinação estava cada vez mais perto e eu tinha que conseguir pelo menos uma das medalhas. E pra isso acontecer, eu precisava impressionar os jurados.
Sinto o momento se aproximar, e então impulsiono o meu corpo para cima o mais forte que posso, sentindo a leveza do ar me abraçar, os meus músculos se contraírem em apreensão. Mas, o chão se aproxima muito rápido, os meus patins alcançam o gelo antes do tempo e o meu corpo desliza com verdadeira maestria pelo gelo áspero.
Ouço o meu treinador cuspir um palavrão que faria o meu irmão arregalar os olhos em surpresa.
Mas, ignoro, pois a sua raiva não se comparava a minha raiva pelo meu próprio fracasso.
—Chega por hoje! A sua cabeça está tão longe dessa pista que até mesmo a minha filha de nove anos consegue fazer melhor do que você, Hailey. -Ele diz furioso, girando sob os calcanhares e apanhado as suas coisas antes de partir.
Me ergo sobre os meus joelhos e sinto lágrimas empurrarem atrás dos meus olhos, mas me recuso a chorar e me contenho. Levanto a cabeça e a minha boca seca imediatamente quando noto um batalhão de caras me observando, todos sentados na arquibancada como uma verdadeira platéia.
Observando o meu nítido fracasso.
Me levanto e noto que um deles era capaz de fazer derreter o gelo agarrado a minha calça.
Dou as costas e vou direto para os bancos do lado de fora da pista. Ignoro quando Riley chega com seus amigos a reboque, que para o meu total desespero, eram também os malditos amigos de Connor.
Os aprendizes do mal.
—Vejo que as aulas de patinação que o papai paga para você estão fazendo efeito, Hailey. -Riley fala irônico arrancando risadas de seus amigos.
Riley não era uma má pessoa. De verdade. Na maioria das vezes, ele agia como um irmão normal, sem tirar sarro da minha cara vinte e quatro horas por dia. Porém, quando ele se juntava com aqueles babacas, Riley virava o cara mais imbecil da face da Terra.
—Vai se ferrar, Riley. -Rosno, socando os patins dentro da mochila e agarrando a minha garrafa de água. -O que está fazendo aqui?
Indago mas sem focar o olhar neles. Por mais patético que fosse, aqueles caras ainda me botavam um medo do inferno.
Mesmo que eu já não tivesse mais os quilos extras que me faziam o alvo perfeito para o senso de humor masoquista daqueles idiotas, nem mesmo as bochechas gordas perfeitas para serem apertadas, os apelidos e piadas ainda me perseguiam como sombras sobre os meus calcanhares.
—Eu liguei para você, mas não atendeu. E os caras estavam afim de ver você se esborrachar no chão. Foi divertido. -Riley da o seu golpe final, caminhando com os outros em direção a saída, caçoando da minha queda.
Refaço o coque do cabelo apenas para ter algo pra fazer e impedir que as minhas lágrimas empurrem ainda mais contra os meus olhos. De repente, vejo botas desgastadas entrarem na minha visão periférica. Ergo o olhar e minhas mãos congelam no alto da cabeça.
—Precisa colocar mais força.
Connor diz, com as mãos enfiadas nos bolsos. A sua expressão é indecifrável. E isso só me deixa ainda mais enervada.
—Sério?!-Expulso as palavras da minha boca com muito esforço, cruzando os braços na frente do corpo. -Você não é o meu treinador, Connor.
—Só estava tentando ajudar.
Solto uma risada irônica e miro um olhar desacreditado em sua face.
—Vamos lá! Eu sei que está querendo rir da minha cara. -dou passos firmes em sua direção, ajeitando a mochila sob o meu ombro -Deve ter sido muito engraçado ter visto a bolota escorregar no chão como um verdadeiro esfregão.
—Eu cresci, Hailey. E não foi só na aparência.
Então, ele me deixa, silenciada pelas suas palavras que só me confundem.
—Está brincando comigo. -Sussurro com o olhar colérico em Riley.
Ele empurra a porta entre nós, mas eu o impeço, segurando-a firmemente.
—Pare de ser tão dramática, são apenas alguns quarteirões.
—Riley, eu me recuso a sentar no colo de um desses...-olho ansiosa para o marmanjos abarrotados dentro do carro, todos fazendo algazarra. -…rapazes.
—Ou senta, ou vai no capo.
—Prefiro ir andando.
—Vai morrer congelada. -Riley réplica, abrindo espaço suficiente para entrar no carro. -Entra logo, Hailey.
—Riley!-Sussurro desesperada.
De repente, há vários pares de olhos me perfurando. Trago a saliva e observo os olhares maliciosos, tentando escolher o menos pior. Noto cabelos loiros e um par de olhos verdes amigáveis, atrás de Riley.
Sem alternativa, abro a porta de trás, mas sou impedida de entrar quando um corpo passa na minha frente.
Connor se senta confortavelmente e parece esperar por algo.
Dou um passo atrás só por precaução.
—Entra. -Ele comanda, os olhos brilhando perigosamente.
—Eu não vou sentar…
—Hailey entra logo na porra do carro!-Riley me olha sob o ombro, já dando partida no carro.
Abro a boca para protestar. Eu não iria, sob nenhuma hipótese, sentar no colo do ser mais egoísta, perverso e…
De repente, um braço se enrola na minha cintura e me puxa bruscamente para frente.
A minha boca se abre em choque e o meu coração para quando um carro passa em alta velocidade ao nosso lado, derrapando sobre a neve.
Pisco desorientada ao perceber que se caso Connor não houvesse me puxado, eu teria sido arremessada como um pino de boliche por aquele parachoque velho.
O nariz congelado de Connor raspa o meu e sua respiração se misturar a minha. Ele se assemelha quase a um touro furioso.
—Entra. -Rosna.
Sem hesitar, pulo para o seu colo, com a adrenalina ainda se espalhando pelas minhas veias.
Sua respiração bate de encontro a minha nuca e toda a minha pele se arrepia. Seus dedos passam pelos passadores da minha calça e ele repousa as mãos nos meus quadris. Me mantenho tensa o caminho todinho. Porém, quando, finalmente chegamos, tenho a perfeita consciência de que estar sentada, praticamente enrolada, em cima de Connor era muito mais confortável do que estar sentada na poltrona de mil dólares do meu pai.
☆☆☆
—Riley controle os seus amigos -mamãe sussurra encostada contra a pia da cozinha, o olha correndo em direção aos meninos que comiam desesperados as bolinhas de queijo -eu não quero ter que comprar outra árvore por causa deles.
—Está tudo sob controle, mãe. Relaxa.
Riley sai, depositando um beijo na bochecha da mamãe, chamando os seus amigos para jogarem basquete nos fundos da nossa casa.
—Estou indo, qualquer coisa me liga. -Aceno e recebo um beijo molhada na bochecha da minha mãe.
Solto um suspiro cansado, pegando a caneca de chá e criando forças para engolir aquela coisa gosmenta.
Me permito relaxar pela primeira vez desde que aqueles gorilas se apossaram da sala de jantar, da cozinha, do banheiro, do corredor…enfim, de absolutamente tudo.
Eu só queria paz para poder circular na minha própria casa, sem precisar me deparar com neandertais assim que abro a porta do meu quarto.
Os gritos masculinos ecoam pela casa por causa de uma cesta, reviro os olhos irritada.
Sopro a fumaça quente que sai do chá, demorando meu tempo pra criar coragem e engolir aquilo.
—Está perdendo toda a diversão.
Oh, merda. Maldita voz dos infernos.
—Dispenso.
Levanto o olhar e um frio na barriga provoca uma fisgada no meu íntimo.
Connor estava encostada na soleira da porta, o sorriso de canto se ampliando no nível certo para deixá-lo com aquela aparência de pirata e libertino ao mesmo tempo.
—Chocolate quente?
Penso em responder, mas a minha língua trava e a minha boca seca quando ele desgruda o ombro da porta e caminha na minha direção tranquilamente, como se não estivesse tostando os meus nervos a cada passo.
Ele pega uma bolinha de queijo sobre a bancada no meio da cozinha e quando penso que ele irá parar para comer, Connor avança ainda mais.
Suas botas param paralelos aos meus pés cobertos por meias coloridas. Seu olhar parece se aquecer quando olhar para mim o que apenas piora o meu estado paralisado.
—Você não me respondeu.
Recobro a consciência.
—Chá. -Digo simplesmente ainda presa em seu olhar aceso.
—Não sabia que gostava de chá.
Ele avança um passo e eu recuo contra a bancada da cozinha.
—Não gosto.
—Então porque está tomando?-Mais um passo e a minha respiração falha.
—Porque…porque eu…
Minha voz se enrola e eu já estou praticamente sentada em cima da bancada, com os dedos dos meus pés empurrando o chão o mais longe possível de Connor.
—É só falar, Hailey. -Ele sussurra.
É impressão minha ou o seu olhar brilha em diversão?
—É bom para emagrecer. -Murmuro por fim, deixando uma respiração tensa escapar.
Ele franze o cenho e suas mãos se colocam de cada lado da minha cintura, me prendendo entre ele e a bancada.
O seu perfume me envolve e sinto vontade de inspirar forte.
Mas, me contenho. Aquele cheiro também devia ser infectado pelo mal que depregava de cada poro de Connor.
—Esses chás não servem para você. Isso serve. -Ele morde a bolinha de queijo e um som gutural de aprovação ecoa pelo seu peito.
E para o meu total horror, aquele gemido barra suspiro, soou terrivelmente sexy.
O que estava acontecendo comigo?!
—Come. -Ele empurra o pedaço mordido contra a minha boca, e com certeza babado, mas eu recuo. O que leva o seus quadris a pressionarem os meus. Prendo a respiração e o meu coração parece berrar em antecipação. De quê, eu não sabia dizer. -Vamos lá, Hailey. Eu sei que quer tanto quanto eu.
Ele fala baixinho, como se estivesse falando de outra coisa. Uma coisa que definitivamente eu não queria saber.
Mas, os meus lábios me traem e, quando eu menos espero, o gosto bom de queijo explode na minha boca.
E a minha dieta vai por água abaixo.
De alguma maneira, as suas pernas estão pressionadas contra todo o comprimento das minhas, os seus olhos estrelados preenchem todo o meu campo de visão.
A sua proximidade me faz confirmar que realmente os seus cílios fazem sombra sobre as suas bochechas saliente.
—Esse chá vai para o lixo. -Ele toma o chá de mim e eu apenos assisto ele rebolar o líquido pela pia. -Bem melhor.
Ele se volta para mim e agora não há mais o chá para colocar maior distância entre nós.
O seu sorriso sacana se abre para mim e eu viro lava derretida.
—Eu acho melhor…-sussurro, mas o seu nariz risca uma linha de fogo pelo meu maxilar me fazendo arquejar levemente. Eu queria gritar, berrar para ele se afastar. Mas, a minha língua havia se perdido em algum momento na minha boca. -…Connor, você tem que se afastar…
—Gosto do seu cheiro.
Aquilo era a ponta do seu nariz no meu pescoço?!!!!
—Já chega!
Planto as minhas mãos em seu peito e o empurro para longe.
—Afaste esse seu nariz intrometido de mim! E, todo o resto também!
Saiu praticamente com os joelhos trêmulos da cozinha, mas o pior é sentir o meu coração amolecido por aquele que eu deveria odiar mais do que qualquer outra pessoa no mundo.
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