Notas iniciais
Esta carta também pode ser lida através do link: http://valtica.memorialaddress.org/cartas/22avenida.htm

24 de Abril de 2010

Caro Chase,

Resolvi escrever esta carta para lhe falar que me lembrei de você. Lembrei-me de quando nos falamos aqui em Nova Iorque a respeito das luzes da cidade. Daquela vez em que nos encontramos naquele bar, perto da loja em que você me comprou o maço de cigarros que me devia. Lembra-se? Já era noite e as luzes daquela avenida se acendiam devagar enquanto os carros começavam sua jornada para as noitadas intermináveis. Eu lhe perguntei sobre quando nos veríamos novamente, e você me respondeu que se dependesse da sua vontade, no próximo dia já viajaríamos juntos para a Tunísia. Quem me dera se a vida fosse fácil assim! As coisas aqui não estão saindo tão bem como eu planejava.

Comprei aquele apartamento, naquela avenida. Depois de todos estes anos, olhei da minha nova janela para a linda e iluminada avenida lá embaixo e imediatamente me lembrei de você. Foi como um rápido flash, e de repente Chase Mayfield apareceu em minha mente para alegrar-me. Recordo-me de como me diverti naquela noite como nunca antes havia me divertido, e de como a brisa movimentava seus cabelos tão suavemente. Ao pegarmos aquele táxi, eu sabia que a noite iria ser inesquecível. Infelizmente nem tudo acontece como queremos. Dois meses depois desse nosso encontro agradável, sofri um acidente que me fez perder parte de minha memória. Sei que pode parecer estranho ou engraçado, mas minha amnésia parcial retirou quase seis anos de minha vida num segundo.

Não me lembrava mais do que aprendi na faculdade, de meu trabalho, de meus amigos, e principalmente de você. Eu via inúmeras fotos suas em meu computador, nos porta-retratos, nos presentes que você me enviava e nada me fazia lembrar aquele lindo rapaz de olhos azuis que, segundo meus pais, me amava incontestavelmente. Lamentei por três anos não me recordar dos momentos felizes que passamos juntos, dos sorvetes que você me comprou, das voltas que eu dei no parque com você sempre ao meu lado. Perguntava-me o porquê de você não estar em minha vida agora, neste momento tão difícil. Sempre me falavam que você era um homem ocupado, que tinha uma carreira na Tunísia e que não podia vir para cá com tanta freqüência. Falaram-me também que duas semanas antes do dia fatídico havíamos terminado nosso relacionamento.

Lamentei mais uma vez.

Hoje, sentada aqui na sacada com um lápis na mão e o olhar direcionado para a iluminada avenida, recordei-me de tudo o que passamos. Sou capaz até de descrever a maneira como você tocava tão sutilmente meus lábios com os seus para beijar-me com paixão. Minha mãe sempre diz que um dia pretende te encontrar de novo. Ela amava fazer os bolinhos que você sempre pedia. Sabe? Lembrei-me até desses bolinhos. E, principalmente, lembrei-me do quanto ainda te amo. Espero que esta carta chegue com segurança até suas mãos, aí na Tunísia. Não espero resposta. Somente leia.

Com amor e memórias,

Lily