Palavras Escurecidas

1 Sou uma lua que morreu durante o eclipse.


Tenho a alma de uma prostituta. Não pergunte minha idade, não pergunte quantos homens conheci na vida, não me pergunte coisa alguma. Pouco importa meu passado, pouco importa a cama em que estive na ultima noite, pouco importa o cheiro que me saturava as narinas enquanto meu corpo se contorcia na frivolidade dos prazeres luxuriosos. Aquele homem não sabia meu nome, não sabia a cor dos meus cabelos, ele me via nua embora não me visse de maneira alguma. Mas, se o mundo é seco, trago um deserto imenso dentro de mim.

Mamãe me criou como uma boa cristã, mas que diferença faria se eu cuspisse no chão e quisesse ser uma boa puta? Ela tinha juntado minhas mãos e me ensinado a rezar, labutado com meus dedos inábeis pelas contas do rosário, e eu ria. Ria largo da sua cândida fé na minha pureza, na manutenção da minha honra, ria de tudo puro e belo que ela ainda julgava haver em mim, e continuava rindo, de mamãe e de seus medos carolas sobre minha virtude, mal sabia ela que a fera era eu. De todo certo não circulava em sua mente que era eu quem usava os homens, quem os tragava, os consumia e expelia de mim, o que sabia mamãe sobre todos os lençóis que haviam sido cenário dos balés profanos do quais havia sido protagonista, sobre todos os braços que contornavam minhas curvas pela noite, colado em mim e ungido pelo suor que seus donos arrancavam do meu âmago? Mamãe não sabia nada sobre minhas noites, nada sob a lascividade que se abrigava em baixo da minha pele.

Mamãe me ensinou que ninguém deveria tocar meus seios, ela não via que eu não era mais a menina que sentava em seu colo para trançar os cabelos, ela não via que não trançava mais os cabelos? Ela não via que meus lábios cobertos de batom não eram os mesmos que beijavam sua face? Mamãe pintava sonhos bonitos pra mim, sonhos que eu desprezava. O que sabia mamãe? Não era boa, eu que ria do seu pânico em pensar na minha desgraça, eu que zombava dos sonhos bonitos que ela tinha guardado pra mim. Que importava se abrisse as pernas? Não respeitava os dias santos, nunca fui a boa garota que cumpriria os sonhos de mamãe, ninguém colocaria nenhuma peça branca em mim. Sentia cheiro de homem, sentia o que era da carne, eu era carne e não tinha pudor algum.

Não era uma boa cristã, uma boa filha, não era boa. Se estivesse condenada ao inferno, tomaria um bom trago com o diabo.

Há algum tempo esqueci meu nome.

Ágata, Catarina, Kátia. Pouco importava o nome pelo qual me chamava, só não me queria que me chamasse de Maria, nunca, era um nome puro demais pra mim. Deixei meu nome, junto com minha medalha de Nossa Senhora das Graças, junto com um anel de cabelo, junto com metade de minha alma num envelope surrado, deixei tudo em dentro de uma caixa de porcelana. Deixei dentro dela tudo que poderia me lembrar de quem fui um dia, não era mais, não podia voltar a ser.

Não fui costurada com aço, me fizeram de fibras e sangue, botaram no meu peito um coração que nunca bateu. Não amo ninguém, não amo a mim mesma, não me pertenço, não pertenço a nenhum ser deste mundo. Durmo sozinha, não pego no sono em outra cama, não durmo com homem nenhum.

Não tenho laços.

Acordaria numa cama estranha, com a boca inchada e rubra, sairia correndo. Tinha virado uma pedra, o coração oco não chacoalhava mais, um sorriso macilento se esculpia no rosto, a espinha não conhecia mais arrepio. Tinha desistido da busca insensata por alguma coisa que fizesse o sangue martelar nas veias, a abstinência de adrenalina já não conseguia lhe saturar de raiva, o tédio me tomava parte a parte em minha marcha silenciosa e seca. Duvidava, recuava, voltava duas casas após ter andado uma só. Pele e terminações nervosas preguiçosas, não faziam seu trabalho direito, meus sentidos iam se paralisando, um a um, do peito rouco o batuque cessava, estava virando uma boneca mole, na ânsia de deixar de sentir.

Horas no chuveiro, a água não lavava a alma, não tirava o cheiro dele da pele, a água não tirava o cheiro de nenhum outro, não limpava aquele corpo. Não desfazia nenhuma marca que ele exibia. Tinha desviado os olhos, era uma precaução, não era seguro que me enxergasse a alma, que enxergasse mais do que aquele corpo acostumado a se moldar e não a ser desvendado. Precisava sair da cama, antes de esfriar o corpo, precisava esfriar sozinha, quando se despia das vestes de caçadora e virava o poço vazio no qual me atirava. Insistia, mas a cada dia acabava mais cedo. A cada noite, a chama se extinguia com mais facilidade, já quase não conseguia chegar ao fim. O que fazer da alma dolorida? Quanto mais corpos conheceria antes de desistir? Antes de sucumbir? Em quantos quartos e por quantos lençóis baratos deixaria minhas marcas, pegadas de instantes que se descolariam de minhas lembranças em breve, quando atravessasse a soleira e voltasse à mesma existência vil.

Desisti de tentar ser boa, uma boa garota, de esperas, de horas certas, de pessoas certas, monogamia.

Tinha rasgado a foto, todas as fotos, livrado o dedo do anel, mas continuava amarrada pela alma cativa. Tinha desistido de tentar ser boa, tinha desistido de ser a moça dos olhos meigos, do cuidado e do amor surrado. Era mais o corpo na noite. Um corpo ornado pra ser visto, desejado. Um corpo que gingava suas silhuetas ao som da música de fundo. Era mais um corpo na noite. Um corpo que exalava seu cheiro, olhos que se perdiam na caçada frenética que impunha no ambiente, olhos que se derramavam, examinavam os outros corpos que formavam aquela massa vibrante, irrequieta.

Um corpo que resistia, que rejeitava, que abafava seu terremoto interno e saia pra caça. Era um corpo que sabia o jogo e não fugia da raia, era um corpo que conheci e que outros corpos saia dele, antes de ser conhecida Que afrontava, provocada e não pensava nenhuma vez em olhar pra trás. Era o corpo que tinha desistido de ser amado, que renegava o amor pela metade que lhe era oferecido, que juntou todos os sonhos que teve de olhos abertos sentindo o sono lhe tomando os pedaços, era o corpo que duvidada, que vacilava, que não se importava. Era um corpo sem nome e sem número de telefone, um corpo que fugia da cama quando a fogueira acabava, um corpo que salivava e que não conhecia palavras bonitas, um sorriso cínico que as quebrava, que pisava, amordaçava o monstro piegas que insistia em continuar vivendo em completa inanição.

Um corpo sem nada de especial, sem áurea, sem explanação. Um corpo que se impunha, que debitava e conseguia a presa, um corpo que conhecia o toque, que não fica vermelho, que sabia o que falar. Sabia, construía as frases e soltava no ar como flechas, sabia, sabia seu efeito, calculava, tinha tudo nas palmas das mãos. Seu sangue andava comedido nas veias, a excitação era fria suave que escorria espinha abaixo, era mais um corpo, um corpo de carne, vivo e gélido, que suava e nem assim acendia alguma fagulha no espaço oco que lhe ocupava por dentro.

Nenhum cheiro lhe grudava na pele, nenhum nome se firmava na mente, nenhuma face era arquivada pra ser revisitada num tédio qualquer. Tinha desistido de ser a amante de uma história inventada, era mais um corpo, mais um corpo na noite.

Não voltei pra casa, nunca mais vivi dentro de mim.

Não vivia dentro de mim há muito tempo.

Tinha chorado na viajem de volta, lágrimas secas ungindo o vácuo dentro da bagagem. Não olhei pra trás, nada além de pegadas apagadas ficava naquela cidade, minha presença era despercebida, construções de fumaça que se desfaziam no ar.

Elas escaparam dos meus olhos, traiçoeiras, traíras, e fugiram roliças pra molhar meus lábios. Elas saíram apressadas, ignorando o fechamento das comportas, ignorando as ordens de compostura, os decretos de sigilo, elas profanaram a fachada sacra da indiferença. Elas queriam revolta, rebelião, subverter a ordem, queriam assoprar o baralho de cartas que me serviam de alicerce. Traidoras. Um levante contra o regimento que mantêm esse corpo frio e desassossegado, as paredes caiadas escondendo os buracos, os quadros bonitos embelezando as rachaduras. Desleais, como ousaram abandonar todas as outras que enchem o vaso que transborda sem poder entornar? Como ousaram traçar na face o percurso que incita uma fuga em massa? Como ousaram acordar os arquejos dos confins do peito? Como ousaram humanizar esse semblante de pedra? Elas fugiram das minhas janelas sem cortinas, chamando a atenção de todos, espantando, provocando burburinhos, olhares curiosos, exclamações. Crime inafiançável, pena irredutível, por expor sentimentos ditos inexistentes, por apontar ondas na superfície plácida. Sou uma falácia, delatadas pelas próprias lágrimas que nasceram nas fontes dentro de mim.

Liguei a banheira, fervi a água e mergulhei dentro de mim. Sem tevê, sem música, sem novela, sem nada, sem mim. Fiquei até todos os meus dedos ficarem enrugados. Um ato sem fim. Não resultou em nada, claro. Que bem –ou mal, poderia um banho de água quente fazer? Algo cáustico, queimante, cálido faz bem à alma [se é que tenho uma]. Minha pele despelando, minhas unhas quebrando, meu âmago trucidado e meu sexo pede algo deleite. Gozo, néctar, o meu sexo junto ao de um estranho. Preciso de prazer, de algo que me reviva. Qualquer coisa. Algo. Alguém. Mas eu não faço nada. Espero a boa vontade, ou má. Algo que me tome, que me faça sentir viva.

Pedras: prendê-las-ei nas pernas e joga-te do abismo sem fim.

Ilusórias são minhas esperanças, nada há de habitar-me. Monstros fitam-me durante a noite com seus olhos vermelhos, sedentos por algo inexplicável. Eu estou sedenta por algo. Meus olhos hoje não brilham mais. Eu não me habito mais. Não tenho mais meu corpo, nem minha alma. Quem há de residir em mim? Vários. Vários com suas decepções. Vários com suas misérias, mas nada me comove. Todas as desgraças deles, agora são minhas. Estou rodeada de infelicidades. Alguém há de lastimar-se por isso? Camuflo-me diante das paredes, com os ratos, com as bactérias. Estou repleta de loucuras, insanidades, manias, rotinas, demências! Estou desvairada de sentidos. Permaneço frenesi. Minha psicose aumenta a cada dia. […] Já sou cadáver?

Hoje cá estou morta. Morta!

Foi a ultima vez que chorei.

Numa noite serrada um homem me despertou.

Seus braços queriam rasgar minha roupa, a adrenalina do proibido se misturava a nosso frenesi, tinha certeza que alguém nos espiava, os livros e cadernos jogados no chão marcavam nossa presença naquele corredor vazio. Seus lábios me devoram, se demoravam em minhas sensibilidades enquanto as mãos faziam outros trajetos. Seus olhos me intimidavam, nenhuma fala precisava ser dita, nossos corpos conversavam no mesmo silencio, com a mesma intensidade. Minha pele exibia vincos e mordidas, rastros que alcançavam a base das costas e se perdiam pelos quadris.

Exibia um sorriso cínico nos lábios grossos, encarava descaradamente o gingado das minhas ancas, derretendo olhos cheios de cobiça sobre as curvas dos meus seios. Cheirava a macho, sondava aquele animal selvagem costurado dentro daquela pele negra que segurava minhas coxas, meu macho alfa. Espalhava em torno de mim seu hálito viril, cálido, enquanto me estirava indolente com os bicos enrijecidos, com os pelos eretos, com suor seguindo rumo aos meus confins. Sua barba roçava minha nuca e me deixava vermelha, não tinha pena, não tínhamos modos socialmente aceitos. Não fui feita pra viver em sociedade.

Fim da caçada, olhos famintos, a presa risonha em minhas mãos.

Tinha vivido apenas uma noite, apenas naquela noite senti me desligar do corpo e alcançar um voo que só pertencem aos que amaram, quando o físico se torna instrumento de uma troca tão densa que não se consegue explicar, não se precisa explicar. Uma troca que se mortifica num gemido agudo, num suspiro de voltar à vida depois de ter quase deixado de pertencê-la. Lufadas de ar sacudindo o peito depois de quase sucumbir, uma noite que se sobrepunha a qualquer rosto e qualquer caricia, a qualquer palavra, uma noite pela qual se atirava nesse redemoinho de encontros fúteis, de cárceres medíocres, uma busca sem sentido da qual não conseguia desistir.

Uma noite pela qual aceitaria barganhar todo rastro de eternidade. Pintava-me livre, mas sabia que tal liberdade só encobria as correntes que me mantinham ali, não tinha onde voltar, tinha deixado um sorriso tépido em cada porto mas nunca construíra um lar. Morava dentro de um reviver eterno de algo que lhe fugia das mãos, aquele homem que havia me despertado, me tinha jogada ao seus pés, aquele homem era o que buscava em cada um das dezenas de hálitos que lhe aspiravam no rosto.

Meu coração é terra de ninguém. Quem já viu alguém alegar a posse de um deserto? É tudo sáfaro e árido, de um polo a outro, me atravessando. Os dias são de um mormaço claustrofóbico e a noite esfria tanto que nem se sente as extremidades, e um vento castiga o solo incerto, arrastam os farelos que se vão sem reclamar. As nuvens só ameaçam brincar no céu, mas ao menor sorriso, se recolhem. É frio e seco, nada vinga, nada se anima, nada se aninha dentro de mim.

Um dia um moço de cabelo anelado e olhos ternos escreveu num pedaço de papel que me amava. Nunca amei o moço de olhos delicados, joguei aquele pedaço surrado na sarjeta. Queimava, pisava e jogava fora todos os bilhetes que se pareciam com aqueles, todas tentativas de chegarem perto a ponto de enxergarem a cor das minhas pupilas.

Era mais uma estátua perdida na decoração retrô. Uma estatua que pulsa inerte, cálida e passional sob a fachada pétrea. O ultimo buquê de flores que havia chegado enfeitava pateticamente a escrivaninha, cravos murchos, sem viço, espalhavam seu cheiro árido pelo recinto abafado.

Desordem. A anarquia do quarto era familiar o suficiente para me saturar os sentidos, olhar em volta era cansativo, desanimador. Despia-me daquilo com um manto de indiferença e desdém. Largava-me ali enquanto o tempo pulsava com baques surdos, o mundo ia ficando homogêneo, pastoso. Estava petrificando. O calor dos olhos cedia lugar ao vítreo opaco, meus contornos se aprofundavam, meus gestos se tornavam rarefeitos, mecânicos. Tinha vontade de sair porta afora, gritar, se jogar em água limpa, exorcizar seus demônios; mas nenhum movimento, nenhum reflexo lhe tirava daquela hibernação de sentidos. O que tinha restado?

Que escombros se escondiam debaixo daquela renda amarelada? A respiração era fraca, lhe mantinha seus órgãos em funcionamento, mas nenhum sopro de vivacidade pulsava em suas veias. Centrava meu espírito num ponto abstrato, se desconectava de todos os fios, me ligava ao mundo além-pele. Encontrava-me naquela perca desmedida, travava minhas batalhas sem nenhum espectador presente, cingia a fronte rumo ao desbravado desconhecido, mergulhava naquele abismo que era o espaço oco dentro do peito.

Morria, abandonava aquela vida, aquelas coisas, aquele mundo.

Estava morta dentro de mim.

A grande maioria das pessoas conservavam vícios que lhes anestesiavam, lhe arrancavam da realidade feia, não, não queria bloquear meus sentidos pra viver numa falsa ilusão, uma linda utopia. Meu vicio era sentir, precisava continuar sentindo; não levava a vida à base de analgésicos. Precisava sentir, porque não conseguia encarar de maneira alguma o vazio que restava depois que a adrenalina se aquietava dentro das veias. Não eram sentimentos, eram sensações, precisava delas pra continuar sentindo, pra continuar não sentindo. Só existia e sentia, com o corpo, e não com o coração. Escassez dos remédios que antes me ajudavam. Depois de todas as noites decifrando os sons da lua, suplicando palavras ao vento ou fazendo coisas absurdas a quem não vê, eu tricolejo ao vão. Sem motivo — ou explicação, tudo se apaga.

As luzes que antes habitavam ao redor, hoje, são trevas. Eu não me sinto bem falando disso, pois há de acontecer mudanças, eu não sou permanente, mas minhas marcas são. Hoje cá estou exigindo algo que não é meu. Vou à busca de algo, alguém, o sexo pede algo deleite, sem nenhum pudor. Mas não faço nada, espero a boa vontade – ou má. Ilusórias são minhas esperanças, talvez nada nem ninguém consiga mudar isso. Hoje cá estou desvairada de sentidos, minha alma encontra-se vazia, quem há de habitar-me? Vários. Vários com suas alegrias e decepções, mas nada me comove.

Eu não tomo mais remédios.

A grande maioria das pessoas se afogava em álcool e cocaína, eu me afogava em homens.

Seus olhos estavam cravados no meu rosto, suas unhas estavam cravadas em minha pele, seu cheiro estava cravado em meus sentidos. Seu corpo quente se equilibra sobre o meu, que descompassa, seu nome me escapa dos lábios, murmurado, suplicante; meus olhos transbordam. Nossos corpos se enroscavam, inventavam novos moldes, ansiavam por se fundir na mesma coreografia. Seus beijos castigavam minha boca vermelha, seus braços me envolviam e me mantiam ali enquanto me desligava da minha pele, enquanto e desprendia de cada músculo contraído do meu corpo arrepiado, sentindo extravasar o que não cabia dentro daquele espaço pequeno.

Encarei dois olhos despertos e sobressaltados no meio da noite, um batimento acelerado no meio de uma cama vazia, mãos que tateavam em vão o espaço em sua volta. Acordar tinha suas desvantagens. Acordar era um jato de água fria no meio daquele filme que não existia mais, era caminhar em sua superfície fria e adentra-la. Acordar era o pressagio de um soluço abafado enquanto o dia nasce. Sentia sua falta. Sentia sua falta de um jeito desesperado, com os olhos cheios de lagrimas, os pulmões inchados e o coração esmagado. Cravando as unhas na pele até sangrar. Sentia sua falta se revirando na cama que parecia grande demais.

Sentia sua falta, sentia sua falta a cada vez que chamava e não havia resposta, a cada vez que procurava sem hesito algum. Sentia sua falta enquanto me perdia olhando o horizonte, enquanto assistia tudo que fosse sólido desabando em torno de si. Sentia sua falta, sentia o desalento tingir seu peito, sentia vontade sair rasgando a noite, de matar cada quilometro, de bater na sua porta. De se ajoelhar e implorar pra que volte, e subir a maior das escadarias de joelhos, se de alguma forma adiantasse. Queria gritar, colar cada palavra diante de seus olhos, em braile, em russo, em mandarim. Buscaria, traria; explodia naquela noite infeliz.

Aquilo não era amor, era vício. Não era saudável, era insano, doentio. E eu adorava. De todas as drogas, ele era ópio, era o que havia de pior. Ópio é o cigarro dos arrogantes. Venderia minha alma pra alimentar aquele vicio, tragaria tudo ao meu redor pra segurar a ânsia de tê-lo dentro de mim.

Era uma viciada sentindo a falta da sua dose de heroína.

Sabia que rodaria o mundo, mas voltaria pra minha cama, e me devoraria. Porque eu arrancava dele o gemido mais satisfeito, e nenhum outro me deixaria mais molhada. Nós dois saímos do mesmo saco podre.

Mas é na minha cama que ele se abandona, na minha cama pequena ele é feliz. Se existe felicidade além de tudo que desconheço, se existe alguma coisa além de não precisar dizer palavra alguma, se existisse alguma coisa além daquele instante em que nos rendíamos e deixávamos ser. Quando não existe nem caçador nem presa, nem caça, nem luta alguma, quando sou apenas e não sou mais eu. Se existir alguma coisa além disso, desconheço felicidade.

Deixei-me encaixar no seu peito uma vez. Fazia frio e ele não segurava minha mão, minhas mãos suavam, mas ele me olhou com um sorriso no canto dos lábios e disse: bora? E eu pensei, porque não. E fui. Numa noite serrada um homem me despertou.

Fiquei olhando seu rosto enquanto ele dormia, a barba por fazer, o cheiro de tabaco e colônia, sabia que nem olhando aquele rosto todos os dias que me sobrassem conseguiria deslindar nem a mínima fração do que se passava na sua mente, nunca saberia. Da mesma forma que ele nunca saberia que eu olhava pra ele enquanto dormia, nunca soube explicar como ocorreram as trocas de pedaços de nós.

Mas de alguma forma ele retirava mais que suspiros e suor de mim. Ele remexia os lábios ansiosos aos revirar aquele nome na boca, cuspia ele, soprava como fumaça, cantava ele. Sabia, era difícil de encontrar outro dono para aquele nome, ele sabia. Ele zombava, mas sabia o peso de cada uma daquelas letras, as letras que se juntavam que naquela ordem e formavam a razão do seu deleite.

Ele sabia meu nome.

Notas finais
Espero que gostem, deu trabalho :3 Vênus.