Paladin

27 CAPÍTULO 27: Família


O caminho de volta para casa foi envolto em um silêncio inquietante. Raziel não conseguia afastar da mente a imagem do anjo de asas abertas e a voz que o chamara por um nome desconhecido, mas de alguma forma familiar: Miguel. Ainda sentia o resquício da energia que o tomara antes de desmaiar, um poder que parecia vibrar sob sua pele, inexplorado, mas inegavelmente presente. O mundo ao redor parecia o mesmo, mas, dentro dele, tudo havia mudado.


Enquanto caminhava para casa, o telefone vibrou no bolso de sua calça, tirando-o de seus devaneios. Alexa havia mandado várias mensagens desde o ocorrido, cada uma demonstrando uma preocupação que nunca havia visto nela antes.


"Raziel, você está bem? Não respondia nossas mensagens, o pessoal ta preocupado!"

"Por favor, me avise quando puder."

"Raz?"

"É bom você responder logo!"

"Acho que vou aí te dar um soco se você não responder!"

"Amanhã você vai ver na academia, vou chegar te dando uma voadora com os dois pés!"


Ele deu risada pela sinceridade e pela intensidade das palavras dela. Respirou fundo antes de digitar uma resposta rápida, tentando acalmar a jovem: "Desculpa, Alexa. Estou bem agora. Só desliguei o disjuntor na cerimônia, mas já liguei a luz de volta."


Imediatamente, outra mensagem chegou.


"Ainda bem! Tava demorando pra responder, né, princeso?"


— Princeso? Até você! — murmurou rindo.


Após tranquilizar os outros amigos também, que enviaram mensagens similares, respirou fundo e decidiu encarar o próximo desafio: sua mãe. Ao abrir a porta de casa, sentiu o cheiro reconfortante de pão recém-assado e o som de alguém movendo-se pela cozinha. Parecia saber quando ele precisava conversar, mesmo antes que dissesse qualquer palavra uma voz o trouxe de volta para o planeta terra.


— E aí, como foi sua escolha de classe? — perguntou com um sorriso caloroso, embora já soubesse que algo tinha dado errado.


O jovem hesitou, incerto de como explicar. As palavras saíram, inicialmente tímidas, mas logo ganharam forma enquanto relatava os estranhos acontecimentos: o desmaio, a visão do anjo e, principalmente, o nome "Miguel". Quando terminou, sua mãe estava em silêncio, suas mãos paradas sobre o balcão.


— Miguel, — ela repetiu o nome, a expressão pensativa. — Arcanjo Miguel? É o que você está dizendo?


Raziel assentiu lentamente.


— Eu senti algo diferente, foi tão forte que simplesmente apaguei.


Ela franziu a testa e, após um momento de reflexão, colocou uma mão no ombro dele com ternura.


— Vou tentar te ajudar um pouco, filho. O Arcanjo Miguel é conhecido como o guerreiro divino, o defensor contra as forças do mal. Mas, para você ter uma visão dele assim... — parou e depois sugeriu: — Talvez você devesse procurar mais informações na biblioteca da escola. Tenho certeza de que encontrará algo que possa esclarecer isso.


O jovem acenou, um misto de alívio e frustração o envolvendo. Ir à biblioteca parecia o próximo passo lógico, mas, ainda assim, a incerteza o perturbava. Antes que pudesse se perder mais em pensamentos, sua irmã, Sophie, entrou na sala com um sorriso divertido no rosto.


— Princeso, vê se tenta não esquecer de ir até a ala dos Paladins. — cruzou os braços, inclinando-se contra a parede. — Mãe, a nossa Bela adormecida aqui desmaiou e perdeu a escolha das primeiras habilidades.


Raziel bufou, mas antes que pudesse protestar, Sophie continuou com um brilho malicioso nos olhos.


— Quem sabe um beijo de uma certa amiga sua tivesse te acordado mais rápido... Princeso. — piscou, lançando um olhar provocativo.


A piada não passou despercebida, e logo a sala foi preenchida por risadas. Sua mãe tentou conter o riso, mas foi impossível. Revirou os olhos, mas não pôde evitar um sorriso.


— Muito engraçado, Sophie. Muito engraçado.


Com a risada ecoando ao seu redor, Raziel percebeu que, apesar do peso de suas dúvidas, havia algo tranquilizador em estar cercado por sua família. O calor da casa, a presença de sua mãe e a irreverência de sua irmã traziam uma paz momentânea, uma pausa no turbilhão de perguntas sem resposta.


No entanto, quando se deitou naquela noite, sua mente voltou para a Priest que encontrara na biblioteca semanas antes. Talvez ela pudesse guiá-lo até os textos certos, aqueles que poderiam explicar quem era o arcanjo e se ele apareceu para Raziel, se tinha algum motivo. Amanhã, começaria sua busca por respostas.