Palavras Arremessadas
1 Ebúrneo
Notas iniciais
(Giuliana Paixão)
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”
(Florbela Espanca — Fanatismo)
Ela enlouquecia qualquer um.
Passeava de um lado a outro, jogando seus longos e lisos cabelos negros como o céu noturno. À luz do luar, seu sorriso cintilava e sua silhueta dançava sozinha com o mais gracioso andar.
Por onde seus pés corriam, os homens ao chão caíam para beijar-lhe os rastros. O vento, que parecia invejoso da sua atenção, golpeava seus sedosos cabelos, e em vão tentava desarrumá-los. E apenas o que conseguia era fazer o aroma floral daquela beldade espalhar-se pelo local, deixando homens e mulheres ainda mais extasiados.
Alguns ficavam perplexos com sua beleza. Outras se perguntavam que justiça divina criou aquela criatura em meio a tantas pessoas normalmente... Normais.
Porém, atrás daquele belo rostinho de anjo, não havia exatamente uma mulher feliz. Não... Parecia que a beleza suprema não era o suficiente para ela. Precisava de mais... Precisava de algo mais do que simples ardentes olhares maliciosos ou fulminantes olhares de inveja.
Ela queria encontrar o amor naquele que a enxergasse como de fato era. Almejava conhecê-lo casualmente e de tanto sonhar, mais frustrada ficava ao perceber que ansiedade não levava a nada.
Então, sozinha podia continuar a andar, fingindo não notar aqueles pares de olhos seguindo-a a todo o instante. A todo o instantes... A todo o instantes homens pegavam sua mão, confusos, loucos por ela... Aquele fanatismo estava ficando doentio e o medo passou a acompanhá-la.
Seu espírito cinzento marchou sem fim, encontrando um beco no início de uma rua... Aquela beleza toda despertou os mais hediondos desejos.
Sua alma perdeu-se na loucura... Tão pura, continuou, mas seu corpo não.
Então, deitada sobre o caixão de madeira, de olhos fechados, mãos cruzados, sem respirar, não parecia mais aquela mulher perfeita, que passeava graciosamente pelas mesmas trajetórias. Os olhares agora estavam baixos... O silêncio lúgubre... O vento já não soprava e o aroma floral não perpassava.
Sozinha, fechada naquele túmulo, continuava linda. A pele como ebúrneo, os olhos tão lindos eternamente trancados... O coração, jamais conquistado.
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