Palavras do Tempo
1 Palavras do tempo
Uma história antiga conta que no passado haviam duas pessoas que se amavam imensamente e um dia se abraçaram, o Tempo escolheu parar ali e o amor se tornou para sempre. A grande atitude genial do Tempo, congelar o momento e tornar eterno o amor. Em outro lugar, ao mesmo instante, algumas pessoas estavam chorando seu luto, seus amigos haviam sido assassinados por pessoas cruéis mas o Tempo já havia parado e a dor se eternizou. O Tempo falhou, favoreceu o amor e eternizou o sofrimento. Com toda a culpa em seus ombros o Tempo compareceu diante de Deus:
—Senhor, eu só queria fazer com que o amor nunca acabasse. Não queria que a dor também permanecesse.
Deus concertou o erro e disse ao Tempo:
—Seu trabalho não é interferir nas ações humanas, muito menos coagi-los a amar ou à odiar. Seu trabalho é sempre existir para todos e somente existir.
Em silêncio, o Tempo voltou ao seu lugar e permaneceu quieto vendo pessoas amando e se odiando. Olhou a chuva cair, o inverno chegar e a primavera ir embora. Viu pessoas viverem sem saber o que era ter paz e pessoas morrerem sem saber o que era o perdão. Nunca disse uma palavra a respeito das maravilhas ou dos horrores que viu, só observava e aprendia. Durante séculos foi assim. Certo dia, uma criança olhou para o céu e gritou:
—Tempo, vá embora e me torne eterna!
O clamor sincero tocou seu coração, o Tempo quebrou seu silêncio, e num leve sopro disse à criança:
—Se eu for embora, você será eterna mas não terá mais escolha. Eu não sou o seu principio ou a sua eternidade. Eu sou a extensão da tua liberdade, se eu partir, ela acaba.
Pobre criança, ouviu com atenção as palavras do Tempo mas seus desejos são profundos e sua alma não conhece limites. O Tempo não podia deixa-lá, então ela própria iria abandoná-lo. Assim o fez, a corda em seu pescoço foi a saída para além do tempo. Um bilhete em seu bolso dizia: Mãe, o Tempo não pode me deixar. Enquanto ele estiver comigo, eu não poderei ser eterna, então estou indo para onde ele não existe, onde ele não pode me alcançar, lá eu sempre existirei. A doce criança inocente se enforcou.
O coração do Tempo se partiu, sua sabedoria não foi acolhida, a mais pura das criaturas não foi capaz de entender seus ensinamentos, assim, um adulto também não o seria. De seus olhos saíram sangue e sua alma chorou pela pobre criança. Mais uma vez ele falhou. Já desprovido de visão, o Tempo nada vê. Ele selou e costurou sua boca com espinhos e amarrou a corda da doce criatura em suas mãos para nunca esquecer da dor que causou. Desde então, em silêncio ele faz seu trabalho, somente existindo e dando liberdade para todo e qualquer ser humano até todas as coisas chegarem ao fim.
Reza a lenda que o Tempo é teimoso e guardou consigo um pouco de esperança na humanidade, uma última prece ele deixou aos quatro ventos, os ouvidos e olhos atentos são capazes de contempla-lá:
—Livre, livre, sua liberdade é seu maior dom, ser livre para escolher. Escolha amar, escolha amar, assim diz o Tempo, aquele que viu mais do mundo do que qualquer outro criado por Deus. Se quiser ir além de mim, escolha amar, esse é meu último conselho antes do meu eterno silêncio, escolha amar e você não perderá nada. O segredo da eternidade está na escolha de amar, escolha amor.
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