Viver exilado de sua própria tribo para qualquer um dos quinze clãs remanescentes dos Draconianos era tão miseravelmente desonroso quanto a sentença à morte dada por um crime que blasfemasse os nomes dos ancestrais. Porém, para Dekha'n, fora a melhor coisa que lhe havia acontecido.

Como todo o Draconiano, tinha uma estatura bem alta comparada aos humanos e corpo rígido, sendo necessário vários homens para derrubá-lo e ainda sim, não deixava de ser uma tarefa dificultada. Os Draconianos eram bípedes e cobertos por escamas em sua maioria de cores terrosas e alaranjadas, porém as variedades eram mais visíveis nos membros, o que determinava a qual tribo pertenciam.

Dekha'n amaldiçoava seus ancestrais por não lhe terem concedido asas no lugar de uma cauda, como os descendentes do clã de Beldraac, Garras de Diamante e Chefe das Quinze Tribos. Embora ela o tivesse salvado em inúmeras situações, o rapaz sempre contou mais com a agilidade e força de um guerreiro com astúcia e orgulhava-se disso. Suas garras e dentes também compensavam a decepção com os antepassados e seus olhos amarelados com pupilas em formatos de fendas enxergavam até mesmo dentro da alma de quem passava por eles. Os cabelos em crista eram castanhos escuro, ganhando destaque com as escamas avermelhadas e iniciava a pelagem entres os chifres pregados a estrutura do crânio semelhante a de um humano com um tamanho maior de porte médio em tons de navona, ganhando volume a medida que escorriam pela nuca e tomava um comprimento alongando-se até metade das costas. Além disso, o corpo era coberto de cicatrizes, grandes ou pequenas, profundas ou superficiais, porém todas contavam alguma história. Portava uma armadura de couraça, duas espadas curvas e pesadas e mais quatro adagas. Para Dekha'n, era o suficiente para sobreviver do lado de fora.

Aquela altura havia tornado-se um Caçador de Recompensas e tinha seus próprios negócios. Trabalhava sozinho, sempre com o pavio curto e tinha a vida de um nômade. Raras eram as vezes que dormia em alguma pousada para não chamar a atenção, principalmente pela sua aparência marcante e difícil de disfarçar. Mas isso também não era um incômodo, pois era preferível conservar a selvageria e a liberdade que tinha.

Em um dia de verão, havia retomado a viagem em direção à Eriel, Cidade dos Elfos Bardos em busca de um homem humano chamado Eadras Lamac, acusado de ter assassinado a própria esposa, os dois filhos, o cunhado e mais cerca de onze pessoas que não possuíam qualquer relação de parentesco. Até então, Lamac estava entre os dez mais procurados de Sephlee, uma das principais províncias do Reino de Eregard — Terra dos Homens, vivo ou morto e Dekha'n estava bem perto de colocar as mãos em seu prêmio. O Draconiano tinha uma reputação a zelar e conhecido entre outros Caçadores de Recompensa e alguns piratas, porém recentemente havia perdido todo seu dinheiro em um jogo de apostas com o adversário Zucharr, um Orc que trabalhava no mesmo ramo e liderava um grupo de mercenários. Por vezes Dekha'n havia sido convidado a juntar-se a pequena sociedade, porém a vida o havia ensinado a não confiar nem mesmo em sua própria sombra.

Sentado em um tronco velho que havia arrancado do chão de improviso, limpava os dentes com um galho fino após o desdejum de peixes na brasa e algumas doses de rum guardados no odre. Já havia apagado a fogueira e desarmado a tenda, pronto para partir. Apenas os assobios de pássaros marcavam presença no interior do bosque e para onde quer que olhasse, enxergava apenas verde. Dekha'n bufou de tédio e enfim levantou-se, jogando o galho longe para seguir viagem.

Ao abaixar-se para apanhar sua trouxa, parou imediatamente na posição na qual encontrava-se e aspirou os odores que inalavam suas narinas. O rapaz ergueu-se para concentrar-se melhor no cheiro, que misturava o perfume de Matíolas com suor e outros odores que culminavam a falta de banho. Passou também a ouvir passos a metros de onde estava e embora longes, para um Draconiano os sons dos passos eram quase perfeitamente nítidos. Dekha'n passou a vasculhar o bosque com o olhar e não demorou muito para que a silhueta de alguns homens fossem reveladas em meio aos troncos das árvores. Contou cerca de seis deles e seguiam em sua direção. O rapaz se abaixou retirando uma das espadas presas a bainha em sua costas e aguardou. Os homens espalharam-se e em breve, sumiram mata a dentro. Ainda desconfiado, o rapaz permaneceu atento sem baixar guarda. Tendo uma resposta apenas do silêncio, recolheu a espada e se ergueu.

Ao bufar mais uma vez, voltou-se novamente para a trouxa. Entretanto, ouviu um farfalhar rápido dentro arbustos a sua direita, o que foi o suficiente para agir e imobilizar o pescoço de quem quer que fosse, ergueu a figura no alto e armou as garras da mão desocupada, apontando-as para o rosto da possível ameaça. Dekha'n alarmou-se com a expressão assustada de uma moça com olhos cheios de lágrimas e imediatamente a soltou. A garota caiu no chão ofegante, em meio a algumas tossidas curtas.

Em um ligeiro momento, pôde observar alguns de seus aspectos e estava nítido que não era uma criatura comum de se encontrar. A pele imitava o tom de porcelana e os cabelos em um cinza níveo e pouco prateado fluíam até o comprimento do antebraço e quase cobriam os poucos vestígios de asas. No entanto, não foi possível fazer um apanhamento dos detalhes do rosto, pois estava de cabeça baixa. Antes que Dekha'n pudesse tomar alguma atitude, a moça voltou sua atenção para os arredores do bosque e levantou-se com pressa. Embora tivesse feridas espalhadas pelo corpo vertendo sangue prateado, ela correu.

—Ali está ela!

O rapaz ouviu de um dos homens que a pouco havia encontrado e foi o suficiente para sair de seu breve transe, já que havia se esquecido por um instante da presença do grupo no coração do arvoredo. Dekha'n finalmente apanhou sua trouxa e disparou para o tronco mais próximo, escalando até o alto abrindo caminho para para uma rota de fulga. Estava prestes a seguir seu rumo quando enxergou embaixo os seis homens em perseguição. Dekha'n notou estigmas gravados em todos, particularmente nos ombros, retratando brasões que o rapaz desconhecia.

—Quero um cerco! -Ordenou o que apareceu por último, apontando na direção para qual a moça percorreu enquanto segurava uma balestra em outra mão. -Acabem logo com isso!

Dekha'n decididamente voltou-se para a direção que o levaria até Eriel. Ao ergue-se para percorrer os próximos galhos, porém, hesitou. O rapaz ficou pensativo e logo após, deu meia volta.

...

As feridas tornavam o simples ato de correr o mais doloroso de todos e uma das asas arrancadas não favoreciam na fuga. Não compreendia o por quê de tamanha maldade, porém sabia que poucas eram as chances de entregar-se completamente livre de castigos por ter escapado. Uila sabia que não a matariam porque havia ouvido de um dos membros da Artilharia que era "especial", embora esta questão para ela ainda também não estivesse clara. De toda a forma, tinha de fugir. Afinal, a tortura em muitas vezes era um destino tão deplorável quanto a morte.

Aquela altura estava perdida e ao mesmo tempo pasma por ter chegado tão longe da clausura. Não sabia que direção tomaria e e os gritos dos artilheiros ressoavam cada vez mais próximos, fazendo-a perceber o quão lenta estava ficando. Um dos homens da Artilharia deixou os arbustos com uma cetra preparada em mãos.

—Ei, pare!

A moça o enxergou de relance e acelerou os passos deixando-o para trás inerte. No entanto, a distância o favoreceu quando apontou a arma na direção da garota e a acertou de raspão. Uila choramingou e cobriu o ombro pungente com o braço que ainda estava em boas condições.

—Tinha que errar a merda do tiro?! -Ouviu-se o capataz sibilar ao juntar-se ao autor do disparo com os demais para retomar a aproximação.

Uila não ousou olhar para trás em nenhum instante, preocupando-se em não tropeçar em nenhuma raiz que emergia da terra.

—É assim que se faz!

O capataz gabou-se e a moça sentiu uma lâmina atravessar-lhe o tornozelo após ouvir o som de um gatilho ser acionado. Uila gritou e imediatamente caiu no chão, contorcendo-se por um breve momento e visualizando por entre as mechas de cabelo no rosto uma flecha grande cravada entre o pé direito e a perna. Em segundo plano, enxergou o capataz abaixando a balestra após o tiro certeiro. Sua visão embaçada finalmente deu lugar a mais lágrimas e ainda sim, tentou reunir forças para se arrastar. Uma atitude inútil, pois todos os seis já encontravam-se ao seu redor. O capataz deu a volta e agachou-se na frente da garota, apoiando-se na balestra encostada no chão com uma das mãos. Ele ergueu a cabeça da moça segurando seu queixo para olhá-la nos olhos.

—Você está dando trabalho. Quase conseguiu desta vez.

O homem deu-lhe dois tapinhas no rosto e sorriu, o que fez com que Uila abaixasse a cabeça e desabasse em prantos e soluços. Ele ergueu-se novamente e ajeitou a balestra nas mãos.

—Levem-na de volta. Certifiquem-se de que isso não volte a acontecer de novo. Se houver uma terceira vez, mando-os diret... -A fala foi interrompida quando uma adaga atravessou-lhe o crânio e o corpo caiu para um dos lados.

Os homens imediatamente elaboraram uma formação de defesa, voltando-se para ângulos diferenciados apontando suas armas para o alto das árvores, priorizando a garantia de que a moça não escaparia novamente. Apesar de ficarem a postos de antemão, a figura de um homem-dragão retirando uma das espada da bainha nas costas e com sangue nos olhos, os fez estremecer.

—Para trás, aberração! -Pronunciou-se o mesmo homem que anteriormente havia errado o tiro com a cetra.

O homem-dragão passou a transpor-se de tronco a tronco em mobilidade ágil, de forma que os homens passassem encontrar-se em uma situação aturdida. Mais dois indivíduos foram derrubados pelo mesmo meio utilizado que levara o capataz a sucumbir, desalinhando a formação e deixando os três excedentes vulneráveis. O mais novo apanhou a balestra do capataz, posicionando uma nova flecha e a criatura enfim pousou ao chão detrás dos homens que se viraram imediatamente, enquanto o homem-dragão avançava em passos lentos e pesados.

Apontando para o peito do colosso, houve um novo disparo da balestra. Quando a flecha o acertou, a criatura parou imediatamente e olhou para seu dorso. A seta havia atingido a couraça, porém não havia se quer aprofundado tanto quanto o atirador gostaria. O homem-dragão olhou para os homens e retirou a flecha do peito, quebrando-a como um palito na mão desocupada e retomou sua marcha. Os homens recuaram e a criatura desviou da moça estirada ao chão, girando a espada dispondo-a de uma maneira que os executasse de imediato. Houve um grito vindo do mais novo, mesmo autor do último desfecho, instantes antes da cesura e depois silêncio.

Dekha'n assistiu os corpos por um longo instante, buscando dentro de si por um momento algum arrependimento que no seu interior não sentia. Gesticulou o braço de forma que o sangue sujando a espada, respingasse tracejando um vestígio retilíneo. O rapaz foi despertado de seus pensamentos, quando ouviu a garota claramente empenhada a não lembrá-lo de que ainda estava lá enquanto havia reunido forças para rastejar a árvore mais próxima e encostar-se no tronco. A dor, porém, estava longe de optar por discrição. Dekha'n recolheu a espada com pressa e virou-se para juntar se juntar a moça. O rapaz abaixou-se ao seu lado e moça continuava a esboçar pânico no brilho dos olhos, tanto quanto antes.

—Deixe-me ver.

Dekha'n aproximou as mãos possantes do ferimento e antes que pudesse tocá-lo, a garota recolheu o pé, fazendo-o bufar.

—Moça, se não tratar esse ferimento, vai apodrecer escorada nessa árvore. -O rapaz falou fitando a flecha ainda atravessada no tornozelo da moça.

Quando terminou sua pronuncia, voltou a olhar para seu rosto inchado e assustado, sem obter nenhuma resposta. Dekha'n suspirou fundo.

—Você não me deixa escolha.

O rapaz revirou os bolsos de couro presos a seu cinturão. Deles retirou uma frasco pequeno e retirou um pedaço de bandagem. Removendo a rolha do frasco, derramou sobras de um líquido transparente no tecido e voltou sua atenção para a moça.

—Isto é um entorpecente derivado da "relva do poente". Tem um efeito sedativo. Não tem gosto, nem mal cheiro e não tem efeitos colaterais. A não ser que prefira ficar embriagada, esta é a melhor opção para que eu possa tratar esse seu ferimento.

A moça olhou para a bandagem e voltou a olhá-lo com um expressão atordoada. Dekha'n suspirou mais uma vez, sendo este mais curto que o anterior.

—Parece que não entendeu nada do que eu disse... Muito bem. Relva do poente então.

Em um ato ligeiro, tapou a boca da moça com a bandagem. A garota agarrou-lhe o punho para lutar contra a força, porém enfraquecida, logo o soltou e adormeceu. Assim que certificou-se de que a moça realmente havia entrado em estado de inconsciência, Dekha'n retirou a bandagem mirando seu rosto amargurado e exausto.

—...O que é você?

Notas finais
Depois de muito tempo, estou voltando a ativa na escrita! Sempre gostei do universo de Fantasia que o RPG nos proporciona, ao mesmo tempo em que está envolvido em um romance que nos leva a adquirir um carinho especial por seus personagens e nos faça torcer por eles. Eu realmente espero que gostem do fundo do meu coração!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.