Palavras Escurecidas

2 Olhos inquietos revisam o céu encorpado.


Notas iniciais
Possa ser que vocês não entendam bem o que a história tem por trás, até por que não é narrada ou coisa do tipo, são pensamentos da personagem principal (decidam o nome dela, rs), sendo passado ou futuro, então, se realmente ficar difícil de compreender algo, review!

Ontem, hoje e amanhã, se comungam, se fundem. Devir é tempo, é vida, é liberdade.

Já faz algum tempo desde que perdi minha voz e minhas mãos endureceram, não sei dizer desse tempo, não sei o que dizer do tempo que vem, nem do tempo que veio antes. Nenhum humano vê o tempo correndo nu em frente dos seus olhos, não posso dizer que não senti o tempo martelando minhas veias. Não sei o que passou na minha cabeça ontem à noite enquanto assistia o sol vencer aquela escuridão cerrada, talvez ele não voltasse a brilhar antes de findar o mundo, ou fim do mundo seja apenas ele subindo e queimando no alto como em todos os outros dias que já se viu dizer. Não sei o que não passou na minha cabeça enquanto fitava o céu que não podia distinguir, como não se distinguiam os meus contornos, como não sabia o que correria junto do tempo que morria no relógio. Também não sei por que eu assisti você ir, sem dizer algo contra. Talvez seja a cabeça pesada e gosto de destilado na língua, seja o coração pulsando como se nunca tivesse sido quebrado, só pra ser quebrado na próxima esquina.

O mundo que me viu sorrir, não corou diante das minhas lágrimas, não se curvou diante da minha loucura, não se embriagou do meu fel. E eu fui o erro, a persistência em golpes cegos, eu fui tudo e não fui nada. Mas o tempo morreu, o tempo que não vi, o tempo que doeu passar, o tempo que levou minha dor consigo. Como se fossem os olhos de camaleão e o meu sorriso as seis da manhã, o meu cantarolar desafinado pelo corredor. O sorriso é mudo e o lamento é longo, meu voo era alto juntamente com meus passos plácidos, beijei a vida, o vento e a liberdade, liberdade de beijar somente pela entrega do corpo inteiro, sem receios, sem tormentos.

Do leito quente e dos desejos que fervem e se devoram, emputecidos os dias, perecido os sabores, pressinto as fomes das garras que fugiram da minha inanição, dos meus gemidos sedentos silenciados. Os olhos dele furavam minha blusa e encaravam meus seios, queria aqueles contornos negros gravados na minha pele. Os olhos dele me seguiam enquanto eu dobrava a rua, se desdobravam pela minha pele suada, ensaiando o movimento das gotas se perdendo em meus confins. Meu cabelo se enche de onda, ele quer sussurrar música nos meus ouvidos, e gemer perto da raiz dos meus cabelos. Tentou desenhar meus contornos com os lábios, tentou saturar meus lábios de vermelho. Aqueles olhos perfuraram minhas pupilas, desconcertaram o meu rebolado, mas da minha boca só saio escárnio. Os olhos dele eram meu riso intimo, e alguma coisa no jeito de sorrir, meu e dele, dizia que esbarro começaria a ter hora marcada.

Ele costuma surgir de repente.

A gente podia ter se conhecido no tempo em que você passaria pela janela me deixando com líquidos em meus olhos sobre teus passos, me deixando uma flor molhada de cravo com pressa pra que meu pai não veja. Eu bordaria tuas iniciais em lenços, e empregaria com meu perfume antes de te entregar, como mamãe me ensinou. Agente podia não ter se conhecido em tempo nenhum, cadeia infinita de suposições, quem sabia, quem diria? Aquela vontade de ouvir todas as músicas que tocam o vento de forma mais leve que eu mesma toco, de acordar sorrindo e ir dormi do mesmo jeito, você foi meu acaso mais bonito. Então o que diabos importa o que foi anteontem? A vida é sol se estirando preguiçoso pela brecha da janela enquanto a noite acaba, como todas as coisas acabam, a eternidade é reinvenção. E quem sabia, e quem diria? Éramos nós naquela sacada de frente pro mar, de beijo pro mar. Nossos corpos serenos bebendo a brisa, bebendo o dia que se extinguia e não nos deixava. Não sei quantas vezes na vida você ainda me salvaria, talvez fosse a parte mais bonita, esse não esgotar, não estancar. Porque sabia que o que tinha dentro viveria mais que uma só vida, porque eram da tua boca as palavras mais simples, e as que arrancavam lágrimas dos olhos, porque eram verdades, porque eram de verdades, só extenuavam o que brilhava nas bordas da face.

De todas aventuras em camas ainda bagunçadas, essa foi a melhor.

Não acredito em segundas chances, mas você em deu motivos pra perdoar, ou tentar perdoar, você foi minha segunda chance. Driblei meus medos, cortei meus dobrados, quebrei minhas trancas, menino, você me mudou por dentro, e nada no mundo me faz querer ser algo parecido com o que tinha me acostumado a ser, nada no mundo é meu mundo sem que tu orbites nas galáxias perdidas nas pupilas minhas que te encaram, que te exalam, que te vivem. Um conto incerto, eterno, tua vida se costurou à minha, nossos sangues se misturaram, aonde for o agora, as migalhas das tuas hemácias migrará pro meu peito, meu peito inchado e dolorido, meu peito que desvendas.

Ver o sol morrer na beira do mundo, manhãs cheias de neblina, noites de lua clara, nadar até os meus músculos vibrarem, gastar o dia olhando pro mar, o vento levando meus cabelos pra trás, voltar pra casa com os olhos perdidos no horizonte. Imaginar casas, de não saber nada de carros, brincar com mapas, e palpitar sobre a cor do chão. O sol continua nascendo no leste e se pondo no oeste, e os dias amanhecem carregados de neblina enquanto ainda é inverno. Tenho os mesmos olhos, tenho os mesmo livros, vou aos mesmos lugares, abraço as mesmas pessoas. O moço que me ver passar diria que nada mudou, mas ele não disse por que viu as cicatrizes expostas, e me viu sorrindo, sim, me viu gargalhando, eu gargalhei às sete da manhã depois de ter dormido pouco. Amigos que encontrei nas minhas andanças, e que moram num pedaço de saudade. Não mandei notícias e ninguém mandou lembranças, mas você sempre foi um bilhete empurrado por debaixo da minha porta cerrada.

O problema do amor, é que ele é um problema, obrigando por costurar em mim a certeza de que vale a pena amar alguém. Por cuidar de mim melhor que qualquer um. Por não prometer nada e me fazer mais feliz do que qualquer um que me prometeu o céu, por ser tudo que preciso sem precisar ser coisa alguma. Obrigada por ter sido minha casa, por me deixar ficar, por se deixar ficar, minha cabeça também funciona melhor perto de você. Umas linhas tortas, uma xícara de café, uns solavancos mudos, águas tranquilas que escondiam oceanos turbulentos, e tu sorrindo ao imaginar ter nas mãos todos os meus segredos, e a gente rindo porque sabe que existe uma vastidão dentro de mim que nunca poderá ser garimpada. Depois do fim, não cabe começos, assoprar os joelhos ralados não vai remediar a queda, solidão deixa nossos medos exagerados, não se pode encarar a vida com olhos cheios de sono, não se pode misturar o que é real e o que o subconsciente produziu. Por todos aqueles que me fizeram olhar pros lados e me sentir uma pessoa rica, aqueles que me inspiram a continuar sendo a pessoa que quero ser, aqueles que me mostram a pessoa que não quero ser.

Pelos dias de sol na beira do mundo, pelos banhos de chuva, e obrigada pelas palavras, conselhos e preocupações. Obrigada pelos momentos que se tornaram eternos, por ter se tornado eterno dentro de mim, por merecer fazer parte das minhas memórias, das minhas fotografias, por ainda existir nas páginas do meu diário. Obrigada por merecer meu orgulho, minha consideração, meu apreço. Obrigada por todas as horas, por todos os risos, calorias e abraços que dei sinceros. Pela sinceridade, pela fidelidade, por ser meu lampião enquanto estava perdida, por segurar minha mão e recolher meus cacos. A mão segurando a minha e não deixando-me me perder nem me abandonar enquanto eu afogava nas ondas turbulosas da minha represa arrebentada.

O tempo que leva as perdas, que viram caquinhos na memória, conhecidos e desconhecidos de quem lembro o rosto mas não sei interrogar a face, não sei ficar face a face, e sublimo em espirais rompantes, e sumo, e vou. E segue o tempo aceitando sua sentença de morrer em infinito, de matar o infinito tudo que conheceu minha rotina, tudo que me sacudiu o peito. São dias fodidos e noites de esperas, tua lembrança e aquele cheiro de casa. No fim de umas noites cerradas, não sei mais o que responder quando me diz eu te amo, não vou responder por cordialidade, não há amor sem a alma aberta, não há a alma aberta quando os pulsos foram cortados pela mão amiga. São desvios de rotas e brincadeira do acaso, que por acaso sou eu somente, brincando de ser algo que não sei que sou. E não que sirva de consolo, mudaram a data, mudram a nota, mudaram os números, sem minha permissão.

Aquele era o primeiro andar, mas eu preferia quinto. Peito aberto e escarrado, ninguém revoga o estrago do ferro quente na carne viva, ninguém se contorce pelas entranhas de outrem, ninguém tem o direito de contar a historia daquela cicatriz. Era triste como uma puta velha acariciando o clitóris para mitigar seu sexo faminto, como as horas roubadas dos amantes em suas entregas, como o beijo que selava amor e que a boca não conheceu. Um voo vazado naquele território de paixões inóspitas. Exibia aqueles olhos oblíquos como tinha cantado um poeta antigo, um pouco de poeira entranhada naqueles traços pueris, aquela face que sabia que muitas luas cruzariam aquela imensidão anil ao som de bossa novas, lacunas dos contornos da saudade intercalados com suspiros acirrados e gemidos mortos num bolero, antes que aqueles passos soberbos cruzassem o portão, antes que se arreasse o muros, antes que findasse o pranto, antes de tê-lo prostrado aos seus joelhos.

Era a teimosia de não se dizer em vão, após tanto ser desdito, nenhuma paixão nasceu pra sucumbir casta. Ela era a negação dela mesma, era um fôlego de fogo aprisionado numa pele, perdendo o viço e congelando a alma a cada dia que se estendia a espera, que não se sabia se duraria mais um dia, ou uma vida inteira. E que foda-se o tempo, os dias e a coisa certa em suas incertezas, o ano mais fodido da minha vida acabou.

Notas finais
Feliz ano novo! (apesar deu não curtir muito isso), mas deu pra "pegar" a ideia no finalzinho, não deu? :3