Notas iniciais
Fic Leonetta

Violetta Castillo era linda e ela sabia disso. Era muito consciente da sua aparência, apoiada contra o corrimão do convés do navio Anna Creer, com a brisa que lhe agitava os cabelos e o pôr do sol que transformava em uma chama esplendorosa sua cabeleira em um vermelho dourado. O vento que vinha do mar batia direto em suas bochechas e os olhos castanhos brilhavam.

Só tinha dezessete anos e durante toda sua vida sempre a mimaram e protegeram. A mãe tinha morrido dez anos antes e ela foi criada por uma babá e por várias governantas cujo único dever era ensinar a jovem pupila as coisas que, em 1842, eram importantes para uma dama: tocar harpa e piano, pintar aquarelas sem graça, falar francês tão bem como a língua nativa, parecer doce, olhar ingênuo e infantil todo o tempo. Neste último aspecto, as governantas foram bem sucedidas — apenas em parte, embora Vilu fosse capaz de cumprir o papel de uma jovem bem educada quando lhe convinha, mas do contrário era uma verdadeira moleca, mais de uma governanta foi embora se desmanchando em muitas lágrimas por suas explosões, jurando não voltar, o que na opinião de Vilu dava igual. Não desejava aprender nada do que continham os livros. Queria viver a vida, não ler a respeito dela!

— Essa moça é uma ignorante! – Seu pai resmungou, indignado, em certa ocasião, sem faltar nem um pouco com a verdade. Vilu mantinha uma suprema indiferença diante da insistência das governantas que a forçavam para colocar alguma educação em sua cabecinha impertinente. Era um grande sofrimento para seu pai, descobrir que as poucas coisas que aprendia tinham que ser a força.

Ao conhecer seus planos Vilu chorou e esperneou, mas quando o seu pai se decidia era tão teimoso como ela. Finalmente, a moça se cansou e o pai, com ajuda da babá, conseguiu convencê-la da conveniência de seu plano. Era verdade que adoraria ser apresentada à rainha Vitória, que no quinto ano de reinado tinha vinte e três anos e, portanto, não era muito mais velha que a própria Vilu, mas a Inglaterra ficava muito longe e foi a quase sete anos que a deixaram. E se os homens não a achassem atraente? Talvez em Londres a moda fosse às loiras e não as morenas encantadoras. O pai e a babá, cada um a sua maneira, asseguraram-lhe que sua beleza era incomum e se sairia vitoriosa de qualquer comparação e Violetta se deixou convencer. No começo da sua adolescência era bela e formosa e nem lhe passava pela imaginação que algum homem não a admirasse.

Uma vez que a tempestade de acusações passou, o conde suspirou aliviado e disse a si mesmo que quando se reunisse com sua filha na Inglaterra teria que cuidar de corrigir seus caprichos. Depois se concentrou em fazer os acertos para a viagem de sua menina, coisa nada fácil nessas épocas turbulentas. Nos últimos tempos se falava muito de um bando de piratas que infestavam as águas portuguesas e faziam prisioneiros os navios que não navegavam armados. O conde se estremeceu diante da ideia de que sua filha caísse nas mãos de sujeitos que não teriam respeito pela sua inocência e a posição elevada da jovem.

Quando o conde ouviu mencionar de um amigo que zarparia no navio Anna Creer para a Inglaterra, pareceu-lhe uma resposta as suas preces. O navio Anna Creer estava emprestado da Inglaterra pela Marinha portuguesa, estava com proteção contra armas de fogo e equipado com artilharia. Nenhum pirata se atreveria a atacar um navio tão formidável!

Foi surpreendentemente fácil arranjar uma passagem para Vilu a bordo do Anna Creer. Fazia parte de um reduzido grupo de passageiros do navio que, até essa viagem, só realizava operações militares. Nem o conde nem a filha se perguntaram por que, de repente, o navio Anna Creer lhe permitia transportar civis.

Num determinado momento, Vilu se separou do pai com dúvidas de consciência: estava muito entusiasmada diante da perspectiva de conhecer a sociedade londrina e também lhe entristecia pensar que teria que deixar seu pai porque já se viam tão pouco. Além disso, ele garantiu que também iria mais tarde para a Inglaterra, sir Thomas lhe assegurou que adoraria a tia Elizabeth assim que a conhecesse. Ficou claro, desde o começo, que Martha acompanharia a jovem ama, e Vilu não sentiria muita saudade do lar e o conde estava seguro de que a deixava em boas mãos.

Duas semanas depois, com o navio Anna Creer em alto mar, Vilu amaldiçoava o dia em que tinha aceitado fazer essa viagem, estava tão entediada que ela explodia em lágrimas. Os outros passageiros eram peças de museu e ao capitão lhe interessava mais a navegação do navio que paquerar com a jovem mais bela que estava a bordo. Vilu tinha provado seus encantos com vários membros da tripulação, alguns bastante atrativos a seu modo, mas Martha sempre estava perto para lhe estragar a diversão.

Vilu suspirou, apoiou o queixo nas mãos e olhou desconsolada por cima do corrimão. Se ao menos acontecesse alguma coisa, algo que aliviasse esse tédio extremo!

O sol fez brilhar um fio do vestido de brocado, azul como a cauda de um pavão, e Vilu ficou admirando, distraída. "Na realidade", pensou, "é um belo vestido", e alisou a manga admirando a elegância com que a cascata de rendas nos punhos lhe caía sobre as mãos. Era um de seus preferidos. O profundo azul esverdeado do tecido fazia que seus olhos parecessem escuros e misteriosos como o mar, e o corpete apertado acentuava a estreita cintura e o circulo dos peitos. Não era de estranhar que atraísse a atenção de quase todos os marinheiros atarefados no convés com diversas tarefas.

Impaciente, Vilu tamborilou o pé no piso do convés, e com o busto claramente a mostra ao inclinar-se sobre a murada, começou a se balançar de baixo para cima no ritmo das batidinhas dos seus pés. Um marinheiro loiro e robusto que estava enrolando uma corda perto dela interrompeu a tarefa e contemplou o espetáculo, encantado. Vilu o viu pela extremidade do olho e notou que ele mostrava um sorriso de satisfação. Sorriu-lhe, com provocadoras faíscas nos olhos castanhos e começou a falar. Mas antes que pudesse dizer uma palavra, uma mão roliça lhe puxou pelo braço.

— Vamos senhorita Violetta, não tem que falar com esses rudes marinheiros.

Silenciosa como um gato, Martha tinha aparecido atrás dela.

— Que dirá seu papai? Além disso, você mesma sabe que não tem nada a ver com eles. Você irá casar-se com um duque ou um conde rico, ou algo assim, quando chegarmos à Inglaterra.

— Oh, Martha, cale-se! — Repreendeu Vilu à senhora de cabelos cinza que a segurava pelo braço com tanta força. — Falarei com quem me der vontade. Além disso, só pensava em perguntar a este moço quanto tempo ainda faltava para chegar à Inglaterra.

— Falta ainda pelo menos uma semana, senhora — disse-lhe o marinheiro, sorrindo para Vilu e ignorando a testa franzida de Martha.

— Outra semana! — Vilu suspirou, piscando os cílios escuros com delicadeza. — Parece tanto tempo! As viagens por mar são tão chatas...! Queria que houvesse algo em que eu pudesse ocupar meu tempo.

Sorriu ao marinheiro, que por sua vez recompensou-a com um sorriso insolente.

— Vamos senhorita Violetta, deixe de falar assim! — Exclamou Martha, escandalizada pelo comportamento atrevido de sua pupila.

Segurou com firmeza o braço da moça e tentou afastá-la, mas Vilu resistiu indignada e, em seu desespero, Martha se voltou para o sorridente marinheiro.

— E você, marinheiro, porque não vai cuidar do seu serviço ao invés de ficar incomodando a jovens damas inocentes, ou conversarei com o capitão. Isso será o que farei!

O marinheiro lhe fez uma careta e abriu a boca para dizer o que sem dúvida, a julgamento de Vilu, seria uma resposta graciosa.

Infelizmente, um grito o interrompeu.

— Navio à vista! — Disse uma voz de homem, que veio de cima.

— Onde? — Perguntou ao mesmo tempo um coro de vozes.

— À altura da proa de bombordo! — Ecoou com força a resposta, imediatamente todos os que estavam no convés olharam à esquerda, através do mar aberto.

Vilu ficou nas pontas dos pés e forçou a vista para enxergar o outro navio que se aproximava. Não pôde ver mais que uma extensão interminável de água, só quebrada pelas marolas espumosas das ondas suaves. O horizonte brilhava pelo pôr do sol, tinha uma intensa cor laranja e Vilu se convenceu de que não havia nenhum navio à vista.

— Só pode ser um engano — disse para Martha, decepcionada.

— Não há nada. Vejo até o horizonte e não há absolutamente nada. — O marinheiro loiro se voltou para ela e lhe sorriu.

— É impossível que consiga enxergar alguma coisa, senhora, porque este navio está muito longe, mas se Dave o viu, então tem um navio lá. Está muito mais alto que nós e tem uma luneta, mas acredito que ele não nos alcançará até amanhã, se é que vem por aqui.

Aparentemente ele tinha razão. Vilu ficou no convés até muito depois que escureceu, com a esperança de ver o navio, mas não viu nada. Finalmente, o frio e a insistência de Martha a fizeram entrar no camarote. Ali se envolveu com uma manta e se enrolou tremendo sobre a cama, enquanto Martha preparava o banho. Sob o olhar desaprovador da anciã que jogava bastante sais de banho com fragrância de rosa, Vilu se afundou na banheira com satisfação, para tirar o frio com o banho

Enquanto ela tomava banho, Martha ia de um lado a outro do camarote, recolhendo a roupa que Vilu tinha deixado jogada tentando arrumá-la, sem deixar de resmungar em voz alta, repreendendo-a por seu atrevimento ao conversar com um simples marinheiro de uma forma tão familiar.

— Nós duas sabemos que só uma classe de mulher iria agir assim — disse Martha suspirando e acrescentou. — Sua pobre mãe se agitaria no túmulo se visse a filha comportar-se desse modo.

Diante da repreensão, Vilu sorriu apenas, fechou os olhos e se afundou na água. Os protestos de Martha não a preocupavam nem um pouco, já estava acostumada com eles. Ignorou os murmúrios indignados e concentrou seus pensamentos no que aconteceria no dia seguinte.

Queria ficar mais linda do que nunca. Neste dia ela gostou muito de conversar com o marinheiro ao ver a admiração nos olhos dele. No dia seguinte ela pretendia enfeitiçá-lo completamente. Talvez ela vestisse uma seda primorosa... ela adormeceu fazendo planos.

Com um vestido de seda amarelo claro e os cachos castanhos, Cathy competia com o sol da manhã seguinte. Assim que terminou sua rotina entre maquiagem e se vestir, apressou-se a sair para o convés para ver o outro navio e ao se aproximar do corrimão constatou que o navio já estava bem próximo.

Tinha uma bela aparência comparada com o navio simples em que elas viajavam. Com velas bem abertas no alto da proa da embarcação, gracioso como um pássaro enfrentava as ondas com facilidade. Vilu observava como encurtava a distância, compreendendo que se aproximava rapidamente com muita velocidade do seu navio Anna Creer.

— É... tão bonito! — Murmurou, quando o mesmo marinheiro loiro da noite anterior se aproximou dela.

— É mesmo muito bonito — disse o jovem. — Mas o capitão Hogg... Bom, não tem conhecimento de que esses sapos de brejos tenham um navio tão bonito como esse, eles navegam com bandeira francesa. Mas bem, parece-se com esses novos veleiros que navegam tão rapidamente, na Nova Inglaterra, e nas colônias. E para a segurança o capitão pediu que as damas se refugiassem nos camarotes até que estejamos todos seguros. Apenas no caso, você sabe?

Quando Violetta se voltou para olhá-lo, encolheu-se, incômodo.

— O que significa "apenas no caso"? Você acha que o capitão Hogg... está pensando? Não poderia ser... piratas! Poderia?

A voz da moça se elevou na última palavra e o marinheiro a olhou, desconfortável. Diante da possibilidade de um ataque pirata, o que menos precisavam era uma mulher histérica. Tragou saliva e se apressou

— Não, senhora, talvez não. O capitão só quer certificar-se... Por via das dúvidas... sabe? O mais provável é que seja um navio novo que não conhecemos. Mas até que tivermos certeza, seria conveniente que as senhoras ficassem fechadas no camarote.

Ele virou-se para a Martha, que acabava de subir ao convés e repetiu o aviso. Logo, em resposta a uma ordem do timoneiro, o marinheiro afastou-se depressa.

— Senhorita Violetta, temos que descer imediatamente! — Disse Martha, pegando o braço de Vilu e tratando de afastar à força da amurada.

— Martha, eu não vou a nenhum lugar, então me deixe! — Gritou tirando a mão de Martha decidida. — Quero estar no convés para ver o que acontece. Você sabe que nós duas vamos ficar loucas no camarote, sem saber o que acontece se for mesmo um navio pirata. Pode ser que haverá problemas e talvez não haja tempo suficiente para descer. — Martha sacudiu a cabeça, bem familiarizada com a teimosia de sua pupila, desistiu. "Sir German deveria ter feito algo a respeito dos caprichos de Violetta muito anos atrás", pensou! Agora parece querer que matem a nós duas, resmungou indignada Martha permanecendo ao lado de Violetta.

O navio estava muito perto quando Vilu finalmente conseguiu ler o nome, Margarida, pintado com letras negras através da proa. Tinha homens pequenos como formigas andando pelo convés. No tombadilho superior uma figura solitária e imóvel observava Anna Creer por uma. Sob o olhar de Vilu, a vela de seda que flutuava no mastro do Margarida baixou lentamente, em seu lugar levantaram a bandeira negra, que sem duvida, era o emblema que tinham descrito nos chás tranquilo da tarde. Quando ouvia falar da bandeira negra e o que ela significava, Vilu havia dito orgulhosamente que nunca temeria a nenhum pirata que, por outro lado, ficaria encantada em conhecer algum. Nesse instante, o terror era como uma faixa de ferro que apertava sua garganta, deixando a sufocada.

— Senhorita Violetta, são piratas! Piratas! Oh, que Jesus e todos os Santos nos amparem! O que faremos? — A mão de Martha, gelada de medo, apertava-lhe os pulsos. — Temos que descer senhorita Violetta! Aqui haverá luta!

— Espera um minuto, Martha. Tenho que ver... possivelmente não briguem.

Enquanto falava, rugiu um canhão, um projétil negro e redondo subiu no ar e caiu na água com um estrondo.

— Eles querem que nos rendemos! — Gritaram da torre de vigia.

— Nunca o farei que os peixes se sirvam até dos meus ossos! -Rugiu o capitão Hogg. — Se querem luta, eles o terão!

Desceu do tombadilho e se encaminhou furioso para o canhoneiro de proa, gritando ordens urgentes a seus homens.

— Em posição! Carregar esse canhão! Depois desta luta, esses canalhas lamentarão não haver ficado em casa, recolhendo sua colheita!

O capitão viu Vilu e Martha no convés, como se tivessem paralisadas, ele lançou uma maldição. Foi com passos rápidos até elas e as observou um instante, em silêncio. Quando falou, foi evidente o esforço que fazia para ser educado.

— Violetta Castillo, senhorita Martha, devem descer imediatamente! — De repente, perdeu o controle. — Maldição, aqui haverá uma batalha de verdade, com canhões e munição! Mulheres, pelo amor de Deus por acaso vocês tem noção do perigo? Podem descer e ficar em seu camarote com as portas fechadas! — Girou sobre os calcanhares, pois já não confiava em manter a calma. Martha puxou desesperadamente a mão de Vilu, ao mesmo tempo em que outro canhão ressoou do navio

— Senhorita Violetta, temos que descer! Já ouviu o capitão Hogg! E já começaram a disparar! Por favor, senhorita Violetta!

Martha estava apavorada e Vilu a entendeu, ela mesma estava morrendo de medo, deixou que a arrastasse pela portinhola aberta. Quando chegaram à entrada do camarote, os canhões dos dois navios soaram juntos. Vilu reprimiu um soluço. Séria um relato maravilhoso para contar em um salão londrino, adotou um ar modesto com respeito a sua própria valentia, mas... e se os piratas conseguissem capturar o navio? Iriam matar a todos nós, ou possivelmente algo pior...?

Ultimamente, a crueldade dos piratas em fazer os passageiros dos navios sofrerem era o tema preferido de conversas entre as damas da sociedade portuguesa. Elas estavam se referindo às mulheres que foram despidas e estupradas por um grupo inteiro de piratas. Se forem jovens e bonitas, os piratas as permitiam viver até que chegassem a um porto e as deixavam partir, ou as atiravam pela amurada, depois de se satisfazerem com elas. Quando ouvia esses relatos, Vilu sentia que um agradável estremecimento lhe percorria as costas, mas agora... podia acontecer a mesma coisa com ela! De repente, a perspectiva não lhe parecia muito emocionante... a não ser aterrorizante.

— Deus querido — orou. — Por favor, me ajude! Se me ajudar, serei a melhor. Embora não ganharei, é obvio — consolou-se. Pela primeira vez agradeceu ao pai por ter insistido em colocá-la a bordo de um navio militar como o navio Anna Creer. Sem dúvida seria impossível que essa tripulação de piratas capturasse um navio tão fortemente armado...

Martha, nervosa, entrou com Vilu no pequeno camarote que compartilhavam. Vilu o cruzou e se sentou sobre uma das camas, enquanto Martha se apressava passando o ferrolho e empilhando todos os móveis que podia contra a porta. Vilu riu a gargalhadas, era tão engraçado o espetáculo dos móveis amontoados contra a porta...! Martha a olhou com severidade.

— Senhorita Violetta, não ficará histérica comigo, verdade? Não há por que assustar-se. É impossível que esses demônios possam pôr um pé neste navio.

Enquanto Martha falava, o ruído de madeiras chocando-se a desmentiu, os piratas tratavam de abordar o navio! Ouviam gritos roucos e o golpear das espadas, ao mesmo tempo em que os piratas lançavam ganchos para prender sua presa e reunir em um só grupo a tripulação do Anna Creer. Um rugido de canhão sacudiu os dois navios e Vilu sentiu que o navio Anna Creer estava tentando fazer uma manobra quando uma bala de canhão estourava em suas costas. Em seguida veio um som como uma chuva sobre o telhado de zinco quando as lascas de metal caíram como granizo sobre o convés do Anna Creer.

Os gritos dos que estavam agonizando fizeram empalidecer a Vilu e Martha se apressou em tapar seus ouvidos com as mãos.

— Agora não escute meu tesouro. Não escute — embalando à aterrorizada moça entre seus braços.

O barulho da batalha que estava acontecendo em cima no convés estava forte. Vilu se desmanchou em lágrimas e se agarrou a Martha com desespero, ocultando a cabeça no amplo peito da mulher soluçando como se tivesse sete anos, em lugar de dezessete. Martha a estreitou com força e Vilu sentiu um imenso consolo pensando que, se estava com a babá, nada poderia lhe acontecer.

Parecia que a luta durava horas. Nos limites estreitos do camarote, Vilu e Martha perderam toda noção do tempo. Os gritos roucos do chocalho de armas as obrigaram a colocar as cabeças sob os travesseiros. Finalmente, de repente, fez-se silêncio.

Depois de um longo momento de agonia as duas mulheres se esforçaram para ouvir algo que lhes indicasse o resultado da batalha, Vilu levantou-se de um salto, abrindo e fechando os punhos. Tinha que saber, não suportava a incerteza. Começou a se encaminhar para a porta como uma sonâmbula, Martha cambaleou-se atrás dela e a segurou pela cintura, tratando de arrasta-la outra vez para a segurança da cama.

— Deixe-me ir! — Gritou Vilu. — Tenho que sair daqui! Não posso suportar mais! Por favor, deixe-me ir!

Tratou de soltar-se, mas Martha se agarrou a ela. Ouviram passos no corredor, fora do camarote. As duas se paralisaram, com os olhos e os ouvidos dirigidos para a porta. De ambas cabeças surgiu à mesma pergunta, quem ganhou a batalha, a tripulação de Anna Creer ou os piratas?

Alguém tentava abrir, fazendo girar a maçaneta.

Notas finais
Espero q gostem e comentem com 4 comentários posto outro.