Palavras da Arte
3 Van Gogh: o pós-impressionismo e pré-expressionista
Notas iniciais
Vicky parou em frente a porta de entrada de outro salão. Salões brancos, corredores largos, entrada ornamentada. Tudo feito para, na visão de Vicky, dar as boas-vindas aos quadros e às histórias que ali eram guardadas.
Havia algumas pessoas vagando como almas penadas. Elas poderiam ter um certo gosto igual ao dela, mas, provavelmente, tinham uma história completamente diferente para estarem ali. A garota deixou de pensar nisso e observou atentamente uma placa, exibindo a foto e a vida do artista Van Gogh. No retrato, estava um homem com a maçã do rosto bem modelada em pinceladas ríspidas, o cabelo, barba e bigode ruivos e um olhar solene, te encarando, quase que pedindo algo. Um favor. Uma troca.
— Ninguém nasce louco — comentou ela, lendo em um parágrafo dizendo que, no eixo final da sua vida, Van Gogh foi internado num manicômio. — O que o deixou assim?
— A solidão — respondeu seu tio.
— Ainda quando estudava, ele era aquele tipo de aluno com um posto que ninguém gostaria de ter. Aos dezesseis anos, abandonou a escola, e teve um caso amoroso com uma prostituta. Uma longa história. — sinalizou um quadro feito a lápis onde uma mulher nua, com o corpo encolhido, estava numa profunda melancolia. — Quando a deixou, foi morar num casebre, numa região quase desolada, com pessoas humildes. Ele achava que aquela região combinava com seu espírito.
— Cada artista tem uma forma de se expressar — disse Vicky.
— E é o que estamos vendo: Para Van Gogh, a arte era um refúgio, ou um convite. Veja... — Anthony caminhou até um quadro. Ele tinha um jeito único de andar, mas parecia que sua sobrinha era a única que via. Como se algo o machucasse por dentro, e assim tentava disfarçar de uma forma pomposa. — Esse chama-se Os Comedores de Batatas.
A pintura era retratada num ambiente escuro, apenas iluminado por uma lamparina pendurada no teto, dando um efeito fantástico de luz e sombra. Era uma família pobre, de aparência trabalhadora. O formato de seus rostos eram distinguido pelos ossos que transgrediam pela pele. O rosto, até da garota mais jovem, estava com um olhar cansado, mas brilhava. Eles tomavam café e comiam batatas — provavelmente, um único recurso de alimento que tinham. Lá fora, a noite era tensa, e o relógio na parede mostrava o horário de sua janta. Ao lado, um quadro de uma pequena cruz.
— Van Gogh não quis retrata-los de uma forma sofisticada, não queria romantizá-los* como vários artistas fizeram na época, como uma noite feliz na hora de um belo jantar. Ele quis mostrar como eles são. As mãos ossudas, mas fortes, da nobre classe trabalhadora; ele conseguiu retratar tudo isso em uma só pintura.
Caminharam até um quadro próximo. Via-se nele uma rua que levava nosso olhar para a direita e à esquerda, circundando uma quadra de casas e hospedarias. Ele levava nosso olhar para essas duas direções, mas nos convidava a entrar num edifício em destaque ao centro. Havia pessoas andando pelas ruas, com suas próprias vidas e afazeres.
— Quando você segue a rua à esquerda, o que você vê? — perguntou Anthony.
— N-Nada — respondeu Vicky, hesitante. Anthony a olhou inquisitivamente. — Quer dizer, a rua continua seguindo, mesmo não retratado no quadro.
— E à direita?
— Um caminho por de baixo da ponte. — Seu tio levantou a sobrancelha, esperando mais. — E um trem sobre ela, indo ao sentido contrário do quadro.
— Muito bem, muito bem. O trem parece que irá cortar o quadro, não é? Sua fumaça parece estar sempre vagando, ainda por aí, indo em um lugar além dessa obra... Esse trem era para Van Gogh lembrar-se que ainda tinha uma forma de ir embora dali, ou talvez um pedido para seus amigos irem visitá-lo: se bem que eram poucos. Parece que Vincent retratou esse quadro por diversos motivos, ao meu ver. Um deles pode ser as boas-vindas à casa dele. Outro convite.
— Em outro quadro que Vincent fez, logo após esse — Anthony virou-se de um lado para o outro, até achar o que estava procurando —, ele pintou seu quarto no hotel. É uma arte muito famosa, por sua vez. Chama-se O Quarto de Vincent em Arles. Você pode ver tudo que é dele ali, naquele pequeno espaço. Mas, se você notar, ele mora sozinho...
— E há duas cadeiras — observou Vicky.
— Muito bem. Ele esperava que alguém fosse visitá-lo, como seu irmão Théo, que era tão apegado. Uma vez, até, escreveu uma carta para ele. Dizia que, pela última vez, gostaria de apertar a mão do seu irmão. Parece algo sem sentido, não é? Mas era com a mesma mão que ele pintava. — Anthony foi se perdendo no assunto. Não parecia que algo assim ocorreu na vida de seu tio, mas por que ele era tão apegado a esses artistas, a essas histórias?
Ela se perdeu um pouco com tanta movimentação. E as palavras de Anthony foi desligando de sua cabeça. Mas ela despertou e o seguiu com passos rápidos para ir ao seu lado.
— ...Então depois dessa discussão, seu amigo foi embora. Irritado(talvez por ainda querer sua companhia), Van Gogh pegou uma navalha e foi atrás dele. Quando o amigo percebeu que estava sendo seguido, pararam com outra discussão e voltou para casa. Desconfiado, ele voltou e encontrou Vincent com a orelha cortada. Há outros boatos que foi seu amigo que a cortou. Mas independente disso, Van Gogh foi considerado um perigo e foi internado num manicômio. Lá ele fez quadros ferozmente, e passou a mandar muitas cartas. Quando finalmente saiu, foi para a casa da sua família. Certa vez, quando não compareceu ao jantar, ele foi encontrado sobre uma poça de sangue: havia dado um tiro em si mesmo, logo abaixo do peito. No hospital, quando Théo foi visitá-lo, Vincent estava fumando um cachimbo. Seu irmão achou que ele sobreviveria, por ser forte como um touro! Mas não foi bem assim. Nunca é. Em seu enterro, foram lhe dados girassóis, ao invés de plantas qualquer.
Antes de irem para outra sessão, Anthony coçou a cabeça.
— Já ouviu falar de Rembrandt? — Vicky não precisou responder, pois assim ele foi até um quadro, onde estava retratado o próprio Van Gogh deitado, diríamos que doente ou em seu leito de morte. Havia duas mulheres o olhando, mas um delas estava de costas, sem destaque. Pareciam estar em um lugar desértico, e lá no céu, uma bola amarela brilhava. Parecia transmitir ou sugar energia, as forças vitais de Vincent. — Este quadro foi baseado em um quadro de Rembrandt chamado A Ressurreição de Lazaro. Em uma carta, Van Gogh diz que estava arrasado pela tristeza. Por isso neste quadro ele represente que quer renascer. Ser outra pessoa. — Anthony olhou sua sobrinha. — E você, Vicky? Já sentiu isso?
Anthony desta vez esperava por uma resposta, uma resposta que Vicky nunca daria a ninguém — pois ela não tinha certeza disso. Eu quero ser... diferente?
Vicky então achou tudo aquilo uma palhaçada. O que Anthony queria? Mudar sua vida, seu jeito de pensar, e impor nela um outro ser? Ou queria mostrar por que os pais dela não gostariam que ela fosse assim?
— Por que? — ela perguntou. — Você quer que eu renasça?
Ele gargalhou.
— Você não precisa e não deve. Apenas quero que entenda o farto que é ficar trancada: quero que continue com seu sonho, mas não seja um tolo como eu.
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