Palavras Ao Vento
3 Capítulo 3
Continuamos vasculhando o templo, e continuei calada, enquanto Sieghart parava em cantos e paredes a observar. Eu sentia que ele estava ficando cada vez mais tenso. Provavelmente estávamos chegando perto do nosso destino.
Preparava-me para um grande impacto psicológico. Afinal, envolvia meu pai, e meu desejo maior... o de vê-lo novamente, à salvo, feliz, ao meu lado...
Até que comecei a sentir algo estranho no ar. Um sentimento que me fez olhar em uma direção. Sieghart também notou algo, e fomos juntos até o fim de um corredor. Ele apalpou a parede e revelou um antigo sistema que fez abrir uma passagem secreta. O vento passou por nós entrando no local com força, indicação de que o local não era aberto faz tempo. Ele olhou pra mim, e assenti — desembainhamos nossas espadas silenciosamente.
Passamos a descer um longo corredor circular de escadas, estreito e com iluminação artificial de cristais brilhantes. Mantinha-me logo atrás do imortal, olhando para trás para conferir se estávamos realmente a sós... e chegamos ao final da descida, que dava em um salão vasto.
Estava precariamente iluminado por cristais. Isto porque a maioria deles estava quebrada – seus fragmentos jaziam apagados ao chão. No centro do salão, mas ligeiramente mais próximo da parede oposta, havia uma plataforma circular, altamente suspeita. Existiam portas nas outras paredes, e resolvemos verificá-las antes.
Nos separamos ali, já que não havia mais ninguém, e arrombando as portas verificamos que se tratavam de depósitos de ingredientes e salas com diversos livros e esquemáticos de máquinas tecnomágicas.
– Se tratam de portais. Mas não são portais de tribos demoníacas... são feitos de magia de Ernas!
– Estão... ou melhor... Estavam tentando abrir portais para Ellyos...?
– Talvez não.
– O que quer dizer? Planejavam ir pra outra dimensão que não conhecemos?
– ... Conhecemos também a não-dimensão...
A não-dimensão... é claro! A fenda dimensional na qual Elscud provavelmente está!
– Tem algum jeito de reativar o portal!? – falei, um pouco mais agitada.
– Está maluca?? Não sabemos que tipo de coisa pode sair daí! – Ele se exaltou
– ... – Ele estava certo. Não poderiamos fazer isso, era muito perigoso.
Ele continuou virado para os papéis, e eu resolvi seguir na direção da plataforma. Aproximei-me devagar, com as espadas embainhadas.
Parei a cerca de um metro da mesma. Olhei para a plataforma no chão, e fui erguendo os olhos, para onde apareceria o portal – imaginando ser do mesmo tamanho dos das tribos demoníacas, aqueles encontrados em Arquimídia. Comecei a sentir certa nostalgia, enfrentando tais oponentes tão poderosos... e acabei não percebendo o aumento sutil de energia mágica no ar.
Estava ao chão. Sieghart pulou em cima de mim, me afastando da grande fenda azulada, que se erguia de poucos centímetros da plataforma até o teto do salão. Era levemente diferente dos de arquimidia. Além da cor, eles eram alongados, e pontudos em seu eixo maior.
Fiquei atônita e acabei nem me preocupando em xingar ele por ter me derrubado, mas logo me ergui e coloquei minha mão à espada.
Aguardamos alguns segundos, e logo começou a aparecer uma figura disforme, com cor azulada – parecia ser feita do próprio portal. Logo aparecia mais definida, tomando uma forma humana, mas ainda coberta de energia. Desceu um pé... Depois o outro. E a figura humana se separou do mesmo, que explodiu em energia, iluminando o salão e os cristais apagados.
A sala ficou bem iluminada, e os instrumentos e dispositivos ficaram operantes. O portal se dissipou completamente e a figura lentamente perdia a cor azul...
– PAI!!!!
Mal vi os cabelos rubros, saí correndo para abraça-lo, mas fui impedida por Sieghart, que puxou meu manto.
– O QUE É ISSO! ME SOLTA!!
– NÃO, ELESIS! AGORA NÃO! ESPERE!
Com o rosto enraivecido, voltei a olhar Elscud. Seus olhos estavam fechados, e ele estava exatamente como o vi pela última vez, sem envelhecer um único dia. Soltei lágrimas e repuxei um pouco meu manto, mas Sieghart não me soltou.
Depois que todo o brilho azul se foi, Elscud pôs um joelho no chão e abaixou a cabeça. Sieghart esperou que me acalmasse um pouco e falou para mantermos distância dele, por ele já ter visões e a impressão de que isto era um problema.
– Pai...?
– ... — Ele levantou a cabeça, devagar, revelando seu rosto jovem. Só depois abriu os olhos, revelando azuis da cor do portal. Em sua testa havia três pedras brilhantes, bem semelhantes a da Mari.
– Essas são... pedras da alma. – Sieg falou, e eu estava ainda em transe.
– Pai... sou eu, Elesis...
Os olhos azuis foram diminuindo seu brilho, e o rosto de meu pai ficou mais natural...
E ele deu aquele sorriso.
Era meu pai. Era definitivamente meu pai!
Soltei-me de Sieghart, correndo para abraça-lo. Ele ainda tentou me segurar, mas acredito que ele também conseguiu ver a humanidade do ser. Não parecia uma ameaça.
Eu o abracei. Derramei lágrimas, em um sentimento único, de alívio, de satisfação. Sentimento que só teria ao tocá-lo outra vez. Até que eu senti algo mais.
Não parecia uma ameaça.
Não parecia.
Senti um choque percorrer o meu corpo. Era doloroso, e parecia que minhas forças estavam sendo drenadas. Até que senti um vento quente no meu rosto. Sieghart me tirou das mãos dele após uma estocada poderosa contra a pequena parte do peito de Elscud que não cobri com meu abraço.
Elscud e eu nos separamos como se explodisse algo entre nós, me fazendo cair de costas e Elscud recuar alguns passos. E finalmente ele pronunciou uma palavra.
– Tolos.
– QUEM É VOCÊ?? – Sieghart rugiu, e sua fúria começava a crescer.
– Eu?... Eu sou Elscud Sieghart. Lider dos Cavalheiros Vermelhos de Canaban... Ou deveria dizer... “Ex-Líder”? — disse ele. Se aquela era realmente a não-dimensão... meu pai tinha sido dominado por alguma coisa.
– Ora seu... seu.... im..postor!!!!! – demorei-me a falar, em meio a dor.
– Impostor? Sou eu mesmo sua bobinha!
Sua voz... o jeito de falar... era idêntico a ele... mas eu via algo diferente...
Seu olhar... não possuía o carinho de meu pai.
Ergui-me, desembainhando as espadas.
– Você... NÃO É MEU PAI!!!
– ELESIS, CUIDADO!
Uma espada surgiu na mão da figura, com um brilho azulado, logo se transformando na espada que meu pai usava. Urrei com mais este insulto à memória de Elscud e corri na direção dele, erguendo os sabres.
– TERREMOTO! – Brandi meus dois sabres com toda a força, fazendo-os se chocarem contra a espada do guerreiro.
– Você ficou forte... muito forte!
Meus olhos se arregalaram, e flashes de memória passavam pela minha cabeça enquanto lutava contra a figura, e nem reparei se Sieghart estava me ajudando. Para mim era uma luta que teria que vencer sozinha — Algo estava dominando o meu pai, e eu tinha que vencê-lo.
– CAOS FINAL!!!!! – Invoquei as chamas, e em um golpe giratório desarmei o impostor. Ele caiu para trás.
– ... já está bom, filha! Pode parar!!! – Ele fez um rosto sofrido, caído no chão. Ergueu a mão esquerda em sua súplica, antes de finalizar o ataque.
Hesitei.
Minha espada parou a poucos centímetros dele. Ele parecia subjulgado... mas meu corpo estava muito próximo.
– NÃAAAAAAAAAAOOOOOO!!!!! — Sieg gritou.
Sangue.
Uma espada feita de energia azulada transpassava meu peito.
– Tsch... – A espada desapareceu, e Elscud me segurou pelo pescoço. — ... Achei que ela fosse me matar.
– ELESIS!!!!!!
O impostor me jogou para o lado, me deixando deitada com as costas ao chão. Meus olhos estavam arregalados de tamanha dor.
A fúria de Sieghart estava completa, e ele a disparou, se cobrindo de chamas negras.
– Nunca imaginei que ela se tornaria tão habilidosa... – ele começou a sorrir, com um rosto medonho. Não existia nada de Elscud nele. — Ela me superou.
E a criatura fez aparecer dois sabres. Idênticos aos meus, se pondo ao combate. Ele podia aprender nossas habilidades só pelo toque?
Sieghart disparou, e com sua lâmina travava um verdadeiro combate. Rápido o suficiente para só ser possível acompanhar com o olhar, era possível ver que o rosto da figura começou a perder o sorriso. A luta se tornou tensa a ponto do chão começar a fumegar dos resquícios de poder mágico que eram espalhados em cada impasse.
Até que Elscud se afastou dele. Ele ficou de pé entre mim e Sieghart.
– O que você quer de nós, Pedra das Almas!?
– De vocês? Hahahahahah... Este mundo não é para lixo como vocês!
– Não ouse falar assim de nós!!
– Não ouse você achar que é superior a mim. Vou tirar de vocês tudo o que tem! Não há razão para viverem neste mundo!
– ... Você está consumido pelo ódio!
– Ódio...? Ora, não é o que todos vocês sentem? Afinal, vocês se destroem, lutando para impor suas idéias, suas vontades! Estou fazendo a mesma coisa. Qual é o problema disso?
Ele olhou pra trás, e cravou sua espada em minha perna.
– O que acha disso, Sieghart? Gosta de vê-la assim? Não sente ódio?
– AAAARRGHHHH!!!
Sieghart, gritando, deferiu um golpe certeiro em Elscud...
E eu... Estava fora de meu corpo?
Depois de um grande brilho no local, Elscud caiu para trás e meu corpo se ergueu, para a surpresa de Sieghart. Os meus olhos se tornaram azuis de energia, antes de voltar ao rubro natural. Meu corpo estava possuído pelas Pedras da Alma, que rapidamente ficaram visíveis em minha testa.
Eu podia ver as coisas claramente, em terceira pessoa... e ao olhar para Elscud, vi que seu corpo começava a se desfazer em um brilho azulado.
– Não... NÃO!!! PAI!!! — falava em vão.
– Não pode ser! – Sieghart pronunciou levemente.
– E então... Ainda tem coragem de levantar sua espada contra mim, velhote? — disse a criatura que dominava o meu corpo.
– HÁAAAAA!!!!
Sieghart avançou novamente. Mas uma diferença no padrão pegou Sieghart de surpresa, o repelindo para trás.
– Ahahahahahah..... Quem diria... você treinou comigo antes de chegar aqui... Muito fácil! — Minhas memórias agora eram acessíveis a ele...
E Sieghart investiu novamente, mas dessa vez se certificou de usar golpes que não tinha usado contra mim quando viemos. Estava sendo uma luta verdadeiramente difícil. Meu corpo unido às pedras estava muito mais forte, e defendia e revidava os ataques com facilidade.
– Chega de brincar.
De meu corpo, surgiu um brilho intenso e uma onda de impacto que destruiu tudo naquela sala. Sieghart foi arremessado em uma das paredes, com força suficiente para fazer a mesma rachar-se atrás do imortal.
– Agora... imagine o poder que terei... tomando seu corpo para mim...
– ... não... .nunca!!! ... Ungghh!!! – Sieghart gemeu de dor. Aquilo tinha sido uma amostra pequena, muito pequena, do poder que dominava ali.
Sieghart tentou achar forças para liberar toda a fúria em chamas, mas não encontrou.
Não havia esperança.
– Elesis... não... Não se deixe... Ungghhh... dominar! .... AAARGH!
Meu corpo dominado não respondia ao chamado. Eu me sentia pairando ali, como se fosse apenas uma espectadora, incapaz de fazer qualquer coisa. Meu pai desapareceu. Meu corpo estava tomado... e Sieghart não possuía mais forças.
– Ahahahah!!! Eu sinto.... eu sinto!!!! O PODER DO IMORTAL É MEU!!! – Em uma risada frenética, o inimigo comemorava sua vitória. – E assim... Finalmente destruirei toda essa criação tão suja e tão adorada pelas deusas! Nós somos os verdadeiros! Nós somos os poderosos!! NÓS SOMOS OS PERFEITOS!!!!
– ... heheh...
– Sieghart. O que te faz rir diante disso? Está feliz com o seu novo deus?
– Não sirvo a você, seu tolo.
– ... imortal desprezível... – Abriu outro sorriso macabro.
– Você não possui nada de deus.
Em um movimento que não era possível ver a olho nu, a mão da criatura levou o pescoço de Sieghart a se chocar na parede novamente. Os olhos psicopáticos pareciam querer pulverizar cada osso do Imortal.
– Ahh, é mesmo?
– Você não tem amor.
O pescoço dele era pressionado, e parte dele começava a se partir.
– E me diga... O que eu ganho com isso?
– Você não ganha nada... A não ser que você se deixe ser amado...
–--
Eu estava ali a pairar, no momento da explosão que Sieghart era arremessado à parede. Até que olhei para trás, e vi, sentindo todo o meu ser se aquecendo como se aquela imagem alcançasse todos os meus cinco sentidos. Eram Ernasis, Lisnar e Armenias, ao lado de um brilho branco, do qual senti pureza e vivacidade – Agnécia.
Ernasis se aproximou, e seu tamanho imenso era imperceptivelmente mudado para o meu tamanho, até que ficamos frente a frente.
Continuei em silêncio. A proximidade fazia com que meu sangue fervesse, e se ela me tocasse acredito que estaria pulverizada. No entanto, senti algo inesperado: Afinidade. Talvez não seja apenas em nossa aparêcia e o nosso nome que somos parecidas.
– Temos orgulho de ti. Fizeste um bom trabalho. – Ela pronunciou as primeiras palavras.
– ... Não foi o suficiente... – respondi com pesar.
– É claro que foi.
Outra pessoa falou. A voz vinha de trás de mim. Fiquei completamente gelada.
– ... Pai...
– A presença de vocês ali atraiu os espíritos gananciosos selados nas Pedras da Alma... e a fenda dimensional foi aberta. Fora da fenda, finalmente minha alma encontrou descanso. E... Estou muito orgulhoso de você, minha filha.
Pulei em seus braços e me derramei em lágrimas. Era como se tivéssemos todo o tempo do universo ali... e Ernasis pareceu não se importar. Pude sentir todas as minhas angústias saindo de mim. Todos os medos, todas as dúvidas...
Aquilo era o céu?
Mesmo se fosse... não podia continuar ali.
– E... Ernasis... ... Sieghart precisa de ajuda... o que é aquilo? Como ele vai derrotá-lo?
– Construídas a partir da ganância de muitos humanos daquelas terras, as pedras da alma foram criadas para terem o poder que supere a todos os outros existentes em sua dimensão. Instável e incontrolável, foi selada na fenda dimensional entre Ernas e Ellyos... — Ernas explicou.
– Quando fui apreendido nesse lugar, as pedras dominaram o meu corpo... não pude sequer lutar! — disse meu pai, com muito peso e culpa.
E eu entendi a razão de nem Sieghart dar conta daquilo. Era um poder inimaginável... e Ernas poderia deixar de existir.
Mas olhando para Sieghart, algo mais vinha em meus sentimentos.
Ernasis fechou os olhos, e com um sorriso deu mais um passo em minha direção.
– Entregue isto a ele.
Serena, estendeu a mim a sua mão, e ela depositou um brilho vermelho intenso. Ao segurar, mal pude conter em minhas mãos o grande poder que aquilo possuía.
– Não nos esquecemos de vós. Nem por um segundo. — Disse ela
– ... Obrigada...
– Vai, filha. — Disse meu pai.
Dei um passo para trás, fitando os dois... e em especial o meu pai. Com o rosto determinado, me virei e desci até Sieghart, subjugado pela criatura, posicionando-me ao seu lado, invisível a olho nu.
– Isto é um presente de Ernasis. – Sussurrei em seu ouvido, colocando o poder em sua mão direita.
–--
Sieghart, erguido na parede pelo pescoço, fechou o punho. Abrindo-o levemente, empunhou a arma que aparecia – Soluna.
Com toda sua energia de volta, ele liberou sua fúria, e o demônio o soltou devido ao poder.
– LÂMINA ETERNA!!!
O ataque, mesmo bem conhecido pelo oponente, quando perfeitamente aplicado e com o poder concedido pela deusa da guerra causa um dano devastador e indefensável. Os diversos cortes das múltiplas espadas cruzam o corpo possesso pelas Pedras da Alma. De todos os lados, em velocidade descomunal, o brilho azul que surgia a cada corte tentava conter tamanho poder, até que Sieghart lança um ataque superior com todo o conjunto de espadas em chamas negras, finalizando com a grande explosão.
Pessoas das terras mais longínquas poderiam ver o feixe de luz roxa a subir pelo céu.
Pedras caíam, e um guerreiro jazia no centro do abismo. Ajoelhado, mantinha os olhos fechados, com a cabeça voltada ao céu limpo. Não estava mais com a Soluna, e não moveu nenhum músculo por um longo tempo.
Abriu os olhos devagar, acostumando-se pouco a pouco à claridade do céu que entardecia.
Desceu a cabeça, para o meu corpo. A ferida em meu ventre, causada pelo ultimo golpe da soluna tinha desaparecido... E felizmente não existia mais traço das Pedras da Alma em mim. A missão foi cumprida.
– Elesis. – Ele me chamou.
Sem resposta.
Ele pegou minha mão. Meu corpo estava frio, e não sentiu minha pulsação.
– Você não pode morrer. Não...
Ele apertou minha mão e se deixou cair em meu peito, aos prantos.
– NÃO, NÃO, NÃO!!! EU DEVIA TER MORRIDO EM SEU LUGAR! EU DEVIA TER VINDO SOZINHO!!! NÃO POSSO SUPORTAR ISSO!!!
– Sieg... hart...
– ...!!!! E- ... ELESIS!!!!
– Não chore... eu consegui, não foi?
– C... ARGHH Elesis, conseguiu o quê????
– ... ver meu pai de novo. Consegui salvá-lo!
– Mas... você... Não diga isso!! Você não vai morrer agora!
– Já não preciso mais viver. Alcancei meu objetivo.
– N... não, Elesis... N...
E meus olhos se fecharam novamente... e expirei uma última vez.
Apenas saíam lágrimas do rosto de Sieghart. Seus olhos estavam fechados e seus dentes cerrados. Soluçava em silêncio, até se erguer novamente.
Encontrou sua Highlander não muito longe, e ao olhar pra trás novamente...
– Mas... o que...
Estava na realidade das almas. Via as duas grandes deusas ao fundo, entre elas Agnécia, e me via, ao lado de Elscud e Ernasis. Sieghart recompôs-se enquanto sorríamos pra ele.
– E este é o jovem guerreiro. Alguém diria que ele chegaria até aqui? Com certeza não. – Ernasis falou, e as outras duas riram levemente.
– Mas desde aquela época ele possui o espírito vivaz. – disse Lisnar
– E também desejava a sabedoria. – continuou Armenian
– E um guerreiro completo se tornou. – concluiu a primeira. Do que elas estavam falando?
Sieghart manteve-se em silêncio diante delas, abaixando a cabeça.
– Sieghart.
Ele olhou para mim, com um rosto triste.
– Eu estou bem, Sieghart. Estou com meu pai...
E ele não disse nada. Apenas soltou um sorriso de canto... mas eu conhecia ele. Ele queria dizer que estava tudo bem... mas por dentro ainda existia um pesar.
Ernasis não parou de sorrir. Ela era onisciente? Não sei dizer, mas parecia conhecer todos os meus pensamentos... e isso a fez agir.
Lisnar e Armenian se aproximaram de nós, e a luz de Agnécia veio ao lado delas. Todas elas tinham tanta harmonia... Pareciam uma só.
– Nós sabemos que este mundo ainda não está livre da maldade, mas não deixemos esta tarefa nas mãos de apenas um guerreiro. – Ernasis falou.
Lisnar tocou Agnécia, e parte do brilho veio para seu dedo. Ela se aproximou e levou a luz ao centro do meu peito.
E acordei numa intensa inspiração.
Estava de volta a Ernas, e Sieghart, que estava um pouco distante, correu até mim, e por minha vontade de me levantar me ajudou a ficar de pé.
Olhamos um ao outro em silêncio, e depois sorrimos.
E enfim um abraço. Em todo esse tempo ao lado dele, nunca tinha feito isso. Nem ao menos me imaginei abraçando aquele homem.
Seria isso paixão? Não... não estava apegado a ele...
Um laço fraternal? Eu sempre o achei um ultraje à família Sieghart pelo seu jeito de ser.
Simplesmente amor. Aquele que une as pessoas em uma só vontade: desejar o bem do outro. Eu poderia ficar com meu pai... mas o imortal viveria outros seiscentos anos... e se esqueceria de mim...
Não vai se livrar de mim tão cedo, velhote. Eu vou lutar ao seu lado até o fim de Ernas.
Ainda que palavras más sejam ditas, que promessas não sejam cumpridas...
Somos falhos, não somos?
Mas não significa que não podemos ser amados.
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