Palavras ao Vento
1 Capítulo 1 - Não estou exatamente seguro.
Notas iniciais
Tudo começou em uma pequena cidade, ao sul de Belo Horizonte, Minas Gerais. Ouro Preto, famosa por sua carga histórica, sempre fora ponto turístico apreciado por amantes de coisas velhas. Apesar de seu desenvolvimento empresarial ser quase nulo referente a tecnologia, um rapaz, Remo, sempre amou esse mundo. Vivendo em uma casa simples com seus pais, ele nunca se incomodou com seu futuro, mesmo que suas chances de se envolver com o mundo em que sonhara serem pequenas.
Sua casa não tinha nada de especial, boa parte das casas na cidade não podem ser modificadas por serem patrimônio histórico da região, então mesmo que seu pai quisesse, não haveriam modificações.
Em uma tarde fria de julho, o rapaz saiu de casa para apreciar o por-do-sol, era uma das poucas coisas que admirava no local. Após o sino da igreja badalar as seis da tarde, poucos eram os que perambulavam pelas ruelas. Bêbados e sem teto caminhavam sem rumo até que as autoridades aparecessem para os encaminhar. Remo ia a caminho de sua casa, lentamente, apreciando a brisa que indicava a transição de temperatura. — Esfriou. — resmungou o rapaz.
Enquanto caminhava, se deparou com um senhor, vestido a trapos e com um forte cheiro de rum. Sentado na calçada e com as pernas esticadas sobre a rua forjada de pedras. O senhor olhava fixadamente para cima, como se estivesse esperando algo. Remo hesitou por um breve momento, mas sorriu para si mesmo. — Medo? O que um ladrão iria fazer aqui? Por favor... — Disse bem baixo enquanto continuava caminhando.
Quando Remo estava rente ao homem sentado, olhou para baixo. O homem olhou dentro dos olhos de Remo e um sorriso se abriu. Quase que instantaneamente Remo ouviu um barulho a sua frente, olhou rapidamente mas não viu nada. As luzes dos postes caseiros começavam a emanar luz visto que a noite tomava os céus.
Remo se assustou quando olhou novamente para o homem... Ele não estava mais lá. A brisa soprou até ele e um frio dilacerador o entrelaçava. Era quase que como lâminas passando entre seus dedos, braços e pernas. Seus batimentos cardíacos aceleraram. Quando ele olhou para frente, o homem estava parado ante ele, olhando para baixo, mas era claro o sorriso esboçado em sua face.
— Eu consigo ouvir seu sangue pulsar daqui, nhehehehehe... — Disse o homem com uma voz aguda e ameaçadora.
— O que quer de mim ? — Respondeu Remo, com a voz trêmula.
O homem começou a caminhar em direção ao garoto, as janelas das casas de estrutura antiga estavam todas fechadas e Remo se viu obrigado a recuar. Aos poucos o homem acelerava seus passos, até que estava correndo. Remo não perdeu tempo e correu também. Infelizmente o rapaz corria contra a cidade, se afastando cada vez mais, até que voltou ao lugar onde estava a avistar o Sol. Não tinha saída, apenas um precipício ou uma pequena floresta.
— É sempre mais divertido quando vocês correm. — O homem disse enquanto mordia com força seus lábios, a força era tamanha que feria, e dali era visível o sangue escorrendo.
Remo não conseguia falar, correu para a floresta e lá começou a pedir ajuda a seu Deus.
—Ó Deus, nosso Senhor! Através de Tua graça, protege-nos de qualquer coisa que Te seja repugnante e concede-nos o que de Ti for digno. — Dizia enquanto corria, com as mãos juntas, era como se estivesse rezando.
De repente não se ouviam passos mais, o rapaz se sentiu sozinho por um breve instante...
— Olá!
Quando Remo olhou para cima, uma silhueta era vista entre os galhos, olhos grandes e castanhos. A cabeça estava totalmente apontada para baixo, era como se o limite permitido pelo pescoço humano não fosse aplicado a aquela... Criatura.
—Dota-nos de maior quinhão de Tua graça e abençoa-nos — Continuava Remo.
— Que gracinha! — Dizia a pessoa de silhueta enquanto descia lentamente, vendo o rapaz imóvel, de olhos fechados e insistindo em continuar. — Mas eu odeio as palavras que de ti saem... Vou devora-lo! Hahahaha
— Perdoa-nos as coisas que temos feito e purifica-nos dos pecados e, com Tua benévola clemência, sê Tu indulgente para nós. — O Rapaz insistiu em timbre cada vez maior, até que seus olhos se abriram. E ante ele estava o senhor, com olhos abertos e cheios de sangue, o mesmo que deslizava em sua face como o choro de um... De um demônio.
— Adeus garotinho. — Dizia enquanto apertava a garganta de Remo.
—Em verdade, és o Excelso, O que subsiste por Si próprio. — Uma voz grave ecoava da parte mais sombria da floresta, completando a oração que Remo iniciara. De longe caminhava um homem de vestes verdes e um sobretudo branco, seu braço direito estava frente a seu corpo e seu punho fechado. Algo como tatuagens estavam em seu braço, elas emanavam uma luz forte, capaz de clarear sua face. Seus olhos eram como os de um assassino, mas no fundo de sua iris, se via uma luz incomum. — Apenas queime como toda a sua escória um dia irá queimar, monstro! — Completou enquanto apontava a mão para o senhor que tentava devorar Remo.
— Pensa que será fácil, Expurgador? Não sou um lacaio qualquer. Hahaha — Completou a criatura enquanto pressionava o pescoço de Remo mais forte.
O Homem que parecia ser o salvador de Remo desapareceu, o sorriso da criatura desapareceu com ele. Em seguida, o demônio jogou Remo com brutalidade para sua esquerda, lançando-o contra uma arvore. Remo, quase inconsciente, consegue ver a silhueta do Demônio. Em seguida, o homem que vinha ajuda-lo surgiu como mágica, bem atrás da criatura. Um clarão tomou conta do ambiente, e antes de desmaiar, Remo ouviu.... — Eu também não.
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