O colégio Alvorada não era o meu lugar favorito, aliás, nenhum lugar era meu lugar favorito, pois minha vida é um tédio. Olá, meu nome é Renan Rocha e... Ah, a quem estou enganando, vocês não querem saber quem eu sou! Se eu fosse alguém de fora, não ia querer me conhecer!

Mas bem, minha vida é o que você chamaria de vida... Meh. Nunca fiz nada de grandioso, nunca fui o mais inteligente, mas também não era burro. Tudo o que eu fazia, era basicamente passar de ano na média. Amigos? Esquece, eu mudei tanto de escola que qualquer pessoa que eu conhecesse não lembraria de mim um mês depois de eu ir embora. Namoradas? Zero, ninguém nunca me interessou.

Uma vez meu pai chegou a me perguntar se eu era gay, eu neguei porque... Eu sei que gostava de mulheres, e mesmo na possibilidade de eu ser gay... Nenhum homem tinha me atraído. Pois é.

Já fazia um mês que eu estava no Colégio Alvorada, era meu último ano e eu já estava preparado pra mais um ano tedioso sem nada de interessante acontecer. Se bem que eu era pouco impressionável, então a não ser que um Tiranossauro Rex entrasse na escola atirando laser pelos olhos, poucas coisas tirariam meu tédio.

Estranhamente aquele dia começou diferente, meu despertador falhou, tive que tomar banho correndo e correr demais de casa pro ponto e do ponto próximo a escola pra escola.

Tiro meu celular pra ver a hora: 7:53 da manhã. Por pouco, felizmente o trânsito ajudou. Quando eu atravessava o pátio externo pra entrar na escola, eu checava minhas redes sociais, até que sinto meu corpo atingir o de alguém e pelo visto eu não era o único atrasado, já que a pessoa que trombara comigo vinha numa velocidade maior que a minha. A primeira coisa que notei ao receber o impacto, é que meu braço direito havia tocado quase que completamente numa superfície macia que eu não estava familiarizado. Ao menos não os de outra pessoa.

— Aaaaaaai! – Enquanto caio, escuto um grito feminino.

Quando volto a atenção pra quem havia caído, eu vejo alguém aparentemente não muito mais velha que eu no chão, ela usava uma calça jeans, uma jaqueta jeans azul e uma camisa preta.

— Ei, vê por onde anda! – A garota diz, numa voz zangada.

— Foi você quem trombou comigo! – Devolvo, um pouco irritado.

— Você, fique quieto e eu deixo passar que você meteu a mão nos meus seios. – Ela se levanta, virando as costas e vai embora, entrando no prédio da escola.

— Eu, hein, garota maluca. – Digo, me levantando, tirando a poeira da roupa. – E meu braço acertou acidentalmente os seios dela... E eram macios...

Rindo um pouco do absurdo da situação, eu entro no prédio do colégio, quase na hora da primeira aula. Sento na minha carteira na sala, próximo da janela, no meio da classe. A primeira aula de história é do professor Lineu, um cara tão velho que quando ele nasceu, provavelmente ainda estávamos no tempo do Brasil Império.

O tempo passa, são oito e dez, oito e quinze da manhã e nada do Lineu aparecer. Até que o diretor, um homem alto chamado Osvaldo entrara na sala. Ih, aparentemente o assunto é sério.

— Bom dia, turma 3001. – Ele se dirige a turma, com um tom sério. – O professor Lineu Souza adoeceu nesse fim de semana e pediu o afastamento do cargo de professor de história. Mas, não se preocupem, temos uma substituta para o cargo dele. Espero que vocês se dêem bem com a professora Kasumi Oyokawa.

Como se estivesse em câmera lenta, uma mulher entra na sala, ela usava uma calça jeans e uma blusa branca simples, seus cabelos castanhos eram compridos até um palmo antes da cintura, os olhos eram puxados, mas percebia-se que a cor era a mesma de seu cabelo, um castanho claro. Considerando que ela era japonesa (ou descendente de japoneses), seus seios eram bem avantajados, perceptíveis mesmo naquela blusa comum. Os lábios estavam com um sorriso angelical... Que se alterou assim que me viu.

E eu arregalei os olhos, reconhecendo-a. Era a garota que tinha me derrubado no pátio.

— É... – Ela aponta pra mim. – É o desastrado tarado!

— É a desembestada apressada! – Exclamo, já que os olhares de todo mundo, incluindo o diretor se dirigem a mim quando ela aponta.

— Professora Kasumi... Queira explicar a situação, se não for incômodo? – O diretor está confuso.

— É, professora... Explique. – Digo, me levantando. Meu tom de voz era irritado.

— Bem... – Ela começou a ficar um pouco envergonhada e sinceramente, fiquei um pouco mal por ela. E olhando bem, ela era bem bonita. Não fazia aquele clichê japonesa com poucos peitos, e nem chegava a ser o mulherão, pois o rosto angelical meio que contrastava com os seios fartos.

— Diretor... – Eu levanto a mão. – Eu estava um pouco atrasado pra aula, e distraído com o celular acabei derrubando a professora Oyokawa. Só que tanto eu, quanto ela estávamos tão atrasados que não deu pra pedir desculpas, coisa que faço agora. Sinto muito se causei inconveniente, professora.

— Entendo, mas e as acusações? – O diretor pergunta.

— Foi apenas um mal entendido, diretor. – A professora Kasumi diz, com um misto de surpresa e vergonha na voz. – Ambos estávamos atrasados e no calor do momento, interpretamos mal as intenções.

O diretor aquiesce e sai da sala, enquanto que eu sento e a professora vai para seu lugar. Ela escreve seu nome em japonês (及川 霞) e na versão romanizada, Kasumi Oyokawa.

— Bom dia classe, me chamo Kasumi Oyokawa e em substituição ao professor Lineu, serei sua professora de história. – Ela se apresenta, com um sorriso.

Olho pros alunos da sala, muitos deles a fitam com o olhar maravilhado, inclusive garotas, das quais algumas eu tenho certeza de que são hétero.

— Como vocês perderam vinte minutos por conta do meu atraso, – Ela diz, num tom sério. – Vamos dedicar os trinta minutos restantes do primeiro tempo a nos conhecermos.

Nisso, a professora passa a fazer perguntas ao resto da turma e vice versa, a verdade é que a criatividade dos nossos estudantes não era lá muito grande e poucas perguntas são feitas a professora, nenhuma comprometedora ou arriscada. E todos eles tem aqueles sonhos perfeitamente normais, como fazer uma faculdade de direito, administração ou medicina. Com o tanto de pessoas que querem fazer essas faculdades, me pergunto se o futuro do país estará na mão de um bando de fracassados.

— E você? – A professora chama a minha atenção, eu estava distraído olhando pro ontem.

— Oi? – Volto ao mundo real meio atrapalhado e vejo que a professora fazia as perguntas andando pela sala, logo ela está em frente a minha carteira.

Jesus do céu, como essa mulher cheira bem. Eu não tinha reparado nisso quando trombei nela mais cedo, nem como a pele dela parece lisinha ou os lábios possuem um brilho incomum. Sinto um calor esquisito em mim, enquanto olho ela de baixo a cima.

— Você não se apresentou. – Kasumi diz, com um sorriso impaciente.

— Ah, desculpe. – Engulo em seco, tentando encarar ela diretamente e não conseguindo. O que estava acontecendo comigo? – Meu nome é Renan Rocha, eu tenho dezoito anos e nas minhas horas vagas eu não gosto de fazer nada. Em relação a depois da escola, eu não tenho a menor perspectiva pro futuro.

Isso parece chocar um pouco a professora, que arregala um pouco os olhos com a minha resposta. E pessoalmente, aquilo foi o máximo de interação que eu já tivera com um professor. Ela podia se considerar sortuda.

— Isso é sério? – Ela pergunta, meio assustada. – Nenhuma perspectiva? – Aceno positivamente com a cabeça.

— E você, professora... – Penso, analisando as perguntas idiotas feitas por meus colegas de classe. Se bem que chamar eles de colegas era pedir demais. Conhecia eles fazia um mês e não sabia os nomes da maioria, no máximo Idiota #21 e Garota #10 – Você é comprometida?

Eita, agora parece que toquei num nervo importante, porque ela novamente arregalou um pouco os olhos, mesmo que por meio instante... Mas por quê eu queria saber disso?

— Pergunta interessante... – A voz dela treme um pouco, enquanto ela anda pela classe, antes de responder. O sinal pro segundo tempo vai bater, e logo ela começará a lecionar de fato. Não sei porque, mas parece que a cada segundo que ela não responde, meu coração bate no compasso do relógio. – Bem, eu não estou comprometida.

Minha vontade naquele momento era de me levantar e sair erguendo os braços apontando os indicadores pra cima gritando "Yes! Yes! Yes!" pelos corredores da escola. E como uma pessoa pode fazer isso comigo?

O resto da aula passa como um borrão, no qual ela explica alguma coisa sobre a matéria dada, mas sem entrar em muitos detalhes porque ela provavelmente não teve tempo de pegar as anotações do professor Lineu, então ela fala um pouco sobre a Primeira Guerra Mundial e a República Oligárquica no Brasil, também explicando por alto sobre a Greve Geral de 1917 no Brasil.

A verdade é que o tempo todo eu passara admirando o magnífico par de seios dela e a maneira com que seus lábios se mexem conforme ela fala. Curiosamente, apesar do nome completamente japonês, ela não possui o típico sotaque de quem nasceu lá, mas sim um leve sotaque paulista, que pode indicar que ela de fato nasceu em São Paulo, ou ao menos foi criada lá.

Mal percebo o tempo passar, até que o sinal toca, avisando do fim da aula de história, e agora teríamos dois períodos de educação física. Quando a turma está saindo com a mochila pra ir até o vestiário, a professora acena pra mim, indicando que quer falar comigo.

Depois que todo mundo sai, estamos nós dois sozinhos na sala de aula e sinceramente, algo dentro de mim começa a bater fortemente.

— É... – Kasumi se dirige a mim, tentando lembrar meu nome. – Renan, não é?

— Sim. – Tento evitar sorrir com o fato de que ela lembrou meu nome (considerando que somos quarenta e cinco alunos).

— Olha... – O tom dela é meio inseguro. – Obrigado por ter mentido pro diretor em relação ao nosso pequeno incidente hoje de manhã. Eu estava extremamente atrasada, esse é meu primeiro dia como professora num geral, só que não moro há muito tempo na cidade e acabei me atrapalhando um pouco. Eu sinto muito por ter descontado aquilo em você.

— ... – Sério que ela tava se desculpando? Mas o mais importante, ela estava me agradecendo.

— Aliás, o seu telefone se danificou? – Ela pergunta, porque na trombada que demos, meu telefone caíra no chão.

— Não, dano zero. – Mostro meu telefone quase intacto. – Eu também tenho minha parcela de culpa na situação. Eu podia estar tão atrasado quanto você, mas andar mexendo no telefone sem olhar pra frente foi muito escroto da minha parte. Se eu tivesse prestado atenção na minha frente, eu poderia ter evitado que nós dois caíssemos e eu acabasse metendo o braço nos seus peitos, ainda que sem querer. Foi mal mesmo.

— Tudo bem... – Ela cora um pouco, lembrando da situação, e eu não deixo de notar que o rosto dela é lindo. – Acho que nós dois fomos um pouco juvenis a respeito disso.

— Nunca esperaria isso... – Dou uma risada. No que a professora Kasumi ergue as sobrancelhas, concluo. – Nunca esperaria ver uma professora usando o termo juvenil.

— Hum, é mesmo? – Ela dá um sorriso brincalhão. – Só porque sou sua professora, não significa que sou uma velha. Não devo ser muito mais velha que a maioria de vocês. Mas, chega de papo, porque você tem uma aula pra ir e eu tenho outra aula pra dar.

Eu saio da sala rindo, o que é incomum pra mim e com um misto de sentimentos. Alguma coisa, alguma coisa naquela professora mexera profundamente comigo, não eu somente tinha mais vontade de falar e interagir com outros seres humanos, mas tudo em Kasumi Oyokawa me chamava. Era como se antes dela surgir na sala de aula, eu não existisse e agora eu pulsava com vida.

Eu queria saber mais e mais sobre aquela mulher e de alguma maneira, eu desejava intensamente ter voltado no tempo pra ter vivido de maneira diferente, um pouco mais presente na vida, feito mais, conhecido mais, desejado mais, pra ter algo que compartilhar com ela. Eu queria ter vivido pra poder contar, eu fiz isso, eu quero aquilo pra minha vida.

Mas quem sabe talvez, apenas talvez, o fato dela ter aparecido agora seja um indício de que o jogo ainda não acabou e eu possa ter algo ao meu alcance no futuro? Só espero que essa sensação, esse momento, esse sentimento, não seja algo passageiro e que Kasumi Oyokawa realmente traga algo que pode mudar a minha vida, porque do momento que eu saí da sala de aula, até eu me trocar no vestiário do colégio, eu não parei de pensar nela um minuto sequer.