Fiquei muito preocupada com o estado de Mel quando soube o que havia acontecido. Diferente de mim, que teria procurado a solidão para colocar a cabeça em ordem, ela me enviou uma mensagem pelo celular pedindo ajuda. Estava do lado de fora da boate, ao lado do Henrique. Só para esclarecer uma coisa, sim, ele era meu segurança particular, mas também tinha as horas sagradas para se ver longe de mim, né? E também nunca gostei de grude. Ele respeitava isso.

Enfim, sei que sai apressada da mesa e acabei nem assistindo a apresentação de Syn e Matt. Naquele momento, minha amiga era prioridade, afinal... eu sei que ela faria o mesmo por mim. E se não fizesse, eu arrancaria as tetas dela no dente.

Brincadeiras a parte, sempre soube que por trás daquela figura durona havia uma menina frágil, que ainda tentava conciliar seus conflitos do passado com a nova vida. E Syn era causador de boa parte de tudo de bom que havia acontecido... e agora ele fazia isso, do nada, jogando balde de água fria nos sonhos mais sinceros daquela doida.

Corri para o estacionamento e, para ser sincera, não me lembro de ter visto Mel chorar tanto quanto daquela vez. Não, minto, teve sim... só não lembro se foi na época em que a avó estava mal e queria vê-la ou se...

– MAAAAARIEEEEEEEEEE, ELA ERA UMA MUUUULHEEEER! – berrava Mel, batendo as pernas no chão como se fosse uma criança descontrolada. – EU BEIJEEEEI UMA MUUUUUUUULHEEEEEER, AI DEEEEEEEUS, POR QUEEEEEEE!?

Pode parecer cômico, mas quando ela descobriu que o “namorado” na verdade era uma guria, quase teve um ataque do coração. Chorou como bezerra desmamada, mas se recuperou logo na primeira semana, quando catou o gostosinho da engenharia.

– Mel... respira. – acabei murmurando, percebendo que não estávamos na Unesp e nem no passado, com os nossos bons 19/20 anos. Éramos duas mulheres de aproximadamente 25/26 que estavam ali unidas por causa de um tremente idiota. Um idiota que eu amava imensamente como irmão, mas detestava como cunhado.

E tinha Henrique também, que com seu cigarro quase no fim, olhava para os lados, murmurando:

– Bela noite, não?

Olhei-o incrédula, mas não dei muita importância, afinal... ele era estranho. Não o culpo: o nosso bando inteiro era.

– Mel, me diga... que aconteceu. Você parecia bem no camarote. – comecei, aproximando-me. Sentei-me no chão, que por detalhe singelo estava molhado (e molhei até meu útero, mas faço o que for pela Mel. Inclusive acabar com um shorts de 600 euros que o Matthew comprou numa loja bacana de Londres. Porra, que bosta ele tinha na cabeça? Com 600 euros eu compro a loja inteira da K-Modas! Sim, eu tenho síndrome de pobre e ainda como pão com ovo, não me julguem).

Ela, soluçando, enxugou os olhos com as costas da mão e gaguejou, tentando exibir um sorriso:

– Aquele gostoso do Corey... realmente é muito gostoso. MUITO mesmo... mas... NÃO TANTO QUANTO O BRIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAN!

Pronto, berreiro aberto. Mais crise. Só para deixar registrado... Mel devia estar muito apaixonado, porque achar que Syn tem mais pegada que Corey é sacanagem, ein? Tá, juro que parei.

Mentira, paro não.

– Mel, então você...

– SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM! – respondeu, e juro que nessa hora vi em sua boca extremamente aberta suas amigdalas. – ELE ME COMEEEEEU, FOI TUDO... MAAAAS EU AMO AQUELE FILHO DA ÉGUA DO BRIIIIIIIIIIIIIIIAN! OOOH MARIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIE!

– Mel, se você continuar berrando dessa forma, até a baixada santista vai saber que você ama o Brian. – resmunguei irritada, agitando as mãos. – Não chore, mulher! REAGE! AJA COMO HOMEM!

Mel parou por um momento e fitou meu rosto, com os olhos lacrimejantes e um bico muito engraçado. Eu, a idiota, achando que havia animado um pouquinho o clima, ri, coçando a nuca:

– Mulher você já pegou, agora só falta...

– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – pronto, mais um berreiro. Se alguém que estiver lendo essa porra gostar de anime... procurem aquelas cenas que os personagens estão chorando até a goela aparecer. Essa era a Mel naquele estacionamento.

Henrique, emocionado com minha capacidade de consolar a melhor amiga, jogou a bituca de cigarro no chão e pisou sobre. Aproximou-se de nós e, com um sorriso sábio, disse:

– Além de traída, gostaria de ser fotografada nesse chão imundo chorando as pitangas? – e apontando para um portão próximo, em que um grupo de paparazzis clicavam sem parar suas câmeras fotográficas curiosas e xeretas, continuou. – Pretende sair nas principais notícias como “corna depressiva dá escândalo em boate” ou “Melissa dá volta por cima e assume affair com Côrei Tailor”.

– É Corey... Taylor. – gaguejou, enxugando o rosto novamente. Henrique tinha uma forma muito rude (e eficaz) de consolar pessoas. E pior de tudo: funcionava! – Bem... você tem razão. E... também... tenho chances de voltar a ficar com aquele lindo. Sabe... ele é gostoso.

– Infelizmente já soube disso, srta. Prado... umas trinta vezes.

– Mel, mas pelo amor, agora que você encarnou a poderosa novamente, que aconteceu? – insisti, irritada por meus conselhos delicados não ter ajudado em porra nenhuma. Ela, já com um sorrisinho forçado e amarelo no rosto (para caso os paparazzis aparecessem do nada), resmungou:

– O Corey me comeu, eu comi ele, encontrei Syn e ele disse que me amava e que merecia o que estava acontecendo. Daí desci o soco na cara dele, gritei, chorei e fim. Estou aqui feliz, leve e solta. – e erguendo a mão para o céu, pareceu uma power ranger invocando os poderes do Tupiniquim Matute. Mas em seguida, deixou o braço cair vencido e resmungou: — Oh droga, quem estou enganando, estou desidratada de tanto chorar. Preciso ter aulas com aquelas atrizes mexicanas, sabe? Elas choram demais e nunca, nunca passam mal...

Eu tentei não rir, mas não foi possível. Aquela deliciosa imaturidade de Mel era demais, eu adorava. Se não fosse ela, não sei o que faríamos.

Levantei-a com ajuda de Henrique e a coloquei no carro. Corri para dentro da boate para encontrar Matthew. Ele estava sentado nos camarins com uma cara de péssimos amigos e uma taça enorme de conhaque. Bem... eu acho que não fui uma boa namorada sumindo em uma das ocasiões mais importantes da vida dele...

– Olha quem estou vendo, a minha noiva! – ironizou ao me ver. – Vamos ver, onde estava? Ah sim... com a Mel...

– É, com a Mel. – concordei, franzindo o cenho junto do rosto inteiro. – Ér... Matt.

Ele fez um sinal de silêncio. Deu um longo gole no conhaque e suspirou, olhando para o relógio da parede. Era mais de duas horas da manhã.

– Isso porque você sabia o quanto era importante cantar ao lado de Corey. – continuou, numa calma que... se eu não o conhecesse, diria que era típica de alguém muito compreensivo e dedicado. Não... a veia no pescoço denunciava sua baita raiva. – Valeu mesmo, Marietta.

– Mas eu verei no DVD...

– No DVD? Ah, que legal. – riu, com sarcasmo. – Eu lerei seu livro também quando estrear nas bancas. Não, melhor... não lerei. Esperarei o script do filme. Vai ser melhor, não é, eu já encarno o Jonathan! Ou melhor, estou encarnando ele agora, com uma estupenda vontade de voltar às origens Harrington e mandar a princesinha para a puta que a pariu!

– E eu seria a princesinha?

Que pergunta idiota Marietta, que horror! Vai tomar no cu. Você se encontra na trocenta crise de seu noivado e fica fazendo essas perguntas idiotas? Aaah porra, fode não.

Ele, se servindo de mais uma taça, fechou a cara, semicerrando os olhos. Deu um gole no gargalo da garrafa e sorriu, mais uma vez, apontando a porta:

– Vai embora.

– Não, vou ficar aqui até...

– VAI-EMBORA.

– NÃO-VOU!

– Legal, fique aí de pé. – resmungou, acomodando-se na poltrona.

– Para de criancices e ouça minhas explicações. – exigi, batendo o pé com força no chão. Sempre fui muito pirracenta, e isso, em certas horas, era bem irritante. Matthew não era o cara que enfrentava pacificamente isso.

– Quais explicações, Marietta? Sua amiguinha levou a maior fodida do Corey e depois ficou toda ressentida porque encontrou o ex. Os dois idiotas tiveram uma crisezinha ridícula e você, maaaaais uma vez, se meteu nisso. Legal, ela é sua irmã e o Syn é meu irmão, acho bom ajuda-los. Mas não quando se está em cima do palco e dedica a música favorita da sua namorada na gravação e a belezinha não está sentada na mesa quando a câmera focaliza. Ficou um máximo a minha cara de ogro engibizado idiota. – disse em tom mais alto, tacando a garrafa, agora vazia, na parede. – Foi muito... L-E-G-A-L!

– Eu não sabia, na hora que...

– Me poupa, Marietta. Sai daqui.

– Eu já disse que...

Matthew levantou-se de brusco e esbarrou em mim, caminhando até a porta. Nem mesmo um vidro de bebida forte pra cacete diminuía a força daquele filho da égua.

– Então saio eu. Não me espere... não vou dormir em casa. – e saindo na maior revolta, fechou a porta com força.

Que legal, a segunda vez que aquele ignorante arranjava confusão por causa dos problemas da Mel e do Syn. Okay, eu não fui justa deixá-lo só, mas... ah cara, esquece. Desta vez ele tinha razão realmente.

Vencida, sem chances reais de conseguir alcançar Matt, voltei ao camarim e peguei meu celular. Minha mente esvaziou quando eu vi umas 10 ligações perdidas da minha mãe. Como uma boa afobada, imaginei as mais diversas obras do destino. Desde acidentes até ao de ela estar grávida. Loucura, eu sei.

Liguei imediatamente, já com as mãos trêmulas. Quando ouvi sua voz, meu coração disparou. Temia o que ouviria:

– Mãe! – disse em inglês, sem me tocar. Ela, do outro lado, soltou um resmungo e irritada, berrou (não que tenha se exaltado ao ponto de berrar, mas nossa família fala MUITO alto).

– FALA PORTUGUÊS MENINA!

– Desculpa... mãe. Força do... do hábito. Mas, diga, o que aconteceu? – tremulei ao fazer a pergunta, mas queria logo saber o motivo pela dona Genoom estar me ligando numa hora daquelas.

– Xiii, Mari, vem pro Brasil logo, fia. O seu ex-marido tá morrendo.

Não. Pode. Ser.

– COMO MORRENDO MÃE?

– Deu uns ataques nele ontem e o médico já disse que o coração tá parando, sabe... e a sua madrinha implorou para que você viesse... porque... ele chama muito por você, coitadinho. Só não entendo como você o trocou pelo gengivex.

Gengivex era a forma ‘carinhosa’ que minha mãe chamava Matthew, quando eu era adolescente. E nem mesmo oficializando um noivado, ela deixou esse termo para trás. Mas ok. Não era isso que importava no momento.

– Mãe, ele me traiu... mas isso não faz diferença agora. Você acha que dá tempo de embarcar amanhã? Eu preciso ver minha situação e...

– Vem logo, pelo menos pro funeral. – disse do outro lado, enquanto gritava com a cachorra. – NÃO, LAISLA, NÃO É PRA SE ESFREGAR NO MEU TAPETE!

– MÃE!

– Ah, é a Laisla. Mas então, vem logo... assim a gente aproveita e vê seu novo... noivo. Ou melhor, namoradinho, porque ele não pediu sua mão pro seu pai.

– Mãe, como você pode pensar nisso agora sabendo que Hugo está morrendo? – disse desesperada, sentindo que as lágrimas já começavam a correr pelo meu rosto. Não esperei por isso, mas estava me sentindo uma viúva.

Não lembro o que ela disse depois disso, mas acabei desligando o celular porque já não conseguia falar. Cai no chão com as mãos no rosto, sem poder me controlar. Um filme extenso passou em minha mente, e cada momento vivido na pacata Barra Bonita tornou-se real... ali, defronte meus olhos.

Seria tudo real... se não fosse a meia tonelada de músculos que entrou pela porta minutos depois, com uma expressão arrependida no rosto:

– Desculpe, mas... Marie, que aconteceu! – gritou Matthew, correndo até mim. Talvez tenha pensado que meu estado de pânico e choque fosse por causa da nossa briga.

Não lembro bem o que disse... mas sei que foi o suficiente para que ele me olhasse com notável decepção.

– Hugo.