Notas iniciais
Brotando de novo com uma perspectiva diferente dos irmãos Senju 👀 apenas um Hashirama sendo idiota Espero que gostem. Boa leitura a todxs 🃏

“A situação machucou tanto que não havia mais vontade de falar.”

A luz entrava pelas janelas altas do gabinete, dourando a madeira, tocando os mapas e pergaminhos com uma suavidade quase etérea. A brisa acompanhava o movimento, trazendo uma leve sensação de alívio para o ambiente carregado de tensão. De um lado, Hashirama falava há algum tempo, o mesmo assunto — a mesma pessoa.

Uchiha Madara.

Tobirama acompanhava o movimento dos lábios do irmão, com uma seriedade silenciosa. O tom insistente que conhecia desde a infância — aquele mesmo tom que acreditava que tudo podia ser salvo se fosse dito com força suficiente. E Hashirama se agarrava ao Uchiha como quem se recusa a soltar a margem depois de quase se afogar. Falava da amizade, do passado, da promessa que haviam feito quando ainda eram jovens demais para entender o real peso de um juramento. Falava de redenção, de pontes, de esperança.

Um discurso que conhecia de olhos fechados. E, ainda assim, Tobirama ouvia.

Sempre ouvira.

Mas algo nele já estava cansado de escutar.

Havia um limite invisível entre insistir no que poderia ser recuperado e continuar arrancando a casca da ferida só para ver o sangue derramar. Hashirama, porém, não o via — nunca via. Sempre acreditara que sentimentos mútuos eram como raízes profundas, capazes de atravessar toda uma fundação só para se manter mais unidas, fortes. Tobirama, ao contrário, aprendera cedo que algumas raízes apodreciam no escuro, incapazes de resistir à água ininterrupta.

— Ele ainda pode voltar — disse Hashirama, a voz quase suplicante. — Eu sinto isso, Tobira. Eu sei que ele vai…

O Senju mais novo sentiu o maxilar tensionar, os punhos escondidos por baixo dos braços cruzados, um suspiro segurado com esforço. Quantas vezes já haviam tido essa conversa? Quantas vezes seu Anija escolherá acreditar em um Madara que não existia mais — se é que algum dia existirá? Quantas vezes ele teria que ver o irmão agarrado a essa idealização de amizade?

Era frustrante. Cansativo.

Porém, não conseguia ser rude o suficiente para abrir os olhos do outro — pois sabia que era inútil, como todas as outras vezes.

— Anija… — chamou baixo, o olhar duro. — Você não pode continuar se prendendo a isso. Existe uma vila que depende de você, pessoas que precisam da sua lealdade e determinação. Não ele… — Tentou apelar.

A reação do Senju por outro lado não veio como esperado. Ele se virou de imediato, como sempre fazia quando o mais novo tentava puxá-lo de volta à realidade, a fúria cega.

— Você nunca acreditou nele! — retrucou, se erguendo da cadeira. — Nunca acreditou em nós! Na paz que nós traremos! Por isso não entende, não entende que Madara também é um pilar.

Se a conversa tivesse outro tom, outro contexto, talvez Tobirama se sentisse culpado por não enxergar a mesma coisa que o irmão. Exceto que… a palavra nós soou errada.

Estranha.

Traidora.

E por um segundo a pálpebra do Senju albino tremeu, uma respiração mais funda puxada pelo pulmão, na tentativa de manter o controle da postura. Ele não odiava Madara por capricho, assim como não via a linhagem dos Uchiha como um símbolo de sofrimento romantizado pelo mais velho. Também não era inveja, nem implicância infantil. Pelo contrário, sua desconfiança vinha do passado que eles vivenciaram. O luto brutal dos irmãos perdidos. A contagem de mortos que fertilizavam aquela terra com carne e sangue.

A dor que teve que esconder para ser o homem que era hoje.

Seu olhar então se ergueu assim que conseguiu encontrar estabilidade, o vermelho quase vibrando nas íris. — Eu acredito no que vi — respondeu, contido. — E no que perdemos, Anija.

O Hokage, porém, não entendia a implicação ali, passando a mão pelos cabelos, inquieto. O desespero começava a transparecer, o coração acelerado. Ele precisava convencer alguém, qualquer um que pudesse abraçar a verdade sobre Madara, abraçar sua esperança. Mas também precisava que Tobirama cedesse, como sempre fizera, assim poderia ter seus ouvidos descansados da crua realidade por um tempo — tempo suficiente para trazer Madara de volta.

— Todos nós perdemos coisas na guerra — respondeu num suspiro cansado, o olhar falsamente amargo. — Amigos. Alianças. Tempo.

Ele fez uma pausa curta, os braços se escondendo nas mangas largas da roupa, uma apatia discreta no rosto.

— Família também. — Deu de ombros, sem perceber. — Nossos irmãos… Madara perdeu o irmão. É um preço caro, mas o futuro não precisará desse derramamento de sangue. Por isso não devemos viver presos a isso, é tudo pelo bem maior. A paz.

Hashirama não percebeu o tom com que falava, a linguagem do corpo, a expressão que fazia. O gesto descuidado de medir vidas, como se estivesse falando do clima — e não de perdas. Não de Itama e Kawarama assassinados.

E foi como se o mundo tivesse parado.

Não havia som. Não havia impacto imediato. Apenas uma pressão absurda no peito do Senju mais novo, como se o ar tivesse sido arrancado de uma vez e o órgão tivesse parado de funcionar. A pele esfriou, as pupilas dilataram, os vasos sanguíneos visíveis ao redor do globo ocular e o corpo reagiu antes da mente: os dedos se fecharam devagar, as pernas ficaram rígidas, e a garganta… a garganta simplesmente se fechou.

O preço.

A palavra ecoou em sua mente, manchando as memórias preciosas de Kawarama e Itama.

Como se eles fossem só números.

Como se suas mortes tivessem sido inevitáveis.

Como se as perdas fossem apenas um item numa lista de sacrifícios aceitáveis.

Tobirama abriu a boca para responder — para gritar, talvez — mas nenhum som saiu. O ar não vinha. A voz não conseguia se tornar pronunciável. E algo dentro dele havia se rompido de forma silenciosa e irreparável naquele instante. Quando o silêncio se arrastou, ele viu o rosto de Hashirama mudar lentamente. A compreensão chegando tarde demais, como sempre.

Os olhos do irmão se arregalaram, a boca se entreabriu num pedido mudo de desculpas, a gagueira aparecendo de forma infantil. E isso lhe causou náuseas.

— T-Tobira, eu não quis dizer assim… Me deixa explicar direito… Eu não estou menosprezando os nossos irmãos…

Hashirama continuava a falar e gesticular com as mãos, tentando consertar o que não deveria ter sido mexido. Mas o Senju mais novo já não escutava, foi como ter sido desligado pelo próprio subconsciente. Submerso no fundo da mente, ouvindo tudo através de água espessa, enquanto encarava os rostos doces e puros dos irmãos. A dor roubando todos os sentidos de tal maneira que parecia anestesiado.

“Vai ficar tudo bem, Itama vai voltar para casa.”

Foi o que disse antes de vê-lo morto em uma emboscada.

“Kawarama, não seja desatento. O inimigo sempre está em busca de uma brecha e você não deve dar essa brecha a ele, entendeu?”

Foi o conselho que deu antes do jovem ser morto durante outro conflito.

Reabrir feridas privadas, tão frágeis para serem tocadas sem permissão pelo mais velho foi como ter sido apunhalado. É mais do que qualquer divergência política ou moral que Hashirama poderia mencionar em um momento como aquele, era imperdoável.

Hashirama percebia como o mais novo não reagia e ainda assim tentou de novo, a voz mais baixa, suplicante:

— Anija não quis dizer isso, por favor, me escuta Tobira.

Tobirama não respondeu.

Em vez disso, ele se virou lentamente. Cada movimento parecia exigir um esforço descomunal, como se o corpo estivesse cheio de chumbo, pesado, desproporcional. No entanto, caminhou determinado até a porta do gabinete com passos controlados. Uma última tentativa de não desmoronar as lágrimas que já se acumulavam em seus olhos diante do outro.

Hashirama não merecia vê-lo chorar. Não merecia vê-lo tão fragilizado… não depois do que disse. E ele continuou seu caminho até a porta, surdo para tudo que era dito.

A falta de resposta causou desespero ao Hokage, que rapidamente andou até o irmão, ficando a distância um braço — temia tocá-lo.

— Tobirama — chamou angustiado. — Otouto, eu sinto muito. Não vá embora, não me deixe sozinho também.

A mão do Senju pousou na maçaneta. Por um instante, Hashirama acreditou que ele iria parar. Que iria ouvir. Que iria permitir o conserto. Mas a esperança era efêmera e haviam dores que não seriam reparadas com desculpas doces e promessas fugazes. Assim como existiam palavras que, uma vez ditas, arrancavam até a vontade de responder.

Tobirama não olhou para trás, não respondeu nada, apenas abriu a porta e saiu.

— Tob-

O som seco do fechamento ecoou pelo gabinete, interrompendo o Senju mais velho, que por um instante tudo que via era a madeira da porta, ouvia o som singelo dos insetos do lado de fora e sentia uma confiança que, pela primeira vez, não sabia como sustentar.

— Otouto, eu não quis… dizer isso — ainda sussurrou, os joelhos cedendo. A mão erguida em direção a saída.

Ele percebeu, tarde demais, que não era Madara quem estava perdendo.

Era Tobirama.

Seu único irmão. Sua única família viva.

E dessa vez, não havia discurso, nem afeto, nem insistência que pudesse devolver-lhe a voz. As lágrimas que vieram em seguida tinham o gosto da vergonha que nunca conseguiria lavar. Mesmo na manhã seguinte, quando tentou encontrar o mais novo, tudo que recebeu foi silêncio e, posteriormente, um aviso formal da partida do Senju.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!