Paladin
42 CAPÍTULO 42: Fé
Alya se virou para Sophie, a preocupação em seus olhos cintilando, mas sua voz estava firme e decidida.
— Deixe a preocupação para depois, paladina. Seu irmão pode estar vivo. Vocês dois são filhos de alguém importante para mim, e eu juro que não vou permitir que nada aconteça com ele.
A jovem, ainda tomada pela ansiedade, apenas acenou em concordância, tentando controlar o turbilhão de emoções que a consumia. A antiga Sentinela da Esperança, percebendo a necessidade de pressa, deu a ordem. Partiram em um movimento uníssono e, num instante, as sombras de seus corpos desapareceram, tornando-se meros vultos na visão dos calouros que os observavam de longe. A velocidade era incompreensível para os que ficaram pra trás.
À medida que atravessavam a dungeon em uma corrida implacável, um som estrondoso reverberou pelos céus. O epicentro do barulho vinha do castelo no coração da cidade. E então, ouviram. O grito de Raziel. Um urro de dor profunda e desesperadora que congelou o sangue de todos.
— Raziel! — gritou Sophie, seus olhos se enchendo de lágrimas, sua voz tomada por um desespero que mal conseguia controlar.
Eles aumentaram ainda mais a velocidade.
(...)
Dentro da igreja, o garoto se encontrava de joelhos, seus braços tremendo, segurando-se contra a força avassaladora do instrutor. O ser sombrio, revestido em sombras e poder demoníaco, agora projetava uma mão fantasmagórica que se estendia em direção ao peito do jovem Paladin. O toque frio daquela mão penetrava sua carne como lâminas de gelo. Gritou em agonia, sentindo como se algo estivesse sendo arrancado de dentro. Era seu núcleo, sua mana, sendo sugada aos poucos pela criatura.
Tentava resistir, lutar contra a dor que o consumia, mas a escuridão ameaçava tomar tudo. Sua visão estava se apagando, seus sentidos sendo esmagados pelo peso da dor. E então, quando a escuridão parecia inevitável, uma voz suave e reconfortante ecoou em sua mente, como se soprada por um vento celestial:
Lembre-se da sua fé.
Piscou, tentando focar na voz que lhe dava forças. A imagem de Deus e do Arcanjo Miguel surgiu em sua mente. Sabia que seu poder vinha da fé, e naquele momento de desespero, se agarrou àquilo com todas as forças que lhe restavam. Lembrou-se dos meses meditando, em oração, estudando a fé e sua presença divina.
— Eu peço ao Arcanjo Miguel que me ajude a romper acordos e coisas das quais quero me libertar para alcançar a sabedoria espiritual e poderes mais sublimes. Invoco a poderosa presença para que ele me dê sabedoria, discernimento e intenção amorosa — murmurou, sua voz rouca, porém firme.
O ambiente ao redor começou a mudar. Uma leve brisa passou pelo salão, acompanhada por um brilho suave que parecia emanar de cima. As sombras do inimigo se contorceram, como se algo as estivesse desafiando. A mão do demônio vacilou, a pressão no peito diminuindo por um breve instante.
— Assim seja! — fechou os olhos com força, reunindo mais uma vez sua força de vontade.
Num instante, o céu acima da igreja se rasgou em um clarão, e uma luz divina desceu com a fúria de mil tempestades. Buracos nas paredes se abriram ainda mais, recebendo a luz que agora iluminava todo o espaço sagrado. O Instrutor deu um passo para trás, surpreso, mas não recuou por completo.
A luz tomou conta do corpo do paladino, e ele olhou para cima, seus olhos brilhando com uma nova esperança. Um sorriso se formou em seus lábios. Não estava sozinho.
— Apelo ao meu eu superior para que feche a minha aura e estabeleça um canal crístico para os propósitos da minha cura, para que só as energias crísticas possam fluir até mim. Não se poderá fazer qualquer outro uso deste canal que não seja para o fluxo de energias divinas — continuou, sua voz ganhando força.
À medida que falava, o chão ao redor começou a tremer. Rachaduras profundas se abriram, liberando uma luz dourada que serpenteava como raios, subindo em espirais ao redor de seu corpo. Seu oponente, agora enfurecido, atacou novamente, mas foi interrompido por um escudo invisível que impedia seus avanços.
Respirando fundo, sentindo uma energia divina preencher seu corpo.
— Agora, apelo ao Arcanjo Miguel para que sele e proteja completamente esta sagrada experiência.
Nesse momento, um clarão cegante cortou o céu, e a figura do Arcanjo Miguel desceu, suas asas abertas em glória celestial, lançando luz por todo o campo de batalha. Sua armadura brilhava como o sol, e em suas mãos, ele segurava uma espada imensa, com chamas azuis que crepitavam ao longo da lâmina.
O demônio rugiu de ódio, sua forma demoníaca tentando resistir, mas Miguel avançou, sua espada rasgando a escuridão ao redor. A espada atravessou a existência do ser como se nada fosse. Um golpe na própria essência da criatura. O grito gutural que soltou era mais que dor – era o som de sua própria destruição.
O garoto, agora em paz, observava a cena com um brilho de esperança nos olhos. O golpe final foi desferido. O Instrutor explodiu em uma nuvem de sombras que se dissiparam sob a luz do céu. O ambiente se acalmou, e Miguel, com seu semblante sereno, se aproximou de Raziel.
— Amém — disse, num sussurro, enquanto seu protetor o envolvia em suas asas.
O Arcanjo colocou o jovem suavemente no chão, como um pai cuidando de um filho. O cobriu com uma capa dourada, rica em luz divina, mantendo o corpo fraco protegido e aquecido. Seus olhos, de uma bondade infinita, pousaram sobre o rosto exausto do paladino, cujo corpo estava repleto de ferimentos.
Nesse momento, a porta da igreja foi aberta com violência. Sophie, Alya e os outros entraram correndo, seus olhos se arregalando diante da cena inacreditável que testemunhavam. Observou o irmão deitado nos braços daquele ser celestial o protegendo com uma calma sagrada. O brilho dourado ao redor dos dois irradiava por todo o salão.
— Raziel… — sussurrou, incapaz de acreditar no que via.
Todos pararam, estupefatos. Os olhos de Benhur, Alya e Darkke não conseguiam processar a visão diante deles. Ali, de pé, em toda a sua majestade, estava o Arcanjo Miguel, protegendo Raziel com seus braços e capa, como se estivesse salvando a vida dele com a própria existência. O silêncio pesava no ar, mas era um silêncio cheio de reverência, de admiração.
O arcanjo olhou para eles, sem dizer uma palavra, apenas acenando levemente, como quem entrega o jovem ao cuidado deles. Lentamente, se ergueu, estendendo suas asas luminosas. Antes de desaparecer, lançou um último olhar ao paladino, como se dissesse que a sua missão havia apenas começado.
E então, num piscar de olhos, a luz desapareceu, e a igreja ficou em silêncio novamente.
Sophie, com lágrimas nos olhos, correu até o irmão, seu corpo tremendo. Caiu de joelhos ao lado do corpo frágil, enquanto os outros, ainda em choque, não conseguiam desviar o olhar do lugar onde o ser divino havia estado.
— Está vivo? — perguntou Alya, quase num sussurro.
— Sim… — respondeu, ainda processando o que acabara de testemunhar. — Miguel o salvou.
O ambiente, ainda carregado pela presença divina, era um testemunho do milagre que acabara de ocorrer.
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