Palavras Ensanguentadas
1 Café e marshmallows
Notas iniciais
Eram cinco e quarenta e dois da tarde. A vila estava silenciosa e uma neve deprimente cobria o solo de minuto a minuto, gelando a água corrente do escuro rio que serpenteava pela minúscula cidade. Pássaros esvoaçavam pelas árvores e soltavam piados distantes de vez em quando, acompanhados por coelhos cinzentos que corriam pela mata iluminados pelo último e fulguroso raio de sol do dia.
Alguns metros afastada das pontes que permitiam aos moradores sobrepor o rio ao caminharem, havia uma escadaria de um mármore desgastado. Fazendo companhia a umas duas casas que dormiam em plataformas localizadas nas metades da escadaria, um imenso moinho emergia colossal no centro do quadrado de mármore onde fora instalado. Um corvo crocitou quando deu um tempo em seu voo e pousou na haste do moinho.
Uma velha abriu as janelas da casa onde se encontrava. Espiou para o lado de fora, onde uma camada branca surgia no solo sem cobertura, e se decidiu por fechar a janela, cobrindo a visão com cortinas amarelo-limão cravejadas de coraçõezinhos rosas.
— Acho que vou fazer um café. — disse ela ao neto, passando por uma porta para entrar em seu quarto. Tossiu, e então voltou com um manto preto no qual enrolou o pescoço e os ombros.
O adolescente permaneceu em silêncio, encarando a sala quase completamente enfeitada com tecidos e bordados coloridos, porém arrumada. Esfregou os olhos com as mãos e apalpou o sofá coberto por uma fronha rosa em busca de algo que não encontrou. Bocejou demoradamente e abriu uma fresta na cortina da janela com o indicador, admirando a neve suave e confortável que deslizava pelo ar céu abaixo.
Resolveu se sentar no sofá, afinal estava deitado a horas. Um livro completamente lido descansava na mesa de centro vidrada, o marcador escondido em uma das quinhentas e cinquenta e quatro páginas. Ao terminar seus esforços para mudar de postura, percebeu que dormia em seu colo uma raposa cujo pelo era de um rosa muito claro. Seus olhos eram azuis e brilhantes e laços cor-de-rosa faziam surgir fitas esvoaçantes no seu pescoço e na sua orelha. Agora seus olhos cintilantes estavam bem abertos e fixados no seu rosto redondo.
— Nem percebi que você estava aqui, Elise. — comentou, quase num sussurro. A Sylveon grunhiu e se levantou para esticas as pernas, pulando no chão e seguindo o cheiro forte de café que vinha da cozinha e inundava a sala.
Assim como o sofá e a mesa central de vidro, as paredes continham quadros bonitos que contribuíam para o ar aconchegante gerado pela cidade e pela casa. As fotos ou eram de familiares e parentes mais distantes, ou de paisagens e Pokémon locais. O chão de cera vermelha coloriu os pés descalços do garoto horas antes quando fora retocado, e ainda reluzia seu vermelho-vinho por toda a casa.
Na porta envernizada do quarto da avó, um bordado amarelo bebê continha três simples borboletas cor-de-rosa e era cercado por um aro de madeira clara. Eu sempre gostei desse quadrinho, pensou ele.
— Ally, você quer aqueles biscoitos de morango ou bolo de cenoura, querido? — perguntou a velha da cozinha com sua típica voz rouca. Elise lançou seu olhar berrante e sinistro ao garoto, reaparecendo no corredor iluminado por uma lâmpada amarelada depois de xeretar sua dona preparando um lanche.
— Vou querer biscoitos até a senhora arranjar outro sabor de bolo, vovó Lavender. Não que esse seja ruim, mas comemos bolo de cenoura desde que você começou a morar aqui. — retrucou Ally.
— É bolo é uma receita de família, seu pivete. — brincou a idosa.
Elise soltou um guincho parecido com o miado de um gato e pulou na poltrona vermelha que no momento estava submersa em um cobertor grosso e suave. Ally fitou-a, colocando o copo verde onde havia bebido água de volta no centro. Esfregou o rosto e se levantou para arrumar o sofá e pôr as almofadas no lugar antes de se prostrar novamente. Escolheu uma simples: branca e fofa, com um botão roxo fixado no centro e rodeada de fios de lã de mesma cor. Colocou a almofada exatamente na curva quadrada do sofá em formato de “L” e se sentou.
Deu outra olhada pela janela: o sol já não aparecia mais. A leve nevasca e a escuridão engoliram a vegetação, o rio, as casas e o moinho que ainda girava assustadoramente.
Levou a mão á mochila cinza com uma quantidade relativamente baixa de bolsos para um treinador e retirou uma pokébola comum: vermelha e branca, um círculo metálico no centro. A Sylveon se aproximou e fez seus laços deslizarem como serpentes pela superfície fofa do sofá, com interesse.
— Vó, vem ver. — disse ele, girando a esfera na palma da mão com os dedos num frenesi débil.
— Estou chegando. — anunciou a velha, que se aproximava sacudindo suas pantufas negras e aveludadas pelo chão enquanto andava.
Elise se apressou em ir até a velha e poupá-la do trabalho de carregar a bandeja metálica onde duas canecas de porcelana cheias de café e confeitadas com marshmallows faziam companhia a um prato do mesmo material, onde uma porção generosa de biscoitos bege salpicados com pedaços vermelhos de morango aguardavam os dedos ágeis dos humanos presentes.
A senhora Lavender era baixinha e simpática. Seus cabelos castanhos, apesar de grisalhos, eram bem-cuidados e penteados cautelosamente. Usava uma saia branca com gatinhos laranjas estampados e uma camisa de mangas longas rosa. Ela se sentou no sofá, pegou sua caneca branca com detalhes azuis e focou o olhar no neto e na pokébola que girava em sua mão. Com o manto negro cobrindo seus ombros, estava parecendo uma morcega á luz amarelada jorrada pela lâmpada.
— Pode falar. — disse ela.
— Melhor mostrar, né?
Ally atirou a pokébola já dilatada para cima e um lampejo ofuscante ecoou em seguida. A esfera fez uma curva suave no ar e despencou na direção do adolescente, que a agarrou como se estivesse sendo atraída para sua mão.
A figura que surgiu da pokébola possuía marias-chiquinhas que emergiam de sua cabeça redonda e verde, acompanhados de dois chifres achatados e vermelhos que se assemelhavam a prendedores de cabelo. No contexto de sua aparência que, contendo na cintura filetes de pele branca desprendidos do quadril semelhantes a um tutu e pernas longas e finas, era comparável a uma bailarina.
A velha sorriu, mas não pareceu nem um pouco surpresa.
— Fico feliz que tenha conseguido um Kirlia, menino. São bem raros. E como é bonitinho! — Elise encarou o Pokémon psíquico sem desfazer sua expressão constante de interesse.
— Na verdade eu não achei ela. Ela veio até mim um dias desses. — apressou-se em explicar. — E eu sei que é uma menina porque o Silver... Meu Sylveon, vovó. — lembrou ele, quando a idosa armou uma expressão de esquecimento perante o nome. — Então, o Silver grunhia alto e me empurrava toda vez que eu chamei ela de “ele”.
— Por que você achou que era macho, afinal? — indagou a mulher.
— Ah, eu não sei. Mas não vem ao caso, isso.
— Naturalmente. Prossiga, então. Ah, espera! — exclamou ela, fazendo Elise mudar de posição quando tirou um pêndulo de borracha de baixo do traseiro. — Eu já falei pra Elise para não ficar jogando essas coisas pela casa, não é, Elise? — Ela fitou a Sylveon, que olhava hipnotizada para o grande tufo de lã rosa na ponta do pêndulo de borracha. Ao movimentar gradualmente a extremidade da corda, a coisa rosa começou a se balançar de um lado para outro e Elise a acompanhou até que deu o bote e capturou o brinquedo.
A velha retirou uma almofada de suas costas e a depositou entre ela e a raposa rosa, que agora mordia e sacudia o pêndulo.
— Eu iria te perguntar, se a Kirlia já está falando com você... Sabe, mentalmente. — completou ela quando percebeu a estranheza de Ally.
— Ah, sei. Psíquicos geralmente fazem isso, né?
— Sim.
Os olhares se viraram para a Kirlia, que observava curiosa a conversa entre eles com seus grandes olhos vermelhos, sobpostos em sua enorme franja verde e pontuda que atravessava a maior parte do seu rosto.
— Pois é, ela nunca falou comigo assim, na mente. Mas ela tem um nome que pelo visto gostou. — retrucou o garoto.
— Ah, é? Qual?
— Mafalda. Não é bonito? — Ao dizer isso, a Kirlia grunhiu animada e começou a balançar as pernas de um lado para o outro, as mãos apoiadas no sofá onde também estava sentada.
— Adorável.
Ally novamente checou o clima através da cortina. A nevasca estava mais forte. Foi então que uma coisa cruzou seus pensamentos, e ele encarou um estabelecimento grande do outro lado da rua. Estava fechado e não seria visível se um poste não estivesse iluminando sua grande e abandonada fachada.
— Vovó... Que aconteceu com a biblioteca? Aquela, onde eu gosto de ir? — perguntou, esperando o pior.
A velha suspirou e encarou a lâmpada amarela. Depois baixou a cabeça e deu um gole generoso no seu café e depositou a caneca — extremamente parecida com o prato por fazer parte de um conjunto — na mesa.
— Ally, a biblioteca fechou. Infelizmente. — declarou, por fim. Sua expressão se tornou penosa.
— Ai, não acredito. — O adolescente despencou no sofá. Honey o encarou com pesar e deu palmadinhas na sua mão.
— Pois é. O dono é dessa cidade, você sabe. Ele começou a biblioteca aqui. Mas... — Ela encarou a cortina, agora fechada, como se contasse o número dos corações ilustrados no amarelo fraco. — Ele resolveu ir embora, sabe. Disse pra mim numa conversa dois dias antes de partir que queria morar em um lugar maior e mais robusto.
— E ele foi para...? — perguntou o neto, em tom de desafio.
— Lumiose. — concluiu a idosa. — Não tiro a razão dele, realmente lá é o centro de toda Kalos.
Honey observava com grande interesse o local intensamente enfeitado. Algumas peças da decoração nas paredes incluíam píris com imagens de gatinhos gravadas no círculo central dos pratos.
— Garoto, tome seu café. — ordenou a senhora Lavender. Ally se sobressaltou e percebeu que sua costumeira caneca verde cujo interior era laranja estava cheia do café forte do qual gostava. Os cilindros de marshmallow boiavam e faziam um movimento débil de translação para com a boca arredondada do recipiente.
Deu um gole no qual um dos fofos marshmallows escorregou para dentro de seus lábios. O líquido marrom-escuro estava doce e cremoso.
— Esqueci de te contar uma coisa. — declarou a senhora. Seu neto deu outro gole no café enquanto pegava um dos biscoitos redondos e achatados no prato, e levantou o olhar. Elise se esfregava no colo da dona e esta acariciava seus laços rosa quase que inconscientemente. — O homem deixou as chaves comigo.
— O quê? Como assim? — indagou o adolescente, colocando a caneca na mesa de centro e engolindo o último pedaço de um biscoito.
— O dono da biblioteca, Ally! Acorde! Ele deixou as chaves do lugar comigo, disse que você poderia ir lá se quisesse “se arriscar a pegar um livro”. Ele sabe que você gosta de ler e frequentava o lugar.
— Como assim “se arriscar”? — armou uma expressão confusa e olhou novamente para o lugar pela fresta da cortina: continuava silencioso e escuro como se não existisse.
— Ouvi um boato de que ele saiu porque achou um monstro lá. Covarde. — A senhora Lavender fez uma expressão enojada e dispensativa. — Vivemos cercados de monstros e ele simplesmente se assusta e larga tudo quando vê um.
Ally pegou outro biscoito e bebeu mais café, que agora estava pela metade.
— Eu vou lá, então. — disse, escondendo a relutância que sentia em imaginar que o dono foi expulso de seu local de trabalho e deixara toda a mercadoria para trás.
Sua avó, porém, não fez objeção.
— Vá, então. Você tem quem salve sua pele. — Ela fez um gesto simples com o indicador e apontou uma das unhas cuidadosamente pintadas para a astuta Mafalda. — Não só a bailarina, mas os outros também. Você capturou aquele chaveiro engraçado?
Ally iria responder, mas raciocinou algo e inclinou a cabeça levemente para o lado.
— Como sabe do Klefki? — perguntou, estranhado.
A velha olhou para o relógio e ignorou a pergunta do neto. Depois se levantou sem responder a nenhuma outra pergunta e se dirigiu até a cozinha com pressa. Passado um minuto, voltou arrastando suas pantufas e atirou um molho com três chaves quase idênticas na direção do garoto que, com reflexos lentos, agarrou-o somente quando jazia inerte no braço do sofá.
Mafalda se levantou num salto animado, foi até a porta na ponta dos pés e abriu-a utilizando sua telecinese. Ally engoliu o resto de café que lhe sobrava — inclusive um último pedaço de marshmallow — e agarrou mais dois biscoitos de morango. Ao fazer isso atravessou a soleira seguido pela graciosa Kirlia, deixando a Elise curiosa para trás juntamente com sua dona e seu manto de lã preto.
(...)
A escuridão os engolfou assim como o ar frio e desolado que pairava naquela noite. Mafalda abraçou o próprio corpo com os braços finos e analisou a rua coberta pela neve com seu olhar ligeiro. Ally suspirou: se arrependera de não ter pego um casaco. Sua blusa cinza de mangas e gola rosa, além de seu short jeans preto, não seriam suficientes para o resguardar do frio arrepiante que dominava Dendemille.
Olhou ao redor enquanto dava os primeiros passos na direção do estabelecimento fechado. Não havia ninguém na rua. Nem mesmo Pokémon selgavens ou outros treinadores chegando ou saindo: nada. A neve dominara todos os telhados e calçadas e reinava sem ser incomodada por alguém que deixasse pegadas em sua superfície brilhante e ao mesmo tempo sombria, até agora.
— Acho que vou chamar o Ringo. — sugeriu o menino. Sua voz ecoou pelo cenário gélido sem atrair atenção alguma. — Tenho presentes novos pra ele.
Mafalda grunhiu algo conformado em resposta, dando a impressão de ter concordado, porém sem abaixar a guarda. Ally puxou uma pokébola comum de seu bolso e dilatou-a apertando no botão do meio: atirou-a uns quinze centímetros para o ar e libertou um Pokémon em forma de chaveiro cujo corpo era completamente metálico. Tinha olhos pequenos e negros e uma boca que imitava um buraco de fechadura. Partindo de sua pequena cabeça, um anel grande e fino na metade inferior mantinha em cativeiro inúmeras chaves dos mais diversos tamanhos e cores.
— Presente pra você, espera! — Ally agarrou o Klefki pela protuberância na parte superior de sua cabeça que lembrava a parte comprida de uma chave.
Quando o Pokémon parou para prestar atenção em seu treinador, este esfregou a ponta do dedo no pequen oval rosa que o chaveiro possuía em sua testa. O Klefki grunhiu e girou, mas ainda prestava atenção no molho de chaves em sua frente.
O garoto arrancou uma por uma as chaves bronze do anel prateado pequeno que possuía e depois o guardou no bolso: pretendia jogá-lo no lixo, afinal não precisaria de um chaveiro sem graça e sem vida quando se tinha o Ringo: por si só ele era um excelente guardião. Estendeu a mão direita com os três presentes para o Klefki e este fez um movimento rápido e contente, no qual agarrou todas as chaves de uma vez.
— Isso, isso. — agradeceu Ally. — Agora vamos, não podemos chegar tarde em casa hoje.
Mafalda se deu por convencida de que não corriam perigo algum e foi, saltitando, na direção da porta ladeada por um grande portão cinzento. Se abrigou de baixo da parte do telhado que ia além das dimensões retangulares da construção, onde a neve não atingiu.
O adolescente a seguiu logo depois, Ringo flutuando alegremente ao seu lado. De vez em quando o garoto olhava para trás, checando se o barulho irritante das chaves do Klefki balançando propositalmente havia atraído algum morador até a fonte dos ruídos.
Ao chegarem na porta velha de madeira, ouviram um baque vindo do lado de dentro. Ally arrepiou-se: até aquele momento não percebera que a brisa gélida afetava sua nuca com tanta intensidade. Mafalda arregalou os olhos vermelhos e encostou a cabeça no portão, tentando ouvir mais barulhos estranhos. Ringo, porém, já identificara a chave correta e retirava-a de seu grande anel, encaixando-a no buraco da fechadura.
Ally deu um empurrão fraco e a porta escancarou-se sem causar um ruído contínuo e roco, mas chamando atenção inicialmente para suas dobradiças amareladas que uivaram quando foram remexidas em seu sono profundo.
— Ninguém entra antes que o outro, vamos entrar de uma vez só, tá? — silvou Ally, a voz afetada pelo nítido medo.
Ignorando o pedido, Mafalda pulou na frente dos dois e seguiu pelo corredor escuro e largo que se iniciava ali mesmo. O garoto a seguiu com cautela, embora seus olhos não pudessem distinguir as formas estranhas e escuras que começaram a aparecer do outro lado do balcão comprido localizado á direita do corredor. Então sua visão foi ofuscada e ele tapou os olhos: A Kirlia brilhava a dois metros dele como se fosse feita de luz, e não de matéria sólida. Seus olhos vermelhos deixaram de ser a coisa mais notável no cenário: fileiras de estantes cheias de livros de inúmeras cores e tamanhos agora se desprendiam da atmosfera gelada e difusa e passavam a se destacar nas estantes de madeira, com cada uma tendo cinco ou seis andares.
— É mesmo, Flash. Ainda bem que você está com a gente, Malf.
O chão não era de cera, como na casa da senhora Lavender. Placas enormes de uma cerâmica de mármore branca conjuravam conforto com as paredes bege. O balcão comprido, de madeira assim como as estantes, era encimado por uma cobertura de plástico que não permitia que a madeira escura acumulasse a poeira que se desprendia do teto de gesso cinzento.
Não deu outra: Ally logo correu para as estantes sem reparar, por exemplo, na bonita cesta de palha onde vários marcadores de livro coloridos esperavam um leitor esquecido os apanhar para depositar em alguma página.
— Tantas sagas, tantos clássicos e trilogias! — arfou, passando o dedo pelas lombadas distintas dos livros. — Ah, olha! Eu queria tanto ler esse livro! — Ele apoiou a ponta do dedo na extremidade superior de uma das lombadas e retirou um livro branco, de capa dura e detalhes prateados por toda sua aparência. No meio da capa, uma imagem descolorida de um cisne em um lago admirava, com o pescoço longo esticado, o título denominado “Eterno Adeus”. Ele não devolveu o livro á sua estante, abraçando-o e se decidindo a levá-lo consigo.
Ringo flutuava pelas estantes entediado, não prestava atenção em nada por muito tempo. Mafalda, pelo contrário, catava todos os títulos jogados no chão e os devolvia aleatoriamente á estantes, levando somente as cores em consideração para sua organização improvisada.
Passados alguns minutos analisando as capas e arrumando as prateleiras, ouviram um chacoalhar em um dos cantos que atraiu a atenção de Mafalda. Ela se dirigiu para além da estante onde Ally empacara, lendo as primeiras linhas de seu mais novo livro. Ao perceber que sua luz se afastara e que as palavras se tornaram apenas vultos escuros nas folhas, o garoto percebeu que a Kirlia voltara sua atenção para outro ponto do lugar e se dirigiu a ela. Ao chegar, encontrou o Pokémon psíquico brilhante ao lado do chaveiro, que parara de balançar.
— Mas o qu... — balbuciou.
Em um determinado ponto, o universo mágico de leitura e fantasia guardados com pudor nas estantes limpas convergia em uma cena de batalha: uma estante jazia caída e partida ao meio brutalmente. Lascas e pontas afiadas de madeira emergiam das extremidades de cada metade, e livros esparramados tiveram em sua maioria as capas e páginas arrancadas — Ally soltou um gemido de pena e medo ao ver as obras estragadas pelo que pareciam ser dentes afiados, devido ao rastro que deixaram.
— E-eu espero muito... — começou, olhando ao redor. Mafalda ainda encarava quieta um canto escondido pela madeira e papéis destroçados, sem se mexer. — Que a coisa que fez isso não esteja aqui ainda.
Ringo flutuou lentamente até um buraco na parte interna de uma das estantes espatifadas e chacoalhou suas chaves. O barulho ecoou, amplificado, pela biblioteca silenciosa, e uma coisa se mexeu dentro dos destroços.
Mafalda encarou Ally, que devolveu o olhar — e desviou logo depois, visto que a luz emanada pela Kirlia fez sua retina arder. Ela grunhiu como se desse um aviso, e deu alguns passos para a frente. Utilizando sua avançada telepatia, moveu alguns livros para fora da montanha de material destruído e fez outros despencarem com um barulho surdo e incomodador.
Um odor estranho que já existia antes, mas disfarçado pelo cheiro confortável do papel amarelado dos livros, se espalhou pelo lugar. Era um cheiro estranho e que causou leve náusea no garoto ao aspirar.
Estava cheirando a cadáver.
— Também está sentindo isso, né? — O garoto alarmado inspirou com rapidez, e Mafalda fez que sim com a cabeça. — Ringo, eu não sei se você sente cheiros. Se sentir, vai saber do que eu estou falando, né? — argumentou, quando o Klefki reclamou por não estarem se dirigindo também a ele.
Ally deu mais passos na direção da bagunça. Ao chegar perto, o odor havia se intensificado: o que quer que fosse, estava ali, escondido em baixo dos destroços inertes das histórias escritas. Um livro grosso havia sido colocado precariamente de modo que impedia a visão daquele canto da sala através de uma grande fresta na madeira lascada. O adolescente pegou este livro pela lombada, movimentou-o e se certificou de que algo estava apoiado nele. Então, tomou coragem e atirou-o longe.
A coisa toda desabou: um estrondo forte e logo após, um rugido estranho. Mafalda andou para trás, seguida por Ally que focava toda a sua atenção na forma negra, comprida e cheia de dentes ensanguentados que agora era visível e que rasgava alguma coisa morta que ninguém se inclinou para identificar. Ao perceber que seu subdesenvolvido esconderijo fora arruinado, a criatura selvagem se virou na direção de seus visitantes.
Seu corpo amarelo era pequeno e estranhamente familiar a uma garota. Seus braços e pernas terminavam em pés e mãos pretos; as pernas tinham um formado engraçado que lembrava um sino, devido a sua grande proporção quando chegava ao tornozelo. Seu rosto, ao contrário do que imaginaram, tinha tiras saídas das têmporas que se aproximavam a mechas longas de cabelo, e era fofo e gentil como o de uma criança: era de sua nuca que saía a grande e ameaçadora boca faminta e selvagem.
Não houve mais tempo para avisos: A Mawile soltou um grunhido alto e rosnou de forma perturbadora, rangendo seus dentes pontudos e arreganhados como uma planta carnívora exageradamente crescida. Ally agarrou o braço de Mafalda, mas não prosseguiu. Estava aterrorizado demais para dar algum passo. Já havia lido sobre aquele Pokémon antes! Mas na prática era bem diferente, já que na ilustração do livro dado pela sua avó o ser não estava devorando outro bicho e exibindo sua aparência de caçadora sanguinária.
A fada avançou na direção deles como uma bomba pesada e mortal. Mafalda guinchou e segurou firme no braço de seu treinador, fazendo uma tentativa malsucedida de se teleportar logo depois, que resultou apenas numa queda patética onde ficaram vulneráveis.
Ao perceber a mudança de rumo, a Mawile encarou os invasores de seu território com desprezo e rosnou.
“Fora!” berrou, ao passo que Mafalda ajudava seu treinador a se levantar. “Esse lugar é meu!”
Ninguém se atrevera a responder. Ally ainda abraçava seu livro: iria salvar ao menos um do seu tesouro. Á sua mão, uma Mafalda desesperava atirava folhas reluzentes e coloridas na direção da predadora enfurecida por ordem do garoto, mas o Magical Leaf não causou o menor dos danos. Foi então que algo que Ally temia aconteceu: Ringo se posicionou atrás da segunda fada metálica, mais perto do que qualquer criatura viva que temesse ser partida ao meio iria querer chegar. Então ele abriu seu anel e, para surpresa de todos, atirou várias de suas preciosas chaves dentro da boca da Mawile, que pousaram em sua língua colorida de vermelho.
Aquilo causou um notório incômodo no Pokémon que, mais irritada que nunca, agitou os punhos que começaram a assumir um tom alaranjado e infringiu um soco potente no Klefki. Faíscas chamuscadas se espalharam após o impacto e o molho de chaves caiu inconsciente, inúmeras chaves se espalhando pelo chão.
— Ringo! — gritou Ally. — O que famos fazer? Ai... Espera, Malf, Thunder Wave!
Obediente, a Kirlia fez força e emitiu uma carga elétrica que viajou em menos de um segundo pelo ambiente e atingiu a Mawile, que vinha em direção a eles com os punhos em chamas.
O Pokémon selvagem teve seus movimentos travados, caiu de um jeito patético no chão para uma criatura tão feroz. Sua enorme boca secundária se agitava inutilmente, derrotada.
Descrente do que acabara de acontecer, Ally se apressou em absorver o Klefki á distância para sua pokébola, mas não se deu o trabalho de coletar as chaves: para isto, teria de passar pela fera ferida e imóvel, que ainda os encarava com um olhar indecifrável.
A Kirlia arquejava, perturbada com aquilo que acabara de presenciar. Puxou o braço de seu treinador para chamar a atenção dele e ir embora.
— Espera. E... Essa coisa? — Ele apontou discretamente para a Mawile paralisada logo á frente deles. Mafalda a encarou com medo estampado no rosto e agitou os braços, indecisa.
Ally suspirou, os pelos da nuca arrepiados. Catou uma pokébola do bolso, atirou-a na direção da criatura que, quer ele engolisse o fato ou não, era uma fada também.
Antes que pudesse verificar se a pokébola parara de balançar ou de piscar, Ally a colocou de volta no bolso. Segurou a mão da Kirlia e pediu para que seu teleporte os levasse de volta para a casa de sua querida avó.
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