Palavras Não Lidas
1 A Carta
Notas iniciais
Nhaaw ~
Casa dos Salvatore, fim da tarde.
Quarto de Damon Salvatore.
Stefan se sentia vazio por dentro, tanto quanto um ser morto poderia se sentir.
Pela primeira vez em séculos preenchidos por sangue e dietas contra o mesmo, ele se sentia assim.
O quanto vivo um vampiro pode ser? O quanto vivo um vampiro pode se sentir?
Ele não sabia mais. Havia perdido aquele que sempre esteve ali por ele, que mesmo estando distante, estava próximo.
Mas ele não fazia idéia de como Elena se sentia, mesmo assim, sentia extrema necessidade de estar ali por ela. Ela precisava dele.
Nas primeiras semanas, Elena chorava todas as noites, abraçada ao seu travesseiro, ela não sabia, mas ele ouvia tudo. Nesse período, ela dormia no quarto de Damon, sentindo seu cheiro em todos os lugares, imaginando sua presença ali, chamando seu nome a noite. Aquilo era uma tortura para Stefan.
Seus sentimentos por Elena não existiam mais, não daquele modo, mas ele ainda se preocupava com ela da mesma maneira. Ainda a amava, como uma boa e velha amiga, a qual ele nunca se cansaria de estar ali para ela.
Nos dias seguintes, Elena foi para um dos quartos vagos na casa, mas Stefan viu que ela havia levado o travesseiro de Damon consigo.
Agora já haviam se passado dois meses.
Os choros de madrugada não eram mais ouvidos, provavelmente porque a morena não tinha mais lágrimas para gastar. Ninguém falava sobre aquilo, ninguém falava sobre ele. Aquilo deixava Stefan com raiva, muita raiva. Ele sabia que todos falavam de seu irmão, quando ele e Elena não estavam por perto. Ele notava que todos regulavam o que diziam quando estavam com eles, para não pronunciarem a palavra “morto” e o nome “Damon”.
Ele sabia que tinham sido tempos difíceis para Jeremy e Caroline, também, por causa de Bonnie. Poderia parecer egoísmo, mas ele não estava ligando para a dor dos outros. Não daquela vez. Stefan Salvatore estava sendo egoísta, sim, estava. Sua dor era grande demais, intensa demais, dolorosa demais. Ele mesmo se permitia chorar, se permitia ser egoísta, se permitia sentir falta do irmão mais velho. Mas não se permitia desistir, não se permitia deixar Elena quando ela mais precisava dele, não se permitia pensar que Damon não voltaria. Eles encontrariam um jeito.
Tinha que haver um jeito.
No momento, ele se sentia o contrário daquela caixa que estava em mãos.
Cheia de lembranças de Damon, cheia literalmente, apenas cheia.
Ele a colocou delicadamente em cima da mesa de madeira, suspirando em seguida.
- Tem certeza que quer fazer isso? – perguntou calmamente, olhando para Elena.
Era a primeira vez que se falavam em dias, e ele podia ver o quanto ela tentou esconder as profundas olheiras com maquiagem.
- Não. – respondeu ela, sinceramente – Mas eu tenho que fazer.
Sua voz era recheada de dor.
Stefan foi até ela, pegando sua mão fria e magra, tentando encontrar seus olhos castanhos pela primeira vez em dois meses.
- Nós vamos fazer isso juntos – murmurou ele.
Ela suspirou profundamente, fechando os olhos por alguns segundos. Os abriu, recusando-se a olhar para qualquer coisa que não fosse as fotos de Damon que estavam dentro de mais uma caixa, no chão. – Tenho que deixa-lo ir.
- Elena, pelo que eu me lembre, você sempre está lá pra mim. Então, deixe-me estar aqui pra você. Está bem? – perguntou, e antes que ela pudesse responder, ele continuou: — Então, lembre-se que não está sozinha. Nunca estará sozinha. – ele sorriu levemente, um sorriso que logo sumiu, assumindo a expressão cansada e preocupada que havia se tornado sua única expressão nos últimos dias.
Ela não produziu nenhum som, mas ergueu seu olhar até ele, assentindo levemente enquanto umedecia os lábios ressecados com a língua.
Stefan soltou sua mão, pegando mais uma caixa, colocando-a em cima da mesa.
Em silêncio, eles começaram o trabalho.
Ele fingia não ver quando ela fungava baixinho, ou cheirava alguma peça de roupa que pertencia a Damon, ou até mesmo quando pegava algumas pequenas coisas que pertenciam a ele e selecionava uma pilha de coisas que iria ficar para si.
Elena capturou um papel amarelado e dobrado entre os dedos trêmulos e delicados, abrindo-o, com uma expressão indecifrável no rosto.
- O que é isso? – perguntou Stefan, largando uma jaqueta de couro do irmão e olhando para o papel, agora inteiramente aberto, nas mãos da morena.
- Stefan, isso é uma carta – ela sussurrou, extremamente baixo –, uma carta para mim. Eu... eu nunca li isso antes! Eu não estou entendendo, eu...
- Deixe-me ver. – pediu ele, pegando o papel e analisando o que estava escrito ali.
Certamente, a letra elegante e de muitas curvas pertencia a Damon.
Ele leu o começo da carta, em silêncio, e então entendeu.
- Elena, ele escreveu isso antes de morrer. – olhou para ela, que estava de cabeça baixa e chorando baixinho, como se já soubesse daquilo – Ele escreveu isso antes de entrar naquele carro, antes da explosão! – agora aquilo fazia sentido na cabeça de Stefan.
Elena continuou em silêncio por mais alguns minutos, então ergueu a cabeça e afastou as lágrimas para fora do rosto.
- Ele sabia. Damon sabia que o plano iria dar errado. Ele sabia. – murmurou ela, tremendo, tentando controlar a si mesma.
- Bem, ele sempre foi mais esperto e realista que nós. – suspirou Stefan, estendendo o papel em sua direção. – Isso te pertence, leia.
- Eu não consigo. – ela se virou, de costas para ele, parecia que cada palavra pronunciada causava-lhe dor.
- Sim, você consegue – insistiu ele, ainda com o braço estendido.
Elena, aos poucos, se virou, encarando-o com os olhos levemente vermelhos.
Pegou a carta novamente, levando-a para a altura dos olhos e começando a torturante leitura, em voz alta.
''Cara Elena Gilbert,
Se você está lendo isso, quer dizer que temos duas opções óbvias.
A primeira, eu estou vivo e estamos rindo agora do quanto eu fui clichê – preciso dizer que clichê me deixa com náuseas? – ao dar uma de Bom Bom e prever que nosso plano não daria certo, e, então, escrever uma carta para você. Mas, bem, não precisa ser nenhum vidente ou bruxo para saber que um dos nossos planos daria errado, quero dizer, a maioria não teve sucesso (desculpe Klaus, pelas várias e inúteis vezes que tentamos te matar, vê se morre na próxima).
E temos a segunda e pior opção, que, sinceramente, é a que mais acredito. E é o propósito dessa carta.
Sinto-me o Stefan, escrevendo em folhas avulsas coisas sobre meus sentimentos que ninguém ao menos liga.
Lá vamos nós, segunda opção é que: eu morri.
Levando em conta que essa opção seja a verdadeira, e que isso tenha realmente acontecido, nenhuma piada que eu tente contar vai te fazer produzir aquele som agradavelmente angelical, chamado de risada. Não que a risada de todos seja assim, agradável aos ouvidos, porque convenhamos que a risada do Tyler é uma merda.
Mas não vamos falar do Tyler, porque seria um texto gigante apenas falando do quanto ele é irritante. E escrever isso está me cansando.
Eu lembro de quando te conheci.
Você estava naquela estrada, esperando seus pais chegarem, tendo uma noite normal.
Naquele momento eu te chamei de “Katherine”, vocês eram realmente parecidas. Mas, eu notei no primeiro instante que vocês não eram a mesma pessoa por dentro, mesmo eu não sabendo quem Katherine era de verdade na época.
Era só que você tinha um brilho diferente dentro de si, em cada célula do seu corpo humano e mortal.
Eu te disse que queria que você conseguisse tudo que desejava, e você me perguntou o que eu desejava.
Você.
Não tive tempo de responder, eu nem tinha noção do que eu queria naquele momento, mas hoje posso responder.
Você, Elena. Eu queria você. Eu tenho você. E agora, você está prestes a escorregar pelos meus dedos. Deus, como eu não pude prever isso? Como eu não pude te privar de tanta dor, tantas coisas que aconteceram na sua vida desde aquele dia em diante?
Naquela noite você era apenas Elena Gilbert.
Irmã. Filha. Humana.
Você não sabia do que estava para acontecer, de como tudo mudaria. De como sua vida não seria mais a mesma.
Se eu pudesse voltar no tempo, eu não sei se eu voltaria.
Eu gostaria de voltar para ter salvado seus pais e você naquele acidente, para tê-los feito esquecer tudo aquilo e acreditarem que eram totalmente normais, o que realmente eram, e fazer de tudo para que fossem para sempre. Eu teria afastado todo e qualquer mal de Mystic Falls, apenas para vê-la envelhecer ao lado de qualquer cara que você amasse. Eu queria ter mantido meu irmão cabeça dura longe de você.
Mas eu não queria não ter vivido com você tudo que vivemos. Sim, você sabe, eu sou extremamente egoísta e, querendo ou não, isso é algo que você vai ter que conviver pelo resto da sua vida (que irá ser longa), não importa onde eu esteja.
Tudo que aconteceu serviu de ponte para me levar até você, para te trazer até mim.
Eu consegui a garota. Não posso deixá-la ir. Não quero deixá-la ir. Mas preciso deixá-la ir.
Várias vezes me perguntaram o motivo de eu nunca fazer sacrifícios. Se eu nunca amei alguém o suficiente para fazer um, ou se eu tinha medo, ou qualquer outro motivo.
O fato é que sacrifícios são coisas difíceis a serem feitas, é preciso tudo que eu nunca tive. Mas, graças a você, hoje tenho o suficiente para fazer um.
Não me considere o herói da noite, eu não fui, não sou e nunca serei um herói. Nunca serei o Stefan, ele é um herói, tem até o típico cabelinho!
Eu sou só um cara tentando fazer a coisa certa uma vez na vida.
Ou melhor, na morte.
Piada ruim, desculpe.
Elena, não posso me desculpar por todas as vezes que errei, em todos os sentidos, com você. Querendo ou não, esse foi apenas eu sendo eu.
Eu nunca me importei em ser o cara mau, o cara que ninguém gosta, o vilão. Era preciso para te manter bem, te manter viva no fim da noite.
E, por você, eu faria tudo novamente.
Apenas para você saber, você é incrivelmente linda quando está dormindo, o modo como suspira bem devagar me lembra todas as vezes que nos beijamos do mesmo modo, lentamente. Ver você dormir virou um hobbie para mim, agora você sabe disso.
Você não me mudou, você nunca conseguiu me mudar, porque eu não posso mudar quem eu sou. Mas você despertou em mim um lado que eu não acreditava que podia acordar novamente, que eu nem acreditava que existia mais.
Eu não sou o cara certo pra você, nunca fui, mas me lembro de quando você sussurrou para mim que eu era o suficiente para a própria Elena.
Ser amado por você foi um privilegio e tanto, e eu vou morrer sabendo que fui amado pela garota mais incrível de todo o universo. Vou morrer sabendo que fui amado por Elena Gilbert, ela, apenas ela.
Todas as vezes em que eu disse que te amava, todas elas, eram verdadeiras. Não se esqueça disso. Você não merece se torturar lembrando de mim, mas também não quero que esqueça desse grande e mau vampirão aqui, apenas quero que siga em frente.
Eu sei que é difícil, eu sei que você já está cansada de seguir em frente, mas você precisa. Eu sempre estarei olhando por você da tevê do outro lado, e espero que eu nunca encontre a paz e vá embora, porque minha paz está em você.
Com você, Elena, eu agradeci todos os segundos de cada dia por ter minha humanidade. Em nenhum momento pensei em abandoná-la, não de verdade.
Elena, quero que nunca se esqueça de tudo o que vivemos. Saiba que, não importa onde eu estiver, eu não me arrependo de, se eu posso dizer, ter sido seu.
Eu não mereço você, eu nunca mereci você. Eu nunca merecerei você.
Eu olho em volta e só vejo você.
Eu amo você.
Com sinceridade e mão dolorida,
Damon Salvatore.''
Elena não aguentou, desabou de joelhos no chão, os olhos completamente marejados. A cada vez que piscava, mais lágrimas dolorosas brotavam em seus olhos e escorriam por suas bochechas.
Ele não estava ali para secá-las, Damon não estava ali para abraçá-la e dizer-lhe que tudo ficaria bem.
Ela sabia que não ficaria bem. Sem ele, nada estaria bem.
Stefan, depois de ouvir tudo claramente, a puxou para cima, abraçando-a, em um gesto desespero e sofrido.
- Shh, eu estou aqui. Eu... eu estou aqui. Ele voltará. – sussurrou, inutilmente, abraçando-a com força. Ela fechou os olhos, e ele fez o mesmo, ambos chorando.
Cada um com suas lembranças de Damon Salvatore, para confortar-se.
Na porta, alguém estava parado, observando os dois.
Damon sentiu seu peito doer ao ver a mulher que amava e seu próprio irmão ali, em prantos.
Mesmo assim, um sorriso brotou em um lado de sua boca, sereno, enquanto ele mantinha os braços cruzados e olhos azuis cravados no casal.
- Torturando-se novamente? – perguntou Bonnie, aparecendo atrás dele, com os olhos marejados e tentando manter uma expressão forte.
- Não, apenas assistindo – respondeu ele, calmamente – Eles são melhores do que eu jamais fui. Eles são sobreviventes.
- E estão sobrevivendo exatamente a quê? – perguntou ela, por mais que soubesse a resposta, apenas queria ouvir dele.
- A própria dor, Bonnie. A própria dor. Sofrer é uma merda, mas eles vão passar por isso – suspirou ele, virando-se para ela, encarando-a – Então, prepare seu caldeirão e sua varinha. Porque, bem, Damon Salvatore está cansado de apenas assistir.
Notas finais
Manifestações positivas são bem vindas ♥
Até a próxima!
Nhaaw ~
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